Botryosphaeria
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O género Botryosphaeria (cuja espécie tipo é a Botryosphaeria dothidea) compreende um grupo de fungos ascomicetes pertencentes à família Botryosphaeriaceae com um impacto económico e ecológico devastador na agricultura e silvicultura mundiais, atuando como um dos mais proeminentes agentes patogénicos de plantas lenhosas. A característica mais complexa e temível deste organismo reside na sua natureza endofítica e latente, o que significa que o fungo é capaz de colonizar os tecidos internos do hospedeiro — nomeadamente o xilema e o córtex — e aí residir de forma assintomática durante meses ou anos, coexistindo pacificamente com a planta até que esta seja submetida a fatores de stress fisiológico. O stress hídrico provocado por secas prolongadas, as flutuações térmicas extremas associadas às alterações climáticas, as carências nutricionais ou a ocorrência de feridas mecânicas (resultantes da poda, granizo ou passagem de maquinaria) servem de gatilho para que o fungo transite subitamente de uma fase endofítica inofensiva para um estado necrotrófico altamente agressivo. Uma vez ativado, o patógeno mobiliza um vasto arsenal genómico composto por enzimas ativas em carboidratos (CAZymes) e peptidases que degradam eficientemente a lenhina e a celulose, obstruindo os vasos condutores, interrompendo o fluxo de seiva e culminando no aparecimento de sintomas severos como cancros corticais, podridão de frutos e a morte regressiva dos ramos (dieback). Com um espetro de hospedeiros extremamente amplo, a Botryosphaeria afeta severamente culturas vitais na bacia do Mediterrâneo e globalmente, destacando-se a videira (onde integra o complexo das doenças do lenho da videira, provocando o declínio conhecido como «braço negro morto»), a oliveira, o sobreiro, o eucalipto e diversas fruteiras de pevide e de casca rija, como a amendoeira e o pistácio. Devido à grande semelhança macroscópica entre as espécies desta família, a identificação taxonómica moderna abandonou a descrição puramente morfológica das suas formas sexuais e das suas formas assexuadas (anamorfos, historicamente associados ao género Fusicoccum), assentando hoje em análises filogenéticas multiloculares através da sequenciação de genes marcadores como o ITS, a β-tubulina (tub2) e o fator de elongação da tradução 1-alpha (tef1). O controlo destas patologias é extraordinariamente complexo devido à localização interna do fungo, exigindo uma estratégia de gestão integrada que combina a aplicação imediata de fungicidas de síntese ou pastas cirúrgicas para a proteção das feridas de poda, o recurso à luta biológica com micro-organismos antagonistas (como o Trichoderma spp. ou o Bacillus spp.) para colonizar preventivamente os cortes, o uso de material de propagação certificado e, fundamentalmente, a otimização da rega e nutrição para mitigar o stress do hospedeiro e robustecer o seu sistema imunitário natural.