
Bugreiro foi a denominação dada aos mercenários e milicianos contratados por governos provinciais, companhias de colonização e proprietários de terras no Sul do Brasil, entre o século XIX e o início do século XX, com o objetivo de exterminar ou expulsar populações indígenas para liberar terras para a colonização europeia. Bugreiro era o indivíduo contratado pelos governos imperiais das províncias do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, com a função de atacar e exterminar indígenas. O termo se origina da palavra bugre, como eram chamados pejorativamente os indígenas do sul do Brasil pela população não-indígena.
Os bugreiros realizavam ataques-surpresa, destruindo aldeias, com poucas chances de resistência aos indígenas. As tropas de bugreiros compunham-se por 8 a 15 homens, maioria caboclos, conhecedores profundos da vida do sertão e geralmente aparentados entre si, que atuavam sob a ação de um líder com pleno poder de decisão. Os grupos também prestavam serviços de proteção a viajantes, tropeiros e agrimensores quando necessitavam atravessar ou permanecer em territórios onde a presença indígena era frequente.
As operações dos bugreiros para expedições de afugentamento de indígenas se assemelhavam a operações bélicas, como pode ser verificado no texto abaixo:
“Infinitas precauções tomam, pois é preciso surpreender os índios nos seus ranchos quando entregues ao sono. Não levam cães. Seguem a picado dos índios, descobrem os ranchos e, sem conversarem, sem fumarem, aguardam a hora propícia. É quando o dia está para nascer que dão o assalto. O primeiro cuidado é cortar as cordas dos arcos. Depois praticam o morticínio. Compreende-se que os índios acordados a tiros e a facão nem procuram defender-se, e toda heroicidade dos assaltantes consiste em cortar carne inerme de homens acobardados pela surpresa.
A atuação desses agentes concentrou-se principalmente nos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Eles visavam sobretudo as etnias Xokleng (então chamados pejorativamente de Botocudos) e Kaingang. O termo deriva de "bugre", um epíteto histórico utilizado para desumanizar os povos nativos.
A partir de meados do século XIX, o Império do Brasil (e posteriormente a República) intensificou a política de atração de imigrantes europeus (principalmente alemães e italianos) para povoar o Sul do país.
As terras distribuídas ou vendidas a esses colonos pelas companhias de colonização privada eram descritas oficialmente como "vazios demográficos". Na realidade, eram territórios tradicionais de caça, coleta e trânsito de povos indígenas. À medida que as florestas eram derrubadas para a abertura de estradas e ferrovias, os conflitos entre os nativos (que defendiam seu território) e os colonos intensificaram-se.
Para proteger os núcleos coloniais e garantir a expansão territorial sem o uso do exército oficial, o Estado e as empresas privadas passaram a financiar os bugreiros.
Os bugreiros operavam em pequenos bandos armados, compostos por homens rudes e profundos conhecedores das matas. As expedições eram planejadas minuciosamente e baseavam-se no fator surpresa.
O mais notório e documentado desses mercenários foi Martín Eduardo Bugreiro (nascido Martinho Marcelino de Jesus). Operando principalmente no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, Martín tornou-se uma figura temida e mítica. Chegou a receber a patente de capitão honorário e era visto por parte da sociedade colonial da época como um "herói" que protegia o progresso e a civilização contra a "barbárie". Seus massacres eram frequentemente celebrados e até noticiados na imprensa local da época como ações de pacificação.
A atividade dos bugreiros começou a declinar na década de 1910, impulsionada por fatores internos e pressões internacionais:
A historiografia moderna e a antropologia brasileira classificam a atuação dos bugreiros como uma política de etnocídio e genocídio sistemático financiada pelo capital privado e tolerada pelo Estado.