Vazamento de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos

O vazamento de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos teve início no final de novembro de 2010 quando o site WikiLeaks e cinco grandes jornais publicaram uma quantidade de documentos oficiais que detalhavam correspondências entre o Departamento de Estado dos Estados Unidos e embaixadas estadunidenses ao redor do mundo. O vazamento dos telegramas é o terceiro em uma série de conjuntos de documentos sigilosos publicados pelo WikiLeaks, precedido pelo vazamento de documentos da Guerra no Afeganistão (em julho) e pelo vazamento de documentos da Guerra do Iraque (em outubro).

Os primeiros 200 de 251.287 documentos foram publicados em 28 de novembro através do WikiLeaks, do espanhol El País, do alemão Der Spiegel, do francês Le Monde, do britânico The Guardian e do estadunidense The New York Times. Cerca de 130 mil documentos não são sigilosos e nenhum é "top secret"; cerca de 100 mil são "confidenciais" e 15 mil são do mais alto nível "secreto". O vazamento inicial focava-se nas relações diplomáticas dos Estados Unidos e países do Oriente Médio. Os planos do WikiLeaks são de divulgar todos os telegramas em lotes no decorrer de vários meses.

Reações

As reações ao vazamento foram, de certa forma, uniformes: a maioria dos governos ocidentais expressou condenação. Analistas da mídia demonstraram interesse pelo conteúdo e defenderam o WikiLeaks das críticas. Em resposta ao vazamento, o Secretário de Imprensa da Casa Branca Robert Gibbs disse que "um governo transparente é algo que o Presidente acredita ser importante, mas o roubo e divulgação de informação secreta é um crime."

Em Londres, o porta-voz do WikiLeaks, Kristin Hrafnsson, ex-jornalista televisivo da Islândia, negou que o vazamento de documentos secretos seja uma violação da lei. "Estamos fazendo isso pelo bem do público (...). Não acho que tenhamos violado lei alguma", disse ele, acrescentando que a transparência é a base de qualquer democracia saudável. "Um mundo sem segredos é um mundo melhor", afirmou Hrafnsson.

O governo alemão, porém, já planeja criar uma nova lei de controle da Internet, prevendo multas de vários milhares de euros para punir a divulgação de informações não liberadas. A ministra da justiça, Sabine Leutheusser-Schanarrenberger, lembrou que um controle maior da Internet só seria possível com uma cooperação internacional.

Em 9 de dezembro, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu publicamente Julian Assange num discurso em defesa da liberdade de expressão.

Represálias e ameaças

Desde o dia 28 de novembro, quando começou o vazamento dos documentos diplomáticos, o WikiLeaks tem sido alvo de ataques sistemáticos, o que obrigou o site a trocar o servidor sueco, Bahnhof, pelos servidores da Amazon.com. Entretanto, por pressão de congressistas americanos, a Amazon acabou por "expulsar" WikiLeaks, o que resultou na interrupção do acesso ao site, por várias horas, no dia 1º de dezembro, até que este voltou a se hospedar no servidor sueco. Pelo Twitter, WikiLeaks sugeriu que "se a Amazon está tão incomodada com a Primeira Emenda, deveria deixar o negócio de venda de livros".

No dia 30 de novembro, a Interpol, a pedido da Justiça sueca, enviou a 188 países, uma "notificação vermelha" para descobrir o paradeiro de Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, visando a sua extradição. Assange, processado por violência sexual na Suécia, refugiou-se no sudoeste da Inglaterra e estaria recebendo ameaças de morte.

História

Aquisição dos telegramas

Foi divulgado em junho que o Departamento de Estado e funcionários de embaixadas dos EUA estavam preocupados que Bradley Manning, que havia sido processado por divulgação de documentos sigilosos enquanto estava no Iraque, pudesse ter tido acesso a telegramas diplomáticos. A reportagem da Wired foi rejeitada como sendo inverossímil pelo próprio WikiLeaks. Manning estava sob suspeita de ter enviado tudo o que havia conseguido para o WikiLeaks, que havia decidido publicar o material aos poucos, para obter o maior impacto possível.

Anúncio

Em 22 de novembro, um anúncio feito pelo WikiLeaks via Twitter dizia que a próxima publicação teria 7 vezes o tamanho dos recém-publicados relatórios de guerra do Iraque. Autoridades estadunidenses e a mídia especularam, na época, que eles poderiam conter telegramas diplomáticos. Antes do vazamento, o governo da Grã-Bretanha havia enviado um aviso aos jornais britânicos, alertando-os de que não os publicassem.

O The Guardian depois revelou ter sido a fonte da cópia dos documentos enviada ao The New York Times, de forma a prevenir a total censura dos documentos.

Em 9 de dezembro os maiores jornais paquistaneses — como o The News International, o The Express Tribune e o Daily Jang — divulgaram que certos telegramas de diplomatas estadunidenses possuíam conteúdo agressivo acerca do governo indiano. Mais tarde, admitiu-se que a história "era dúbia e poderia ter sido inventada", e alguns jornais pediram desculpas aos seus leitores. De fato, nenhum conteúdo agressivo ao governo da Índia apareceu entre os telegramas publicados.

Em 26 de novembro, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, enviou uma carta ao Departamento de Estado dos EUA através de sua advogada, Jennifer Robinson, convidando-os para, de forma privada, identificar possíveis documentos cuja publicação poderia colocar vidas em risco. Harold Koh, conselheiro legal do Departamento, rejeitou a proposta dizendo que não negociaria documentos obtidos ilegalmente. Assange respondeu que, assim sendo, os riscos não pareciam ser tão grandes, e que eles estariam, desta forma, mais preocupados em encobrir os abusos cometidos por eles próprios.

Conteúdo por região

As informações nos telegramas divulgados pelo WikiLeaks em 28 de novembro de 2010 e dias subsequentes incluem as seguintes:

Afeganistão

Brasil

China

Ver também

Referências

  1. ↑ 1,796 memos from US embassy in Manila in WikiLeaks 'Cablegate'. ABS CBN News. 29-11-2010.
  2. ↑ Leaked Cables Offer Raw Look at U.S. Diplomacy. The New York Times. 28-11-2010.
  3. ↑ Australia on Wikileaks 'cablegate'. News.com.au. 29-11-2010.
  4. ↑ Press Briefing by Press Secretary Robert Gibbs. Página oficial da Casa Branca. 29-11-2010.
  5. 1 2 EUA apertam cerco contra WikiLeaks e seu fundador. Terra, 1-12-2010.
  6. ↑ Correspondentes e colaboradores comentam a repercussão do vazamento do WikiLeaks pelo mundo. O Globo. 1-12-2010.
  7. ↑ Lula defende WikiLeaks: 'quem divulga não é culpado'. Globo G1. 9-12-2010.
  8. ↑ Amazon expulsa WikiLeaks de seus servidores. iG. 1-12-2010.
  9. ↑ A Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos defende a liberdade de expressão, de imprensa e de religião, bem como o direito à reunião.
  10. ↑ Alerta da Interpol é 'incomum', diz advogado de Julian Assange. iG. 1-12-2010.
  11. ↑ Fundador do WikiLeaks está escondido no R.Unido, diz jornal. Terra. 2-12-2010.
  12. ↑ State Department Anxious About Possible Leak of Cables to Wikileaks. Wired. 8-6-2010.
  13. ↑ WikiLeaks promises leak "seven times bigger than Iraq". Arquivado em 21 de dezembro de 2010, no Wayback Machine. TechEye, 22-11-2010.
  14. ↑ WikiLeaks fake cables – Pakistani newspapers admit they were hoaxed. Guardian. 10-12-2010.
  15. ↑ Letters between Wikileaks and the U.S. Government. The New York Times. 28-11-2010.
  16. ↑ Wikileaks: US allies unruffled by embassy cable leaks. CNN. 29-11-2010.
  17. ↑ Documentos confidenciais revelam que, para EUA, Itamaraty é adversário. Folha de S.Paulo. 30-11-2010.
  18. ↑ WikiLeaks: Brazil tried to distance itself from U.S. war on terror. CNN. 30-11-2010.
  19. ↑ Brazil - Em segredo, Brasil monitora e prende suspeitos de terrorismo. Wikileaks. 29-11-2010.
  20. ↑ Brazil - Clinton pediu informações pessoais sobre integrantes do governo. WikiLeaks. 10-12-2010.
  21. ↑ Brazil - O presidente e o embaixador. Wikileaks. 08-12-2010.
  22. ↑ Brazil - EUA tentaram usar Saito e Jobim para venda dos caças. Wikileaks. 05-12-2010.
  23. ↑ Brazil - Félix : Brasil tem que se acostumar "com sacos de corpos" voltando da guerra. Wikileaks. 15-12-2010.
  24. ↑ Brazil - Em telegrama, embaixador é favorável à redução de reserva legal. Wikileaks.
  25. ↑ Cable from the American Embassy in Brasília. Folha de S.Paulo. 30-11-2010.
  26. ↑ Em documentos vazados, EUA criticam plano de defesa brasileiro. G1. 1-12-2010.
  27. 1 2 Em documento, EUA demonstram preocupação com segurança na Copa. G1. 1-12-2010.
  28. ↑ Para Estados Unidos, Dilma planejou assaltos durante a ditadura. Folha. 10-12-2010.
  29. ↑ WikiLeaks: para EUA, Dilma planejou assaltos durante a ditadura. Terra. 10-12-2010.
  30. ↑ http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/estado-de-minas/2010/12/13/arquivos-secretos-eua-acreditam-que-brasilia-e
  31. ↑ Entenda por que o Brasil é importante para a segurança dos EUA. R7. 11-12-2010.
  32. ↑ Wikileaks release 'shows China thinking on Korea'. BBC. 30-11-2010.
  33. ↑ Saudi king urged U.S. to attack Iran: WikiLeaks. Reuters. 28-11-2010.

Ligações externas