Cudaaítas

Os cudaaítas (em árabe: قضاعة; romaniz.: Quḍāʿa) eram uma confederação de tribos árabes, entre as quais se destacavam os poderosos calbitas e tanuquitas, concentradas principalmente na Síria e no noroeste da Arábia desde, pelo menos, o século IV, durante o domínio do Império Bizantino, até o século XII, já no período islâmico. Sob os primeiros califas do Califado Omíada, sediado no Bilade Axame (661–750), os cudaaítas ocuparam posição privilegiada na administração e nas forças militares. Durante a Segunda Guerra Civil Islâmica (683–692), aliaram-se às tribos da Arábia do Sul e a outros grupos sírios, formando a facção dos iamanitas, em oposição à confederação dos caicitas. A rivalidade entre ambas as facções pelo poder e pela influência política perdurou muito além da queda do Califado Omíada. No contexto dessa aliança, os líderes cudaaítas passaram a reivindicar ascendência genealógica a partir de Himiar, abandonando a tradicional filiação ao ancestral norte-árabe Maade. Essa mudança deu origem a uma controvérsia que se prolongou por séculos entre os genealogistas e estudiosos muçulmanos dos primeiros tempos do islã.

Origens genealógicas

As tradições genealógicas árabes dividiam, em linhas gerais, as tribos entre aquelas de ascendência norte-arábica e as de ascendência sul-arábica. A origem ancestral dos cudaaítas, contudo, permaneceu objeto de controvérsia desde os primeiros séculos do islã, sendo contraditórias as informações preservadas pelos genealogistas antigos. Nas tradições pré-islâmicas e dos primeiros séculos islâmicos, os cudaaítas eram geralmente considerados parte das tribos de Maade. Essa confederação já é atestada no deserto da Síria desde, pelo menos, o século IV. Uma de suas principais tribos, os calbitas, encontrava-se estabelecida na Síria muito antes da conquista islâmica da região na década de 630. Em razão dessa longa presença, a historiadora Patricia Crone considera inútil especular sobre a região de origem dos cudaaítas antes de sua fixação na Síria. Os cudaaítas, assim como os quindaítas, ocuparam posição privilegiada durante o governo de Moáuia I sobre o Bilade Axame (639–661) e, posteriormente, durante seu califado (r. 661–680), constituindo um dos principais sustentáculos militares do regime omíada. A aliança foi reforçada pelo casamento de Moáuia com Maiçune binte Badal, pertencente à principal família dos calbitas. Os nobres cudaaítas passaram a receber estipêndios anuais hereditários e adquiriram o direito de serem consultados pelo califa, bem como de vetar determinadas decisões. Esses privilégios foram mantidos durante o reinado de Iázide I (r. 680–683), filho de Moáuia e Maiçune.

Tentativas de vinculação a Himiar

Segundo diversas fontes islâmicas antigas, o primeiro personagem a reivindicar para os cudaaítas uma ascendência sul-arábica, por meio de Himiar, foi Anre ibne Murra, da tribo dos juainaítas, outro importante ramo da confederação cudaaíta. Após a conquista do Egito, Anre exortou seus companheiros de tribo a unirem-se às tribos iamanitas, ou seja, de origem sul-arábica. Segundo tradições atribuídas a Issa ibne Tala Ataimi e ao cádi egípcio Ibne Laia, Anre afirmava ter ouvido de Maomé que os cudaaítas descendiam de Himiar. Conforme a versão preservada por cada fonte, essa reivindicação recebeu o apoio de Moáuia ou, ao contrário, foi desaprovada pelo califa. O genealogista do século VIII Azobair ibne Bacar afirma que, quando Moáuia ordenou o levantamento das genealogias das tropas árabes estabelecidas no Egito, Anre declarou oficialmente a descendência himiarita dos cudaaítas. Segundo Ibne Laia, essa posição foi apoiada por Uqueba ibne Amir, companheiro de Maomé pertencente aos juainaítas e estreito colaborador de Moáuia.

O historiador Wilferd Madelung considera verossímeis as tradições relativas à atuação de Anre ibne Murra, atribuindo essas tentativas de vincular os cudaaítas a Himiar ao governo de Moáuia. Em sua interpretação, essa estratégia oferecia vantagens políticas, pois os himiaritas constituíam parcela expressiva das tropas árabes no Egito, e Moáuia esperava ampliar indiretamente sua aliança matrimonial com os calbitas mediante a aproximação genealógica entre estes e Himiar. Apesar disso, durante o califado de Moáuia, nem os próprios himiaritas nem os calbitas sírios reconheceram a reivindicada ascendência comum. Crone, por sua vez, considera essas tradições extremamente duvidosas. Além de questionar a biografia atribuída a Anre ibne Murra — descrito como idoso ainda na época de Maomé, mas supostamente vivo durante o califado de Moáuia —, sustenta que sua figura foi utilizada pelas fontes antigas principalmente para legitimar a origem himiarita dos cudaaítas. A historiadora observa ainda que o interesse dos cudaaítas por essa genealogia somente se tornou evidente após a morte de Moáuia, em 680.

As ligações entre os cudaaítas e as tribos sul-arábicas também se refletiram na reorganização de Cufa, um dos principais acampamentos militares árabes do Iraque, realizada pelo governador de Moáuia em 671. As tropas foram distribuídas em sete divisões de acordo com sua origem tribal. Os contingentes cudaaítas passaram a integrar a sétima divisão, juntamente com os azeditas de Sarate, hadramautitas, quindaítas, bajilaítas e catamitas, indicando que então se recordava uma origem sul-arábica para a confederação. Entretanto, como os cudaaítas não foram agrupados na mesma divisão que os próprios himiaritas, Crone considera incerta a relevância dessa reorganização como evidência de sua filiação genealógica.

Consolidação da união entre cudaaítas e himiaritas

Durante o período sufiânida do Califado Omíada (661–684), correspondente aos reinados de Moáuia I (r. 661–680), Iázide I (r. 680–683) e Moáuia II, a posição privilegiada desfrutada pelos cudaaítas no Estado omíada despertou o descontentamento das demais confederações tribais estabelecidas na Síria. Na época, existiam três grandes agrupamentos tribais na região. Os cudaaítas predominavam nos jundes da Jordânia, de Damasco e de Hómece, onde mantinham alianças com os gassânidas e os quindaítas. Os caicitas, de origem norte-arábica e recém-chegados à Síria, concentravam-se sobretudo no Junde de Quinacerim, onde a influência cudaaíta era praticamente inexistente. O terceiro agrupamento era formado pelos catanitas, reunindo os himiaritas, os hamedanitas, os ançares de Hómece e outras tribos sul-arábicas estabelecidas na região após a conquista islâmica.

Segundo Patricia Crone, as tribos que não pertenciam aos cudaaítas acabaram obrigadas a definir-se entre apoiar ou opor-se à confederação dominante, razão pela qual o período sufiânida foi marcado por intensos debates acerca de possíveis realinhamentos genealógicos. Essas discussões envolveram especialmente as tribos consideradas "irmãs" dos cudaaítas — judamitas, lacmitas, amilaítas e quindaítas. Nessa época, os cudaaítas da Síria ainda reivindicavam descendência de Maade e apoiaram os esforços do chefe judamita Rau ibne Zimba para convencer sua tribo e seus aliados a aceitarem uma genealogia derivada da tribo maadita dos açaditas. Essa iniciativa encontrou oposição da maior parte dos judamitas, liderados por Natil ibne Caice, que preferiu vincular sua tribo a Catã, em aliança com as tribos sul-arábicas estabelecidas em Hómece.

A morte de Iázide durante a Segunda Guerra Civil Islâmica, em 683, seguida poucas semanas depois pela de seu sucessor Moáuia II, provocou o colapso do poder omíada em grande parte do califado, favorecendo o reconhecimento de Abedalá ibne Azobair como califa. Enquanto os cudaaítas procuravam preservar a dinastia omíada e, consequentemente, seus privilégios políticos, seus adversários tribais na Síria — entre eles os catanitas, os caicitas e os judamitas — apoiaram Ibne Azobair e seu aliado em Damasco, Adaaque ibne Caice Alfiri, assumindo o controle de todos os distritos sírios, exceto o Junde da Jordânia. Em resposta, os cudaaítas e seus aliados, entre eles os gassânidas, os quindaítas, os aquitas e os axaritas, proclamaram Maruane I, pertencente a outro ramo dos omíadas, como califa e derrotaram o exército muito mais numeroso de Adaaque na Batalha de Marje Raite, em 684. Embora o domínio omíada tenha sido rapidamente restaurado na Síria, os caicitas iniciaram uma série de incursões contra os calbitas para vingar a derrota em Marje Raite. Segundo os genealogistas calbitas do século VIII Nácer ibne Masru e Axarqui ibne Alcutami, foi nesse contexto de ataques e represálias que os cudaaítas passaram oficialmente a reivindicar ascendência himiarita como parte de sua aliança com as tribos iamanitas. Com isso, a antiga confederação de Maade desapareceu na Síria, sendo suas tribos incorporadas ao agrupamento de Catã, isto é, aos iamanitas.

A cronologia dessa mudança permanece objeto de debate. Khalid Yahya Blankinship situa a união entre cudaaítas e iamanitas por volta de 685, enquanto Werner Caskel a considera um processo da década de 690. Segundo as fontes, o príncipe Calide ibne Iázide, inicialmente designado sucessor de Maruane I antes de ser preterido em favor de Abalmaleque ibne Maruane, estimulou iniciativas destinadas a enfraquecer o apoio tribal aos descendentes de Maruane. A vinculação genealógica dos cudaaítas aos iamanitas foi posteriormente consolidada tanto pelo favorecimento dispensado aos contingentes caicitas nas campanhas bizantinas conduzidas por Maslama ibne Abalmaleque entre 715 e 718 quanto pelos esforços do governador do Iraque, Calide Alcáceri, que empregou vultosos recursos para persuadir os chefes cudaaítas a alterarem oficialmente sua genealogia. A iniciativa, entretanto, foi condenada por membros mais tradicionalistas da própria confederação, como Nácer ibne Masru, que considerava moralmente inaceitável o abandono da descendência de Maade.

Controvérsia

As divergências em torno da origem dos cudaaítas suscitaram amplo debate entre os estudiosos muçulmanos dos primeiros séculos do islã. Segundo Patricia Crone, os autores antigos recorreram a supostas declarações de Maomé para sustentar tanto a ascendência maadita quanto a himiarita da confederação, enquanto outros procuraram conciliar ambas as tradições por meio de elaboradas reconstruções genealógicas. Entre as tradições atribuídas a Maomé figuram a afirmação de que a cúnia de Maade era Abu Cudaa ("pai de Cudaa") ou, em sentido oposto, a declaração de que os cudaaítas descendiam de Himiar. O genealogista do século VIII Ibne Alcalbi, ele próprio pertencente aos cudaaítas, procurou harmonizar essas versões aparentemente contraditórias. Segundo sua reconstrução, a mãe de Cudaa, Muana, teria sido inicialmente esposa de Maleque ibne Anre ibne Murra ibne Maleque ibne Himiar e, após enviuvar ou separar-se, casou-se com Maade, levando consigo o filho. Dessa forma, Cudaa teria passado a ser considerado filho de Maade, embora não o fosse biologicamente. Essa tradição também foi adotada pelo genealogista Ibne Abede Rabi, que acrescenta que Cudaa era apenas um epíteto com o significado de "leopardo", sendo seu verdadeiro nome Anre. Já os historiadores Albaladuri e Abu Albaca Hibate Alá apresentam a versão inversa: Muana teria sido originalmente esposa de Maade, de quem teve Cudaa, casando-se apenas posteriormente com Maleque ibne Anre, da linhagem de Himiar.

Tribos integrantes

A confederação cudaaíta era composta pelas tribos listadas abaixo. A filiação genealógica de algumas delas, como os tanuquitas, os caulanitas e os maraítas, foi objeto de controvérsia entre os genealogistas árabes tradicionais. Ao longo dos séculos, parte dessas tribos integrou outras confederações, adotou genealogias diferentes ou passou a identificar-se por outras filiações tribais.

Referências

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Bibliografia