Danelaw

Representação da Inglaterra em 878. O mapa ilustra uma reconstrução do quadro político da época, não uma delimitação definitiva do Danelaw.
Invasões vikings da Inglaterra

Danelaw (do inglês antigo Dena lagu ou Dena lage, geralmente traduzido como “lei dos dinamarqueses”) é um termo historiográfico associado aos territórios e às comunidades do norte e do leste da Inglaterra que foram marcados pela conquista, pelo assentamento escandinavo e por práticas jurídicas ligadas aos dinamarqueses durante os séculos IX a XI. O Danelaw não correspondeu a um reino único com fronteiras estáveis, e tanto sua extensão geográfica como o alcance de uma legislação dinamarquesa comum a toda a região são temas de debate entre historiadores.

A expressão aparece em textos jurídicos associados ao arcebispo Wulfstan II, no início do século XI. Nesses textos, a lei dos dinamarqueses é contraposta à lei dos ingleses; a expressão não demonstra, por si só, que existisse uma região administrativamente unificada ou submetida a um único sistema jurídico uniforme.

Formação

Em 865, um grande exército escandinavo chegou à Inglaterra e iniciou campanhas militares que afetaram os reinos anglo-saxões. Nos anos seguintes, as forças vikings conquistaram ou ocuparam áreas de Nortúmbria, Ânglia Oriental e Mércia. A atividade militar foi acompanhada pelo assentamento de escandinavos em diversas partes do norte e do leste da Inglaterra. Esses movimentos ocorreram em diferentes etapas e não deram origem a uma única comunidade política homogênea.

Em 878, Alfredo, o Grande, rei de Wessex, derrotou o líder escandinavo Guthrum na Batalha de Edington. As negociações subsequentes resultaram em um acordo de paz, associado ao batismo de Guthrum e à retirada de suas forças de Wessex. Esse acordo é tradicionalmente chamado de Tratado de Wedmore, embora não tenha sobrevivido um texto escrito do tratado. Os relatos sobre essa paz devem ser distinguidos do Tratado de Alfredo e Guthrum, cujo texto é conhecido por cópias medievais.

A data exata do Tratado de Alfredo e Guthrum é incerta, mas costuma ser situada na década de 880. O documento estabelece uma fronteira entre as áreas associadas a Alfredo e Guthrum. O percurso indicado começa no rio Tâmisa, segue pelo rio Lea até sua nascente, continua em direção a Bedford e acompanha o Grande Ouse até a Watling Street. Essa descrição é importante para o estudo das fronteiras entre os domínios dos dois governantes, mas não define, por si só, os limites completos do Danelaw em todas as épocas.

Extensão geográfica

Na definição convencional, o Danelaw abrangia áreas do norte e do leste da Inglaterra, incluindo grande parte de Yorkshire, a Ânglia Oriental e porções das Midlands Orientais. A região também é associada aos chamados Cinco Burgos, centros urbanos fortificados de Derby, Leicester, Lincoln, Nottingham e Stamford. A influência escandinava, o controle político e a aplicação de costumes jurídicos, porém, não coincidiram necessariamente em todos os lugares ou períodos.

As representações cartográficas do Danelaw variam porque os limites dependem do tipo de evidência utilizado: tratados, textos jurídicos, distribuição de assentamentos, topônimos e reconstruções posteriores. A fronteira descrita no Tratado de Alfredo e Guthrum é por vezes prolongada ao longo da Watling Street para representar a separação entre as áreas sob influência inglesa e dinamarquesa. No entanto, a interpretação da Watling Street como limite setentrional de uma região abrangente chamada Danelaw não é demonstrada de maneira explícita pelo tratado.

Em um estudo publicado em 2025, Richard Purkiss questionou a definição geográfica mais ampla. Ao examinar textos jurídicos medievais, o autor propôs que a expressão Dena lagu se referia a uma área mais restrita, situada entre os rios Welland e Tees, e que essa configuração teria tomado forma no século X. Trata-se de uma interpretação historiográfica específica, não de um limite universalmente estabelecido para todos os usos do termo; a definição ampla continua a ser empregada em estudos sobre a conquista e o assentamento escandinavos dos séculos IX e X.

Organização jurídica e integração ao reino inglês

O Danelaw não dispunha de um código legislativo único cuja aplicação uniforme abrangesse toda a região. Os costumes jurídicos e as práticas locais variavam, e as fontes permitem distinguir comunidades associadas aos dinamarqueses sem demonstrar que todas seguissem exatamente as mesmas regras. Textos legais anglo-saxões dos séculos X e XI são importantes para examinar como autoridades e legisladores tratavam essas diferenças. Entre eles está o conjunto de disposições conhecido como III Æthelred, estudado como evidência da cultura jurídica associada ao Danelaw.

A expansão dos poderes anglo-saxões durante o século X incorporou gradualmente antigos territórios sob controle escandinavo ao reino inglês. O avanço associado a Eduardo, o Velho, e aos governantes que o sucederam não ocorreu de maneira uniforme em todas as localidades. A submissão de centros urbanos, o controle do território e a continuidade de práticas jurídicas regionais foram processos relacionados, mas distintos.

Mesmo com a ampliação da autoridade dos reis ingleses, as diferenças regionais continuaram a ser relevantes na legislação. Textos jurídicos do final do século X ainda faziam referência a comunidades “entre os dinamarqueses”. Assim, a integração política dos territórios não significou o desaparecimento imediato das distinções legais ou culturais associadas ao assentamento escandinavo.

Não há uma data única que possa ser tomada, sem ressalvas, como o fim de todos os aspectos do Danelaw. O termo pode referir-se a diferentes realidades — assentamento, controle político, costumes jurídicos ou uma região descrita por fontes posteriores —, cujas cronologias não coincidem perfeitamente. Seu emprego em textos jurídicos medievais também não deve ser confundido com a existência contínua de um território politicamente autônomo.

Legado

O assentamento escandinavo deixou marcas duradouras nos nomes de lugares e na língua inglesa. Entre os indícios toponímicos associados à influência nórdica estão elementos como -by e -thorpe, encontrados em nomes de localidades inglesas. A presença desses elementos ajuda a estudar os padrões regionais de assentamento, mas não constitui, isoladamente, prova de que uma localidade tenha pertencido a uma jurisdição específica do Danelaw.

O contato entre falantes do nórdico antigo e do inglês antigo também influenciou o desenvolvimento linguístico da Inglaterra. A intensidade dessa influência variou conforme a região e o contexto, assim como variaram as formas de organização social, política e jurídica das comunidades. Por isso, o legado do Danelaw é melhor compreendido como um conjunto de transformações regionais, e não como o resultado de uma única fronteira ou de uma estrutura política uniforme.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Jake A. Stattel, “Legal culture in the Danelaw: a study of III Æthelred”, Anglo-Saxon England, vol. 48 (2019), pp. 163–203.
  2. 1 2 3 4 5 6 7 Richard Purkiss, “The Limits of the Danelaw”, The English Historical Review, vol. 140, n.º 607 (2025), pp. 1250–1289; DOI 10.1093/ehr/ceaf048.
  3. 1 2 3 4 5 6 Rochester Cathedral, “The Danelaw, 9th–11th century”, seção de pesquisa Textus Roffensis (em inglês).
  4. ↑ Michael McComb, “Battle of Edington”, World History Encyclopedia, 9 de abril de 2025.

Bibliografia

Ligações externas