Delturus brevis

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Estado de conservação
Espécie pouco preocupante
Pouco preocupante (IUCN 3.1)
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Teleostei
Ordem: Siluriformes
Superfamília: Loricarioidea
Família: Loricariidae
Subfamília: Delturinae
Gênero: Delturua
Espécie: D. brevis
Nome binomial
Delturus brevis
Reis & Pereira, 2006

Delturus brevis é uma espécie de peixe siluriforme da família dos loricariídeos (Loricariidae) e do gênero Delturus. É endêmica da bacia do rio Jequitinhonha, em Minas Gerais. Foi descrita em 2006 por Roberto E. Reis e Edson H. L. Pereira durante a revisão taxonômica que estabeleceu a subfamília dos delturíneos, um grupo considerado basal dentro dos loricariídeos. O epíteto específico brevis, derivado do latim, faz referência ao porte relativamente reduzido da espécie em comparação com os demais representantes do gênero Delturus.

A espécie apresenta corpo deprimido e revestido por placas dérmicas, com uma quilha pré-adiposa dorsal característica dos delturíneos. Distingue-se das demais espécies do gênero principalmente pela combinação da margem fortemente arredondada da nadadeira dorsal com a margem convexa da nadadeira caudal, característica exclusiva entre os congêneres reconhecidos. Habita rios e riachos de correnteza forte e fundo rochoso, onde vive associada ao substrato, comportamento típico de peixes adaptados a ambientes lóticos. Os exemplares conhecidos atingem até cerca de 18,6 centímetros de comprimento padrão.

Inicialmente conhecida de poucas localidades da bacia do Jequitinhonha, D. brevis revelou-se posteriormente amplamente distribuída, frequente e abundante em sua área de ocorrência. A espécie encontra-se classificada como Pouco Preocupante (LC) tanto em avaliações nacionais quanto globais, embora esteja sujeita a impactos decorrentes da mineração, do assoreamento dos rios e da poluição por esgoto doméstico. Registros confirmam sua ocorrência em unidades de conservação, como o Parque Estadual de Grão Mogol, e estudos recentes também a utilizaram em pesquisas de DNA ambiental voltadas ao monitoramento da diversidade de peixes neotropicais.

Etimologia

O nome genérico Delturus deriva do grego déltos (δέλτος), que significa "pequena placa" ou "tábua", e oura (οὐρά), que significa "cauda", em referência às placas ósseas que revestem a região caudal característica dos loricariídeos. O epíteto específico brevis deriva do latim e significa "curto". O nome faz referência ao menor tamanho máximo da espécie em comparação com as demais integrantes de Delturus, que geralmente atingem cerca de 200 milímetros ou mais de comprimento padrão, bem como ao número comparativamente reduzido de determinadas placas dérmicas e de raios da nadadeira dorsal.

Taxonomia

Delturus brevis é uma espécie de peixe siluriforme da família dos loricariídeos, pertencente à subfamília dos delturíneos e ao gênero Delturus. Foi descrita em 2006 por Roberto E. Reis e Edson H. L. Pereira durante uma revisão taxonômica de Delturus e Hemipsilichthys, trabalho no qual os delturíneos foram formalmente estabelecidos como uma nova subfamília. Os delturíneos foram reconhecidos como uma linhagem basal dos loricariídeos, sustentada por caracteres morfológicos e por resultados anteriores de análises moleculares. A subfamília compreendia os gêneros Delturus e Hemipsilichthys, distinguindo-se externamente pela combinação de uma quilha pré-adiposa elevada, formada por placas medianas ímpares, e dentes quase simetricamente bífidos nas pré-maxilas e nos dentários. O holótipo, um macho com 152,1 milímetros de comprimento padrão, foi coletado entre 4 e 12 de setembro de 1989 no rio Araçuaí, a montante de sua foz no rio Jequitinhonha, no município de Araçuaí, em Minas Gerais. A série de parátipos incluiu exemplares provenientes da mesma localidade e do rio Salinas, afluente do Jequitinhonha, próximo a Rubelita. Também foi incluída como parátipo uma fêmea com 171,8 milímetros anteriormente considerada um paralectótipo de Delturus angulicauda. Embora esse exemplar estivesse rotulado como procedente do rio Mucuri, sua identificação como D. brevis levou os autores a concluir que provavelmente havia sido coletado na bacia do Jequitinhonha e recebido uma indicação de procedência incorreta. As relações filogenéticas entre as espécies de Delturus não puderam ser resolvidas na revisão de 2006, pois os autores não encontraram caracteres que permitissem estabelecer relações de grupo-irmão dentro do gênero. Delturus brevis foi, contudo, prontamente distinguida das demais espécies pela combinação da margem convexa da nadadeira caudal e da margem fortemente arredondada da nadadeira dorsal. A primeira característica a separa de todos os demais congêneres, nos quais a margem caudal é côncava, enquanto a segunda contrasta com a margem dorsal aproximadamente reta das outras espécies.

Diagnose

Delturus brevis diferencia-se de D. angulicauda pela presença de manchas na nadadeira caudal, que é uniformemente clara nesta última. Em relação a D. carinotus, apresenta corpo mais largo, com largura cleitral de 33,2–35,2% do comprimento padrão, contra 29,8–33,2%, e uma aba dorsal da íris grande, em vez de muito pequena e pouco evidente. Distingue-se de D. parahybae por possuir apenas oito ou nove placas entre a nadadeira anal e a caudal, em comparação com dez ou onze; de 22 a 24 placas na série lateral mediana, contra 26 a 28; maior número de dentes pré-maxilares, de 26 a 137 contra 15 a 24; e cabeça proporcionalmente menos alta, cuja altura representa 50,7–54,1% do comprimento cefálico, contra 53,9–59,7%.

Descrição

Delturus brevis apresenta corpo deprimido, robusto na região anterior e progressivamente afilado desde a cintura peitoral até a extremidade do pedúnculo caudal. O perfil dorsal é suavemente convexo, arqueando-se da ponta do focinho até o término do processo supraoccipital; entre esse ponto e a origem da nadadeira dorsal, torna-se ligeiramente convexo ou quase reto, passando a declinar gradualmente até o final do pedúnculo caudal. O tronco é predominantemente arredondado em seção transversal, mas assume aspecto aproximadamente triangular na região pré-adiposa. O pedúnculo caudal é achatado ventralmente e torna-se progressivamente mais comprimido em direção à nadadeira caudal. A maior altura corporal situa-se na origem da nadadeira dorsal. A superfície dorsal é recoberta principalmente por placas dérmicas. Entre as nadadeiras dorsal e adiposa encontram-se de quatro a seis placas pré-adiposas medianas e ímpares, elevadas de modo a formar uma quilha dorsal pronunciada. A face inferior da cabeça e o abdome são desprovidos de placas, embora pequenas plaquetas possam estar inseridas na pele lateralmente, abaixo da cintura peitoral. A série mediana lateral compreende de 22 a 24 placas; entre seis e oito placas margeiam a base da nadadeira dorsal, e de oito a nove situam-se entre o término da base da nadadeira anal e a nadadeira caudal.

A cabeça é larga e deprimida, com focinho anteriormente convexo. Entre os olhos e a ponta do focinho existem três cristas pouco elevadas e discretas. A região dorsal entre as órbitas é côncava, e as margens superiores dos olhos projetam-se nitidamente acima do espaço interorbital. Os olhos são grandes e posicionados dorsolateralmente, com diâmetro correspondente a 20,3–24,5% do comprimento da cabeça. A íris apresenta uma ampla aba dorsal. Nos machos maduros, as margens laterais da cabeça possuem agrupamentos de odontódeos finos e hipertrofiados, constituindo uma manifestação de dimorfismo sexual. Os lábios são bem desenvolvidos e ocupam a maior parte da superfície ventral da cabeça. O lábio superior apresenta numerosas papilas transversalmente alongadas, enquanto o inferior é muito largo, alcança a margem anterior do cleitro e encontra-se recoberto principalmente por pequenas papilas, que diminuem de tamanho em direção posterior. O barbilhão maxilar é curto e livre. Os dentes são delgados e bífidos, com as duas cúspides aproximadamente iguais em tamanho. Cada pré-maxila possui entre 26 e 137 dentes, enquanto cada dentário apresenta de 22 a 133. Uma prega cutânea distinta encontra-se anteriormente aos dentes pré-maxilares e outra posteriormente aos dentes do dentário. Osteologicamente, a espécie apresenta o etmoide lateral exposto na margem posterior da abertura nasal, porém revestido por pequenas placas dérmicas. O supraoccipital é relativamente curto e largo, com largura superior ao comprimento, e a margem ventral do pré-opérculo forma uma expansão laminar projetada medialmente.

A nadadeira dorsal origina-se ligeiramente à frente da linha vertical que atravessa a origem das nadadeiras pélvicas. Possui um raio anterior não ramificado e de oito a nove raios ramificados, geralmente nove. O espinholeta dorsal tem formato de V e integra um mecanismo funcional de travamento da nadadeira. Sua margem distal é fortemente arredondada, um dos principais caracteres diagnósticos da espécie. A membrana posterior une o último raio dorsal à primeira placa pré-adiposa ou termina imediatamente antes dela. As nadadeiras peitorais são de tamanho moderado e possuem um raio anterior não ramificado, ligeiramente curvo e achatado, seguido de seis raios ramificados. Nos machos maduros, a margem anterodorsal do primeiro raio peitoral é recoberta por odontódeos grandes e hipertrofiados. Quando recolhidas junto ao corpo, as nadadeiras peitorais atingem entre o terço proximal e a metade das nadadeiras pélvicas. Estas também são moderadas, com um raio não ramificado e cinco ramificados, e não alcançam ou apenas atingem a origem da nadadeira anal. A nadadeira anal apresenta um raio não ramificado e cinco ramificados. Estudos anatômicos posteriores indicaram que a nadadeira anal é sustentada por seis pterigióforos e que, em machos adultos, as nadadeiras peitorais podem ultrapassar nitidamente a metade do comprimento do raio não ramificado das nadadeiras pélvicas quando adpressas ao corpo.

A nadadeira caudal possui margem distintamente convexa, característica exclusiva de D. brevis entre as espécies reconhecidas do gênero na revisão de 2006. O raio caudal inferior não ramificado é ligeiramente mais longo que o superior, e a nadadeira apresenta 14 raios ramificados, além de três ou quatro raios procorrentes superiores e igual número de inferiores. A combinação da caudal convexa com a margem arredondada da dorsal permite distingui-la prontamente de D. angulicauda, D. carinotus e D. parahybae, cujas nadadeiras caudais são côncavas e as margens dorsais aproximadamente retas. Nos exemplares da série-tipo, o comprimento padrão variou de 136 a 171,8 milímetros, embora a série utilizada na análise morfométrica variasse de 136 a 152,1 milímetros. Registros posteriores ampliaram a faixa de tamanhos conhecida para 7,7–18,6 centímetros de comprimento padrão, com pesos entre 12,5 e 190 gramas, com base na análise de 169 exemplares provenientes da bacia do Jequitinhonha. O comprimento da cabeça correspondeu a 29,2–32,3% do comprimento padrão; a distância pré-dorsal, a 40,9–44,7%; e a distância pós-dorsal, a 34,1–38%. O raio não ramificado da nadadeira dorsal mediu 21,2–28,4% do comprimento padrão, o da anal 9,5–13,1%, o da peitoral 25,8–30,8% e o da pélvica 22,4–23,9%. Os raios caudais não ramificados superior e inferior corresponderam, respectivamente, a 21,5–26,5% e 25,2–30,7% do comprimento padrão.

O comprimento do tronco representou 19,6–24,7% do comprimento padrão e o do abdome, 19,7–22,4%. A largura cleitral variou de 33,2 a 35,2%, a altura corporal na origem da dorsal de 16,6 a 18,2%, o comprimento do pedúnculo caudal de 33,2 a 39,3%, sua altura de 9,9 a 11,5% e sua largura de 5,5 a 7%. Em relação ao comprimento da cabeça, o focinho correspondeu a 64,2–67,4%, a menor largura interorbital a 27,5–32,3%, a altura da cabeça a 50,7–54,1% e o ramo mandibular a 21,4–31%. Em exemplares preservados em álcool, a coloração dorsal da cabeça e do corpo é castanho-clara, enquanto a região ventral é amarelo-pálida. As placas do dorso e dos flancos são mais escuras anteriormente e mais claras em sua porção posterior, formando um padrão de barras ou retículos. Na cabeça, essas marcações tornam-se geralmente mais espessas e evidentes, compondo um desenho vermiculado. Todas as nadadeiras possuem faixas escuras, por vezes interrompidas e transformadas em grandes manchas pouco definidas. A superfície ventral da cabeça e do corpo é predominantemente despigmentada, exceto pela presença de melanóforos castanho-claros dispersos no pedúnculo caudal e no lábio superior.

Distribuição e habitat

Delturus brevis é endêmico do Brasil e ocorre nos cursos superior e médio da bacia do Jequitinhonha, em Minas Gerais, associada aos domínios do Cerrado e da Mata Atlântica. Na descrição original, a espécie era conhecida de apenas duas localidades situadas na porção superior dessa bacia. O holótipo e parte dos parátipos foram coletados no rio Araçuaí, pouco antes de sua confluência com o Jequitinhonha, no município de Araçuaí. Os demais exemplares com procedência confirmada vieram do rio Salinas, outro afluente do Jequitinhonha, nas proximidades de Rubelita. Registros posteriores demonstraram que a espécie é amplamente distribuída, frequente e abundante na bacia. Trata-se de uma espécie demersal, associada ao fundo de ambientes dulcícolas tropicais. Os exemplares utilizados na descrição original foram capturados em trechos fluviais de correnteza forte e fundo rochoso, padrão também observado em outras espécies de delturíneos, geralmente associadas a rios e riachos de maior gradiente, águas rápidas e substratos pedregosos. A espécie não é migratória. A posição filogenética basal da subfamília e sua preferência por ambientes lóticos rochosos foram consideradas indícios de que os primeiros loricariídeos podem ter se diversificado em cursos d’água de forte declividade e substrato consolidado. A ocorrência de D. brevis foi registrada no Parque Estadual de Grão Mogol, uma das unidades de conservação situadas na bacia do Jequitinhonha.

Conservação

Delturus brevis foi avaliado globalmente segundo a versão 3.1 dos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza em 7 de novembro de 2018 e classificado como Pouco Preocupante (LC). Embora a avaliação tenha sido concluída em 2018, seus resultados foram publicados apenas em 2022. Em âmbito nacional, a espécie também foi classificada como Pouco Preocupante em 30 de abril de 2021, resultado posteriormente publicado pelo Sistema SALVE em 2024. A espécie ocorre na calha principal e nos principais afluentes dos cursos superior e médio da bacia do Jequitinhonha, em Minas Gerais, onde foi considerada amplamente distribuída, frequente e abundante. A existência de registros recentes e contínuos indica que suas populações permaneciam presentes em diferentes setores da bacia no momento da avaliação. Esse cenário é corroborado por levantamentos realizados entre 2011 e 2016, nos quais 169 exemplares da espécie foram registrados na bacia do Jequitinhonha. Apesar de parte de sua distribuição coincidir com áreas submetidas a atividades de mineração, os impactos identificados não foram considerados suficientemente intensos para colocar a população da espécie em risco de extinção, justificando sua classificação como Pouco Preocupante. A mineração de ouro e diamantes foi apontada, contudo, como uma das atividades antrópicas de maior impacto nos setores superior e médio da bacia do Jequitinhonha. O emprego de dragas, tratores e desmontes hidráulicos provoca assoreamento extensivo, alteração das margens e escavação de terraços e barrancos adjacentes às planícies fluviais. Em determinados trechos, os rios também são desviados de seus leitos naturais, causando transformações potencialmente irreversíveis nos ecossistemas aquáticos. Essas alterações podem afetar especialmente espécies associadas a trechos de correnteza forte e substrato rochoso, como D. brevis, embora não tenham sido consideradas, na avaliação, uma ameaça significativa à sua sobrevivência em escala populacional.

Outra fonte de degradação ambiental identificada na bacia é o lançamento de esgoto doméstico sem tratamento adequado. Muitos dos municípios drenados pelo Jequitinhonha possuem esgotos a céu aberto ou apenas parcialmente conectados a redes de coleta, o que contribui para a contaminação das águas. Apesar dos efeitos conjuntos da mineração, do assoreamento, das alterações dos canais fluviais e da poluição por efluentes, a continuidade dos registros da espécie levou os avaliadores a concluir que essas pressões não representavam, naquele momento, risco suficiente para enquadrá-la em uma categoria de ameaça. Não existem informações sobre captura, utilização econômica ou comércio de D. brevis. A tendência populacional é desconhecida, embora a espécie seja considerada frequente e abundante em sua área de ocorrência. A espécie não foi avaliada pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES) nem pela Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). Embora não existam programas de conservação especificamente voltados à espécie, sua ocorrência foi registrada no Parque Estadual de Grão Mogol. Foram recomendados estudos destinados a determinar com maior precisão seus limites de distribuição, suas tendências populacionais e diferentes aspectos de sua biologia, de modo a permitir o acompanhamento de possíveis alterações futuras em seu estado de conservação. A espécie também integrou estudos voltados ao desenvolvimento e à avaliação de ferramentas de monitoramento da ictiofauna neotropical por DNA ambiental, nos quais foi utilizada em comunidades experimentais para testar a eficiência de diferentes marcadores moleculares na detecção de peixes de água doce. Em alguns desses testes, D. brevis apresentou recuperação inferior à esperada, evidenciando a existência de vieses metodológicos que podem influenciar sua detecção em levantamentos baseados em metabarcoding.

Referências

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Ligações externas