Deus vult (latim para 'Deus o quer') é um lema cristão historicamente associado à noção de divina providência e à interpretação individual da vontade de Deus. A sua primeira ocorrência registrada data da Primeira Cruzada, em 1096, quando foi utilizada por católicos como um grito de guerra e de motivação, frequentemente nas formas Deus le veult ou Deus lo vult, conforme mencionado pelo Gesta Francorum (c. 1100) e pela Historia Belli Sacri (c. 1130).
Nos período contemporâneo, o lema assume significados diversos. Embora seja empregado em alguns contextos nacionalistas, também é entendido como uma expressão histórica de fé ou como referência à "vontade de Deus", em tradições cristãs. Tem sido usado como metáfora para se referir à "vontade de Deus", por cristãos ao longo da história, como os puritanos, ou como lema por ordens de cavalaria, como a Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém. No século XXI, movimentos nacionalistas cristãos, assim como grupos da direita e extrema-direita, adotaram o lema como frase de efeito. Especialistas em estudos medievais criticam esse uso, o considerando prejudicial e historicamente impreciso.
A expressão aparece sob outra forma na tradução da Vulgata de 2 Samuel 14:14 na Bíblia: nec vult Deus perire animam ("Deus não quer que nenhuma alma pereça").
As variantes Deus le volt e Deus lo vult, incorretas no latim clássico, são formas influenciadas pelas línguas românicas. Segundo o pastor e historiador Heinrich Hagenmeyer, o pronome pessoal le (ou lo) muito provavelmente fazia parte do lema original tal como foi bradado durante a Primeira Cruzada em Amalfi, já que tanto os autores da Gesta Francorum quanto da Historia Belli Sacri o registram. Variantes posteriores incluem o francês antigo Dieux el volt e o latim clássico Deus id vult ("Deus o quer") ou Deus hoc vult ("Deus quer isto").
O brado associado à Primeira Cruzada é mencionado pela primeira vez na Gesta Francorum, crônica redigida por volta de 1100 por um autor anônimo ligado a Boemundo I de Antioquia. Segundo o relato, durante a reunião dos cruzados da chamada Cruzada dos Príncipes em Amalfi, no final do verão de 1096, numerosos combatentes portando o símbolo da cruz no ombro direito ou nas costas teriam proclamado em uníssono: “Deus le volt, Deus le volt, Deus le volt”. O historiador medieval Guiberto de Nogent afirma que essa formulação foi adotada pelos peregrinos em detrimento de outras expressões.
A Historia belli sacri, redigida posteriormente, por volta de 1131, também cita o brado. Ele reaparece no contexto da conquista de Antioquia, em 3 de junho de 1098. O autor anônimo da Gesta, que participou da captura das torres da muralha, relata que, ao perceberem a posição conquistada, os combatentes começaram a clamar Deus le volt com manifestações de júbilo, repetidas pelos demais.
Roberto, o Monge, que reescreveu a Gesta Francorum por volta de 1120, incorporou um relato do discurso do papa Urbano II no Concílio de Clermont (1095), do qual afirma ter sido testemunha ocular. A versão apresenta o discurso como um apelo à ortodoxia, à reforma e à submissão à autoridade eclesiástica, culminando na convocação dirigida aos cristãos do Ocidente, independentemente de condição social, para auxiliarem os bizantinos no Oriente. Segundo Roberto, o Monge, a audiência reagiu com o clamor "É a vontade de Deus! É a vontade de Deus!", ao que papa Urbano I teria atribuído caráter inspirado, recomendando que o brado fosse adotado como grito de guerra.
O cronista também registra que Deus lo vult era inicialmente empregado em tom jocoso pelos soldados de Boemundo durante exercícios militares, mas que, com o tempo, passou a ser interpretado como um brado de guerra dotado de significado religioso.
Christopher Tyerman, escrevendo em 2006, considera que as aclamações ao discurso de papa Urbano I foram "provavelmente conduzidas por uma claque papal".
O lema Deus vult foi adotado como slogan por diversos grupos cristãos de direita e nacionalistas cristãos, assim como por grupos de direita alternativa e supremacistas brancos. Essa utilização se difundiu amplamente online, por meio de hashtags e memes na internet. Memes de cruzados (como imagens de um Cavaleiro Templário acompanhadas da legenda "I'll see your jihad and raise you one crusade") são populares em páginas de internet da extrema-direita. É uma das várias representações de cruzados usadas por grupos caracterizados pelo The Washington Post como nacionalistas cristãos de extrema-direita e dominionistas. Uma perspectiva sugere que movimentos racistas se apropriam de slogans e iconografia do período medieval europeu para evocar um senso de herança europeia branca "pura".
O slogan Deus vult tem sido usado por autores de terrorismo de direita; ele foi popularizado originalmente pelo autor do ataque à mesquita de Quebec em 2017 e estava entre as tatuagens do autor do ataque no shopping outlet em Allen, Texas, em 2023. Deus vult esteve entre os slogans e símbolos utilizados durante o motim em Charlottesville, Virgínia, em 2017.
Nos Estados Unidos, o lema aparece associado a subgrupos que combinam nacionalismo cristão e cultura armamentista, incluindo a sua gravação em modelos de rifles, como o AR-15 "Crusader", de um fabricante da Flórida. Na Europa, bandeiras e faixas com a expressão foram registradas em manifestações caracterizadas por veículos de imprensa como ligadas à extrema-direita, como no caso de protestos em Varsóvia, Polônia, em 2017.