Enterolactona

A enterolactona (fórmula química C₁₈H₁₈O₄; [3-bis[(3-hidroxifenil)metil]oxolan-2-ona]) é um composto polifenólico dibenzilbutirolactónico que atua como uma enterolignana e fitoestrogénio na fisiologia humana. Esta molécula não é absorvida diretamente através da dieta, sendo o produto exclusivo de uma biotransformação metabólica realizada pelas bactérias comensais do trato gastrointestinal (com destaque para os filos Firmicutes e Bacteroidetes) a partir de lignanas precursoras, tais como o secoisolaricirresinol, o matairresinol e o hidroximatairresinol (proveniente do abeto-da-noruega), que abundam em linhaça, sementes de sésamo, cereais integrais e leguminosas. O processo bioquímico ocorre no cólon, onde as enzimas bacterianas promovem a desmetilação e a desidroxilação sequenciais do secoisolaricirresinol em enterodiol, o qual é posteriormente desidrogenado a enterolactona antes de ser absorvido pela mucosa e transportado pela veia porta para a circulação entero-hepática. Devido à sua homologia estrutural com o 17β-estradiol (E2), a enterolactona exibe uma afinidade de ligação dual e competitiva com os recetores de estrogénio alfa (ERα) e beta (ERβ), funcionando como um modulador seletivo do recetor de estrogénio (SERM) natural: o composto exerce um efeito estrogénico fraco em tecidos com privação hormonal—atenuando os afrontamentos da menopausa ao regular a expressão do transportador de glucose GLUT-1 na barreira hematoencefálica—e manifesta uma atividade antiestrogénica e antiproliferativa robusta em condições de hiperestrogenismo, reduzindo estatisticamente o risco de cancro da mama na pré e pós-menopausa. Paralelamente ao seu perfil estrogénico, a enterolactona atua na homeostasia dos androgénios através da inibição seletiva e irreversível de até 80% da enzima 5-alfarredutase, bloqueando a redução da testosterona em di-hidrotestosterona (DHT), o que lhe confere um papel terapêutico na prevenção da hiperplasia benigna da próstata e da alopecia androgenética. A farmacocinética e a biodisponibilidade sérica deste metabolito são, contudo, altamente variáveis e vulneráveis ao estilo de vida e a intervenções clínicas: a terapia com antibióticos de amplo espetro deprime transitoriamente a capacidade de conversão da microbiota intestinal, ao passo que o estado de obesidade correlaciona-se inversamente com os seus níveis plasmáticos, uma vez que a natureza lipofílica da enterolactona favorece o seu sequestro e acumulação no tecido adiposo periférico.

Referências

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