Enterolignana

As enterolignanas são uma classe de metabolitos secundários fenólicos, vulgarmente designados como lignanas mamíferas, que resultam da bioconversão de lignanas vegetais pela ação exclusiva da microbiota intestinal. Os dois principais compostos identificados nesta categoria são o enterodiol (END) e a enterolactona (ENL), os quais apresentam uma estrutura difenólica semelhante à dos estrogénios endógenos. Ao contrário das lignanas vegetais precursoras presentes em alimentos como as sementes de linhaça (cuja principal molécula é o diglicosídeo de secoisolaricirresinol), sementes de sésamo, cereais integrais e leguminosas, as enterolignanas possuem uma biodisponibilidade sistémica significativamente superior. O processo de síntese ocorre no cólon através de uma cascata metabólica sequencial partilhada por diferentes consórcios bacterianos, englobando reações de O-desglicosilação, O-desmetilação, desidroxilação e desidrogenação. Estas reações químicas são mediadas por famílias bacterianas específicas e filogeneticamente diversas, com destaque para membros das famílias Ruminococcaceae e Lachnospiraceae, incluindo espécies como Blautia producta e Eubacterium limosum. Após a sua formação, as enterolignanas entram na circulação sanguínea cerca de 8 a 10 horas após a ingestão dos precursores, atuando em múltiplos tecidos como moduladores seletivos dos recetores de estrogénio, onde manifestam propriedades tanto agonistas como antagonistas consoante o ambiente hormonal do hospedeiro. Diversos estudos epidemiológicos e ensaios clínicos associam concentrações plasmáticas e urinárias elevadas de enterolignanas a um perfil cardiometabólico francamente benéfico, evidenciado pela redução de biomarcadores inflamatórios como a proteína C reativa (PCR), melhoria da sensibilidade à insulina e regulação dos níveis lipídicos (aumento do colesterol HDL e redução dos triglicéridos). Adicionalmente, as propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antiproliferativas da enterolactona conferem proteção contra o desenvolvimento de cancros dependentes de hormonas, estando documentada uma redução significativa na progressão tumoral, na metástase e na mortalidade global por cancro da mama e da próstata. Contudo, a produção destas moléculas exibe uma acentuada variação interindividual, classificando a população humana em perfis metabólicos produtores (altos a médios) e não produtores. Esta variação é condicionada por fatores intrínsecos como a diversidade e abundância ecológica da microbiota intestinal de cada indivíduo, o tempo de trânsito gastrointestinal e o historial recente de exposição a tratamentos com antibióticos, os quais podem suprimir drasticamente a capacidade biotransformadora do ecossistema digestivo.

Referências

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