Pisco-de-peito-ruivo

Pisco-de-peito-ruivo
Classificação científica edit
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Passeriformes
Família: Muscicapidae
Gênero: Erithacus
Espécies:
E. rubecula
Nome binomial
Erithacus rubecula
(Linnaeus, 1758)
Sinónimos
  • Erithacus dandalus subsp. sardus Kleinschmidt, 1906
  • Erithacus rubecula subsp. armoricanus Lebeurier & Rapine, 1936
  • Erithacus rubecula subsp. sardus Kleinschmidt, 1906
  • Motacilla rubecula Linnaeus, 1758

O pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) ou simplesmente pisco, é uma pequena ave que se reconhece facilmente pela mancha alaranjada que lhe ornamenta o peito. É uma ave de canto melodioso e persistente.

Regionalmente, também é conhecido por vários outros nomes, como papo-amarelo, peito-vermelho, papinho (na Madeira), paipolo (nos Açores), santantoninho (nos Açores), ou caixinha (nos Açores). A forma feminina do nome, pisca, também é atestada em fontes literárias.

Características

Juvenil

É uma ave pequena, pesa entre 14 e 21 gramas, e tem comprimento de cerca de 14 cm com envergadura de asas entre 20 e 22 cm. Os adultos apresentam o peito e a testa de cor laranja ferrugínea muito característica. Machos e fêmeas têm plumagem idêntica e ambos cantam para fins de defesa territorial. Ao contrário de outras aves, o pisco canta o ano todo.

Os juvenis são castanhos com pintas abundantes de cor castanha amarelada. O peito ruivo desenvolve-se aos 2 a 3 meses de idade durante a primeira muda de penas.

Em média, o pisco vive 2 anos, sendo o recorde de longevidade 19 anos e 4 meses.

Habitat e distribuição

Florestas húmidas e sombrias, mistas e de folha caduca, com grande densidade de ramos baixos. Também encontra-se em áreas urbanas como parques, jardins com arbustos, e perto de água. Ocorre desde o nível do mar até aos 2000 metros de altitude.

O pisco é uma espécie parcialmente migratória, com populações residentes na Europa central e do sul. No norte da Europa e partes da Sibéria encontra-se durante o período quente do ano, enquanto no inverno estas populações migram para o sul, inclusive chegando a África e ao Médio Oriente. Ocasionalmente, indivíduos podem vaguear e chegar até à China ou ao Canadá.

Em Portugal, pode ser encontrado em todo o território. No continente, é mais comum no norte do país e menos abundante no interior do sul, onde o clima é mais árido e de cariz mediterrânico, com vegetação mais escassa. Estima-se que vivem entre 500 000 – 1 000 000 casais em Portugal continental, entre 10 000 – 50 000 casais na Madeira, e entre 100 000 – 300 000 casais nos Açores. A tendência populacional desta espécie está em aumento seja no continente como nos Açores, e estável na Madeira. Entre 2011 e 2018, estima-se que a população de piscos subiu em 33% em Portugal.

Comportamento

Move-se com vivacidade com pequenos saltinhos e empertiga a cauda ao parar. A espécie é territorial e proclama o seu território através do canto durante o ano todo. Rivais são reconhecidos pelo peito vermelho-alaranjado. Estudos demonstraram que em ambientes urbanos, os piscos tendem a ser mais agressivos contra potenciais rivais. A defesa territorial ocorre através de duelos de exibição do peito enquanto os duelistas saltam de galho em galho, e só como último recurso ocorre confronto direto e luta. Fora do período de reprodução, tanto machos como fêmeas vivem separados e defendem os seus territórios separadamente.

Embora seja conhecido como amigável e de se aproximar facilmente de seres humanos em países como o Reino Unido, em Portugal esta ave é mais tímida, talvez devido a décadas de caça.

Dieta

O pisco alimenta-se de invertebrados encontrados no solo, como insetos, aranhas, minhocas e caracóis. No outono e no inverno, alimenta-se de sementes e frutos moles, tais como bagas e azeitonas. Também aceita comida oferecida em comedouros para pássaros, como passas e flocos de aveia.

O pisco caça perto do solo, saltando de um pouso baixo para apanhar a sua presa e voando em seguida para um pouso mais abrigado onde pode comer com sossego.

Reprodução

Erithacus rubecula MHNT
Cuculus canorus canorus em un ninho de Erithacus rubecula - MHNT

O pisco é monogâmico em série. Durante o período de reprodução, um casal de piscos defende em conjunto um território comum, que é alargado em comparação com os territórios de piscos solitários. Os ninhos são construidos pelas fêmeas e podem localizar-se em buracos no solo, taludes, muros, por entre raízes de árvores velhas e no interior de casas abandonadas. O ninho é volumoso, com uma base feita de folhas secas, e uma "tigela" central de musgo, ervas e pequenas folhas, revestida de material mais fino, incluindo cabelos, fibras vegetais e, ocasionalmente, penas. Durante a fase de construção do ninho, qualquer perturbação exterior leva as aves a abandonar o local e construir o ninho num lugar alternativo.

A postura geralmente é constituída por 4 a 6 ovos brancos ou ligeiramente azulados, com um número variável de pequenas manchas avermelhadas. A incubação é feita pela fêmea e dura de 13 a 14 dias e as crias permanecem no ninho em média 13 dias antes de o abandonarem. Nos primeiros dias após saírem do ninho, as crias ainda não conseguem voar. Os pais continuam a cuidar das crias até 3 semanas após saírem do ninho, uma tarefa geralmente cumprida pelo macho enquanto a fêmea se prepara para outra ninhada. Pares chegam a ter até 4 ninhadas por ano.

Ecologia

Pensa-se que os piscos sejam predados por aves de rapina, como o gavião-da-europa (Accipiter nisus) e a coruja-do-mato-europeia (Strix aluco). Num estudo experimental, piscos migratórios foram expostos a gravações de áudio destes dois predadores. Enquanto vocalizações do gavião não resultaram em diferenças de comportamento nos piscos, os indivíduos que foram expostos às vocalizações da coruja-do-mato reduziram os seus níveis de atividade. Os autores do estudo teorizaram que esta diferença possa ter relação com o comportamento migratório dos piscos, que tipicamente é noturno, e a estratégia de caça dos predadores, já que o gavião é diurno e captura a sua presa em voo enquanto a coruja-do-mato caça à noite e perto do solo.

Estudos que usaram gravadores de áudio demonstraram que o morcego-arborícola-gigante (Nyctalus lasiopterus) consegue perseguir e capturar piscos em voo.

Fatores de ameaça e conservação

O pisco é ameaçado por caça feita com armadilhas ilegais em Portugal, onde é servido como petisco no Algarve. Gatos-domésticos (Felis catus) representam uma fonte antropogénica de predadores, e piscos estão entre os animais mais predados por gatos.

No entanto, esta ave está classificada com estatuto de conservação Pouco Preocupante (LC) segundo a Lista Vermelha da IUCN e apresenta uma população e expansão territorial em crescimento em Portugal, assim como no resto da sua extensão geográfica.

Referências

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