A espectrina é uma proteína estrutural e filamentosa do citoesqueleto submembranar que desempenha um papel fundamental na manutenção da integridade mecânica, da forma e da resiliência de diversas linhagens celulares, tendo sido originalmente identificada nos eritrócitos (glóbulos vermelhos), embora isoformas não eritroides estejam amplamente expressas noutros tecidos, com especial relevância no sistema nervoso. Estruturalmente, esta macromolécula organiza-se como um heterodímero flexível constituído por duas cadeias polipeptídicas antiparalelas — a subunidade alfa (α) e a subunidade beta (β) —, as quais se autoassociam de forma longitudinal para criar tetrâmeros funcionais alongados com cerca de 200 nanómetros de comprimento. Estes tetrâmeros interligam-se através de curtos filamentos de actina e proteínas de junção (como a proteína 4.1 e a aducina), gerando uma sofisticada rede bidimensional em mosaico que confere estabilidade e flexibilidade dinâmica à periferia celular. Esta malha proteica ancora-se rigidamente à bicamada lipídica através da anquirina, uma proteína adaptadora que estabelece a ligação direta ao transportador transmembranar Banda 3, permitindo que os eritrócitos suportem forças de cisalhamento extremas e se deformem reversivelmente ao transitar pelos capilares mais estreitos da microcirculação sem sofrerem lise. Para lá da sua função mecânica de amortecimento celular, a rede de espectrina atua como um andaime organizacional crucial na regulação da polaridade celular, na segregação de microdomínios membranares e na estabilização de canais iónicos na fenda sináptica e no segmento inicial do axónio. Consequentemente, mutações genéticas ou anomalias qualitativas e quantitativas na espectrina comprometem a coesão da membrana, originando patologias hematológicas graves como a esferocitose hereditária e a eliptocitose hereditária — caracterizadas pela destruição prematura de glóbulos vermelhos dismórficos no baço —, além de falhas na arquitetura neuronal que estão diretamente associadas a processos de neurodegeneração e lesões axonais pós-traumáticas.