Estudos Africanos

Estudos Africanos referem-se não apenas a uma disciplina, mas a todo um leque de disciplinas cujo objeto de estudo é África. Isso inclui, a “história africana”, “antropologia e sociologia africanas”, “linguística africana”, “política africana”, “filosofia africana”.

O campo inclui o estudo da Cultura da África, História da África (Colonização da África e Descolonização da África), Antropologia da África (Grupos étnicos da África e Demografia da África), Política da África, Economia da África (Pobreza da África), Línguas da África, e religião na África (Religiões tradicionais africanas). Dentro de um perspectiva tradicional, compreendeu-se, que os Estudos Africanos  referisse apenas à África subsariana, uma vez que considerava a  África do Norte como parte do mundo árabe e ligada desde à Antiguidade ao Ocidente pelo Mar Mediterrâneo. Entretanto a partir de uma perspectiva africana,  passou-se a analisar criticamente tal concepção, pois, essa separação esteve ligada historicamente a uma visão eurocêntrica do Continente Africano.

Perspectivas Interdisciplinar

Os Estudos Africanos se caracterizam por reunir diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, que buscam compreender o continente africano em sua diversidade histórica, cultural, social e política. Trata-se de um campo interdisciplinar, que articula áreas como história, antropologia, sociologia, ciência política e estudos culturais, permitindo uma análise mais ampla e complexa das realidades africanas.

Ao longo do tempo, essas abordagens passaram por transformações importantes, especialmente em resposta a críticas ao modo como a África foi tradicionalmente estudada. Durante muito tempo, os estudos sobre o continente foram influenciados por visões eurocêntricas, ou seja, baseadas em referências e interpretações europeias. Nessas abordagens, a África era frequentemente retratada de forma simplificada, como homogênea, atrasada ou sem história própria, o que gerou distorções e apagamentos de suas múltiplas realidades.

Diante dessas limitações, surgiram novas perspectivas teóricas que buscam valorizar a África a partir de seus próprios referenciais. Uma das mais conhecidas é o afrocentrismo, que propõe colocar os povos africanos no centro da análise, reconhecendo suas experiências, saberes e produções culturais como fundamentais para a construção do conhecimento. Essa abordagem contribui para romper com visões externas e reforça a importância de compreender o continente a partir de suas próprias dinâmicas.

Outra perspectiva importante é o pós-colonialismo, que analisa os impactos do colonialismo europeu nas sociedades africanas, tanto no passado quanto no presente. Essa abordagem busca compreender como as relações de poder, dominação e resistência continuam a influenciar aspectos políticos, culturais e econômicos do continente, mesmo após os processos de independência.

Relacionada a essa visão, destaca-se também a perspectiva decolonial, que procura questionar e superar as formas de conhecimento herdadas do período colonial. Os estudos decoloniais defendem a valorização de epistemologias africanas, ou seja, modos próprios de produzir e transmitir conhecimento, que muitas vezes foram marginalizados pelas tradições acadêmicas ocidentais. Nesse sentido, há um esforço em reconhecer a legitimidade de saberes locais, incluindo práticas culturais, filosóficas e históricas próprias do continente.

Além dessas abordagens, o pan-africanismo também exerce influência no campo, ao enfatizar a unidade entre os povos africanos e suas diásporas. Essa perspectiva contribui para reflexões sobre identidade, pertencimento, resistência e conexões históricas entre a África e outras regiões do mundo, como o Brasil e o Caribe.

Do ponto de vista metodológico, os Estudos Africanos se destacam pela diversidade de fontes e métodos utilizados. Além de documentos escritos, são valorizadas fontes orais, como relatos, tradições e memórias coletivas, que desempenham papel fundamental na preservação da história em muitas sociedades africanas. Também ganham espaço estudos baseados em cultura material, arqueologia, linguística e produções artísticas, ampliando as possibilidades de interpretação.

Assim, as perspectivas teóricas e metodológicas dos Estudos Africanos refletem um campo em constante construção, marcado pelo esforço de produzir conhecimentos mais plurais, críticos e comprometidos com a valorização das experiências africanas, superando visões limitadas e reconhecendo a complexidade do continente.

Importância dos Estudos Africanos

Os Estudos Africanos tem um papel muito importante, para que as pessoas compreendam melhor a história, a cultura e as contribuições dos povos africanos. Durante muito tempo, desde o período colonial, a história da África e suas várias ciências foi contada pelos europeus, como pesquisadores que não faziam parte do continente e, muitas vezes, a interpretaram de forma incompleta ou distorcida. Nesse sentido, trazer os Estudos Africanos é de suma importância, pois os Estudos Africanos surgiram justamente para corrigir isso, colocando a África e seus povos no centro da narrativa.

Coleção História Geral da África, projeto internacional coordenado pela UNESCO.

A ‘’História Geral da África’’, publicada pela UNESCO, é uma das obras mais importantes, pois reuniu vários especialistas africanos de diversas partes do mundo para que houvesse uma construção e junção de visões mais justa e completa sobre os estudos do continente africano. Logo, essa obra é importante para os Estudos Africanos, pois mostra que a África tem uma história rica e complexa, com reinos e civilizações que já existiam muito antes do contato com a Europa.

No Brasil, após a aprovação da Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, ganhou força para que fosse obrigatório trazer o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas. Visto que, essa lei reconhece que entender a África é fundamental para entender o próprio Brasil, já que o Brasil é um país miscigenado, com descendentes de africanos que foram, ao longo dos séculos, trazidos para o Brasil no período colonial, na época da escravização. Conhecer essa história é uma das mais importantes formas de valorizar essas raízes e combater o preconceito.

Como defende o autor Carlos Lopes, a história da África só se completa quando os próprios africanos a contam. Por muito tempo, o continente africano foi estudado de fora, principalmente pela Europa, por vozes que não viviam aquela realidade.

Subseções

Subseções includem:

Estudos Afro-Americanos, uma subseção dos American studies, é por vezes combinados com estudos africanos sob o nome de "African studies" (ou Black studies).

Africanistas notáveis

Centros e projetos de estudos africanistas

Centros

Em Portugal

  • Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, CEAUP
  • Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL, CEI-IUL, Lisboa
  • Centro de Estudos sobre África e Desinvolvimento, CEsA/CSG/ISEG, Universidade de Lisboa
  • Instituto de Investigação Científica Tropical, IICT I. P., Lisboa

Fora de Portugal

Entre outros:

Projetos

Revistas acadêmicas de Estudos Africanos

Ver também

Referências

  1. ↑ HOUNTONDJI, Paulin. “Conhecimento de África, conhecimento de Africanos: Duas perspectivas sobre os Estudos Africanos.” In: Revista Crítica de Ciências Sociais, 80, março, 2008: 149-160.
  2. ↑ MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento.
  3. ↑ MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento.
  4. ↑ MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.
  5. ↑ MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento; MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.
  6. ↑ MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento.
  7. ↑ MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento; MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.
  8. ↑ UNESCO. História geral da África. Paris: UNESCO, 2010. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000190249
  9. ↑ UNESCO. História geral da África. Paris: UNESCO, 2010. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000190249
  10. ↑ BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Brasília: Presidência da República, 2003. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm
  11. ↑ LOPES, Carlos. A pirâmide invertida: historiografia africana feita por africanos. Lisboa: Edições Colibri, 1995.
  12. ↑ «CEAUP - Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto»
  13. ↑ «Centro de Estudos Internacionais do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa»
  14. ↑ «Centro de Estudos sobre África e Desinvolvimento, CEsA-ISEG»

Ligações externas

Referências