Fatacarana (em grego: Φατακαρανή, Phatakaranḗ), Faitacarã ou Faitacarão (em armênio: Փայտակարան, P'aytakaran) era a principal cidade da província mais oriental do Reino da Armênia, Caspiana, que eventualmente tornar-se-ia conhecida como Fatacarana em referência à sua capital. Sua localização exata é desconhecida e ainda suscita muito debate entre os historiadores.
A etimologia do nome é desconhecida. Heinrich Hübschmann sugeriu que talvez não tenha uma origem armênia. Bagrat Ulubabyan propôs que significa "cidade capital" ou "grande cidade". Segundo Ulubabyan, pʿayt (փայտ) significa "madeira", e pʿaytak (փայտակ) sugere uma forma diminutiva com o sufixo locativo -aran (-արան), o que geraria o significado de "lugar arborizado". Robert H. Hewsen discorda dessa etimologia e propôs que deriva de pʿayt ("madeira") e do persa garan (գարան, “montanhas”), isto é, "montanhas arborizadas" ou "montanhas florestadas", o que se ajusta à cadeia subtropical de Talixe.
A província de Caspiana era conhecida pelos autores clássicos, que não fazem quaisquer menções à cidade de Fatacarana. A inexistência de menções clássicas sugere que a cidade possa ter sido fundada tardiamente, haja vista ser mencionada pela primeira vez apenas no século IV. A região onde estava localizada estava sobremaneira submersa, ou pelo menos coberta por pântanos, ao longo do Período Clássico. A primeira fonte a mencionar a cidade é a História dos Armênios de Agatângelo, em cuja obra o nome é registrado como Faitacarã/Faitacarão na versão armênia e Fatacarana na versão grega. É possível, portanto, que a cidade tenha sido fundada nesse período sob patrocínio da dinastia arsácida reinante. Ela localizava-se na foz do rio Aras, na costa do mar Cáspio, mas mesmo sobre essa questão há controvérsia. Suren Eremyan a localizou ao norte do curso inferior do Aras, enquanto Tadevos Hakobyan ao sul do mesmo rio. Agatângelo afirmou que tratava-se de uma cidade armênia, que marcava a fronteira do Reino da Armênia em Caspiana, enquanto Lázaro de Farpe e Eliseu, o Armênio afirmaram que estava na fronteira, mas do lado do Azerbaijão. Cronistas tardios identificaram erroneamente a cidade de Fatacarana ora com Tiblíssi, ora com Partava. Carecem igualmente de fundamento as tentativas de identificar Fatacarana com Beilagã.
Sabe-se que Fatacarana possuía um cárcere real, onde eram presos os criminosos políticos mais perigosos. No período da cristianização da Armênia, o príncipe de Ingilena lançou na prisão de Fatacarana 438 sacerdotes, que não renunciaram ao paganismo. No reinado de Tiridates IV (r. 298–330), com o objetivo de difundir o cristianismo no Reino da Albânia, foi enviado às regiões setentrionais e orientais o bispo Gregoris, neto de Gregório, o Iluminador. De acordo com João V e Ciríaco de Ganzaca, ele foi acompanhado por Sanatruces, que foi nomeado como governador de Fatacarana e auxiliar de Gregoris; Moisés de Dascurã afirmou apenas que Sanatruces governava Fatacarana, sem indicar sua nomeação por Tiridates. Em algum ponto do fim do reinado de Tiridates, ou logo após sua morte, Gregoris foi morto sob ordens de Sanatruces, que em algumas versões é descrito sob o nome de Sanesano e rei dos mascutes. Sanatruces rebelar-se-ia contra os armênios e se declararia rei. Ciríaco de Ganzaca afirmou que ele se deslocou até Ctesifonte, capital do Império Sassânida, onde recebeu as insígnias régias do xainxá Sapor II (r. 309–379); Moisés de Corene afirmou que Sanatruces tomou Fatacarana nesse período e coroou-se rei. Essa ocupação de Fatacarana, bem como de parte dos territórios da Albânia, foi datada em 334.
Cosroes III (r. 330–339) convocou o general romano Antíoco, o nobre armênio Pancrácio I e o "governador" (vitaxa) Mirranes (na verdade, uma confusão com o rei Meribanes III)[a] da Ibéria para auxiliá-lo em sua marcha contra a Albânia. Os aliados deixaram uma grande força na cidade de Fatacarana e Sanatruces fugiu às pressas ao xainxá Sapor II, com o exército albanês. Quando Antíoco retornou ao imperador Constantino I (r. 306–337) (confundido com Constâncio II),[b] depois de ter tomado grande quantidade de despojos e tributos reais, Sanatruces aproveitou a ocasião e reuniu um exército de 30 mil albaneses e lançou um ataque contra os armênios, sob orientação de Sapor II. Os invasores eventualmente foram derrotados nas cercanias da fortaleza de Oxacã. Anos depois, sob os termos da Paz de Nísibis de 363 firmada entre Sapor II e Joviano (r. 363–364), a província de Caspiana, com Fatacarana, foi incorporada na Albânia, mas ela foi brevemente reconquistada pelo asparapetes (comandante-em-chefe) Musel I, sob ordens de Papa (r. 370–374).
Em 387, sob os termos da Paz de Acilisena firmada entre Teodósio I (r. 378–395) e Sapor III (r. 383–388), Caspiana foi incorporada no Azerbaijão (a Enciclopédia Soviética Armênia assume que permaneceu uma dependência armênia até 428, quando teria sido incorporada pelo Azerbaijão). Desde meados do século III, a Albânia tornar-se-ia uma província do Império Sassânida, comandada por um marzobã (governador). Apesar disso, a dinastia reinante continuou a governar como vassala dos iranianos. Sabe-se que a capital do reino era originalmente Gabala, que desde 387 foi ocupada pelo governador (quando seria conhecida como Ostan-i-Marzpan, ou seja, "corte do marzobã"). Robert H. Hewsen propôs que, em decorrência desse rearranjo, os reis locais utilizariam Fatacarana como sua nova capital até eventualmente transferirem-na para Partava em meados do século V.
O território de Fatacarana foi evangelizado por Mesrobes Mastósio, segundo Corium. Em 450–451, durante a revolta de Vardanes II contra a autoridade do xainxá Isdigerdes II (r. 438–457), a cidade de Fatacarana transformou-se em base das tropas persas; Eliseu, o Armênio, afirma que ela foi ocupada pelo azarapates Mir-Narses, em preparação à eventual investida contra os rebeldes. Em 571, o príncipe Vaanes I solicitou a transferência do divã (nesse contexto, o centro administrativo) ao qual Siúnia estava sujeita de Dúbio para Fatacarana (Nina Garsoïan propôs que esse evento ocorreu em 591). Na década de 620, no contexto da Guerra bizantino-sassânida de 602–628, a região de Fatacarana foi devastada por tropas bizantinas lideradas pelo imperador Heráclio (r. 610–641). Nos séculos VI–VII, em consequência de uma acentuada regressão do nível do Cáspio, as águas afastaram-se da cidade, que, segundo o Mghonach‘apk‘, já se encontrava a 60 milhas do mar. Gradualmente secou-se o braço do Aras que alimentava a cidade e desaguava no Cáspio e, como resultado, a cidade empobreceu e, pouco depois, desapareceu. É igualmente possível que a cidade possa ter sido destruída pela invasão cazar relatada por Leôncio, o Vardapetes no século VIII.