Finasterida | |
Nome IUPAC (sistemática) | |
| (1S,3aS,3bS,5aR,9aR,9bS,11aS)-N-tert-butil-9a,11a-dimetil-7-oxo-1,2,3,3a,3b,4,5,5a,6,9b,10,11-dodecahidroindeno[5,4-f]quinolina-1-carboxamida | |
Identificadores | |
| 98319-26-7 | |
| G04CB01 | |
| 57363 | |
| DB01216 | |
Informação química | |
| 372,55 g/mol | |
Farmacocinética | |
| aproximadamente 65% | |
| aproximadamente 90% | |
| hepático, principalmente por CYP3A4 | |
| cerca de 5–6 horas em adultos; mais longa em idosos | |
| fezes e urina, principalmente como metabólitos | |
Considerações terapêuticas | |
| oral; tópica em algumas formulações | |
Finasterida é um fármaco sintético da classe dos inibidores da 5-alfa-redutase, enzima responsável pela conversão da testosterona em di-hidrotestosterona (DHT). É usada principalmente no tratamento da hiperplasia prostática benigna (HPB) e da alopecia androgenética masculina. Em termos farmacológicos, reduz a formação de DHT sem bloquear diretamente o receptor de andrógeno.
A finasterida diminui a concentração de DHT circulante em aproximadamente 70% durante o uso contínuo e reduz de forma ainda mais intensa a DHT intraprostática. Na HPB, esse efeito leva à redução progressiva do volume prostático e do risco de retenção urinária e de cirurgia relacionada à doença em homens adequadamente selecionados. Na alopecia androgenética, reduz a ação da DHT nos folículos capilares suscetíveis, retardando a miniaturização folicular e a progressão da perda de cabelo.
Os efeitos adversos mais bem estabelecidos são de natureza sexual, incluindo redução da libido, disfunção erétil e alterações ejaculatórias; em ensaios clínicos, a frequência absoluta é geralmente baixa, embora superior à observada com placebo em algumas análises. Disfunção sexual persistente após a interrupção também foi relatada em farmacovigilância e consta de informações regulatórias em diversos países, embora a magnitude do risco e os mecanismos permaneçam objeto de investigação.
Em 2025, após revisão europeia de dados clínicos, observacionais, de farmacovigilância e da literatura, o comitê de segurança da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluiu que a ideação suicida deve constar como reação adversa das formulações orais de finasterida de 1 e 5 mg, com frequência desconhecida. A agência manteve, contudo, a avaliação de que a relação benefício–risco permanece favorável para as indicações aprovadas. A finasterida também existe em formulações cutâneas para alopecia androgenética; na União Europeia, uma solução em spray de 2,275 mg/mL é autorizada desde 2020 em diversos Estados-membros.
A finasterida é usada em homens com sintomas do trato urinário inferior relacionados à hiperplasia prostática benigna, especialmente quando há aumento do volume prostático e risco de progressão da doença. A dose oral aprovada para HPB é de 5 mg uma vez ao dia em várias jurisdições.
Ao contrário dos bloqueadores alfa-adrenérgicos, que podem produzir alívio sintomático relativamente rápido, os inibidores da 5-alfa-redutase têm início de ação lento. Diretrizes europeias descrevem efeitos clínicos mais evidentes após pelo menos seis meses de tratamento e redução média do volume prostático de aproximadamente 18–28% após dois a quatro anos, com melhora do fluxo urinário e dos escores de sintomas. Uma revisão sistemática Cochrane concluiu que a finasterida melhora sintomas urinários em longo prazo e reduz a progressão da HPB, mas é menos eficaz do que bloqueadores alfa para alívio sintomático no curto prazo; a terapia combinada pode oferecer maior benefício em homens com próstatas aumentadas.
A base de evidência clínica foi construída por vários ensaios randomizados anteriores aos estudos de desfechos. No estudo Veterans Affairs, a terazosina produziu alívio sintomático mais rápido que a finasterida na população não selecionada, enquanto estudos que enriqueceram a amostra com próstatas maiores demonstraram redução consistente do volume glandular e benefício crescente com maior volume inicial. Uma revisão sistemática de 22 ensaios, envolvendo milhares de participantes, confirmou que a magnitude do benefício aumenta com a duração do tratamento e que prevenção de retenção urinária e cirurgia é uma vantagem específica de longo prazo dos inibidores da 5-alfa-redutase. Comparações diretas posteriores entre finasterida e dutasterida encontraram eficácia global semelhante para a maioria dos desfechos clínicos de HPB, apesar da maior supressão sérica de DHT com a dutasterida. A diretriz da American Urological Association segue a mesma lógica de seleção por evidência de aumento prostático e destaca o início de ação lento da classe.
No estudo PLESS, ensaio randomizado com 3.040 homens acompanhados durante quatro anos, a finasterida reduziu em 55% o risco relativo de cirurgia por HPB e em 57% o risco relativo de retenção urinária aguda em comparação ao placebo. No estudo MTOPS, a finasterida também reduziu a progressão clínica da HPB, e a associação de finasterida com o bloqueador alfa doxazosina foi mais eficaz para prevenir progressão do que qualquer um dos fármacos isoladamente.
Além das reduções relativas, a diretriz EAU de 2026 destaca que, no PLESS, as reduções absolutas aproximadas foram de 4 pontos percentuais para retenção urinária aguda e 7 pontos para cirurgia ao longo de quatro anos; no MTOPS, foram de cerca de 2 e 3 pontos percentuais, respectivamente. Esses resultados ilustram por que o benefício preventivo depende do risco basal e é maior em homens com próstatas aumentadas.
Formulações combinadas também existem. Nos Estados Unidos, uma combinação em dose fixa de finasterida 5 mg e tadalafila 5 mg foi aprovada em 2021 para iniciar o tratamento dos sinais e sintomas da HPB em homens com próstata aumentada, por período limitado segundo a rotulagem norte-americana.
O benefício é maior em homens com próstatas aumentadas. A diretriz da European Association of Urology recomenda os inibidores da 5-alfa-redutase para homens com sintomas moderados a graves e risco aumentado de progressão, dando como exemplo volume prostático superior a 40 mL. A diretriz britânica do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), revisada em vigilância em 2024, adota princípio semelhante e recomenda considerar um inibidor da 5-alfa-redutase em homens com sintomas urinários e próstata aumentada ou PSA elevado quando houver maior risco de progressão.
A finasterida reduz a concentração sérica do antígeno prostático específico (PSA). Com o uso de 5 mg, uma redução de aproximadamente 50% é esperada após meses de tratamento. Esse efeito é clinicamente importante porque altera a interpretação do exame usado na investigação e acompanhamento do câncer de próstata. Um aumento confirmado do PSA a partir do menor valor atingido durante o tratamento requer avaliação clínica, mesmo que o resultado permaneça dentro da faixa considerada normal para homens que não usam um inibidor da 5-alfa-redutase. Estudos controlados confirmam que a queda do PSA ocorre tanto com 5 mg na HPB quanto com 1 mg na alopecia: em homens de 40 a 60 anos tratados com 1 mg por 48 semanas, a mediana do PSA caiu aproximadamente 40% na faixa de 40–49 anos e 50% na de 50–60 anos. Em homens com HPB, a fração de PSA livre parece ser relativamente preservada apesar da queda do PSA total, e estudos do PCPT demonstraram que a finasterida pode aumentar a sensibilidade discriminatória do PSA para detecção de câncer em determinadas condições.
A finasterida oral de 1 mg uma vez ao dia é aprovada em diversos países para tratamento da alopecia androgenética masculina. O benefício geralmente exige uso contínuo; segundo a bula norte-americana, três meses ou mais de tratamento podem ser necessários antes de se observar resposta, e a interrupção leva à perda progressiva do benefício ao longo dos meses seguintes.
Uma revisão sistemática de 12 estudos, com 3.927 homens, encontrou maior probabilidade de melhora percebida pelos pacientes e pelos investigadores, além de aumento da contagem de fios em comparação com placebo, tanto em seguimento de curto quanto de longo prazo. Uma meta-análise em rede publicada no JAMA Dermatology comparou diferentes doses e vias de minoxidil, finasterida e dutasterida e confirmou eficácia mensurável da finasterida oral na contagem de cabelos em homens com alopecia androgenética, embora outras intervenções tenham apresentado eficácia relativa superior em determinados desfechos e tempos de seguimento. Uma segunda revisão sistemática com meta-análise bayesiana em rede, baseada em 17 artigos elegíveis de ensaios randomizados, também incluiu finasterida 1 mg entre as intervenções avaliadas para crescimento de cabelos terminais, ilustrando ao mesmo tempo a heterogeneidade dos desfechos e das respostas entre tratamentos. Diretrizes europeias baseadas em evidências incluem a finasterida entre as opções estabelecidas para alopecia androgenética masculina.
Os ensaios pivotais de fase III randomizaram 1.553 homens e demonstraram melhora por contagem de fios, avaliação dos participantes, investigadores e fotografias padronizadas. Estudos de dose mostraram eficácia a partir de 0,2 mg/dia, com 1 e 5 mg apresentando eficácia semelhante e superior às doses menores; esses achados sustentaram a seleção de 1 mg como dose de desenvolvimento para alopecia masculina. Em estudos farmacodinâmicos, 1 mg reduziu a DHT no couro cabeludo em cerca de dois terços e a DHT sérica em aproximadamente 70%. A resposta clínica envolve não apenas maior contagem de fios, mas aumento da proporção de cabelos em fase anágena, do peso e da espessura do cabelo. Ensaios e coortes de longo prazo em populações japonesas e coreanas reproduziram a eficácia, embora com diferenças de desenho, classificação e ausência de placebo em parte dos seguimentos. Revisões sistemáticas independentes confirmaram eficácia da finasterida entre os tratamentos não cirúrgicos, mas também destacaram heterogeneidade entre métodos de mensuração e qualidade de evidência.
Estudos de até cinco anos mostraram manutenção do benefício em parte dos homens que continuaram o tratamento.
Formulações tópicas de finasterida foram desenvolvidas para produzir inibição local da 5-alfa-redutase no couro cabeludo com menor exposição sistêmica. Em um ensaio clínico de fase III, randomizado e controlado, com 458 homens, a solução tópica produziu aumento ajustado de aproximadamente 20,2 fios na área-alvo após 24 semanas, contra 6,7 com placebo; a resposta foi numericamente semelhante à da finasterida oral no mesmo estudo. A concentração plasmática máxima de finasterida foi mais de cem vezes menor com a formulação tópica, e a redução média da DHT sérica foi de aproximadamente 34,5%, em comparação com 55,6% no grupo oral.
Uma revisão sistemática de formulações tópicas concluiu que os estudos disponíveis demonstram eficácia capilar e redução da exposição sistêmica em comparação com a administração oral, mas ressaltou heterogeneidade entre concentrações, veículos e esquemas de aplicação e a necessidade de dados de longo prazo.
Na União Europeia, a finasterida tópica em spray cutâneo na concentração de 2,275 mg/mL é autorizada desde 2020 para alopecia androgenética masculina em estágio inicial. A revisão regulatória europeia de 2025 listou apresentações cutâneas autorizadas, entre outros países, em Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália, Bélgica e República Tcheca. A disponibilidade permanece dependente da jurisdição.
Estudos iniciais de administração tópica eram pequenos e heterogêneos. Uma revisão sistemática de 2018 localizou apenas sete estudos humanos e classificou os resultados como promissores, porém ainda preliminares naquele momento; essa limitação histórica foi parcialmente superada por ensaios posteriores de fase III e pela autorização de formulações específicas na Europa.
A finasterida não é indicada nas bulas de referência norte-americanas para tratamento de alopecia em mulheres e é contraindicada durante a gravidez devido ao risco de alterações no desenvolvimento da genitália externa de fetos masculinos. Apesar disso, o fármaco foi estudado como uso off-label em algumas condições hiperandrogênicas, especialmente hirsutismo e alopecia de padrão feminino.
Revisões sistemáticas identificaram melhora do hirsutismo com finasterida em alguns ensaios, mas a qualidade e a quantidade de evidência são inferiores às existentes para as indicações masculinas aprovadas, e o risco teratogênico limita seu uso em pessoas com possibilidade de gravidez.
Uma revisão sistemática de 2023 sobre alopecia de padrão feminino encontrou evidência heterogênea para antiandrógenos e inibidores da 5-alfa-redutase, reforçando que os dados não permitem extrapolar diretamente a eficácia observada em homens para todas as mulheres com queda de padrão feminino.
A evidência para alopecia feminina é particularmente dependente de dose e desenho. Um ensaio randomizado com 137 mulheres pós-menopáusicas não encontrou benefício de 1 mg/dia em comparação com placebo, enquanto pequenas séries e estudos não controlados com 2,5–5 mg relataram melhora em parte das participantes; por isso, essas observações não estabelecem eficácia equivalente à demonstrada em homens. Revisões específicas para mulheres concluem que a literatura é heterogênea, dominada por estudos observacionais e limitada pela teratogenicidade potencial, necessidade de contracepção em pessoas com possibilidade de gravidez e ausência de um regime universalmente validado.
No hirsutismo, a base histórica inclui pequenos ensaios randomizados comparando finasterida com espironolactona, flutamida e placebo. Eles demonstraram redução do escore de Ferriman–Gallwey com finasterida, mas variaram amplamente quanto a dose, duração e comparadores; alguns encontraram eficácia semelhante a outros antiandrógenos e outros favoreceram espironolactona ou flutamida. O uso permanece off-label e deve ser interpretado à luz de revisões sistemáticas mais recentes e das precauções reprodutivas.
A finasterida também é utilizada para tratar alopecia androgenética em algumas pessoas transgênero e de gênero diverso. Uma revisão dermatológica de 2022 propôs finasterida oral de 1 mg entre as opções de primeira linha para alopecia androgenética nessa população, embora tenha ressaltado a escassez de estudos específicos. Uma revisão de 2026 reiterou que a evidência de alta qualidade continua limitada e que objetivos capilares e hormonais podem diferir entre pessoas transfemininas e transmasculinas.
A utilização da finasterida como componente de terapia hormonal feminilizante é distinta de seu uso dermatológico para alopecia. Revisões sistemáticas de antiandrógenos em mulheres trans encontraram evidência insuficiente para determinar qual agente produz melhores resultados de feminização; a finasterida reduz a formação de DHT, mas não bloqueia diretamente o receptor de andrógeno nem suprime de maneira confiável a produção de testosterona.
A finasterida não é aprovada como tratamento do câncer de próstata, e informações regulatórias de referência não demonstram benefício clínico para tratamento de câncer de próstata.
O fármaco, entretanto, foi investigado para prevenção da doença. No Prostate Cancer Prevention Trial (PCPT), homens que receberam finasterida apresentaram menor incidência total de diagnóstico de câncer de próstata, mas maior proporção de tumores de alto grau foi detectada no grupo finasterida durante o estudo inicial. No seguimento de até 18 anos, não houve diferença significativa na sobrevida global entre os grupos finasterida e placebo. Parte da diferença na detecção de tumores de alto grau pode estar relacionada à redução do volume da próstata e a efeitos sobre a sensibilidade dos métodos diagnósticos, mas a interpretação desse achado permanece historicamente relevante para as advertências regulatórias. Uma atualização do PCPT com mediana de 18,4 anos de seguimento e 296.842 pessoas-ano registrou 42 mortes por câncer de próstata no grupo finasterida e 56 no placebo; a redução estimada de 25% na mortalidade específica não foi estatisticamente significativa. Assim, a finasterida permanece relevante para a história da quimioprevenção do câncer de próstata, mas não é aprovada para essa finalidade nem para tratamento do tumor.
Análises metodológicas do PCPT mostraram que a redução do volume prostático pela finasterida modificou o desempenho de biópsias, PSA e exame digital, aumentando a capacidade de detectar câncer em uma glândula menor. Estudos patológicos e modelos ajustados para vieses sugeriram que parte — e possivelmente grande parte — do excesso inicial de tumores de alto grau decorreu de efeitos de detecção e classificação, embora essa interpretação não transforme a finasterida em terapia aprovada para câncer de próstata. Modelos posteriores também incorporaram volume prostático, PSA, idade e achados do exame físico para estimar risco individual durante o uso.
Os efeitos adversos mais consistentemente associados à finasterida são redução da libido, disfunção erétil e alterações da ejaculação. Nos três ensaios controlados de 12 meses usados na avaliação do Propecia, um ou mais eventos sexuais relacionados ao tratamento foram relatados por 3,8% dos homens que receberam finasterida e 2,1% dos que receberam placebo. Em meta-análise de 15 ensaios randomizados envolvendo 4.495 participantes tratados por alopecia androgenética, os inibidores da 5-alfa-redutase aumentaram o risco relativo de disfunção sexual; para a finasterida, o risco relativo estimado foi de 1,66. A interpretação das taxas absolutas exige considerar indicação, idade e método de coleta. No PLESS, eventos sexuais relacionados ao tratamento concentraram-se sobretudo no primeiro ano; análise semelhante do MTOPS encontrou maior incidência inicial de impotência, redução da libido e alteração ejaculatória nos braços contendo finasterida. Uma meta-análise metodológica dos ensaios de alopecia observou que nenhum dos 34 relatórios avaliados apresentava notificação de segurança considerada plenamente adequada, levantando a possibilidade de subdetecção de eventos adversos. Meta-análise de ensaios de 5-ARIs encontrou aumento de eventos sexuais durante o tratamento, mas não foi desenhada para estabelecer a incidência de sintomas persistentes após a retirada.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 observou que, em ensaios controlados de finasterida oral para alopecia, eventos sexuais foram relatados em aproximadamente 1,9–6,7% dos participantes tratados, contra 0,9–3,9% dos participantes que receberam placebo; na maioria dos estudos controlados, os eventos foram leves e reversíveis, mas os autores destacaram limitações da evidência de longo prazo.
Na HPB, as taxas podem ser maiores porque são estudadas populações mais velhas e uma dose de 5 mg. No estudo PLESS, no primeiro ano, impotência foi relatada em 8,1% dos participantes que receberam finasterida e 3,7% dos que receberam placebo; redução da libido ocorreu em 6,4% e 3,4%, respectivamente. As diferenças diminuíram nos anos seguintes.
Relatos pós-comercialização descrevem disfunção erétil, alterações de libido, ejaculação e orgasmo que persistiram após a interrupção do tratamento. A Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA) do Reino Unido e outras agências regulatórias incluem advertências sobre a possibilidade de persistência de disfunção sexual após a suspensão. Análises de farmacovigilância em VigiBase e no sistema FAERS também identificaram sinais desproporcionais de relatos de disfunção sexual, especialmente em homens jovens tratados por alopecia; como todo estudo de notificação espontânea, esses resultados são vulneráveis a viés de seleção, publicidade, duplicação e ausência de denominador de usuários expostos.
O termo síndrome pós-finasterida é usado para descrever um conjunto de sintomas sexuais, físicos e neuropsiquiátricos relatados por alguns pacientes após a interrupção do fármaco. Sua definição, frequência, mecanismos e relação causal com diferentes sintomas permanecem controversos na literatura científica. Revisões destacam que a maior parte dos dados sobre sintomas persistentes provém de relatos espontâneos, séries de casos e estudos observacionais, o que dificulta estimar incidência e estabelecer mecanismos causais. Em um estudo observacional retrospectivo de registros clínicos, uma pequena proporção de homens expostos a finasterida ou dutasterida apresentou disfunção erétil persistente após a suspensão; o desenho observacional, porém, não permite estabelecer por si só causalidade nem estimar com segurança o risco aplicável a todos os usuários.
Depressão, humor deprimido, ideação suicida e comportamento suicida foram relatados durante o uso de finasterida. A evidência epidemiológica não é uniforme: uma meta-análise de 2024 com mais de dois milhões de pacientes não encontrou associação estatisticamente significativa entre exposição a inibidores da 5-alfa-redutase e depressão ou suicídio. Estudos de farmacovigilância, por outro lado, encontraram sinais de desproporcionalidade para relatos de depressão e suicidabilidade, especialmente entre usuários de finasterida; tais métodos identificam sinais de segurança, mas por si sós não comprovam causalidade.
Nos Estados Unidos, a FDA determinou em 2022 uma atualização da rotulagem do Propecia após identificar novas informações de segurança relacionadas a ideação e comportamento suicida, disfunção sexual adicional e eventos psiconeurocognitivos; a seção pós-comercialização passou a incluir depressão, ideação suicida e comportamento suicida.
Em maio de 2025, o Pharmacovigilance Risk Assessment Committee (PRAC) da EMA, após revisar múltiplas fontes de evidência, concluiu existir associação causal suficiente para incluir ideação suicida como reação adversa das apresentações orais de finasterida de 1 e 5 mg, com frequência desconhecida. O processo regulatório europeu resultou em medidas adicionais de minimização de risco, incluindo cartão de alerta para pacientes em algumas apresentações de 1 mg. A documentação técnica do PRAC registra que a decisão considerou ensaios clínicos, notificações espontâneas, literatura, dados não clínicos e contribuições de terceiros; para as formulações cutâneas, o comitê não encontrou evidência suficiente de ideação suicida que justificasse alteração equivalente da informação do produto. Em 2026, a MHRA reforçou recomendações semelhantes no Reino Unido e orientou monitoramento de efeitos psiquiátricos e sexuais.
A literatura observacional ajuda a explicar por que as conclusões regulatórias exigem cautela. Uma coorte canadense com 93.197 homens idosos não encontrou aumento significativo de suicídio, mas observou aumento de depressão e autolesão após o início de 5-ARIs; uma coorte francesa comparando finasterida e dutasterida e uma coorte sul-coreana também não encontraram aumento estatisticamente significativo do risco global de suicídio. Em sentido diferente, uma análise de farmacovigilância da base VigiBase encontrou desproporcionalidade de relatos de suicidabilidade, depressão e ansiedade, sobretudo em homens mais jovens tratados para alopecia. Uma revisão de 2021 encontrou maior frequência de sintomas depressivos nos dados agrupados, mas a heterogeneidade entre fontes e o predomínio de desenhos não randomizados limitam inferências causais.
Em homens jovens saudáveis, estudos controlados não demonstraram alteração importante da espermatogênese com 1 mg/dia em média populacional. Entretanto, relatos clínicos e estudos em homens avaliados por infertilidade indicam que uma minoria suscetível pode apresentar redução da contagem de espermatozoides, com melhora após a interrupção. Um estudo retrospectivo de 2020 com 55 homens jovens tratados por alopecia encontrou redução transitória de alguns parâmetros seminais em seis meses e resultados em grande parte comparáveis ao basal no seguimento posterior; o desenho e o tamanho da amostra limitam a generalização. A bula de referência também registra infertilidade masculina e piora da qualidade seminal como eventos pós-comercialização, com relatos de normalização ou melhora após a suspensão.
Foram relatados sensibilidade e aumento das mamas, ginecomastia, erupções cutâneas, urticária, prurido e angioedema. Casos de câncer de mama masculino foram relatados durante a farmacovigilância; como se trata de evento raro, a relação causal com a finasterida não está estabelecida. Uma revisão sistemática e meta-análise de 2018 não encontrou evidência de aumento estatisticamente significativo do risco de câncer de mama masculino associado aos inibidores da 5-alfa-redutase. Um grande estudo caso-controle baseado em registros da Dinamarca, Finlândia e Suécia, com 1.005 casos de câncer de mama masculino e 43.058 controles, também não encontrou associação estatisticamente significativa com exposição à finasterida após ajuste para confundidores.
Uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados publicada em 2021 encontrou aumento das chances de ginecomastia com inibidores da 5-alfa-redutase em comparação aos controles (odds ratio 1,77; IC 95% 1,53–2,06), embora esse resultado represente a classe como um todo e não apenas a finasterida.
A finasterida é contraindicada durante a gravidez por poder interferir na formação da genitália externa de fetos masculinos, consequência esperada da inibição da conversão de testosterona em DHT durante o desenvolvimento. Pessoas grávidas ou que possam engravidar não devem manusear comprimidos quebrados ou triturados; os comprimidos intactos são revestidos, reduzindo o contato com o princípio ativo durante o manuseio normal.
A preocupação biológica é coerente com a fisiologia observada na deficiência congênita de 5-alfa-redutase tipo 2, condição em que a produção reduzida de DHT durante a vida fetal causa subvirilização da genitália externa em indivíduos 46,XY.
A segurança e a eficácia da finasterida não foram estabelecidas para uso pediátrico nas indicações aprovadas das bulas de referência norte-americanas.
Como a finasterida é extensamente metabolizada no fígado, informações regulatórias recomendam cautela em pessoas com alterações da função hepática; há menos dados farmacocinéticos específicos nessa população do que em adultos sem doença hepática.
Em estudos clínicos, doses únicas de até 400 mg e doses repetidas de até 80 mg por dia durante três meses foram administradas sem um padrão específico de toxicidade relacionado à dose. Não existe antídoto específico recomendado para superdosagem de finasterida.
Não foram identificadas interações medicamentosas de grande importância clínica nas avaliações regulatórias disponíveis. A finasterida é metabolizada no fígado, predominantemente por vias que incluem a CYP3A4, mas não parece inibir de forma clinicamente relevante o sistema do citocromo P450. Em estudos clínicos, foi usada concomitantemente com diversas classes de medicamentos sem evidência de interações clinicamente significativas.
Existem diferentes isoenzimas da 5-alfa-redutase, que catalisam a conversão de testosterona em DHT. A isoenzima tipo 2 tem expressão importante na próstata e nos folículos pilosos. A finasterida atua principalmente como inibidor seletivo e dependente do mecanismo da 5-alfa-redutase tipo 2, reduzindo a formação de DHT.
A DHT possui maior atividade androgênica do que a testosterona em vários tecidos-alvo. Na próstata, participa da manutenção do crescimento e da função do epitélio e do estroma; nos folículos capilares geneticamente suscetíveis do couro cabeludo, contribui para a miniaturização progressiva característica da alopecia androgenética.
Durante o uso contínuo, a finasterida reduz a DHT sérica em aproximadamente 70%. Diferentemente da dutasterida, que inibe as isoenzimas tipos 1 e 2, a finasterida tem maior seletividade pela tipo 2. Estudos bioquímicos e de expressão recombinante consolidaram a distinção entre as isoenzimas e a inibição preferencial da SRD5A2 pela finasterida nas concentrações terapêuticas. Revisões urológicas estimam supressão sérica de DHT próxima de 70% e intraprostática de aproximadamente 80–90%, deixando uma fração residual atribuível, entre outros fatores, à atividade de outras isoenzimas.
Uma terceira proteína da família, SRD5A3, foi inicialmente descrita em ensaios celulares como capaz de catalisar reduções 5α de esteroides e de ser inibida por finasterida e dutasterida. Contudo, a biologia da SRD5A3 não deve ser equiparada de forma simples à das SRD5A1 e SRD5A2: evidência genética e bioquímica posterior estabeleceu papel central da SRD5A3 como poliprenol redutase na síntese de dolicol e na N-glicosilação, e revisões contemporâneas a associam também a processos de glicosilação e oncogênese. Assim, a relevância clínica da inibição de SRD5A3 pela finasterida nas doses terapêuticas permanece menos definida do que a inibição de SRD5A2.
A inibição da 5-alfa-redutase pela finasterida envolve a formação de um complexo enzimático estável relacionado a um aduto de di-hidrofinasterida com o cofator NADP+. A estrutura cristalográfica da SRD5A2 humana resolvida a 2,8 Å mostrou uma arquitetura de sete hélices transmembrana e o aduto NADP–di-hidrofinasterida em uma cavidade quase fechada; estudos de mutagênese e modelagem implicaram, entre outros, os resíduos E57 e Y91 no mecanismo catalítico e de inibição.
Além de sua ação clinicamente relevante sobre a 5-alfa-redutase, estudos bioquímicos mostram que a finasterida também pode inibir competitivamente a 5-beta-redutase humana AKR1D1 em concentrações micromolares. Essa interação é muito menos potente do que a inativação da SRD5A2 e sua importância clínica é incerta. Experimentos celulares posteriores não demonstraram inibição eficaz da AKR1D1 por finasterida nas condições estudadas, reforçando que a importância clínica dessa interação permanece incerta.
A diminuição da DHT promove redução gradual do volume da glândula. Em estudos de longo prazo, a redução média do volume fica tipicamente em torno de 20–30%, sendo maior em alguns pacientes e dependente do volume inicial e do tempo de tratamento.
A 5-alfa-redutase participa não apenas do metabolismo de andrógenos, mas também de etapas da síntese de neuroesteroides. Por isso, a inibição da enzima tem sido estudada como possível mecanismo para alguns efeitos neuropsiquiátricos associados à finasterida. Entretanto, a ligação entre alterações específicas de neuroesteroides e sintomas clínicos persistentes em humanos ainda não está definitivamente estabelecida. Uma revisão sistemática de 2026, que incluiu 83 estudos sobre as isoenzimas SRD5A1, SRD5A2 e SRD5A3, destacou o papel mais amplo da SRD5A1 no sistema nervoso central e na síntese de alopregnanolona, enquanto a SRD5A2 é mais concentrada em tecidos andrógeno-dependentes; os autores consideraram plausíveis mecanismos neuroesteroidais para alguns efeitos neuropsiquiátricos, mas ressaltaram a necessidade de estudos translacionais e clínicos padronizados.
A biodisponibilidade oral média da finasterida é de aproximadamente 65%, e sua absorção não é significativamente alterada pela alimentação. O volume médio de distribuição no estado de equilíbrio é de aproximadamente 76 L e a ligação às proteínas plasmáticas é de cerca de 90%. A finasterida atravessa a barreira hematoencefálica. Em um estudo regulatório com 35 homens usando 1 mg/dia durante seis semanas, o fármaco era indetectável no sêmen de 60% das amostras; entre as amostras detectáveis, as concentrações eram muito baixas, e a estimativa de exposição vaginal mesmo usando o maior valor medido permaneceu centenas de vezes abaixo da dose que não alterou DHT circulante em homens.
A finasterida é extensamente metabolizada no fígado, principalmente por vias dependentes da CYP3A4. Seus principais metabólitos circulantes apresentam atividade inibitória contra a 5-alfa-redutase muito menor do que a molécula original e contribuem pouco para o efeito farmacológico total. A finasterida não é considerada um inibidor clinicamente importante do sistema do citocromo P450 nas doses terapêuticas usuais.
A meia-vida plasmática terminal é de aproximadamente cinco a seis horas em adultos jovens e aumenta com a idade, chegando a cerca de oito horas em homens idosos em estudos farmacocinéticos. A eliminação ocorre principalmente na forma de metabólitos: material relacionado ao fármaco é recuperado tanto nas fezes quanto na urina, com predomínio fecal. Estudos com finasterida radiomarcada em humanos encontraram aproximadamente 57% da radioatividade relacionada à dose nas fezes e 39% na urina, meia-vida terminal em torno de seis horas e ligação proteica próxima de 90%. Investigações in vitro identificaram CYP3A4 como principal isoenzima envolvida na oxidação do fármaco, e estudos por espectrometria de massas caracterizaram metabólitos hidroxilados, carboxilados e conjugados presentes em bile e urina. Revisões farmacocinéticas descrevem aumento modesto da meia-vida em idosos, sem necessidade rotineira de ajuste por idade ou insuficiência renal. A indução enzimática também pode alterar a exposição: em um pequeno estudo mecanístico, a erva-de-são-joão reduziu a concentração máxima e a área sob a curva da finasterida, achado que demonstra plausibilidade farmacocinética de interações por indução de CYP3A, embora a relevância clínica dependa do contexto. Estudos de bioequivalência em voluntários confirmaram que diferentes formulações orais podem atingir exposição sistêmica equivalente quando atendem aos critérios regulatórios.
A exposição sistêmica da formulação tópica é substancialmente menor do que a observada com 1 mg oral, embora não seja nula. No ensaio fase III, a concentração plasmática máxima foi mais de cem vezes menor e a redução de DHT sérica foi menor com o spray cutâneo do que com a formulação oral.
A finasterida é um azasteroide sintético, mais especificamente um 4-azasteroide derivado estruturalmente do núcleo androstano. Sua fórmula molecular é C23H36N2O2, sua massa molar é de aproximadamente 372,55 g/mol e seu número CAS é 98319-26-7. O composto possui múltiplos centros estereogênicos e uma lactama no anel A do esqueleto esteroidal.
Os estudos de química medicinal que levaram à finasterida investigaram 4-azasteroides capazes de mimetizar substratos esteroidais da 5-alfa-redutase e estabilizar estados associados ao processo de redução enzimática. Alterações no substituinte da carboxamida em C17 e a introdução da insaturação 1,2 foram importantes para aumentar a potência contra a 5-alfa-redutase. A caracterização estrutural posterior da SRD5A2 confirmou que o inibidor forma, durante o processo catalítico, um aduto estreitamente ligado ao cofator de nicotinamida dentro da cavidade transmembrana da enzima.
A finasterida apresenta polimorfismo no estado sólido. Formas cristalinas I e II são bem caracterizadas por difração de raios X e análises térmicas, e estudos posteriores descreveram também uma forma III e diferentes solvatos. A identificação das formas é relevante na tecnologia farmacêutica porque diferentes arranjos cristalinos podem alterar propriedades físicas como solubilidade, estabilidade e comportamento de processamento.
Rotas históricas de síntese partem de intermediários esteroidais e introduzem o átomo de nitrogênio que caracteriza os 4-azasteroides, seguidos de transformações no grupo carboxílico em C17 e formação da tert-butilcarboxamida. Processos industriais posteriores foram desenvolvidos para melhorar rendimento, pureza e controle do estado cristalino. A química da série foi descrita em estudos clássicos de relação estrutura–atividade da Merck.
A história da finasterida está ligada à elucidação do papel biológico da DHT e da 5-alfa-redutase. Estudos de meados do século XX já haviam mostrado que os andrógenos eram fundamentais para o crescimento prostático e para a alopecia de padrão masculino, mas a distinção entre as ações de testosterona e DHT só se tornou clara posteriormente.
Em 1974, Julianne Imperato-McGinley e colaboradores descreveram uma condição hereditária hoje reconhecida como deficiência de 5-alfa-redutase tipo 2, na qual indivíduos 46,XY apresentam produção reduzida de DHT e subvirilização da genitália externa. O acompanhamento dessas famílias demonstrou que a próstata permanecia pequena e que determinadas características andrógeno-dependentes eram pouco desenvolvidas, fornecendo uma espécie de experimento natural sobre a função da DHT. Essas observações ajudaram a estabelecer a 5-alfa-redutase como alvo farmacológico para doenças dependentes de DHT. Comparações posteriores entre indivíduos com deficiência congênita e homens tratados com finasterida mostraram perfis semelhantes de redução do metabolismo 5-alfa de esteroides, reforçando a ligação entre o “experimento natural” e a farmacologia do fármaco. Revisões históricas descrevem essa sequência — deficiência congênita, reconhecimento da importância da DHT, desenvolvimento de 4-azasteroides e uso clínico — como um exemplo clássico de tradução de fisiologia humana em desenvolvimento de medicamentos.
O potencial terapêutico dessas observações chamou a atenção da indústria farmacêutica. Relatos históricos associam P. Roy Vagelos, então responsável por pesquisa na Merck, à decisão de explorar farmacologicamente a redução de DHT, apoiada pelo trabalho endocrinológico de Jean D. Wilson e pelas observações de Imperato-McGinley. Esse percurso tornou a finasterida um exemplo frequentemente citado de desenvolvimento farmacológico inspirado em um fenótipo humano de deficiência enzimática.
Na Merck, programas de química medicinal desenvolveram 4-azasteroides como inibidores da enzima. Séries publicadas por Gary Rasmusson e colaboradores estabeleceram relações estrutura–atividade que culminaram no composto MK-906, posteriormente denominado finasterida. A molécula foi inicialmente desenvolvida para HPB, condição em que os primeiros estudos demonstraram intensa redução da DHT e diminuição do volume prostático. A finasterida tornou-se o primeiro inibidor da 5-alfa-redutase amplamente introduzido na prática clínica e serviu de protótipo farmacológico para a classe. O uso dermatológico posterior expandiu a aplicação dos 5-ARIs para doenças dependentes de andrógeno fora da próstata.
Nos Estados Unidos, a FDA aprovou finasterida 5 mg (Proscar) em 19 de junho de 1992 para HPB e finasterida 1 mg (Propecia) em 19 de dezembro de 1997 para alopecia androgenética masculina. Na União Europeia, finasterida oral de 1 mg foi autorizada para alopecia androgenética em 1998; a formulação cutânea 2,275 mg/mL recebeu autorização a partir de 2020.
A patente e a proteção comercial das formulações originais foram seguidas pela introdução de numerosos genéricos, tornando a finasterida um dos inibidores da 5-alfa-redutase mais amplamente utilizados. Sua história regulatória também inclui sucessivas atualizações de segurança, especialmente para disfunção sexual persistente e eventos psiquiátricos, culminando em novas advertências da FDA em 2022, da EMA em 2025 e da MHRA em 2026.
Finasterida é a Denominação Comum Internacional (DCI/INN) do fármaco e também corresponde ao United States Adopted Name (USAN); registros oficiais e terminológicos também a identificam como BAN e JAN. A OMS publicou finasteride/finasteridum nas listas de denominações internacionais e utiliza o radical -steride para inibidores da testosterona redutase. Entre os nomes comerciais históricos estão Proscar e Propecia; atualmente existem apresentações genéricas em numerosos países.
As apresentações mais tradicionais são comprimidos de 1 mg para alopecia androgenética e 5 mg para HPB. Em algumas jurisdições existem combinações em dose fixa para HPB, incluindo finasterida com tadalafila, e na Europa existem sprays cutâneos de finasterida para alopecia. Indicações, faixas etárias, formas farmacêuticas e advertências variam entre autoridades regulatórias.
Regras para doação de sangue variam entre países e refletem principalmente o risco teórico de exposição fetal ao fármaco por transfusão. Nos Estados Unidos, a Cruz Vermelha Americana orienta aguardar um mês após a última dose de Proscar ou Propecia antes da doação de sangue. No Reino Unido, as diretrizes do Joint UK Blood Transfusion and Tissue Transplantation Services Professional Advisory Committee determinam adiamento da doação por quatro semanas após o uso de finasterida oral; desde atualização de 2024, o uso tópico para alopecia pode ser aceito sob os critérios especificados pelo serviço.
A finasterida foi incluída pela Agência Mundial Antidopagem (WADA) entre os agentes mascarantes a partir de 2005, pois a supressão de metabólitos 5α-reduzidos podia dificultar a interpretação do perfil urinário de certos esteroides anabolizantes. A lista de 2008 ainda citava expressamente finasterida e dutasterida entre os inibidores de alfa-redutase proibidos. A classe foi removida da lista a partir de 2009, após avanços na capacidade analítica dos laboratórios antidoping reduzirem a necessidade dessa proibição. A lista mundial de substâncias e métodos proibidos de 2026 não inclui a finasterida.
Embora a finasterida tópica já seja autorizada em parte da Europa, permanecem em investigação a concentração ideal, a frequência de aplicação, os veículos farmacêuticos e a comparação de longo prazo com 1 mg oral. O ensaio fase III demonstrou eficácia com exposição plasmática muito menor, mas não eliminou a supressão sistêmica de DHT. Revisões apontam grande heterogeneidade entre formulações tópicas estudadas, dificultando a comparação direta entre produtos manipulados, soluções experimentais e apresentações regulatoriamente autorizadas. Regimes intermitentes também vêm sendo estudados após resposta inicial; um estudo prospectivo de 2024 avaliou manutenção com 1 mg em meses alternados depois de um ano de tratamento diário, mas esse tipo de estratégia ainda não substitui os esquemas aprovados e necessita replicação independente.
A frequência, os fatores predisponentes e a história natural de sintomas sexuais persistentes após a suspensão permanecem áreas de investigação. A revisão sistemática de 2026 encontrou taxas baixas de eventos sexuais em ensaios de alopecia e predominância de eventos leves e reversíveis, mas destacou que estudos randomizados geralmente não foram desenhados para detectar síndromes persistentes raras ou muito tardias. Revisões sobre a chamada síndrome pós-finasterida consideram que existem relatos clínicos consistentes de sintomas persistentes em um subconjunto de pacientes, mas que seleção de amostras, ausência de grupos-controle adequados, autorrelato e heterogeneidade diagnóstica impedem estimar incidência e causalidade para todo o conjunto de sintomas propostos.
A relação entre finasterida, depressão e suicidabilidade permanece cientificamente complexa. Uma meta-análise de 2024 que reuniu mais de dois milhões de pacientes não encontrou associação estatisticamente significativa entre inibidores da 5-alfa-redutase e depressão ou suicídio. Em contraste, análises internacionais de farmacovigilância identificaram desproporcionalidade de relatos psiquiátricos com finasterida, sobretudo em grupos mais jovens; esses sinais são úteis para detecção de segurança, mas não estabelecem incidência nem causalidade. Uma análise de coorte e randomização mendeliana publicada em 2025 também não encontrou aumento estatisticamente significativo de depressão ou suicídio. Considerando o conjunto de evidências clínicas, observacionais e de farmacovigilância, a EMA concluiu em 2025 pela inclusão de ideação suicida como reação adversa da finasterida oral, de frequência desconhecida, ao mesmo tempo em que manteve favorável a relação benefício–risco das indicações autorizadas.
A possível ligação entre inibição da 5-alfa-redutase, síntese de neuroesteroides e efeitos neuropsiquiátricos é uma área ativa de pesquisa. A 5-alfa-redutase participa da formação de metabólitos de progesterona como a alopregnanolona, moduladora positiva de receptores GABA-A. Estudos em humanos ainda não estabeleceram uma cadeia causal simples entre alterações desses metabólitos e sintomas persistentes; revisões recentes defendem integração de dados genéticos, neuroendócrinos e psiquiátricos em estudos prospectivos.
Diferenças individuais na expressão das isoenzimas de 5-alfa-redutase, metabolismo esteroidal, sensibilidade dos folículos e risco basal de progressão prostática são investigadas como possíveis determinantes de resposta e tolerabilidade. Até 2026, porém, não existe biomarcador clínico validado capaz de prever com precisão quais pacientes responderão à finasterida ou desenvolverão eventos adversos persistentes. Estudos de farmacogenética exploraram variantes em genes de metabolismo esteroidal e CYP3A como explicação para variabilidade de exposição e resposta, sem produzir até agora um teste clínico validado. Na alopecia, estudos genéticos antigos não encontraram associação simples entre variantes comuns de SRD5A1/SRD5A2 e calvície masculina, reforçando o caráter poligênico da doença. Diferenças sexuais na expressão de 5-alfa-redutase, aromatase e receptor androgênico nos folículos, além de múltiplos loci genéticos e sinalização hormonal, ajudam a explicar por que a resposta clínica não pode ser reduzida à concentração sérica de DHT.
A finasterida foi investigada em outras doenças relacionadas direta ou indiretamente à sinalização androgênica, mas essas aplicações não possuem o mesmo nível de evidência das indicações aprovadas. Em mulheres com acne e hiperandrogenismo, um ensaio randomizado encontrou melhora com finasterida 5 mg, porém inferior à obtida com flutamida ou esquemas contendo acetato de ciproterona; revisões dermatológicas consideram a evidência insuficiente para estabelecer a finasterida como tratamento padrão da acne.
Na hidradenite supurativa, relatos e pequenas séries sugeriram possível benefício de finasterida, mas uma revisão sistemática sobre terapias antiandrogênicas encontrou apenas um ensaio randomizado cruzado e sete séries de casos para o conjunto dessas terapias e concluiu que os dados não permitem recomendação robusta baseada em evidências.
Os inibidores da 5-alfa-redutase também foram estudados experimentalmente em transtornos neuropsiquiátricos. Uma revisão sistemática sobre antiandrógenos no transtorno obsessivo-compulsivo identificou apenas cinco estudos, dos quais somente um era randomizado; os autores classificaram a evidência como de baixa qualidade e insuficiente para orientar a prática clínica.