A glicoforina C (GPC), codificada pelo gene GYPC no cromossoma 2, é uma sialoglicoproteína transmembranar fundamental para a estabilidade estrutural e para a deformabilidade dos eritrócitos humanos. Embora seja menos abundante na membrana eritrocitária do que as glicoforinas A e B, a sua importância biológica reside na sua capacidade única de atuar como uma ponte de ligação mecânica entre a bicamada lipídica e o citoesqueleto subjacente. Esta ligação ocorre na face citoplasmática através do domínio C-terminal da proteína, que interage diretamente com a proteína 4.1R e com a fosfoproteína p55, integrando um complexo ternário que ancora a membrana à rede de espectrina e actina. A ausência ou disfunção genética desta glicoproteína, como se observa no fenótipo raro de Leach, compromete a integridade celular e resulta em eliptocitose hereditária, uma condição em que os glóbulos vermelhos perdem a sua forma bicôncava normal e se tornam ovais e mecanicamente frágeis. Além disso, o domínio extracelular da glicoforina C exibe os determinantes antigénicos do sistema de grupos sanguíneos de Gerbich e funciona como o recetor de superfície específico para a proteína EBA-140 do Plasmodium falciparum, o parasita responsável pela forma mais grave de malária. Mutações naturais que eliminam os locais de ligação nesta proteína conferem proteção contra a invasão do parasita, demonstrando a forte pressão seletiva exercida pela doença em certas populações. Em termos de diagnóstico e patologia humana geral, a glicoforina C também assume relevância fora do sistema hematopoiético, servindo como um biomarcador histológico crucial para identificar e quantificar a hemorragia interna da placa em lesões ateroscleróticas avançadas, o que ajuda a prever a vulnerabilidade de placas arteriais e o risco de eventos cardiovasculares agudos.