George Padmore

George Padmore
Nome completoMalcolm Ivan Meredith Nurse
Pseudônimo(s)George Padmore
Nascimento28 de junho de 1903
Arouca/Tacarigua, Trinidad e Tobago (então colônia britânica)
Morte23 de setembro de 1959 (56 anos)
Londres, Inglaterra
NacionalidadeTrinitário-tobagense (súdito britânico)
EducaçãoTranquility School e St. Mary's College (Trinidad); Fisk University e Howard University (EUA)
Ocupaçãojornalista, escritor, ativista político do Partido Comunista, teórico pan-africanista

Malcolm Ivan Meredith Nurse (Arouca, 28 de junho de 1903 — Londres, 23 de setembro de 1959), conhecido pelo pseudônimo George Padmore, foi um jornalista, escritor e ativista político de Trinidad e Tobago. Dedicou sua carreira à organização política dos trabalhadores negros e à causa da libertação dos povos africanos do domínio colonial europeu. Sua atuação política esteve inicialmente relacionada ao internacionalismo comunista soviético e, a partir de meados da década de 1930, passou a organizar-se como comunista pan-africanista independente da Internacional Comunista. Por fim, durante a Guerra Fria, contrapôs a causa pan-africanista ao comunismo internacional, onde explicitou suas posições anticomunistas.

George Padmore é considerado um dos principais pensadores da emancipação africana e representa um vínculo entre o radicalismo negro atlântico das décadas de 1920 e 1930 e os movimentos de libertação nacional africana do pós-Segunda Guerra Mundial. Como homenagem ao seu legado político, suas cinzas foram sepultadas no Castelo de Christiansborg, em Acra, sede do governo de Gana.

Primeiros anos

Padmore nasceu em Arouca, em Trinidad, então colônia britânica nas Índias Ocidentais, em 28 de junho de 1903. Sua família pertencia à chamada "classe média negra" local. A ascendência familiar de George Padmore remonta à África Ocidental; seu bisavô paterno foi um guerreiro asante que, após ser capturado em combate, foi traficado como escravizado para Barbados, colônia onde nasceu seu avô. Seu pai, James Hubert Alfonso Nurse, exercia a profissão de professor local, casou-se com Anna Susanna Symister, uma naturalista de Antígua.

George Padmore Iniciou seus estudos na Tranquility School, em Porto de Espanha, ingressando posteriormente no St. Mary's College em 1914, onde permaneceu por dois anos. Em 1918, concluiu a educação secundária na Pamphylian High School. Após a graduação, atuou por um período como repórter na Trinidad Publishing Company. Em 1924, emigrou para os Estados Unidos com o objetivo de cursar Medicina na Universidade Fisk, localizada no estado do Tennessee. No mesmo ano, casou-se com Julia Semper, que posteriormente se juntou a ele em território americano. O casal teve uma filha, Blyden Elsie Nurse Cowart. , nascida em 1925, que permaneceu temporariamente no país de origem. O nome da criança foi uma escolha para homenagear o intelectual e nacionalista pan-africano Edward Wilmot Blyden. Padmore também frequentou a Universidade de Nova Iorque, transferindo-se mais tarde para a Universidade Howard. Não concluiu o curso, por causa de seu envolvimento político, neste período, tornou-se militante antirracista em um país sob as leis Jim Crow . Durante o período universitário, Padmore ingressou no Partido Comunista dos Estados Unidos (então denominado Partido dos Trabalhadores).

Ativismo político e carreira profissional

Comunismo internacional (1927–1934)

Em 1927, Padmore filiou-se ao Partido Comunista dos Estados Unidos, iniciando uma trajetória no movimento comunista internacional. Nos EUA, editou publicações do partido no Harlem, como o Negro Champion (depois Liberator). Em 1929, foi enviado à União Soviética, onde passou a atuar diretamente nas estruturas da Comintern e na Internacional Sindical Vermelha. Nesse período, também lecionou sobre questões coloniais na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente. Seus primeiros anos de atuação política se concentraram, assim, no interior das organizações internacionais vinculadas ao movimento comunista soviético.

A partir de 1930, Padmore se concentrou na organização comunista dos trabalhadores negros. Na Conferência Internacional de Trabalhadores Negros, realizada em Hamburgo em julho de 1930, tornou-se secretário do recém-criado Comitê Sindical Internacional dos Trabalhadores Negros (CSITN; ou ITUCNW, na sigla em inglês), vinculado à Internacional Sindical Vermelha. Em 1931, publicou em Londres o texto The Life and Struggles of Negro Toilers para o CSITN. No mesmo ano, transferiu-se para Hamburgo, onde assumiu a direção da edição do The Negro Worker, publicação do CSITN destinada à organização dos trabalhadores negros nos territórios coloniais e nos países capitalistas. O CSITN possuía membros em diferentes partes do mundo e mantinha atividades em regiões onde organizações trabalhistas e nacionalistas eram frequentemente proibidas pelas autoridades coloniais. Padmore realizou viagens clandestinas por territórios coloniais africanos e por diferentes países europeus, buscando estabelecer contatos com organizações de trabalhadores e movimentos anticoloniais. Sua atuação estava relacionada à tentativa de inserir a luta contra o racismo e o colonialismo em uma perspectiva internacionalista e de classe.

A ameaça do nazifascismo, no contexto da ascensão de Hitler ao poder em 1933, levou Padmore a ser preso e depois extraditado para a Inglaterra e para a França. No mesmo período, a URSS reorientou sua política internacional, buscando estabelecer alianças diplomáticas com Estados ocidentais, formalizada pelo Comintern em 1935 na política de frentes populares contra o avanço do nazifascismo - diferenciando-se da política anterior de duro posicionamento frente à questão colonial. A busca da União Soviética por uma frente internacional contra a Alemanha nazista trouxe novas reflexões no contexto de atuação de Padmore: a mobilização conjunta poderia significar para os povos colonizados a aliança às mesmas potências imperialistas ocidentais que eram responsáveis pela dominação colonial de grande parte da África e da Ásia ou pela vigência das Leis Jim Crown segregacionistas dos EUA, um dos países mais reconhecidos pelo seu racismo. Nesse contexto, Padmore, passando a discordar publicamente dessa nova orientação, renuncia ao cargo no CSITN em setembro de 1933, logo após ser deportado para a Inglaterra pelo regime nazista. Em fevereiro de 1934, foi expulso da Internacional Comunista e do Partido Comunista dos Estados Unidos sob a acusação de desvio nacionalista pequeno-burguês. O CSITN ainda teve uma última luta de solidariedade quando se envolveu em defesa da Etiópia depois do ataque da Itália fascista em outubro de 1935, porém às vésperas da Segunda Guerra Mundial o CSITN e sua publicação oficial The Negro Worker praticamente não existia mais, sendo extintos em 1937.

Londres e o pan-africanismo (1934–1945)

A placa azul de George Padmore, localizada na 22 Cranleigh Street em Londres, celebra o legado do jornalista e ativista como um dos principais articuladores do movimento pan-africanista mundial. Instalada em 2011 pela Nubian Jak Community Trust, a honraria marca a residência onde Padmore viveu entre 1941 e 1957.

George Padmore ingressou no radicalismo em Londres a partir de 1934–1936, tornando-se o centro de um círculo radical de intelectuais pan-africanistas que incluía seu amigo de infância C. L. R. James. Publicou então duas obras fundamentais: How Britain Rules Africa (1936), uma denúncia sistemática do colonialismo britânico no continente africano, e Africa and World Peace (1937).

Em 1937, fundou, junto com James e I. T. A. Wallace-Johnson, o International African Service Bureau (IASB); organização que coordenaria a militância anticolonial de africanos e caribenhos residentes na Grã-Bretanha. Ao longo desse período, Padmore manteve intensa produção jornalística, publicando regularmente em veículos afro-americanos como o Chicago Defender, o Pittsburgh Courier e a revista The Crisis, além de periódicos britânicos, caribenhos e do oeste africano.

Quinto Congresso Pan-Africano e a reorientação ideológica

A expulsão de Padmore ao Partido Comunista dos EUA não significou naquele momento uma rejeição à União Soviética, pois ele considerava a experiência soviética relevante para a emancipação dos povos submetidos ao colonialismo. Em 1941, após a invasão da União Soviética pela Alemanha nazista, publicou o artigo A atitude dos socialistas diante da invasão da União Soviética, no qual defendeu a necessidade de apoiar militar e politicamente a URSS contra o nazismo. Isso seria um dever de todos os trabalhadores inclusive porque a expansão do projeto racial e imperialista nazista poderia atingir os povos colonizados. Em 1944, o IASB fundiu-se com outras organizações para formar a Pan-African Federation (PAF), da qual Padmore foi o principal articulador. Ao lado de W. E. B. Du Bois, foi um dos organizadores centrais do Quinto Congresso Pan-Africano, realizado em Manchester em 1945. Para o historiador Pablo de Oliveira de Mattos, o congresso marcou a passagem de um pan-africanismo de encontros entre elites intelectuais da diáspora para um movimento político-ideológico voltado à mobilização das massas africanas e à libertação do continente. Kwame Nkrumah, Nnamdi Azikiwe e Jomo Kenyatta, que depois liderariam processos de independência, estavam entre os participantes. Para o historiador, Juan Francisco Martínez Peria, o congresso formulou um programa anticolonial e antirracista e catalisou o processo de emancipação na África e no Caribe. Desse modo, o congresso consolidou-se como um marco fundador das lutas anticoloniais do pós-Segunda Guerra Mundial e e nele conheceu o jovem estudante ganense Kwame Nkrumah

Em 1946, uma nova publicação com a colaboração de sua companheira Dorothy Pizer reafirmou seu respeito pela postura soviética: o livro How Russia Transformed Her Colonial Empire: A Challenge to the Imperialist Powers apresentava uma interpretação favorável da política soviética de nacionalidades e de transformação do antigo Império Russo, destacando as diferenças em relação aos impérios coloniais europeus. Ele também elogiou a política soviética de desenvolvimento e alfabetização de povos colonizados, posição que lhe rendeu críticas de antigos aliados socialistas britânicos e norte-americanos.

Após seu retorno à Costa do Ouro (atual Gana) em 1947, Padmore passou efetivamente a assessorar Nkrumah a partir de suas posições políticas, que no desenrolar da Guerra Fria se direcionaram progressivamente ao Nacionalismo africano e ao Pan-africanismo não associados ao Internacionalismo proletário. Esse deslocamento acentuou-se no marco de uma publicação em 1956: Pan-Africanism or Communism? The Coming Struggle for Africa. Na obra, Padmore apresentou uma oposição explícita entre o nacionalismo pan-africano e o comunismo internacional. A defesa da libertação africana e da construção de Estados africanos deveria ocorrer sem orientação às grandes potências, incluindo as orientações ligadas à URSS através do modelo comunista soviético. Padmore passou a formular críticas abertas ao marxismo e ao comunismo soviético. No mesmo texto (Pan-Africanism or Communism? The Coming Struggle for Africa), afirmou que a única maneira de deter o comunismo na Ásia e na África seria por uma alternativa a um nacionalismo dinâmico com um tipo de programa socialista de industrialização capaz de conter essa expansão do comunismo. Após a independência de Gana em 1957, Padmore mudou-se para Acra a convite de Nkrumah, passando a atuar como conselheiro para assuntos africanos do novo governo.

Vida Pessoal

A vida pessoal de George Padmore foi profundamente entrelaçada com sua militância. Em 1937, após um primeiro casamento com Julia Semper, Padmore conheceu em Londres Dorothy Pizer, uma secretária do East End de origem operária judaica, filha de um alfaiate e militante do Partido Comunista da Grã-Bretanha. Pizer tornou-se, a partir do final da Segunda Guerra Mundial, companheira, colaboradora intelectual e sustento financeiro de Padmore, embora o casal nunca se tenha casado formalmente. Pizer datilografou manuscritos de Padmore e de C. L. R. James, colaborou diretamente na redação de How Russia Transformed Her Colonial Empire (1946) e desempenhou papel central na vida doméstica e política do casal. Entre 1941 e 1957, o casal viveu em um apartamento em Cranleigh Houses, no bairro londrino de Somers Town, que se tornou um verdadeiro centro de encontro para nacionalistas africanos e caribenhos, como Jomo Kenyatta, principal líder nacionalista do Quênia e seu primeiro presidente. . Além dos encontros, muitas foram as correspondências trocadas entre Padmore, Richard Wright e W. E. B. Du Bois.

O Castelo de Osu, historicamente conhecido como Forte de Christiansborg ou Castelo de Christiansborg, é uma fortificação colonial localizada em Osu, na região de Greater Accra, no atual Gana, no litoral da África Ocidental.

Morte

George Padmore faleceu em Londres em 23 de setembro de 1959, aos 56 anos, em decorrência de complicações de cirrose hepática, pouco tempo depois de ter aceitado o convite de Kwame Nkrumah para se estabelecer definitivamente em Gana. Em reconhecimento à sua contribuição para a independência africana, o governo de Nkrumah decidiu depositar suas cinzas no Castelo de Christiansborg, em Acra, onde, na ocasião, funcionava a sede do poder executivo ganense. Essa honra incomum concedida a um estrangeiro simbolizava o quanto Padmore havia sido incorporado ao panteão dos fundadores da nação.

Homenagens póstumas e legado

George Padmore não recebeu, em vida, condecorações oficiais ou prêmios acadêmicos, tendo sua trajetória sido a de um militante e jornalista independente, frequentemente à margem das instituições estabelecidas. Suas principais "honrarias" foram, portanto, póstumas e de caráter memorial, refletindo o reconhecimento que os movimentos de independência africana lhe conferiram:

A Biblioteca de Pesquisa George Padmore (em inglês: George Padmore Research Library) é uma instituição pública e centro de documentação localizada no bairro de Osu, em Acra, Gana.

Recepção da obra

O Instituto George Padmore foi criado em 1991 por um grupo de pessoas ligadas à New Beacon Books, a primeira editora e livraria negra da Grã-Bretanha. Desde sua fundação em 1966, a New Beacon Books, liderada por seu fundador John La Rose, tem trabalhado de perto e apoiado muitas iniciativas educacionais, culturais e políticas na comunidade negra e na sociedade em geral na Grã-Bretanha e no exterior.

O historiador Pablo de Oliveira de Mattos propõe reparar o silêncio da historiografia sobre Padmore e situá-lo ao lado de W. E. B. Du Bois e Frantz Fanon, Léopold Senghor e Aimé Césaire,entre os intelectuais que pensaram e agiram pela emancipação africana. Peria, por sua vez atribui esse silêncio ao eurocentrismo e ao que chama de racismo epistêmico. Mattos observa ainda que historiadores do Império Britânico como John Darwin e Ronald Hyam não mencionam Padmore nem a questão racial, e sugere que o diálogo com intelectuais negros como ele permitiria analisar melhor o papel do racismo no império.

De acordo com estudos de historiadores como Mattos e Christian Hogsbjerg, as ideias de Padmore ajudaram a acabar com o domínio colonial no mundo e transformaram a história política africana. George Padmore foi um grande mentor de Kwame Nkrumah, líder da independência de Gana, e transformou teorias que aprendeu em Moscou para criar o conceito de "socialismo pan-africano", uma visão que defendia primeiro a conquista da independência política dos países para, depois, construir uma sociedade com esse novo tipo de socialismo.

Ao mesmo tempo, a trajetória de Padmore não está isenta de controvérsias. Sua ruptura com o Comintern em 1933–1934, seguida de um oposição ao comunismo cada vez mais assertiva, expressa em Pan-Africanism or Communism? (1956), tem sido lida por alguns pesquisadores como uma guinada estratégica em parte determinada pelo contexto da Guerra Fria. Historiadores como Bill Schwarz também têm chamado atenção para a tensão entre a vida pública de Padmore como grande intelectual anticolonial negro e suas relações pessoais com mulheres brancas inglesas, notadamente Nancy Cunard e Dorothy Pizer, um aspecto que esclarece as complexas dinâmicas raciais da Londres colonial e pós-colonial em que viveu.

Por fim, uma linha crítica de historiografia feminista tem apontado o apagamento histórico de Dorothy Pizer na obra de Padmore cujo nome raramente aparece ao lado do dele nas homenagens públicas, a própria placa comemorativa em Londres, por exemplo, não menciona seu nome.

O reconhecimento de sua trajetória, portanto, consolidou-se postumamente por meio da preservação de seu acervo e da criação de instituições memoriais em Gana e no Reino Unido, reafirmando sua relevância historiográfica para o estudo do anticolonialismo e das migrações da diáspora africana no século XX.

Principais obras

As principais obras de George Padmore são:

Ver também

Referências

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