Ilafe

Ilafe (em árabe: الإيلاف; romaniz.: al-īlāf) foi a designação dada a um conjunto de pactos comerciais e de segurança associados aos coraixitas de Meca no período anterior ao islã. O termo, que pode assumir sentidos como "pacto", "acordo", "proteção" ou "salvo-conduto", aparece duas vezes na sura Coraixe, em associação às viagens comerciais de inverno e verão realizadas pelos coraixitas. Embora o significado preciso das duas ocorrências corânicas seja discutido, nas fontes históricas e lexicográficas o ilafe passou a designar particularmente os acordos que garantiam aos mercadores de Meca acesso a mercados estrangeiros e segurança ao longo das rotas comerciais. A tradição atribui a organização desses acordos aos quatro filhos de Abede Manafe ibne Cuçai, conhecidos como Companheiros do Ilafe (em árabe: أصحاب الإيلاف; romaniz.: Aṣḥāb al-Īlāf). Haxime ibne Abede Manafe teria obtido garantias comerciais junto ao Império Bizantino, Abede Xemece na Abissínia, Almotalibe no Iêmem e Naufal no Império Sassânida. A esses entendimentos somavam-se pactos de não agressão com as tribos estabelecidas ao longo das rotas, permitindo aos coraixitas realizar regularmente viagens comerciais de longa distância. A formação do ilafe é relacionada pelas fontes à expansão do comércio de Meca e, em algumas tradições, a períodos de escassez que levaram os coraixitas a buscar mantimentos em outras regiões. Os relatos divergem, contudo, sobre se Haxime inaugurou as viagens sazonais ou retomou uma prática anteriormente abandonada, e a cronologia dos primeiros acordos não pode ser estabelecida com segurança. Apesar dessas incertezas, o ilafe é apresentado pelas fontes como um dos mecanismos que permitiram articular o comércio coraixita às rotas da Síria, Iêmem, Abissínia, Iraque e outras regiões da Arábia antes do surgimento do islã.

Etimologia e menção no Alcorão

O termo ilafe (em árabe: إيلاف; romaniz.: īlāf) possui em árabe sentidos relacionados a "familiarização", "aproximação", "pacto", "acordo" e "garantia concedida mediante solicitação", tendo adquirido na tradição histórica uma acepção específica para designar os acordos comerciais e de segurança atribuídos aos coraixitas no período anterior ao islã. Os lexicógrafos árabes explicaram o termo por conceitos como ahd, dimame e amane, relacionados a pacto, proteção e salvo-conduto, e registraram a expressão akhadha al-īlāf, "concluir um ilafe". As fontes empregam ocasionalmente, com sentido semelhante, os termos habl e isam. A palavra ocorre duas vezes no início da sura Coraixe, que por essa razão também é conhecida como "sura do Ilafe". Os primeiros versículos associam o ilafe dos coraixitas às suas viagens de inverno e verão, antes de exortá-los a adorar o Senhor da Caaba, que os havia protegido da fome e do medo. A interpretação exata da passagem, contudo, apresenta dificuldades antigas. A própria leitura do termo variou entre īlāf, ilāf e ilf, enquanto a construção iniciada pela preposição li- recebeu diferentes explicações. Além disso, não é certo que as duas ocorrências da palavra possuam exatamente a mesma função: a primeira pode designar o ilafe dos coraixitas como instituição ou condição estabelecida, enquanto a segunda pode ter sentido verbal relacionado à organização regular das viagens comerciais de inverno e verão.

A relação entre a sura e a precedente também foi objeto de interpretação. No códice atribuído a Ubai ibne Cabe, a sura Coraixe não aparecia separada da sura Al-Fil (lit. "o Elefante"), que relata a destruição dos Companheiros do Elefante. Nessa disposição, a referência ao ilafe podia ser entendida como continuação direta do relato anterior, ligando a proteção divina de Meca à segurança e à prosperidade comercial dos coraixitas. Na tradição exegética posterior, os versículos foram associados às condições materiais que possibilitavam suas viagens mercantis e à segurança proporcionada pela posição religiosa de Meca e da Caaba. A referência à proteção contra a fome também levou à interpretação de que a passagem poderia aludir a um período de escassez superado mediante a importação de mantimentos possibilitada pelos acordos comerciais. Embora o significado preciso das ocorrências corânicas permaneça discutido, nas fontes históricas e lexicográficas ilafe passou a designar especificamente os pactos pelos quais os coraixitas obtinham garantias de segurança para suas atividades mercantis. Esses acordos abrangiam tanto entendimentos com poderes estrangeiros, que lhes permitiam comerciar em seus territórios, quanto garantias de não agressão negociadas com as tribos situadas ao longo das rotas percorridas pelas caravanas.

Formação e funcionamento

As fontes árabes atribuem o estabelecimento dos pactos conhecidos como ilafe ao período de Haxime ibne Abede Manafe, numa época em que as atividades mercantis dos coraixitas teriam começado a ultrapassar de maneira regular os limites de Meca. Segundo a tradição preservada por Maomé ibne Habibe, durante um período de escassez Haxime viajou à Síria com objetivos comerciais e obteve do imperador bizantino uma garantia que permitia aos mercadores mecanos entrar nos territórios do Império Bizantino e comerciar em segurança. Para persuadi-lo, teria argumentado que os coraixitas poderiam fornecer a preços favoráveis produtos confeccionados com couros e tecidos do Hejaz. O imperador teria ainda escrito ao Negus para solicitar que os mercadores de Meca recebessem permissão semelhante para comerciar na Abissínia. A segurança oferecida pelos governantes estrangeiros constituía apenas uma parte do sistema. No caminho de regresso, Haxime teria negociado também garantias de não agressão com as tribos estabelecidas ao longo da rota. Em contrapartida, os comerciantes coraixitas comprometiam-se a transportar as mercadorias dessas tribos aos mercados bizantinos, vendê-las e entregar-lhes o produto das vendas sem cobrar comissão. Dessa forma, o ilafe combinava o acesso aos mercados externos com a obtenção de salvo-condutos ao longo das rotas terrestres e associava os interesses econômicos das populações atravessadas aos das caravanas de Meca. A Encyclopaedia of Islam caracteriza igualmente o ilafe como um pacto destinado a garantir segurança, salvo-conduto e proteção e considera que a tradição acerca dos acordos comerciais dos coraixitas pode conservar um fundamento histórico.

Companheiros do Ilafe

A ampliação dessa rede é atribuída aos quatro filhos de Abede Manafe ibne Cuçai, conhecidos coletivamente como Companheiros do Ilafe (em árabe: أصحاب الإيلاف; romaniz.: Aṣḥāb al-Īlāf). Além de Haxime, a quem era atribuído o acordo com o Império Bizantino, Abede Xemece teria obtido garantias comerciais na Abissínia, Almotalibe no Iêmem e Naufal no Império Sassânida. Em suas viagens de regresso, os irmãos teriam negociado também pactos de não agressão com as tribos situadas ao longo das respectivas rotas. A combinação desses acordos possibilitou aos mercadores coraixitas circular entre diferentes regiões da Península Arábica e os grandes mercados circundantes, conferindo dimensão internacional ao comércio de Meca. As viagens comerciais passaram a ser associadas a um ciclo sazonal mencionado também na sura Coraixe: no inverno, as caravanas dirigiam-se principalmente para o sul, em direção ao Iêmem e à Abissínia, enquanto no verão seguiam para o norte, em direção à Síria e aos territórios bizantinos. A tradição relaciona a própria trajetória dos Companheiros do Ilafe a essas redes de longa distância. Haxime teria morrido em Gaza durante uma viagem comercial, Almotalibe em Redemã, no Iêmem, e Naufal em Salmã, no Iraque. A datação da formação desse sistema permanece incerta. Muhammad Hamidullah propôs situar os primeiros pactos em 467, baseando-se numa reconstrução cronológica segundo a qual Abede Almotalibe teria nascido um ano depois da obtenção do acordo de Haxime com os bizantinos e morrido em 578 aos 110 anos de idade. A Encyclopaedia of Islam, embora considere possível que a tradição sobre os pactos preserve acontecimentos históricos, observa que a idade atribuída a Abede Almotalibe parece consideravelmente exagerada e, por isso, entende que a celebração dos acordos provavelmente deve ser situada algumas décadas depois da data proposta por Hamidullah.

Rotas e comércio

O sistema do ilafe inseria-se numa rede comercial mais ampla que ligava Meca tanto aos mercados exteriores da Península Arábica quanto às feiras realizadas em diferentes regiões da própria península. Segundo a tradição, os pactos associados aos filhos de Abede Manafe possibilitaram aos coraixitas realizar regularmente duas grandes viagens sazonais: durante o inverno, as caravanas dirigiam-se ao Iêmem e à Abissínia, enquanto no verão seguiam para a Síria e os territórios do Império Bizantino. A regularidade dessas viagens é tradicionalmente relacionada à expressão corânica sobre a "viagem de inverno e de verão", embora a interpretação filológica da passagem não permita identificar de maneira inequívoca o sentido do termo ilafe com a própria organização das caravanas. As atividades dos coraixitas não se limitavam a essas duas grandes rotas. Informações atribuídas a Ibne Alcalbi sobre as feiras anuais da Arábia indicam a existência de um circuito comercial regular no qual mercadores de Meca participavam de mercados distribuídos por diferentes partes da península. Entre os centros frequentados encontravam-se Dumate Aljandal, ao norte; Barém e Omã, a leste; e Hadramaute e o Iêmem, ao sul. Os coraixitas ocupavam posição particularmente importante na feira de Ucaz, realizada nas proximidades de Meca e considerada uma das principais feiras da Arábia pré-islâmica. Essas feiras integravam um circuito comercial pelo qual os mercadores se deslocavam entre diferentes mercados da península ao longo do ano.

A segurança das viagens dependia não apenas dos acordos celebrados com governantes estrangeiros, mas também das relações estabelecidas com as tribos cujos territórios eram atravessados. Os pactos de não agressão associados ao ilafe permitiam às caravanas circular pelas rotas e integravam economicamente essas populações ao comércio coraixita. Segundo a tradição referente a Haxime, no retorno da viagem em que obteve garantias para o comércio em território bizantino, Haxime conseguiu também garantias de não agressão das tribos situadas ao longo do caminho. Em contrapartida, os comerciantes coraixitas transportariam as mercadorias dessas tribos aos mercados bizantinos, venderiam-nas e lhes entregariam o produto das vendas sem cobrar comissão. A circulação comercial estava também relacionada ao calendário religioso da Arábia. Os meses sagrados, durante os quais vigoravam restrições tradicionais aos conflitos, tinham particular importância para as viagens comerciais e para o funcionamento das feiras. Algumas famílias coraixitas beneficiavam-se ainda da instituição conhecida como besl, pela qual podiam circular sem serem molestadas durante oito meses do ano. Se esses oito meses correspondiam aos meses restantes além dos quatro meses sagrados, como interpreta Hamidullah, tais garantias possibilitariam aos beneficiários viajar pela Arábia durante todo o ano. As fontes registram também contatos comerciais em sentido inverso, com mercadores estrangeiros dirigindo-se a Meca. Em uma tradição relativa a um período de fome, comerciantes abissínios chegaram à cidade com suas mercadorias, mas foram saqueados por jovens mecanos. Temendo que o episódio provocasse o rompimento das relações comerciais com a Abissínia, os coraixitas teriam enviado uma delegação ao Negus para apresentar desculpas, deixando alguns de seus membros como reféns. O soberano teria tratado bem os reféns e posteriormente enviado novas mercadorias a Meca.

Tradições sobre a origem

As fontes árabes preservam versões diferentes sobre as circunstâncias em que o ilafe e as viagens comerciais sazonais dos coraixitas teriam surgido. Em todas elas, Haxime ocupa posição central, mas os relatos divergem quanto a saber se foi responsável pela criação das viagens de inverno e verão, pela retomada de um costume anteriormente abandonado ou, mais especificamente, pela obtenção das garantias que permitiram ampliar e assegurar o comércio de longa distância. A Encyclopaedia of Islam trata igualmente a tradição sobre os pactos como possivelmente baseada em acontecimentos históricos, mas ressalta as dificuldades para determinar sua cronologia com precisão. Segundo uma tradição transmitida por Ibne Habibe, os coraixitas já estavam habituados a realizar anualmente uma viagem comercial ao Iêmem durante o inverno e outra à Síria durante o verão, mas acabaram por abandonar essa prática. Comerciantes de Tabala, da Abissínia e das regiões costeiras do Iêmem passaram então a levar suas mercadorias diretamente às proximidades de Meca. Os que viajavam por terra comerciavam em Almuassabe, também conhecido como Abeta, enquanto os que chegavam por mar desembarcavam suas mercadorias em Gidá. Os mecanos deixaram assim de realizar as duas longas viagens anuais. Depois de sucessivos anos de fome, contudo, suas reservas se esgotaram e Haxime teria sido obrigado a retomar a viagem à Síria.

Outra tradição, atribuída a Ibne Sade, apresenta Haxime não como restaurador, mas como iniciador das viagens comerciais de inverno e verão dos coraixitas. Atabari, por sua vez, relaciona suas atividades mercantis diretamente à escassez em Meca e relata que Haxime trouxe farinha de trigo da Palestina, com a qual mandou preparar pão na cidade. Essas versões aproximam a formação ou expansão das rotas comerciais da necessidade de assegurar o abastecimento de Meca durante períodos de carestia, aspecto que também foi relacionado à referência da sura Coraixe ao Deus que alimentou os coraixitas contra a fome. A Encyclopaedia of Islam considera, nesse sentido, possível que a sura preserve uma alusão a uma crise de abastecimento superada mediante a obtenção de provisões estrangeiras possibilitada pelos acordos comerciais.

As tradições divergem também quanto à continuidade dos pactos após a morte de Haxime. Aliacubi relata que os coraixitas, temendo que outros grupos árabes passassem a prevalecer sobre eles depois de sua morte, enviaram Abede Xemece à Abissínia para renovar o acordo ali existente. Apesar das diferenças entre os relatos, a tradição historiográfica associa de maneira consistente o ilafe à transformação das atividades mercantis dos coraixitas e, particularmente, à atuação dos filhos de Abede Manafe. O elemento comum não é uma narrativa única sobre a criação das viagens sazonais, mas a atribuição a Haxime e seus irmãos da obtenção de acordos com governantes estrangeiros e tribos das rotas que permitiram aos comerciantes de Meca ampliar suas atividades para além do Hejaz.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 Hamîdullah 2000, p. 63.
  2. 1 2 3 4 5 6 7 8 Pellat 1986, p. 1093.
  3. 1 2 3 Hamîdullah 2000, pp. 63–64.
  4. 1 2 3 4 Hamîdullah 2000, p. 64.

Bibliografia