Ubai ibne Cabe (em árabe: أبي بن كعب; romaniz.: Ubayy ibn Kaʿb; Iatrebe, c. final do século VI — Medina, entre 640 e 656) foi um companheiro do profeta islâmico Maomé, pertencente ao ramo dos najaritas da tribo dos cazerajitas. Figura de destaque entre os ançares, converteu-se ao islã antes da Hégira e participou do Segundo Pacto de Ácaba, tornando-se posteriormente o primeiro muçulmano medinense a atuar como escriba da revelação. Exerceu também as funções de secretário da correspondência de Maomé, leitor oficial do Alcorão e instrutor de novos convertidos e delegações enviadas a Medina. Reconhecido pela tradição islâmica como um dos maiores conhecedores do Alcorão, recebeu de Maomé o epíteto de sayyid al-qurrāʾ ("senhor dos recitadores"), sendo frequentemente citado entre os companheiros dos quais os muçulmanos deveriam aprender a recitação do texto sagrado. Participou da preservação escrita da revelação durante a vida do profeta e colaborou tanto na primeira compilação do Alcorão, realizada sob o califa Abu Becre (r. 632–634), quanto na preparação dos códices oficiais promovida pelo califa Otomão (r. 644–656). Além de recitador e escriba, destacou-se como exegeta, jurisconsulto e transmissor de hádices, figurando entre os principais mestres da primeira geração islâmica. Seu códice particular do Alcorão, conhecido como Muçafe de Ubai, preservou variantes de leitura e uma organização das suras parcialmente distinta da versão posteriormente canonizada, tornando-se objeto de amplo interesse na história da formação do texto corânico e da tradição das leituras canônicas.
Ubai ibne Cabe nasceu em Iatrebe, posteriormente denominada Medina, em data desconhecida, provavelmente no final do século VI. Pertencia aos najaritas, um ramo da tribo dos cazerajitas, sendo filho de Cabe ibne Caice e de Suaila binte Açuade. Antes da conversão ao islã, aprendeu a ler e escrever, habilidade incomum na Arábia ocidental da época, e, segundo a tradição, manteve contato com os judeus de Iatrebe, estudando a Torá e tomando conhecimento das expectativas acerca da vinda de um novo profeta. Após o Primeiro Pacto de Ácaba, converteu-se ao islã por intermédio de Muçabe ibne Omeir, enviado por Maomé para instruir os novos muçulmanos de Iatrebe. No ano seguinte, participou do Segundo Pacto de Ácaba, consolidando a aliança entre os habitantes da cidade e a comunidade islâmica nascente. Depois da Hégira, Maomé estabeleceu laços de fraternidade entre os emigrados de Meca e os muçulmanos de Medina, associando Ubai, segundo diferentes tradições, a Talha ibne Ubaide Alá ou a Saíde ibne Zaíde. Tornou-se o primeiro muçulmano medinense a exercer a função de escriba da revelação, registrando por escrito os versículos do Alcorão à medida que eram revelados. Paralelamente, atuou como secretário da correspondência de Maomé, lendo as cartas que lhe eram dirigidas e redigindo as respostas enviadas em seu nome. Segundo o relato preservado por Muhammad Hamidullah, passou a concluir esses documentos com a fórmula "Escrito por Ubai ibne Cabe", inaugurando a prática de os escribas identificarem a autoria material das cartas oficiais. A Encyclopaedia of Islam acrescenta que, na qualidade de secretário de Maomé, memorizava os trechos recém-revelados do Alcorão para recitá-los novamente ao profeta como forma de confirmação, ao mesmo tempo em que redigia tratados e outros documentos oficiais.
Além das atividades administrativas, Ubai participou de todas as gázuas conduzidas por Maomé e de algumas sarias, sendo ferido durante a Batalha da Trincheira. Também foi encarregado de recolher o zacate em determinadas ocasiões. Sua maior notoriedade, contudo, decorreu do profundo conhecimento do Alcorão. Como escriba da revelação, escrevia, memorizava e recitava os versículos recém-revelados perante Maomé, tornando-se um dos mais destacados hafizes entre os companheiros. Recebeu do profeta os epítetos sayyid al-qurrāʾ ("senhor dos recitadores") e sayyid al-anṣār ("senhor dos ançares"), sendo recomendado aos demais muçulmanos como uma das principais autoridades na recitação do Alcorão. Entre os episódios mais conhecidos de sua vida está a ocasião em que Maomé lhe comunicou que Deus lhe ordenara recitar para ele a sura al-Bayyina. Emocionado ao saber que seu nome fora mencionado nesse contexto, Ubai chorou de alegria, episódio preservado nas principais coleções de hádices. Após a morte de Maomé, Ubai permaneceu entre as principais autoridades religiosas de Medina. Depois da Batalha de Iamama, quando a morte de numerosos recitadores do Alcorão despertou preocupação quanto à preservação do texto sagrado, integrou o grupo encarregado de auxiliar Zaíde ibne Tábite na primeira compilação do Alcorão, realizada por determinação do califa Abu Becre (r. 632–634). Em razão de seu prestígio como recitador, passou a ensinar o Alcorão a numerosos companheiros e membros da geração seguinte. Entre seus discípulos figuram Abedalá ibne Abas, Abu Huraira, Abedalá ibne Açaíbe, Abedalá ibne Aiaxe, além dos tabis Abu Abederramão Açulami e Abu Alalia Arriai. Sua cadeia de transmissão passou a integrar a maioria das leituras canônicas do Alcorão, exercendo influência duradoura sobre a tradição da recitação.
Durante o califado de Omar, foi nomeado para dirigir coletivamente as orações de tarawih durante o Ramadã, prática que o califa organizou na Mesquita do Profeta em 14 A.H. (635). Também exerceu funções administrativas, redigindo o acordo celebrado entre Omar e os habitantes de Jerusalém, além de integrar o conselho consultivo do califa e atuar ocasionalmente como juiz. Reconhecido como um dos seis companheiros mais destacados na emissão de fátuas, era frequentemente consultado por Omar para solucionar questões jurídicas e religiosas complexas. No governo de Otomão (r. 644–656), continuou ensinando o Alcorão e participou da comissão encarregada de preparar e multiplicar os códices oficiais destinados aos principais centros do califado. Ao mesmo tempo, sua tradição de recitação permaneceu particularmente influente na Síria, onde seu códice continuou em uso durante algum tempo antes de ser gradualmente substituído pela versão otomânica do texto corânico. Embora as fontes transmitam datas de morte que variam entre 19 (640) e 36 (657), evidências como sua participação na padronização dos códices do Alcorão e outros acontecimentos do califado de Otomão indicam que provavelmente permaneceu vivo até os últimos anos desse governo.
Ubai ibne Cabe é lembrado sobretudo como uma das maiores autoridades corânicas da primeira geração islâmica. A tradição o considerava sayyid al-qurrāʾ ("senhor dos recitadores"), título que refletia sua reputação como o mais destacado recitador do Alcorão entre os companheiros de Maomé. Segundo a tradição preservada na Encyclopaedia of Islam, era conhecido por sua extraordinária capacidade de memorização, conseguindo recitar todo o Alcorão ao longo de oito noites consecutivas. Seu prestígio como mestre da recitação fez com que numerosos companheiros e tabis estudassem sob sua orientação, e sua cadeia de transmissão passou a integrar a maioria das leituras canônicas do Alcorão. Entre as contribuições mais importantes atribuídas a Ubai encontra-se seu muçafe, compilado antes da padronização promovida pelo califa Otomão. De acordo com a Encyclopaedia of Islam, esse códice apresentava diferenças parciais em relação ao texto posteriormente oficializado, tanto na ordem das suras quanto em alguns de seus conteúdos, permanecendo em uso na Síria até ser gradualmente substituído pelo códice otomânico. A tradição também atribui a Omar a observação de que o texto de Ubai apresentava deficiências, embora ele continuasse a reconhecer sua excepcional autoridade como recitador.
A historiografia islâmica posterior, entretanto, distingue entre as variantes genuinamente associadas à tradição de leitura de Ubai e atribuições surgidas em épocas posteriores. Segundo a Enciclopédia Islâmica TDV, o fato de seu muçafe conter as orações do qunut e algumas leituras variantes deu origem a numerosas tradições que lhe atribuíram versículos ou suras inexistentes no texto canônico. Estudos posteriores concluíram que essas passagens não podem ser consideradas parte do Alcorão, tanto por suas características linguísticas e estilísticas quanto pela ausência de transmissão nas leituras canônicas e nas principais coleções de hádices. Da mesma forma, muitas tradições relativas às virtudes de todas as suras, transmitidas em seu nome, foram consideradas espúrias pela crítica islâmica posterior, embora parte das narrativas atribuídas a ele permaneça reconhecida como autêntica. Além de recitador, Ubai destacou-se como exegeta, jurisconsulto e transmissor de hádices. É tradicionalmente contado entre os seis companheiros autorizados a emitir fátuas ainda durante a vida de Maomé e exerceu grande influência sobre a formação da escola exegética de Medina, especialmente por intermédio de discípulos como Abedalá ibne Abas. Também transmitiu cerca de 164 hádices, posteriormente preservados nas principais coleções da tradição islâmica, sendo reconhecido como uma das mais importantes autoridades religiosas da primeira geração muçulmana.