
A gente Júlia (em latim: Iulia; pl. Iulii) era uma das mais antigas gentes patrícias da Roma Antiga, com membros que chegaram aos mais altos cargos da magistratura romana desde os primeiros anos da República. O primeiro a chegar ao consulado foi Caio Júlio Julo em 489 a.C.. Esta gente é, provavelmente, mais conhecida por causa de Júlio César, ditador, tio-avô e pai adotivo do primeiro imperador Augusto, através de quem seu nome passou para a dinastia júlio-claudiana no século I. O nome Júlio (Julius) se tornou muito comum no período imperial, especialmente porque descendentes de pessoas arroladas como cidadãos nos primeiros anos do império começaram a deixar sua marca na história em textos e inscrições.
Os Júlios eram, sem dúvida, de origem albanense e foram mencionados como uma das principais casas albanenses, que Tulo Hostílio removeu para Roma depois da destruição de Alba Longa. Os Júlios também estavam presentes, desde os tempos mais antigos, em Bóvilas, como atesta uma inscrição muito antiga num altar no teatro daquela cidade, que trata de sacrifícios dos Júlios segundo a lege albana ("rito albanense"); a ligação deles com Bóvilas também está implícita no sacrário ("capela") que o imperador Tibério dedicou à gente Júlia na cidade e que ostentava uma estátua do divino Augusto. Não é impossível que alguns Júlios tenham se assentado em Bóvilas depois da queda de Alba Longa.
No período final da República, entrou na moda entre as principais gentes romanas reivindicar uma origem divina e se convencionou que "Julo" (em latim: Iulus), o mítico ancestral dos Júlio, era a Ascânio, o filho de Enéas, o troiano fundador de Alba Longa. Enéas, por sua vez, era filho de Vênus e Anquises. Para provar que Ascânio e Julo eram a mesma pessoa, utilizou-se uma prova etimológica, atestada na obra de Sérvio. Outras tradições defendem que Julo era filho de Enéas com sua esposa troiana, Creusa, enquanto que Ascânio seria filho dele com Lavínia, a filha de Latino.
César frequentemente fazia referência à origem divina de sua gente, como foi o caso no elogio proferida por ele enquanto questor no funeral de sua tia Júlia ou na escolha do epíteto Vênus Generatrix para seus soldados nas batalhas de Farsalos e Munda; escritores e poetas posteriores não hesitaram em aceitar esta crença que exaltava a origem da família imperial.
Apesar das evidências da chegada dos Júlios à Roma na época de Tulo Hostílio, nas lendas, o nome da gente aparece já na época de Rômulo. Foi um tal Próculo Júlio que teria informado o enlutado povo romanos, depois da estranha partida de Rômulo deste mundo, que seu rei havia descido dos céus e aparecido a ele para pedir que o povo o homenageasse no futuro como um deus chamado Quirino. Alguns críticos modernos inferiram deste relato que uns poucos Júlios podem ter se assentado em Roma na época de Roma, mas, considerando a natureza fabulosa de toda esta narrativa e o fato de que a celebridade da gente Júlia no final da República poderia ter facilmente levado à fabricação desta ligação com os primeiros anos da história de Roma, nenhum argumento histórico pode ser construído a partir desta mera citação numa lenda.
No final do período imperial, a distinção entre prenome, nome e cognome foi gradualmente se perdendo e Julius passou a ser entendido como um nome pessoal, no que o termo finalmente se transformou. A forma latina é comum em muitas línguas e, em outras, existem formas similares como Giulio (italiano), Jules (francês), Iuliu (romeno) e Юлий (búlgaro e russo).
Os Júlios do período republicano utilizaram os prenomes Lúcio (Lucius), Caio (Gaius) e Sexto. Há também casos do uso de Vopisco (Vopiscus) e Espúrio (Espurius) nas primeiras gerações da família. O primeiro membro conhecido da gente Júlia aparece nas lendas com o prenome Próculo (Proculus) e não é impossível que este nome tenha sido utilizado por alguns dos primeiros Júlios, mas não se conhece mais nenhum caso. No final da República e no começo do Império, Vopisco e Próculo passaram a ser utilizados como cognomes pessoais.
É possível que Julo (Iulus) tenha sido um antigo prenome já em desuso no início da República e preservado como cognome pelo ramo mais antigo dos Júlios. O nome foi depois revivido como prenome pelo triúnviro Marco Antônio, que teve um filho e um neto chamados Julo. O latim clássico não distingue as letras "I" e "J" e ambas eram escritas utilizando a letra "I", motivo pelo qual o nome também aparece escrito como Iulo ou Julus.
Os muitos "Júlios" do período imperial, que não eram descendentes da gente Júlia, não se limitaram aos prenomes tradicionais da família. A própria família imperial deu o exemplo misturando livremente os prenomes dos Júlios com os dos Cláudios, utilizando títulos e cognomes como prenomes e regularmente alterando seus prenomes para refletir as tendências políticas conjunturais do império.

Os cognomes, equivalente aos sobrenomes familiares dentre os vários ramos da gente, na época republicana eram César (em latim: Caesar), Julo (Iulus) e Libão (Libo). Destes, os dois primeiros eram indubitavelmente patrícios; é certo que as famílias que foram celebradas de maneira particularmente intensa foram estas duas primeiras, a primeira no início da República e a segunda, no final. Em moedas, os únicos nomes encontrados são César e Búrsio, este último presente apenas em moedas.
Julo (Iulus ou Julus) era o sobrenome do ramo mais antigo dos Júlios em Roma. Uma origem nativa do nome talvez possa ser inferida na "De Origo Gentis Romanae", na qual Julo e Ascânio são a mesma pessoa. Descrito como filho de Júpiter, ele seria conhecido originalmente como Jobus e, posteriormente, como Julus. Este nome, por sua vez, estaria associado ao termo Jove, um outro nome utilizado para Júpiter. O "Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology" sugere que Iulus pode ser um diminutivo de Dius, que também estava na raiz de Jove. Além disto, Lívio relata que, depois de sua morte, Enéas, pai de Ascânio, passou a ser adorado como Jupiter Indiges ("Júpiter local") .
Independente da historicidade de Julo na mitologia romana, não há por que duvidar que Iulus era um antigo nome pessoal, possivelmente um prenome e que Iulius é um cognome patronímico baseado nele. Iullus parece ser uma forma mais antiga que Iulus, mais comum, mas os registros com frequência misturam as duas.
O Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology diz o seguinte sobre o cognome César:
| “ | É incerto qual membro da gente Júlia obteve primeiro o sobrenome de Caesar, mas o primeiro a ocorrer na história é Sexto Júlio César, pretor em 208 a.C.. A origem do nome é igualmente incerta. Espartano, em sua biografia de Élio Vero, menciona quatro diferentes opiniões sobre esta origem: 1. Que a palavra significa "elefante" na língua dos mouros e foi dada como um sobrenome a um dos Júlios por ele ter caçado um elefante; 2. Que ele foi dado a um dos Júlios por ele ter sido cortado (caesus) do ventre de sua mãe já morta; 3. Que um Júlio teria nascido com uma grande quantidade de cabelo (caesaries); 4. Que um Júlio tinha olhos azuis (caesii) de uma cor quase sobrenatural. Destas opiniões, a terceira, que foi dada por Festo, parece ser a mais próxima da verdadeira. Caesar e caesaries são termos provavelmente ligados ao termo sânscrito kêsa ("cabelo") e é bastante tradicional entre os romanos que um sobrenome seja dado a um indivíduo de acordo com alguma peculiaridade de sua aparência. A segunda opinão, que parece ter sido a mais popular entre os escritores antigos surgiu, sem dúvida, de uma falsa etimologia. A primeira, que foi a adotada, segundo Espartano, pelos mais eruditos, é impossível ser desacreditada absolutamente pois sabemos quase nada sobre a antiga língua moura, mas não há qualquer probabilidade implícita nela; e a afirmação de Sérvio é indubitavelmente falsa, de que o avô do ditador teria obtido o sobrenome por ter matado um elefante com suas próprias mãos na África pois já existiam muitos Júlios com este sobrenome em sua época. Uma investigação sobre a etimologia deste nome é interessante por que nenhum outro nome obteve tamanha celebridade — "clarum et duraturum cum aeternitate mundi nomen". Ele foi adotado por Augusto como filho adotivo do ditador e foi através de Augusto passado para seu filho adotivo, Tibério. Ele continuou a ser utilizado por Calígula, Cláudio e Nero, membros da família de César por adoção ou pela linha materna; mas, embora a família tenha se extinguido em Nero, os imperadores seguintes mantiveram-no como parte de seus títulos e passou a ser costumeira a prática de prefixá-lo ao seu próprio nome, como, por exemplo, Imperator Caesar Domitianus Augustus. Quando Adriano adotou Élio Vero, ele permitiu que este assumisse o título de Caesar e, a partir daí, embora o título de Augustus continuasse restrito ao príncipe, o de César era também concedido à segunda pessoa [mais importante] do estado e o herdeiro presuntivo do trono. |
” |
A partir do período imperial um número imenso de pessoas assumiram o nome Jùlio, mas não se deve supor que estas pessoas estavam ligadas por descendência de forma alguma à gente Júlia, pois como a família imperial pertencia a esta gente, o nome Júlio se tornou o nome de uma infinidade de libertos. Além disto, uma grande quantidade de pessoas assumiu o nome apenas por vaidade ou ostentação.
Durante o século e meio entre as últimas aparições dos Júlios Julos e a primeira aparição dos Júlios Césares, aparece Lúcio Júlio Libão, cônsul em 267 a.C.. Este sobrenome significa "aspersor", uma derivação do termo latino libare, o que sugere que o significado original pode ter sido uma referência a um aspersor numa libação ou outra cerimônia religiosa. É incerto se o nome era pessoal ou se este cônsul herdou-o de seu pai ou avô, dos quais sabemos apenas o prenome, Lúcio. Alguns estudiosos supõem que Libão descendia dos Júlios Julos e que Lúcio, o pai de Sexto Júlio César, era seu filho, mas as evidências são muito esparsas.




|isbn1= ignorado (ajuda)