Jacques Cartier (Saint-Malo, provavelmente 1491 – Saint-Malo, 1 de setembro de 1557) foi um navegador e explorador francês natural da Bretanha. A serviço do rei Francisco I de França, comandou três expedições ao nordeste da América do Norte entre 1534 e 1542, cartografou partes do golfo de São Lourenço e se tornou o primeiro europeu de que há registro a explorar o rio São Lourenço. Suas viagens forneceram à Coroa francesa conhecimento geográfico e uma base para reivindicar terras que mais tarde fariam parte da Nova França.
Na primeira viagem, Cartier percorreu o golfo, encontrou comunidades mi'kmaq e iroquesas do São Lourenço e ergueu em Gaspé uma cruz com a qual reivindicou o território para o rei da França. Na segunda, subiu o São Lourenço até o local da atual Montreal e passou o inverno perto da atual cidade de Quebec. Os contatos incluíram trocas e auxílio durante uma doença que atingiu a tripulação, mas Cartier também capturou habitantes da região e os levou para a França.
A terceira expedição tentou estabelecer um povoado francês permanente perto da atual cidade de Quebec, mas o projeto enfrentou conflitos, doenças e um inverno rigoroso; Cartier retornou à França em 1542, e os últimos colonos deixaram o assentamento no ano seguinte. Embora não tenham encontrado uma passagem fluvial para a Ásia nem criado uma colônia duradoura, as três viagens abriram aos navegadores franceses uma rota documentada para o interior do continente.
O nome "Canadá", registrado nos relatos das viagens, provavelmente deriva da palavra iroquesa do São Lourenço kanata, "aldeia" ou "povoado", enquanto o nome dado por Cartier ao mont Royal originou o topônimo Montreal. Nenhum mapa ou retrato contemporâneo de Cartier chegou aos nossos dias, mas sua vida e suas expedições são lembradas em monumentos, obras de arte e nomes de lugares no Canadá e na França.
Primeiros anos
Cartier nasceu em Saint-Malo, provavelmente entre 7 de junho e 23 de dezembro de 1491. Nenhum registro de batismo foi encontrado, e a estimativa parte das idades que declarou em documentos posteriores. O Dictionary of Canadian Biography data seu casamento com Catherine Des Granches, filha do condestável da cidade, em 1519. A Parks Canada o situa em 1520. Não se conhecem filhos do casal. Seu nome aparece em mais de vinte registros de batismo de Saint-Malo como padrinho ou testemunha.
Primeira viagem, 1534
Em 1534, dois anos depois da união formal do Ducado da Bretanha à Coroa francesa pelo Édito de União, Jean Le Veneur, bispo de Saint-Malo e abade do Monte Saint-Michel, recomendou Cartier ao rei Francisco I de França. Uma tradição local situa a apresentação no Manoir de Brion, mas as fontes biográficas usadas aqui não documentam o lugar do encontro. O rei já havia convidado o florentino Giovanni da Verrazzano, embora sem lhe dar uma comissão formal, a explorar em nome da França a costa leste da América do Norte em 1524. Le Veneur citou viagens anteriores a Terra Nova e ao Brasil como prova da experiência náutica de Cartier.
Quando Cartier recebeu a comissão real de 1534, Jean Le Veneur atribuiu-lhe viagens anteriores a Terra Nova e ao Brasil. Ilustração do Atlas Vallard.
Quando Cartier recebeu a comissão real, a colonização espanhola já havia começado no Caribe. Em 1521, forças espanholas e aliadas indígenas sob Hernán Cortés tomaram Tenochtitlán. Nos Andes, Francisco Pizarro capturou o governante inca Atahualpa em 1532 e ocupou Cuzco em 1533.
Cartier partiu em 20 de abril de 1534, sob uma comissão real para procurar uma passagem ocidental para os mercados das Índias Orientais e descobrir terras onde, segundo a comissão, se dizia haver ouro e outras riquezas. Os dois navios levavam 61 homens, e a travessia do oceano durou vinte dias.
A partir de 10 de maio de 1534, a expedição percorreu trechos de Terra Nova, o estreito de Belle Isle, a margem sul da Península do Labrador, as costas de Gaspé e do norte de Novo Brunswick no golfo de São Lourenço, além de partes das principais ilhas do golfo, entre elas a Ilha do Príncipe Eduardo, a Ilha Anticosti e as Ilhas da Madalena. Durante uma parada nas Îles aux Oiseaux, as atuais Rochers-aux-Oiseaux, santuário federal de aves a nordeste da ilha Brion, o relato afirma que a tripulação matou mais de mil aves marinhas. O texto distingue aves chamadas godez e apponatz, estas identificadas como alcas-gigantes, espécie extinta no século XIX. Os dois primeiros encontros de Cartier com povos indígenas no lado norte da baía de Chaleurs foram com grupos mi'kmaq, duraram pouco e incluíram trocas comerciais.
A primeira viagem contornou o golfo de São Lourenço e levou aos contatos com mi'kmaq e iroqueses do São Lourenço.
O terceiro encontro ocorreu na baía de Gaspé com um grupo de iroqueses do São Lourenço. Em 24 de julho de 1534, Cartier ergueu uma cruz de cerca de nove metros e reivindicou as terras para a França. A cruz trazia as armas francesas e as palavras "Viva o rei da França". O relato registra o protesto do líder do grupo, que apontou para as terras ao redor, mas não lhe dá um nome. Marcel Trudel identifica o homem como Donnacona. Cartier reteve Domagaya e Taignoagny a bordo e os levou para a França. A Parks Canada chama o episódio de captura, enquanto o Museu Canadense de História diz que Cartier os convenceu a acompanhá-lo. A narrativa da expedição afirma que os franceses atraíram os dois a bordo e os retiveram. Depois, diz que o líder aceitou a viagem após receber presentes e a promessa de que os jovens retornariam com mercadorias europeias. Trudel chama os dois homens de filhos de Donnacona. Eles disseram que a região de Gaspé se chamava Honguedo. Cartier retornou a Saint-Malo em 5 de setembro de 1534. Ainda tratava as entradas do golfo como possíveis caminhos para uma passagem à Ásia, questão que procuraria resolver na viagem seguinte.
Segunda viagem, 1535-1536
Cartier iniciou a segunda viagem em 19 de maio de 1535, com três navios, 110 homens e os dois iroqueses levados a bordo no ano anterior. Ao alcançar o São Lourenço, subiu o rio pela primeira vez e chegou a Stadacona, governada por Donnacona. A reivindicação francesa de 1534 não levou a um povoado permanente. Depois do abandono de Charlesbourg-Royal e France-Roy em 1543, novas tentativas começaram no fim do século XVI. O marquês de La Roche deixou colonos na Ilha de Sable em 1598, e Pierre de Chauvin ergueu um posto de comércio em Tadoussac em 1600. Nenhum dos dois se manteve. Pierre Dugua de Mons e Samuel de Champlain passaram o inverno de 1604-1605 na Ilha Saint Croix e construíram Port-Royal em 1605. Sob o patrocínio de Dugua, Champlain fundou Quebec em 1608, que se tornou a base duradoura da presença francesa no São Lourenço.
Na segunda viagem, Cartier subiu o rio São Lourenço até Hochelaga e passou o inverno perto de Stadacona.
Cartier deixou os navios maiores em um porto perto de Stadacona e seguiu no Émérillon até o Lago Saint-Pierre. Dali, avançou em embarcações menores até Hochelaga, onde chegou em 2 de outubro de 1535. No relato, Hochelaga é uma aldeia maior e mais bem cuidada que Stadacona, e mais de mil pessoas teriam ido à margem do rio receber os franceses. O Museu Canadense de História estima que quase 2 mil pessoas viviam no lugar, número aproximado e não resultado de uma contagem da população. As corredeiras impediram o avanço da expedição. Cartier deu à elevação próxima o nome de mont Royal, do qual deriva o topônimo Montreal.
Cartier investigava o rio como uma possível rota para a Ásia e planejava examinar de novo as corredeiras. O nome Lachine, da palavra francesa para China, La Chine, surgiu mais de um século depois. A explicação histórica adotada pela cidade de Montreal e pela Parks Canada atribui o topônimo à alcunha dada em tom de troça ao lugar de onde René-Robert Cavelier de La Salle partiu em 1669, também à procura de uma rota para a China. A denominação passou depois às corredeiras de Lachine. Depois de passar dois dias entre os habitantes de Hochelaga, voltou a Stadacona em 11 de outubro de 1535.
Cartier instalou os navios para o inverno na confluência dos rios Lairet e Saint-Charles, perto de Stadacona. O porto natural oferecia abrigo contra o vento e as marés, e os dois navios maiores ficaram ancorados ali. Quando Cartier voltou de Hochelaga, encontrou um fortim construído ao redor das embarcações. Durante o inverno, os navios serviram de abrigo, e a tripulação se alimentou sobretudo de carne seca e salgada, sem frutas nem verduras frescas.
Uma inscrição nesta carta espanhola, feita por volta de 1541, atribui à fome a morte de muitos franceses diante da "isla de Orliens".
De meados de novembro de 1535 a meados de abril de 1536, a frota ficou presa no gelo. O ancoradouro ficava na foz do rio Saint-Charles, abaixo do rochedo da cidade de Quebec. O relato informa que o gelo no rio ultrapassou duas braças, aproximadamente 3,7 metros, e que a neve em terra passou de quatro pés, aproximadamente 1,2 metro. Também registra uma doença entre os habitantes de Stadacona em dezembro e, pouco depois, sintomas semelhantes entre os franceses. A identificação da doença dos franceses como escorbuto é retrospectiva. A Parks Canada a baseia na dieta da tripulação, e Don J. Durzan adota o mesmo diagnóstico em uma revisão médica dos sintomas descritos. Segundo o relato, os habitantes de Stadacona disseram aos franceses que mais de cinquenta pessoas haviam morrido. Não há contagem independente conhecida.
Durante uma visita de Domagaya ao forte francês, Cartier aprendeu a preparar uma decocção da casca e das folhas de uma árvore chamada annedda. O relato descreve o uso de nove ou dez ramos: a casca e as folhas eram fervidas, o líquido era bebido e o resíduo aplicado ao corpo. O cedro-branco é a identificação tradicional da planta, mas a espécie exata não pode ser determinada pelas provas conhecidas. Uma revisão publicada em 2009 reuniu oito coníferas candidatas e deixou a identificação em aberto. O relato diz que a condição dos homens melhorou depois do uso da bebida. Vinte e cinco dos 110 tripulantes morreram durante o inverno. Durzan relaciona a recuperação à vitamina C das coníferas, mas apresenta as funções adicionais de aminoácidos e outros componentes como hipóteses. Não restou material que permita analisar a decocção. Em meados de fevereiro, segundo o relato, menos de dez dos 110 homens estavam em condições de socorrer os demais. O mesmo texto afirma que, em seis dias, foi consumido material de uma árvore descrita como tão grande quanto um carvalho e caracteriza a recuperação como uma graça de Deus e um milagre.
No começo de maio de 1536, enquanto preparava o regresso, Cartier ordenou a captura de Donnacona, Domagaya, Taignoagny e outros homens e os levou à França. A narrativa da expedição declara que Cartier queria apresentar Donnacona a Francisco I para que falasse das supostas riquezas e maravilhas do "Reino de Saguenay". A Parks Canada interpreta a captura também como um meio de manter Donnacona como refém durante a viagem. Cartier levou cerca de dez habitantes de Stadacona, entre eles quatro crianças. Nenhum voltou ao Canadá. Todos morreram na França, exceto uma menina cujo destino posterior não aparece nos registros usados pelo Dictionary of Canadian Biography. Depois de descer o São Lourenço e atravessar o Atlântico, os navios chegaram a Saint-Malo em 16 de julho de 1536.
Terceira viagem, 1541-1542
Reprodução publicada em 1909 sob o título The "Dauphin Map" of Canada, circa 1543, showing Cartier's Discoveries. A data aproximada e a descrição são as atribuídas pela obra que publicou a reprodução.
Francisco I ordenou em 17 de outubro de 1540 que Cartier voltasse ao Canadá e desse corpo a um projeto de colonização do qual seria "capitão-geral". Em 15 de janeiro de 1541, o rei o colocou sob a autoridade de Jean-François de La Rocque de Roberval, cortesão huguenote e amigo do monarca, nomeado primeiro tenente-general do Canadá francês. Roberval comandaria a expedição e Cartier seria seu navegador-chefe. Enquanto esperava artilharia e suprimentos, Roberval permitiu que Cartier partisse à frente com seus navios.
Cartier deixou Saint-Malo em 23 de maio de 1541, com cinco navios. A busca de uma passagem para o Oriente já havia sido abandonada. A expedição procuraria o Reino de Saguenay e suas riquezas e fundaria uma colônia permanente no São Lourenço. Ao ancorar em Stadacona, encontrou novamente os iroqueses. A narrativa da viagem diz que eles o receberam com demonstrações de alegria. Cartier comunicou a morte de Donnacona, mas afirmou falsamente que os demais levados à França viviam como senhores e não quiseram regressar. As relações logo voltaram a se deteriorar, e a colônia foi instalada mais acima no rio.
Seguindo alguns quilômetros rio acima, chegou a um ponto que observara na viagem anterior, onde fica Cap-Rouge, no Quebec. Os condenados e demais colonos desembarcaram. O gado que sobrevivera a três meses a bordo foi solto e a terra começou a ser preparada para uma horta com sementes de repolho, nabo e alface. O povoado fortificado recebeu o nome de Charlesbourg-Royal. Outro forte foi erguido no penhasco acima da colônia para aumentar sua proteção.
Os homens recolheram pedras que tomaram por diamantes e ouro. Na França, descobriu-se que eram cristais de quartzo e pirita. Marcel Trudel relaciona o episódio ao provérbio francês faux comme les diamants du Canada, "falso como os diamantes do Canadá". Dois navios voltaram à França com parte dos minerais em 2 de setembro de 1541.
Depois de distribuir tarefas aos colonos, Cartier partiu em botes no dia 7 de setembro de 1541 para procurar Saguenay. Chegou a Hochelaga, mas o mau tempo e as corredeiras o impediram de seguir até o rio Ottawa. De volta a Charlesbourg-Royal, encontrou os iroqueses menos dispostos ao contato. Eles haviam parado de visitar o povoado e de vender peixe e caça, enquanto os franceses preparavam a defesa do forte. A narrativa da viagem termina de forma abrupta e não permite reconstruir todo o inverno de 1541-1542. Marcel Trudel cita testemunhos posteriores que atribuem aos habitantes de Stadacona um cerco à colônia e a morte de mais de 35 franceses. A narrativa sobrevivente não traz esse número. Trudel também inferiu de uma única frase que houve escorbuto e que uma infusão de cedro-branco o conteve, mas o texto sobrevivente não informa quantos adoeceram nem permite avaliar o tratamento.
Cartier partiu para a França no começo de junho de 1542 e encontrou Roberval e seus navios na costa de Terra Nova. Roberval ordenou que voltasse com ele, mas Cartier partiu durante a noite e seguiu para a França com as pedras que a expedição tomava por ouro e diamantes. Trudel propõe duas explicações possíveis para a desobediência, o desejo de levar logo a carga à França ou a recusa de enfrentar outra vez os habitantes de Stadacona. O Dictionary of Canadian Biography não escolhe entre as duas. Cartier chegou em outubro, ao fim de sua última viagem. Roberval assumiu o comando de Charlesbourg-Royal, rebatizou o povoado de France-Roy e permaneceu até 1543. A guerra entre França e Espanha levou ao repatriamento dos colonos, depois de um inverno de doenças, frio e conflitos internos.
Últimos anos
Cartier passou os últimos anos em Saint-Malo e foi sepultado na catedral da cidade.
Cartier viveu o restante de seus dias em Saint-Malo e em sua propriedade próxima. Seu conhecimento do português foi usado pelo menos duas vezes em processos judiciais da cidade. Morreu aos 65 ou 66 anos em 1 de setembro de 1557. A causa não foi estabelecida. A Parks Canada afirma apenas que ele teria morrido durante uma epidemia de peste, enquanto o Dictionary of Canadian Biography não atribui causa à morte. Foi sepultado na Catedral de Saint-Malo.
As tentativas europeias anteriores no território que forma o Canadá desapareceram ou foram abandonadas. Pierre Dugua de Mons e Samuel de Champlain estabeleceram Port-Royal, na Acádia, em 1605. O povoado passou por uma interrupção entre 1607 e 1610 e foi destruído em 1613. Quebec, fundada em 1608, manteve a ocupação francesa de maneira contínua.
Relatos das viagens
O plano de Hochelaga acompanhou a tradução italiana do relato da segunda viagem publicada por Giovanni Battista Ramusio em 1556.
Nenhuma das narrativas das viagens chegou em manuscrito autógrafo de Cartier, e os autores permanecem desconhecidos. Michel Bideaux considera que não há prova para atribuir a primeira narrativa a Cartier. A segunda é frequentemente atribuída a Jehan Poullet, integrante da viagem de 1535-1536, mas essa identificação também permanece conjectural. O segundo relato, Bref récit et succincte narration de la navigation faite en MDXXXV et MDXXXVI, saiu anonimamente em Paris em 1545, ainda durante a vida de Cartier.
O relato da primeira viagem foi publicado primeiro em tradução italiana por Ramusio, em Veneza, em 1556, e voltou a sair na edição de 1565. A versão inglesa de John Florio saiu em 1580, e o primeiro texto francês impresso apareceu em Ruão, em 1598. Três cópias manuscritas do relato da segunda viagem estão guardadas na Biblioteca Nacional da França, sob os números 5589, 5644 e 5653.
Da terceira viagem resta uma narrativa incompleta em inglês, publicada por Richard Hakluyt em 1600. Hakluyt trabalhou a partir de um texto francês encontrado em Paris em 1583 e depois perdido. Os mapas das expedições não chegaram aos nossos dias, mas uma carta escrita em 1587 por Jacques Noël, sobrinho de Cartier, menciona cartas e livros de navegação que haviam pertencido ao explorador.
Repercussão das viagens
Um selo canadense de 1908 retrata a frota de Cartier e o começo da presença francesa no vale do São Lourenço.
Ao localizar a entrada do São Lourenço na primeira viagem e subir o rio na segunda, Cartier deixou aos navegadores europeus uma rota documentada para o interior da América do Norte. Seus relatos reuniam informações sobre recursos naturais, aldeias e povos da região. As pedras recolhidas como ouro e diamantes em 1541 eram pirita e quartzo. Os contatos com os iroqueses do São Lourenço passaram pelo comércio, por visitas e pela tomada de reféns. Para o inverno em Charlesbourg-Royal, testemunhos posteriores mencionam um cerco e mortes, mas a narrativa sobrevivente não permite confirmar o número de vítimas nem reconstituir todo o conflito.
A palavra Canadá provavelmente vem do iroquês do São Lourenço kanata, "aldeia" ou "povoado". Em 1535, Domagaya e Taignoagny usaram o termo ao indicar a rota para Stadacona. Cartier passou a aplicá-lo à aldeia, ao território governado por Donnacona e ao próprio rio, e chamou os habitantes iroqueses de Canadiens. A aplicação do nome mudou com o tempo. Segundo o curador Jean-François Lozier, do Museu Canadense de História, no século XVII Canadien passou a designar colonos franceses nascidos na colônia ou residentes antigos. Colonos de língua inglesa adotaram gradualmente o termo em meados do século XIX.
Cartier não foi o primeiro europeu a visitar as terras que formam o Canadá, país cujo lema oficial é a mari usque ad mare, "de mar a mar". Um assentamento nórdico existiu em L'Anse aux Meadows por volta do ano 1000. Giovanni Caboto navegou pela costa atlântica em 1497, e expedições portuguesas de Gaspar e Miguel Corte Real percorreram partes do nordeste do continente no começo do século XVI. No primeiro quarto daquele século, pescadores bascos, bretões e portugueses já frequentavam a costa. Os povos indígenas viviam nessas terras havia milênios. Cartier entrou no continente pelo São Lourenço e percorreu a região interior do leste. Suas três viagens deram base à reivindicação francesa das terras que seriam colonizadas como Nova França, e a tentativa de povoamento de 1541 levou à construção de Charlesbourg-Royal.
Os relatos das três viagens não registram a perda de navios no mar. A Petite Hermine foi abandonada no Saint-Charles em 1536, depois das mortes ocorridas durante o inverno. Os diários e roteiros anotam direções, profundidades e ancoradouros encontrados no percurso. Ao fim dessas viagens, o caminho fluvial até a Ásia não havia sido encontrado. Em 1536, Cartier apresentou a Francisco I um relatório no qual dizia que o São Lourenço podia conduzir à Ásia.
Redescoberta da primeira colônia
A cidade de Quebec já tinha estátuas e placas dedicadas a Cartier quando a antiga colônia começou a ser redescoberta pela arqueologia no século XXI.
Um inventário arqueológico feito em 2005, antes da construção de um mirante, encontrou objetos do século XVI no promontório de Cap-Rouge. O achado levou o governo do Quebec a iniciar um programa de escavações para localizar a colônia de Cartier e Roberval. Escavações realizadas em 2007, 2008 e 2010 confirmaram que ao menos parte do povoado ficava no lado sul do promontório, na confluência do rio Cap Rouge com o São Lourenço.
A identificação se apoiou em madeira queimada de meados do século XVI e em um fragmento de faiança italiana decorada no estilo istoriato. A análise situou a fabricação da peça na primeira metade do século XVI. A Commission de la capitale nationale du Québec interpreta o recipiente de luxo como indício de ocupantes abastados. O fragmento não identifica seu proprietário. Roberval substituiu Cartier no comando do assentamento.
As campanhas recuperaram mais de 6 mil objetos e fragmentos relacionados a alimentação, construção, vestuário, armas, comércio, pesca, busca de metais e cuidados médicos. O governo do Quebec interpreta peças iroquesas e restos vegetais encontrados na mesma camada como indícios de trocas entre franceses e iroqueses do São Lourenço. O sítio e o conjunto arqueológico foram classificados como patrimônio em 2018.
O sítio Cartier-Roberval conserva os vestígios da primeira tentativa francesa de colonização da América. L'Anse aux Meadows, no norte de Terra Nova, guarda o assentamento nórdico erguido por volta do ano 1000, a presença europeia mais antiga já confirmada no território canadense.
Navios
Na segunda e na terceira viagens, Cartier usou os seguintes navios.
Entregue a Cartier pelo rei francês depois da primeira viagem e usado nas viagens de 1535-1536 e 1541-1542. Uma réplica construída em 1966 para a Expo 67 foi instalada depois no Sítio Histórico Nacional Cartier-Brébeuf, em Quebec, e desmontada em 2001.
Petite Hermine
Usado na viagem de 1535-1536. Cartier o abandonou no rio Saint-Charles na primavera de 1536 porque, após as mortes do inverno, não havia tripulantes suficientes para os três navios.
Saint-Malo ergueu estátuas e instalou placas em homenagem a seu antigo navegador.
Estátuas, esculturas e outros memoriais
A estátua de Georges Bareau no Bastion de la Hollande, sobre as muralhas de Saint-Malo, instalada em 1905.
A réplica em bronze da estátua de Saint-Malo que ficou diante da biblioteca Gabrielle-Roy, na cidade de Quebec, até 2008 e foi reinstalada no parque Jean-Déry, em Cap-Rouge.
O busto de Cartier esculpido por Louis-Ernest Drivier e instalado em 1934 no Jardim da Nova França, junto ao Palais de la Découverte, em Paris.
O Monument à Jacques Cartier, de Joseph-Arthur Vincent, no parque Saint-Henri, em Montreal.
A estátua de bronze no Parque Provincial Jacques Cartier, na Ilha do Príncipe Eduardo.
As grandes estelas de ferro fundido em Gaspé, que comemoram o encontro de Cartier com iroqueses do São Lourenço.
O monumento em forma de cruz em Gaspé.
O monumento em forma de cruz na ilha Saint-Quentin, perto de Trois-Rivières, no Quebec.
Os relevos históricos de Joseph-Émile Brunet na fachada do atual pavilhão Gérard-Morisset do Museu Nacional de Belas Artes do Quebec, entre os quais há uma representação de Cartier.
Samuel Freeman, Jacques Cartier, de l'album Canada. Dessins historiques, gravura de 1849 baseada no retrato de Hamel e, por intermédio dele, nos modelos de Amiel e Riss.
Napoleon Sarony, por volta de 1850, Jacques Cartier: His First Interview with the Indians at Hochelaga.
Paul-Émile Borduas, Les voyages de Jacques Cartier au Canada en 1534 et 1535.
Paul-Émile Borduas, Plan d'Hochelaga par Jacques Cartier en 1535.
Na cultura popular
O The Tragically Hip retomou a viagem de Cartier em "Looking for a Place to Happen", de 1992, com foco na tomada de terras indígenas.
O Banque Jacques-Cartier, funcionou de 1861 a 1899 e emitiu cédulas. Foi fundado em Montreal, então no Canadá Leste, uma divisão da Província do Canadá, e operou no Quebec depois da Confederação de 1867. A instituição foi reorganizada em 1900 como Banque provinciale du Canada. Em 1979, esse banco se uniu ao Banque canadienne nationale para formar o Banco Nacional do Canadá.
A Ordre de Jacques-Cartier, sociedade secreta franco-canadense criada em Ottawa em 1926, adotou seu nome. A organização atuou até 1965 na defesa dos interesses dos francófonos no Canadá.
Criada para o 450.º aniversário da primeira viagem, a Transat Québec-Saint-Malo saiu de Quebec pela primeira vez em 19 de agosto de 1984, com destino à cidade natal de Cartier. A regata transatlântica foi planejada para ocorrer a cada quatro anos.
A banda canadense de rock The Tragically Hip menciona Jacques Cartier em "Looking for a Place to Happen", faixa do álbum Fully Completely, de 1992. A letra apresenta primeiro a voz de Cartier e depois a de uma pessoa indígena em fuga, contrapondo as duas perspectivas numa narrativa sobre a anexação violenta de terras indígenas.
Cristóvão Colombo, navegador europeu da mesma era de viagens atlânticas
Notas e referências
Notas
↑Em inglês britânico, o nome costuma ser pronunciado /ˈkɑːrtiˌeɪ/. No inglês dos Estados Unidos, ouvem-se /ˌkɑːrtiˈeɪ/ e /kɑːrˈtjeɪ/. Em francês, a pronúncia é /ʒak kaʁtje/, com a variante /kaʁt͡sje/ no francês do Quebec. Wells, John C. (2008). Longman Pronunciation Dictionary (em inglês) 3 ed. [S.l.]: Pearson Longman. ISBN978-1-4058-8118-0 Jones, Daniel (2011). Cambridge English Pronouncing Dictionary (em inglês) 18 ed. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN978-0-521-15255-6
↑Em Saint-Malo, o condestável era um oficial local ligado à guarda e à administração da cidade. O cargo não correspondia ao de um policial moderno.
↑Uma comissão era uma autorização escrita do rei. Ela permitia fazer a viagem em nome da Coroa e fixava as tarefas confiadas ao comandante.
↑Essa passagem seria uma rota marítima para a Ásia pelo oeste, através ou ao redor das terras americanas. Os europeus ainda não conheciam a extensão do continente.
↑Îles aux Oiseaux quer dizer "Ilhas dos Pássaros" em francês. O nome se refere às colônias de aves marinhas encontradas no local.
↑Para as coroas europeias, cerimônias desse tipo eram uma forma de declarar soberania. O gesto não significava que os povos que viviam ali tivessem concordado em entregar suas terras.
↑Honguedo é a grafia usada no relato de Cartier para aquela região. O nome não corresponde a uma divisão administrativa moderna.
↑Um posto desse tipo era um pequeno estabelecimento onde peles eram trocadas por produtos europeus e guardadas antes do embarque.
↑Os navios não podiam navegar até o degelo. A expedição teve de passar o inverno no mesmo lugar.
↑Essa caracterização pertence à narrativa da expedição e não constitui uma explicação médica.
↑O título fazia de Cartier o responsável pela navegação e pela direção inicial do projeto. Não corresponde exatamente a um posto militar moderno.
↑Como tenente-general, Roberval representava o rei no projeto e tinha autoridade superior à de Cartier.
↑A expedição levava pessoas condenadas pela Justiça para trabalhar no novo povoado. O uso de prisioneiros em projetos coloniais era permitido pela comissão real.
↑A frase passou a ser usada para algo sem o valor que parecia ter.
↑Um manuscrito autógrafo é um texto escrito pela própria pessoa a quem a obra é atribuída. No caso de Cartier, restaram cópias e edições feitas por outras mãos.
↑O título pode ser traduzido como "Breve relato e narrativa sucinta da navegação feita em 1535 e 1536". MDXXXV e MDXXXVI são esses anos escritos em algarismos romanos.
↑Canadiens é o plural francês de Canadien. Naquele período, o nome ainda não designava todos os habitantes do território que forma o Canadá.
↑Um roteiro náutico reunia direções, distâncias, pontos da costa, profundidades e locais de ancoragem úteis a outras viagens.
↑No istoriato, pratos e outros objetos de cerâmica recebiam cenas narrativas pintadas, muitas vezes inspiradas na Bíblia, na mitologia ou na Antiguidade.
↑Grande Hermine e Petite Hermine significam "Grande Arminho" e "Pequeno Arminho" em francês. Os nomes próprios dos navios foram mantidos no original.
↑Essa é uma designação oficial usada pelo governo canadense para lembrar pessoas ligadas ao passado do país. Não é uma condecoração que Cartier tenha recebido em vida.
↑O nome francês significa "Banco Jacques Cartier".
↑Uma regata transatlântica é uma corrida de embarcações a vela que atravessa o oceano Atlântico.
↑René Gautier; et al. (2014). 601 communes et lieux de vie de la Manche (em francês). Bayeux: Éditions Eurocibles. p.187. ISBN978-2-35458-036-0
↑Gustave Lanctôt observou que Cartier não constava dos registros de Saint-Malo naquele período e que sua viagem de 1534 chegou ao ponto de Terra Nova onde a exploração de Verrazzano terminara dez anos antes. A partir disso, supôs que Cartier acompanhara Verrazzano. Marcel Trudel rejeitou a hipótese, pois os relatos de Cartier não mencionam tal experiência. Trudel, Marcel (1966). Histoire de la Nouvelle-France (em francês). 1. Montreal: Fides. pp.58–60
↑Laroche, Ginette (2008). Le sculpteur Émile Brunet et le décor historié du Musée de la province de Québec (1928-1932) (em francês). Quebec: Musée national des beaux-arts du Québec
Guitard, Michèle (1984). Jacques Cartier in Canada (em inglês). Ottawa: National Library of Canada. ISBN0-662-52832-8 Texto em inglês e francês, em colunas paralelas.