| Kuru | |
|---|---|
| Criança Fore com kuru avançado; incapaz de andar ou sentar-se sem ajuda. | |
| Especialidade | infecciologia, neurologia |
| Sintomas | Tremores, ataxia, riso patológico |
| Causas | Infecção por príons |
| Prognóstico | 100% fatal |
| Frequência | 0.0001% |
| Classificação e recursos externos | |
| CID-11 | 8E01.1 |
| CID-10 | A81.81, A81.8 |
| CID-9 | 046.0 |
| OMIM | 245300 |
| DiseasesDB | 31861 |
| MedlinePlus | 001379 |
| eMedicine | 220043 |
| MeSH | D007729 |
Kuru é uma doença neurodegenerativa rara, incurável e letal que anteriormente era comum entre o povo Fore da Papua-Nova Guiné. Kuru é uma forma de encefalopatia espongiforme transmissível (EET) causada pela transmissão de príons, o que leva a sintomas como tremores e perda de coordenação devido à neurodegeneração.
O termo "kuru" deriva da palavra em fore kuria ou guria ("tremer"), devido aos tremores corporais que são um sintoma clássico da doença. Kúru em si significa "tremor". Também é conhecido como "doença do riso" devido aos surtos patológicos de riso, que são um sintoma da doença. Agora é amplamente aceito que o kuru era transmitido entre os membros da tribo Fore da Papua-Nova Guiné por meio do canibalismo fúnebre. Membros falecidos da família eram tradicionalmente cozidos e comidos, o que se pensava que ajudava a libertar o espírito dos mortos. Mulheres e crianças costumavam consumir o cérebro, o órgão onde os príons infecciosos estavam mais concentrados, permitindo assim a transmissão do kuru. Portanto, a doença era mais prevalente entre mulheres e crianças.
A epidemia provavelmente começou quando um morador desenvolveu a doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica e morreu. Quando os moradores comeram o cérebro, contraíram a doença e depois a transmitiram para outros moradores que comeram seus cérebros infectados.
Embora o povo Fore tenha parado de consumir carne humana no início dos anos 1960, quando se especulou pela primeira vez que a transmissão ocorria por meio do endocanibalismo, a doença persistiu devido ao longo período de incubação do kuru, que varia de 10 a mais de 50 anos. A epidemia finalmente diminuiu drasticamente após meio século, de 200 mortes por ano em 1957 para nenhuma morte a partir de cerca de 2010, havendo discordância entre as fontes sobre se a última vítima conhecida de kuru morreu em 2005 ou 2009.
O kuru, uma encefalopatia espongiforme transmissível, é uma doença do sistema nervoso que provoca efeitos fisiológicos e neurológicos que levam inevitavelmente à morte. Caracteriza-se por uma ataxia cerebelar progressiva, ou seja, perda de coordenação e de controle sobre os movimentos musculares.
A fase pré-clínica ou assintomática, também designada período de incubação, dura em média de 10 a 13 anos, mas pode ser tão curta quanto cinco anos ou chegar a estimativas de 50 anos ou mais após a exposição inicial.
O estágio clínico, que se inicia com o surgimento dos primeiros sintomas, dura em média 12 meses. A evolução clínica do kuru divide-se em três fases distintas: ambulatória, sedentária e terminal. Embora haja variações individuais no curso dessas fases, a sequência é altamente consistente entre a população afetada. Antes do início das manifestações clínicas evidentes, o indivíduo pode apresentar sintomas prodrômicos, incluindo cefaleia e dores articulares nos membros inferiores.
Na fase ambulatória — assim denominada porque o indivíduo ainda mantém a capacidade de caminhar, a despeito dos sintomas —, a pessoa infectada pode apresentar instabilidade postural e marcha cambaleante, diminuição do controle muscular, dificuldade na articulação das palavras (disartria) e tremores corporais ou cefálicos (titubação).
Na fase sedentária, o paciente torna-se incapaz de caminhar sem apoio e apresenta ataxia e tremores graves. Além disso, surgem sinais de instabilidade emocional e depressão, intercalados com episódios de riso incontrolável e esporádico. A despeito do agravamento dos sintomas neurológicos, os reflexos tendinosos profundos permanecem preservados nesta fase da doença.
Na fase terminal, os sintomas preexistentes, como a ataxia, progridem a ponto de o paciente não conseguir sentar-se sem suporte. Novos sintomas emergem: o indivíduo desenvolve disfagia (dificuldade de deglutição), que pode levar a um quadro de desnutrição grave, além de incontinência urinária e fecal, perda da capacidade ou da vontade de falar e ausência de resposta a estímulos externos, embora a consciência permaneça preservada. No final do estágio terminal, os indivíduos frequentemente desenvolvem úlceras de decúbito crônicas que se tornam portas de entrada para infecções secundárias. A morte ocorre habitualmente em um intervalo de três meses a dois anos após os primeiros sintomas terminais, decorrente quase sempre de pneumonia por aspiração ou de outras infecções secundárias.
Estudos histopatológicos realizados em tecidos de indivíduos infectados revelaram os mecanismos subjacentes aos danos cerebrais causados pela doença. Nas fases iniciais, os pacientes podem apresentar retração comportamental, perda de coordenação motora, tremores e encurvamento involuntário dos artelhos e pés. Com o intuito de esclarecer os distúrbios de equilíbrio e coordenação, análises microscópicas demonstraram que os neurônios em encéfalos infectados por kuru encontravam-se anormalmente atróficos e com coloração mais clara em relação aos tecidos hígidos. Os neurônios lesionados apresentavam aspecto característico "roído por traças" devido às suas deformações vacuolares, exibindo achados neuropatológicos semelhantes aos observados na doença de Creutzfeldt–Jakob (DCJ).

O kuru restringiu-se amplamente ao povo Fore e a indivíduos que com eles estabeleceram laços matrimoniais. Os Fore cozinhavam e consumiam ritualisticamente partes dos corpos de familiares após a morte para incorporar "o corpo do falecido aos corpos dos parentes vivos, ajudando assim a libertar o espírito do morto". Como os príons infecciosos concentram-se especialmente no tecido cerebral, as mulheres e crianças — as principais consumidoras da massa encefálica — apresentavam uma probabilidade muito maior de infecção do que os homens, que consumiam tipicamente tecido muscular.
O agente etiológico infeccioso é uma isoforma mal dobrada de uma proteína codificada pelo próprio hospedeiro, denominada príon (PrP). As proteínas priônicas são codificadas pelo gene da proteína priônica (PRNP). As duas isoformas da proteína são designadas como PrPC, que corresponde à conformação celular fisiológica normal, e PrPSc, a conformação patológica aberrante que dá origem à enfermidade. Ambas as formas não diferem em sua sequência primária de aminoácidos; no entanto, a isoforma patogênica PrPSc difere da PrPC normal em suas estruturas secundária e terciária. A PrPSc é mais rica em folhas-beta, enquanto a conformação fisiológica PrPC é enriquecida em alfa-hélices. Essas distinções conformacionais conferem à PrPSc a capacidade de formar agregados insolúveis e extrema resistência à degradação enzimática por proteases, bem como a outros agentes químicos e físicos. Por outro lado, a forma normal é completamente suscetível à proteólise e solúvel em detergentes não desnaturantes.
Sugere-se que a presença prévia ou a aquisição exógena de PrPSc induza a conversão da PrPC hospedeira em novas unidades de PrPSc, as quais continuam a transformar outras moléculas de PrPC. Isso desencadeia uma reação em cadeia autossustentável que possibilita a rápida propagação do agente e determina a patogênese das doenças priônicas.
Em 1961, o pesquisador médico australiano Michael Alpers e a antropóloga Shirley Lindenbaum realizaram extensos estudos de campo entre os Fore. Suas investigações históricas indicaram que a epidemia pode ter se originado por volta do início do século XX a partir de um único indivíduo que residia nos limites do território Fore, o qual teria desenvolvido espontaneamente uma forma de doença de Creutzfeldt-Jakob. A pesquisa de Alpers e Lindenbaum demonstrou conclusivamente que o kuru se disseminava com facilidade e rapidez entre os Fore em razão de suas práticas fúnebres de endocanibalismo, nas quais os parentes consumiam os corpos dos falecidos para devolver a "força vital" da pessoa ao povoado, unidade social fundamental do grupo.
A distribuição demográfica evidenciada pelas taxas de infecção — no auge da epidemia, a prevalência do kuru era de oito a nove vezes maior em mulheres e crianças do que em homens — deve-se ao fato de os homens Fore acreditarem que a ingestão de carne humana os enfraquecia em períodos de combate ou batalha. Assim, as mulheres e crianças consumiam prioritariamente os corpos dos falecidos, incluindo o encéfalo, onde as partículas priônicas encontravam-se altamente concentradas. Além disso, existe a forte hipótese de que a transmissão para mulheres e crianças ocorresse com maior facilidade pelo fato de realizarem a higienização dos cadáveres, expondo feridas abertas e cortes nas mãos ao material infectado.
Embora a ingestão oral de príons possa levar à infecção, taxas de transmissão significativamente mais elevadas ocorriam caso os príons atingissem o tecido subcutâneo. Com a erradicação do canibalismo decorrente da aplicação da lei colonial australiana e das missões cristãs locais, as pesquisas de Alpers demonstraram que a incidência de kuru já apresentava declínio expressivo entre os Fore em meados da década de 1960. Contudo, o período médio de incubação da doença é de cerca de 14 anos, e sete casos foram registrados com períodos de latência clínica de 40 anos ou mais entre indivíduos geneticamente mais resistentes, fazendo com que a doença continuasse a surgir por várias décadas. A última pessoa diagnosticada com kuru faleceu em 2009.
O diagnóstico do kuru é estabelecido por meio da avaliação do histórico clínico de sinais e sintomas cerebelares do paciente, realização de exames neurológicos completos e exclusão de outras doenças neurológicas. Os sintomas avaliados envolvem tipicamente distúrbios de coordenação motora e movimentos musculares involuntários; contudo, esses marcadores clínicos podem ser confundidos com outras afecções dos sistemas nervoso e muscular, sendo frequentemente necessários exames de neuroimagem para diferenciar o kuru de outras patologias. Não existem exames laboratoriais complementares in vivo capazes de confirmar diretamente a presença de kuru além da avaliação histopatológica post-mortem de tecidos do sistema nervoso central (SNC), de modo que o diagnóstico em vida é alcançado pelo método de exclusão de outras etiologias.
O eletroencefalograma (EEG) é utilizado para distinguir o kuru da doença de Creutzfeldt–Jakob, uma encefalopatia priônica clinicamente semelhante. O EEG registra a atividade bioelétrica cerebral e analisa a frequência das ondas para identificar anormalidades funcionais encefálicas. Complexos de ondas agudas periódicas generalizadas, recorrentes em intervalos regulares e típicos da DCJ avançada, não estão presentes nos traçados eletroencefalográficos de pacientes com kuru. Avaliações como EEG, ressonância magnética, análises sanguíneas e tomografias auxiliam a elucidar se o quadro clínico decorre de kuru ou de outra encefalopatia progressiva, embora o acompanhamento evolutivo prolongado possa ser clinicamente complexo.

Em 2009, pesquisadores do Medical Research Council identificaram uma variante natural do gene da proteína priônica (PRNP) em uma população da Papua-Nova Guiné que confere expressiva resistência ao kuru. No estudo, iniciado em 1996, os cientistas avaliaram mais de 3.000 pessoas das regiões afetadas e de populações vizinhas nas Terras Altas Orientais, identificando a variante polimórfica G127V na proteína priônica (substituição do aminoácido glicina por valina na posição 127). O polimorfismo G127V resulta de uma Mutação do Tipo Missense e apresenta uma distribuição geográfica estritamente restrita às regiões onde a epidemia de kuru foi mais intensa. Estima-se que essa variante tenha surgido recentemente sob pressão seletiva, com o ancestral comum mais recente datado de cerca de 10 gerações atrás.
As descobertas deste estudo proporcionaram subsídios para a compreensão e desenvolvimento de estratégias terapêuticas voltadas a outras doenças priônicas, como a doença de Creutzfeldt–Jakob, e a enfermidades neurodegenerativas correlatas, como a doença de Alzheimer.
O kuru foi descrito pela primeira vez em relatórios oficiais por oficiais administrativos australianos em patrulha pelas Terras Altas Orientais da Papua-Nova Guiné no início da década de 1950. Alguns relatos não oficiais indicam a ocorrência da moléstia na região desde 1910. Em 1951, Arthur Carey utilizou pela primeira vez o termo kuru em relatório oficial para designar uma nova enfermidade que acometia as tribos Fore. Carey destacou que o kuru afetava predominantemente as mulheres Fore, levando-as à morte. A presença da doença entre os povos Fore, Yate e Usurufa foi documentada entre 1952 e 1953 pelos antropólogos Ronald Berndt e Catherine Berndt. Em 1953, o oficial de patrulha John McArthur observou e descreveu as manifestações clínicas do kuru em seus relatórios, interpretando-o inicialmente como um distúrbio psicossomático decorrente de práticas de feitiçaria locais. Com a expansão epidêmica do quadro, líderes tribais solicitaram a intervenção do oficial médico luterano Charles Pfarr para notificar formalmente a enfermidade às autoridades australianas.
Inicialmente, os Fore atribuíam as causas do kuru à feitiçaria ou bruxaria malévola, acreditando também que o malefício sobrenatural era contagioso. A condição recebia igualmente o nome de negi-nagi, que significava "pessoa tola", devido aos episódios de riso espasmódico e espontâneo dos enfermos. Acreditava-se que tremores e alterações comportamentais eram provocados por espíritos dos mortos e, na tentativa de cura, os afetados eram alimentados com cascas de casuarina.
Com a consolidação do estado epidêmico, o virologista Daniel Carleton Gajdusek e o médico Vincent Zigas iniciaram investigações clínicas sistemáticas sobre a moléstia. Em 1957, Zigas e Gajdusek publicaram no Medical Journal of Australia um estudo pioneiro sugerindo origem genética para o kuru e ressaltando que "quaisquer variáveis étnico-ambientais atuantes na patogênese do kuru ainda não foram determinadas".
O canibalismo fúnebre foi aventado como vetor potencial desde as observações iniciais, mas foi formalmente proposto como hipótese científica por Glasse em 1967 e detalhado em 1968 por Mathews, Glasse e Lindenbaum.
Antes mesmo da comprovação definitiva do vínculo entre a antropofagia e o kuru, a prática do canibalismo havia sido banida pela administração colonial australiana, encontrando-se praticamente extinta por volta de 1960. Com o declínio progressivo do número de casos, pesquisas laboratoriais aprofundadas permitiram isolar a etiologia infecciosa transmissível não convencional, culminando na caracterização moderna dos príons.
Buscando esclarecer a patologia do kuru, Gajdusek iniciou ensaios de transmissão experimental em chimpanzés nos Institutos Nacionais da Saúde (NIH), nos Estados Unidos. Michael Alpers colaborou fornecendo amostras de tecido cerebral obtidas na autópsia de uma jovem Fore de 11 anos falecida por kuru. Gajdusek foi também o primeiro autor a organizar uma compilação bibliográfica exaustiva sobre a moléstia. Joe Gibbs uniu-se a Gajdusek para monitorar o comportamento dos primatas e executar os exames histopatológicos. Em dois anos de observação, uma das chimpanzés inoculadas (Daisy) desenvolveu kuru, comprovando que um agente etiológico transmissível estava contido no biomaterial encefálico e era capaz de transpor barreiras de espécie entre primatas. A confirmação neuropatológica pela patologista Elisabeth Beck representou um avanço histórico para a medicina humana, culminando na concessão do Nobel de Fisiologia ou Medicina a Gajdusek em 1976.
Posteriormente, E. J. Field desenvolveu extensas pesquisas de campo na Nova Guiné entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, correlacionando a neuropatologia do kuru à da scrapie ovina e à da esclerose múltipla. Field identificou padrões específicos de reatividade em células gliais, postulando a hipótese fundamental de que o processo infeccioso priônico dependia de rearranjos conformacionais estruturais induzidos diretamente sobre as moléculas do hospedeiro.