| Le Balcon | |
|---|---|
Cartaz criado por Wiktor Sadowski, em 1986, para uma produção da peça Balkon no Teatr Polski de Wrocław, Polónia. | |
| Autoria | Jean Genet |
| Gênero | Drama |
| Tipo | Peça teatral |
| Outras informações | |
| Data da estreia | Abril de 1957 |
| Local da estreia | Arts Theatre Club, Londres |
| Idioma original | Francês |
| País | França |
Le Balcon (em português, O Balcão) é uma peça de teatro do escritor francês Jean Genet, publicada originalmente em 1956 e representada pela primeira vez em Londres, em abril de 1957, numa encenação de Peter Zadek. A acção decorre principalmente num bordel dirigido por Madame Irma, cujos clientes representam figuras de autoridade enquanto uma insurreição decorre nas ruas da cidade.
O texto foi sucessivamente revisto pelo autor, dando origem a versões publicadas em 1956, 1960 e 1962. A peça aborda a representação do poder, os papéis sociais e as relações entre realidade, aparência e autoridade política.
A acção decorre numa cidade não identificada, onde uma insurreição ameaça as instituições políticas. Grande parte dos acontecimentos tem lugar no Grand Balcon, um bordel de luxo administrado por Madame Irma.
O estabelecimento dispõe de salas, cenários e figurinos destinados à representação de fantasias dos clientes. Alguns escolhem desempenhar papéis de figuras de autoridade, como um bispo, um juiz e um general, procurando reproduzir cerimónias e relações de poder associadas a essas posições sociais.
Enquanto os clientes participam nos seus jogos de representação, a revolta intensifica-se no exterior. O chefe da polícia procura controlar a situação e manter o funcionamento das instituições existentes.
Quando se torna conhecida a desagregação das autoridades políticas, um enviado da corte propõe que Irma e os seus clientes assumam publicamente os papéis das figuras de poder que até então apenas representavam no bordel. A representação teatral transforma-se, assim, num instrumento de intervenção política.
A peça termina mantendo a relação entre aparência e autoridade no centro da acção, com a substituição simbólica de determinadas figuras de poder e a possibilidade de repetição dos acontecimentos.
Le Balcon foi publicado pela primeira vez em 1956, numa edição da L'Arbalète, acompanhada por uma litografia de Alberto Giacometti.
A Biblioteca Nacional de França distingue três versões principais da peça:
As alterações foram realizadas durante um período em que Genet acompanhou várias encenações da obra e manifestou desacordos relativamente a determinadas opções de representação.
A estreia teatral de Le Balcon ocorreu em abril de 1957, no Arts Theatre Club, em Londres, numa encenação de Peter Zadek. A produção originou divergências entre o encenador e Jean Genet, que contestou aspectos da interpretação cénica da obra. A apresentação londrina ocorreu antes da estreia francesa, numa época em que o texto suscitava reservas relacionadas com o conteúdo sexual e político.
Em 3 de março de 1960, a peça foi apresentada em Nova Iorque, no Circle in the Square, numa adaptação inglesa traduzida por Bernard Frechtman e encenada por José Quintero. Os cenários ficaram a cargo de David Hays e os figurinos de Patricia Zipprodt.
A estreia francesa ocorreu em 18 de maio de 1960, no Théâtre du Gymnase, em Paris, numa encenação de Peter Brook. A produção contou com Marie Bell como Irma, Jean Babilée como o bispo, Loleh Bellon como Carmen e Roger Blin como o enviado da corte.
Genet manifestou também reservas em relação a elementos da encenação de Brook, particularmente à utilização de um palco giratório, que considerava contrária à concepção da peça.
A obra continuou a ser apresentada em diferentes países nas décadas seguintes. Em 1971, André Steiger dirigiu uma produção do Teatro Nacional de Estrasburgo, apresentada em cidades de França, Suíça e Bélgica.
Em 2001, o Festival de Avignon apresentou uma encenação de Jean Boillot. A produção retomava o confronto entre a representação de figuras de autoridade e a crise política no exterior do bordel.
Em Portugal, a peça foi apresentada pelo Teatro Nacional São João, sob o título O Balcão, numa encenação de Nuno Cardoso.
A peça articula uma revolta política com as representações privadas desenvolvidas no estabelecimento de Irma. Os clientes assumem identidades associadas às instituições religiosas, judiciais e militares, explorando a dimensão simbólica dessas funções. O investigador Albert C. Chesneau analisou a relação entre revolução e reversibilidade no teatro de Genet, considerando que a obra estabelece uma tensão entre a contestação das instituições e a reprodução das imagens associadas ao poder.
A distinção entre representação teatral e realidade constitui outro tema da obra. As personagens desempenham papéis sociais dentro de um espaço teatralizado, enquanto os acontecimentos exteriores transformam algumas dessas representações em formas de autoridade pública.
Num estudo publicado em 2023, Sergio Nunes Melo examinou O Balcão à luz da filosofia de Friedrich Nietzsche, relacionando a obra com o niilismo, a construção de valores e os debates sobre a classificação do teatro de Genet no âmbito do teatro do absurdo. O estudo propõe que a peça seja analisada não apenas como uma manifestação de pessimismo perante as instituições sociais, mas também como expressão das possibilidades criativas do teatro e da construção de identidades.