| Lilith | |
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Lilith, em gravura de John Collier, 1892 | |
| Nome nativo | em hebraico: לִילִית |
| Religiões | |
| Equivalentes | |
| Romano | Trivia |
| Grego | Hécate |
| Mesopotâmico | |
| Sumério | Lilitu |
Lilith (em hebraico: לִילִית, lilit; em árabe antigo: ليليث) é uma figura feminina nas mitologias judaica e mesopotâmica. Na tradição judaica, Lilith é interpretada por alguns como sendo a primeira esposa de Adão, criada ao mesmo tempo e da mesma forma que ele, e apresentada em diversos mitos e narrativas como uma personagem demoníaca primordial ou um arquétipo na demonologia judaica. Na mitologia mesopotâmica, ela era associada a demônios femininos da noite e aos ventos.
O nome Lilith parece estar relacionado às palavras acadianas lilû (masculino) e suas variantes femininas lilītu e ardat lilî, que designavam espíritos ou demônios noturnos na religião mesopotâmica antiga. A raiz lil- é compartilhada pela palavra hebraica lilit que aparece em Isaías 34:14, embora estudiosos modernos como Judit M. Blair interpretem esse termo como referência a um animal noturno, possivelmente uma ave.
Na Antiguidade Tardia, a partir de cerca de 500 d.C., Lilith aparece em fontes mandeístas e judaicas em historiolas (encantamentos que incorporam uma breve história mítica) em vários contextos e localidades que fornecem descrições parciais dela. Ela é mencionada no Talmude (Eruvin 100b, Niddah 24b, Shabbat 151b, Bava Batra 73a) e no Zohar como uma figura demoníaca associada à sexualidade e ao perigo para recém-nascidos. A narrativa mais conhecida de Lilith como primeira esposa de Adão aparece no Alfabeto de Ben-Sira, um texto satírico medieval judaico datado entre os séculos VIII e X.
Muitas autoridades rabínicas tradicionais, incluindo Maimónides e Menachem Meiri, rejeitaram a existência de Lilith como entidade real. No entanto, a figura exerceu profunda influência no folclore judaico medieval e moderno, nas tradições de proteção contra espíritos malignos e, mais recentemente, em interpretações feministas e na cultura popular.

O nome Lilith deriva da raiz semítica lyl (noite), relacionada à palavra hebraica laylah (לילה) que significa "noite". Na mitologia mesopotâmica, encontram-se os termos acadianos lilû, lilītu e ardat lilî, que designavam classes de espíritos ou demônios, frequentemente associados ao vento, às tempestades e à noite.
Por volta de 3000 a.C., na Suméria, apareceram as primeiras representações de Lilitu, uma categoria de demônios associados a ventos tempestuosos, doenças e perigo para mulheres grávidas e crianças. Descrições antigas retratam os lilitu com características aviárias, incluindo asas e, em algumas representações, garras semelhantes às do pássaro Zu.
A conexão etimológica entre os termos mesopotâmicos e o hebraico lilit é amplamente aceita por estudiosos, embora o significado preciso do termo em Isaías 34:14 permaneça objeto de debate acadêmico.
A mais antiga possível referência textual a Lilith aparece no poema sumério Gilgamesh e a Árvore Huluppu (também conhecido como Inana e a Árvore Huluppu), datado de aproximadamente 2000 a.C. Neste texto, uma figura demoníaca feminina chamada ki-sikil-lil-la-ke constrói sua casa no tronco de uma árvore sagrada plantada pela deusa Inana às margens do Rio Eufrates. A identificação exata desta figura com a posterior Lilith judaica é debatida entre estudiosos.
Na Babilônia e Assíria, os demônios lilītu eram temidos como espíritos noturnos que atacavam homens solitários, mulheres grávidas e crianças pequenas. Textos de encantamento em acadiano frequentemente invocavam proteção contra estes espíritos. A iconografia mesopotâmica às vezes retratava estas entidades com características híbridas, combinando aspectos femininos humanos com asas de ave e garras.
O chamado Relevo de Burney (também conhecido como Rainha da Noite), um relevo em terracota datado de aproximadamente 1800-1750 a.C., foi inicialmente identificado por alguns estudiosos como uma representação de Lilith. O relevo mostra uma figura feminina nua com asas e pés de ave, flanqueada por corujas e em pé sobre dois leões. Atualmente, a maioria dos estudiosos identifica a figura como a deusa Inana (chamada Ishtar pelos acadianos) ou uma divindade relacionada, não como Lilith.

A única menção da palavra lilit (לִילִית) na Bíblia hebraica ocorre em Isaías 34:14, parte de uma profecia sobre a desolação de Edom. O versículo descreve criaturas selvagens que habitarão a terra devastada:
| “ | Wildcats shall meet with hyenas, / Goat-demons shall greet each other; / There too the lilith shall repose / And find herself a resting place. | ” |
A interpretação exata do termo lilit neste contexto é controversa. Atualmente não há consenso acadêmico, com estudiosos divididos entre interpretações animalísticas (referindo-se a uma ave noturna, possivelmente uma coruja ou noitibó) e demonológicas (referindo-se a um demônio ou categoria de demônios).
Judit M. Blair, em seu estudo De-Demonising the Old Testament (2009), argumenta que todas as oito criaturas mencionadas em Isaías 34:14 são animais naturais, e que lilit provavelmente se refere a uma ave noturna. Outros estudiosos, especialmente aqueles que consideram o contexto da demonologia mesopotâmica contemporânea, interpretam o termo como referência a um espírito ou demônio noturno.
Diversas traduções bíblicas refletem esta ambiguidade. A King James Version traduz como "screech owl" (coruja), a Revised Standard Version como "night hag" (bruxa noturna), enquanto a Vulgata latina usa "lamia" (um tipo de demônio feminino da mitologia greco-romana). A New American Bible usa "Lilith" diretamente, reconhecendo a palavra hebraica sem tradução.
É importante notar que em Isaías 34:14, o profeta não fornece explicação sobre a identidade de lilit, sugerindo que seu público contemporâneo (século VIII-VI a.C.) estava familiarizado com o termo. Este único uso bíblico não desenvolve mitologia sobre Lilith; desenvolvimentos posteriores vieram de fontes extra-bíblicas.
Lilith também aparece nos Manuscritos do Mar Morto, especificamente no texto 4Q510, parte de uma coleção de cânticos para dispersar demônios. A seita de Qumran estava profundamente envolvida em demonologia, e o texto menciona Lilith no contexto de um hino exorcístico, assumindo familiaridade com sua figura sem fornecer descrição detalhada.
Diferentemente da passagem de Isaías (onde o Grande Rolo de Isaías de Qumran usa o plural liliyyot), o texto 4Q510 usa lilit no singular, sugerindo uma entidade específica em vez de uma categoria de demônios.

Lilith não aparece na Mishná, mas é mencionada quatro vezes no Talmude Babilônico, compilado por volta de 500-600 d.C. Nestas referências talmúdicas, Lilith não é apresentada como esposa de Adão, mas como um demônio perigoso.
Em Niddah 24b, o texto discute fetos anormais e impureza ritual, declarando: "Se um aborto teve a semelhança de Lilith, sua mãe está impura por razão do nascimento, pois é uma criança, mas tem asas." Esta passagem estabelece que os rabinos acreditavam que Lilith tinha asas e podia influenciar gestações.
Em Eruvin 100b, uma baraita (ensinamento oral antigo) descreve as maldições das mulheres, mencionando que uma mulher "deixa crescer seu cabelo como Lilith". Esta referência associa Lilith com cabelos longos, um atributo que se tornaria característico em representações posteriores.
Shabbat 151b contém um aviso importante: "É proibido a um homem dormir sozinho em uma casa, para que Lilith não se apodere dele." Esta passagem retrata Lilith como uma súcubo, um demônio feminino que seduz homens dormindo e rouba seu sêmen para gerar demônios. Segundo esta tradição, Lilith era responsável por emissões noturnas involuntárias, usando o sêmen coletado para dar à luz centenas de bebês demoníacos.
Em Bava Batra 73a, rabino Rabbah relata: "Eu vi Hormin, filho de Lilith, correndo no parapeito do muro de Mahoza." Esta passagem estabelece Lilith no mundo acadêmico judaico como a "Mãe dos Demônios".
Estas referências talmúdicas refletem influência da demonologia babilônica, com Lilith compartilhando características das demonesses mesopotâmicas anteriores como capacidade de voar, perigo para gestantes e crianças, e associação com sexualidade perigosa.
O Alfabeto de Ben-Sira é um texto anônimo medieval em aramaico e hebraico, datado entre 700 e 1000 d.C., composto no mundo islâmico. O texto é conhecido por seu caráter satírico e frequentemente transgressor, contendo referências a temas considerados tabu. É nesta obra que aparece pela primeira vez a narrativa completa de Lilith como primeira esposa de Adão, a forma da lenda mais familiar ao público moderno.
O texto apresenta 22 provérbios em aramaico e 22 em hebraico, cada um seguido de um comentário aggádico (narrativo). Na quinta narrativa, Ben Sira conta a história de Lilith ao rei Nabucodonosor II da Babilônia, cujo filho jovem havia adoecido.
Segundo a narrativa, Ben Sira cura o filho do rei escrevendo um amuleto com o Nome Sagrado e inscrevendo nele os nomes dos três anjos responsáveis pela medicina: Snvi, Snsvi e Smnglof (em inglês: Senoy, Sansenoy e Semangelof). Ben Sira então explica ao rei a história destes anjos:
| “ | Quando Deus criou Adão, que estava sozinho, Ele disse: "Não é bom que o homem esteja só" (Gênesis 2:18). Ele então criou uma mulher para Adão, da terra, como Ele havia criado o próprio Adão, e chamou-a de Lilith. Adão e Lilith imediatamente começaram a brigar. Ela disse: "Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual." Adão respondeu: "Eu não vou me deitar abaixo de você, mas apenas por cima. Pois você está apta apenas para estar na posição inferior, enquanto eu sou para estar na superior." Lilith respondeu: "Nós somos iguais um ao outro, considerando que ambos fomos criados a partir da terra." Mas eles não se ouviram. Quando Lilith percebeu isso, ela pronunciou o Nome Inefável e voou pelos ares. | ” |
A narrativa continua descrevendo como Adão rezou a Deus pedindo que trouxesse Lilith de volta. Deus enviou os três anjos para encontrá-la e trazê-la de volta. Os anjos a encontraram no Mar Vermelho, nas mesmas águas onde os egípcios se afogariam séculos depois.
Os anjos ordenaram que ela voltasse, ameaçando afogá-la no mar se recusasse. Lilith respondeu: "Deixem-me em paz! Eu fui criada apenas para causar doenças em bebês: se forem meninos, terei poder sobre eles do nascimento até o oitavo dia; se forem meninas, do nascimento até o vigésimo dia." Quando os anjos insistiram, Lilith jurou pelo nome de Deus vivo: "Sempre que eu vir vocês ou seus nomes ou suas imagens em um amuleto, não terei poder sobre aquele bebê." Ela também aceitou que cem de seus filhos demoníacos morreriam a cada dia.
Esta história explica o costume judaico medieval de usar amuletos com os nomes dos três anjos (Snvi, Snsvi e Smnglof) para proteger recém-nascidos da influência maligna de Lilith. Os bebês meninos eram considerados vulneráveis durante os primeiros oito dias de vida (até a circuncisão), enquanto as meninas eram vulneráveis por vinte dias.
O Alfabeto de Ben-Sira apresenta uma versão sem precedentes da lenda de Lilith, embora alguns elementos de sua caracterização possam ser rastreados às tradições talmúdicas e midráshicas que surgiram em torno de Eva. A obra também pode refletir influências de tradições cristãs e da literatura indiana Panchatantra.
Estudiosos debatem se o texto deve ser lido como sátira ou como transmissão de tradições folclóricas genuínas. Adolf Neubauer e Abraham Epstein argumentaram pelo caráter satírico do texto, interpretação rejeitada por Louis Ginzberg. Independentemente da intenção original, a narrativa teve profundo impacto nas tradições folclóricas judaicas subsequentes e estabeleceu firmemente o medo de Lilith em comunidades judaicas medievais.
O Zohar (Sefer ha-Zohar, "Livro do Esplendor") é o texto fundamental do misticismo judaico conhecido como Cabala. Embora tradicionalmente atribuído ao rabino Shimon bar Yochai do século II, estudiosos modernos, especialmente Gershom Scholem, estabeleceram através de análise linguística que o Zohar foi composto principalmente por Moisés de Leão (c. 1240-1305) na Espanha do século XIII.
O Zohar contém 48 referências a Lilith em numerosas passagens, desenvolvendo significativamente sua mitologia além do que aparece no Talmude ou no Alfabeto de Ben-Sira. O texto apresenta Lilith como uma figura simultaneamente sedutora e destrutiva, mas sempre agindo com licença divina dentro do sistema cosmológico cabalístico.
Segundo o Zohar, Lilith "permanece nas entradas de estradas e caminhos, a fim de seduzir os homens". O texto desenvolveu elaboradamente o papel de Lilith como súcubo, afirmando em Zohar 19b:
| “ | Ela [Lilith] vagueia à noite, e percorre todo o mundo e brinca com os homens e os faz emitir sêmen. Em todo lugar onde um homem dorme sozinho em uma casa, ela o visita e o agarra e se apega a ele e tem seu desejo dele, e gera dele. E ela também o aflige com doenças, e ele não sabe disso, e tudo isso ocorre quando a lua está minguante. | ” |
O Zohar frequentemente menciona a Shekinah (a presença feminina divina) e constrói Lilith como sua antítese no sistema de emanações divinas (sefirot). Enquanto a Shekinah representa a mãe espiritual de Israel, Lilith representa forças de destruição e caos.
O Zohar também desenvolve a parceria de Lilith com Samael (ou Asmodeus), a personificação masculina do mal no sistema cabalístico. Segundo Zohar 23b e 55a, Lilith e Samael formam uma aliança profana e geram filhos demoníacos. Segundo algumas versões, Deus posteriormente castra Samael, levando Lilith a buscar homens solitários dormindo para roubar seu sêmen e engravidar-se.
O Zohar oferece várias versões contraditórias sobre a criação de Lilith. Uma versão afirma que ela foi criada no quinto dia, antes de Adão, como parte das "criaturas viventes" com as quais Deus encheu as águas. Outra versão descreve Lilith como tendo sido criada da mesma substância que Adão, pouco antes dele. Uma terceira versão sugere que Deus originalmente criou Adão e Lilith de tal maneira que a criatura feminina estava contida no masculino, com a alma de Lilith alojada nas profundezas do Grande Abismo.
Gershom Scholem propôs que o autor do Zohar estava ciente tanto da tradição folclórica de Lilith (incluindo o Alfabeto de Ben-Sira) quanto de outra versão conflitante, possivelmente mais antiga, e não fez tentativa de harmonizá-las.
As tradições folclóricas judaicas desenvolveram elaborados sistemas de proteção contra Lilith, especialmente para proteger mulheres grávidas, parturientes e recém-nascidos. Estas práticas eram disseminadas em comunidades judaicas desde a Babilônia medieval até a Europa e Oriente Médio dos tempos modernos.
Os amuletos mais comuns eram inscritos com os nomes dos três anjos mencionados no Alfabeto de Ben-Sira: Senoy, Sansenoy e Semangelof (em hebraico: Snvi, Snsvi, Smnglof). Segundo a tradição, a visão destes nomes faria Lilith lembrar de seu juramento de não prejudicar crianças protegidas por amuletos com estes nomes.
Outras práticas incluíam:
Taças de encantamento (incantation bowls) da Babilônia antiga, datadas dos séculos V-VII d.C., foram descobertas com inscrições em Aramaico judaico babilônico, Siríaco, Mandaico, Persa médio e Árabe. O centro do interior das taças tipicamente retratava Lilith (ou sua forma masculina, Lilit), rodeada por escritura em forma espiral, frequentemente referências ao Talmude ou à Escritura. Taças corretamente inscritas eram consideradas capazes de afastar Lilith ou Lilit do lar.
O Zohar recomendava um ritual especial antes da relação sexual para afastar os avanços sexuais de Lilith. Comunidades judaicas de períodos e continentes amplamente variados temiam Lilith, como evidenciado por amuletos encontrados no Irã, Pérsia e Índia.
Lilith também aparece como demônio em crenças tradicionais da cultura árabe e em algumas tradições islâmicas. Em algumas narrativas árabes, ela é identificada com demônios femininos noturnos semelhantes aos lilitu mesopotâmicos.
Algumas correntes minoritárias de pensamento na tradição judaico-cristã interpretam os dois relatos da criação em Gênesis como evidência de duas criações distintas de mulheres.
No primeiro capítulo de Gênesis (Gn 1:27), está escrito que "Deus criou o homem à sua imagem e semelhança; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher". Porém, no segundo capítulo (Gn 2:18), o "Senhor Deus disse: 'Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada'", e é apenas no versículo 22 do segundo capítulo que Eva é criada: "E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem".
Interpretações minoritárias sugerem que a mulher criada no primeiro capítulo poderia ser Lilith. Levando em consideração o versículo Gn 2:23, onde Adão diz "Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada", alguns interpretam a ênfase em "esta, sim" (ou "agora sim" em algumas traduções) como afirmação da existência de outra criatura anterior que não era qualificada como sua verdadeira companheira.
É importante notar que estudiosos bíblicos modernos geralmente atribuem os dois relatos de criação a diferentes tradições literárias (fonte Sacerdotal em Gênesis 1 e fonte Javista em Gênesis 2), escritas em períodos diferentes. A divisão em capítulos da Bíblia só ocorreu muitos séculos após a composição dos textos originais.
Judit Blair demonstrou em seu estudo de 2009 que todas as oito criaturas mencionadas em Isaías 34:14 (incluindo lilit) são animais naturais, não demônios. Esta interpretação acadêmica moderna contrasta com as leituras demonológicas tradicionais que influenciaram o desenvolvimento da mitologia de Lilith.

Nos séculos XIX e XX, a imagem de Lilith passou por notável transformação em círculos intelectuais seculares europeus, especialmente na literatura e nas artes. Escritores e artistas românticos passaram a enfatizar os aspectos sensuais e sedutores de Lilith, em contraste radical com sua tradicional imagem demoníaca.
Johann Wolfgang von Goethe incluiu Lilith em sua obra-prima Fausto (1808), onde ela aparece como uma bruxa sedutora. John Keats, Robert Browning e outros poetas vitorianos também exploraram a figura de Lilith em suas obras.
Robert Browning publicou seu poema Adam, Lilith and Eve em 1883, demonstrando conhecimento firme da história de Lilith baseada no Zohar.
Na arte visual, Dante Gabriel Rossetti criou Lady Lilith (1868-1873), retratando-a como uma mulher voluptuosa admirando seus próprios cabelos longos em um espelho, simbolizando vaidade e narcisismo. John Collier pintou sua famosa Lilith em 1892, mostrando-a como uma mulher nua e sensual enrolada em uma serpente, fundindo as imagens de Lilith com a serpente do Jardim do Éden.
Estas representações artísticas e literárias enfatizaram a beleza perigosa, a sexualidade indomável e a independência de Lilith, transformando-a de demônio ameaçador em símbolo de poder feminino autônomo.
A partir do final do século XX, Lilith foi amplamente adotada como símbolo pelo feminismo judaico e secular. Sua recusa em se submeter a Adão e sua insistência na igualdade foram reinterpretadas como resistência ao patriarcado e afirmação da autonomia feminina.
A revista Lilith, fundada em 1976, tornou-se uma importante publicação do feminismo judaico, adotando explicitamente o nome como símbolo de mulheres judias independentes e questionadoras. O Lilith Fair, festival de música organizado por Sarah McLachlan entre 1997-1999 (e revivido em 2010), celebrou exclusivamente artistas femininas, usando o nome de Lilith para simbolizar poder e solidariedade feminina.
Esta ressignificação feminista transformou Lilith de figura de medo e repúdio em ícone de emancipação feminina, igualdade de gênero e resistência a normas opressivas.
Estudiosos modernos debatem intensamente a historicidade e interpretação de Lilith nas fontes antigas.
Judit M. Blair, em De-Demonising the Old Testament (2009), argumenta vigorosamente que a passagem de Isaías 34:14 se refere a um animal noturno, não a um demônio, e que a "desdemonização" do texto bíblico é necessária para compreensão apropriada. Sua obra representa uma corrente acadêmica que questiona leituras demonológicas tradicionais de textos bíblicos.
Outros estudiosos, como Raphael Patai em The Hebrew Goddess e Gershom Scholem em suas obras sobre Cabala, exploraram Lilith como exemplo de elementos suprimidos do divino feminino no judaísmo.
Atualmente não existe consenso acadêmico sobre se a passagem de Isaías 34:14 refere-se a uma criatura natural ou a um demônio, com estudiosos aderindo a interpretações animalísticas ou demonológicas dependendo de suas metodologias e pressupostos. Esta falta de consenso reflete questões mais amplas sobre como interpretar elementos míticos e folclóricos em textos religiosos antigos.
Lilith tornou-se figura recorrente na cultura popular moderna, aparecendo em literatura fantástica, cinema, televisão, videogames e música. A série de animação Hazbin Hotel (2024) apresenta Lilith como personagem importante, esposa de Lúcifer e mãe da protagonista Charlie Morningstar.
Em literatura, o livro Gênesis Proibido - A Tragédia de Adão e Lilith (2014) retrata a saga de Lilith como a primeira mulher na Terra. Lilith também é considerada um dos arquidemônios em demonologia ocultista moderna, frequentemente associada ao pecado da vaidade.