Ludismo

Ludismo
Gravura colorida de um líder ludista em roupas femininas, com um edifício em chamas ao fundo
The Leader of the Luddites, água-forte colorida à mão, de 1812. Um líder em roupas femininas gesticula diante de um edifício em chamas e de uma multidão armada.
LocalInglaterra
Período de maior atividade1811–1816
Trabalhadores envolvidosOfícios da indústria têxtil
Formas de protestoDestruição de máquinas, manifestações e cartas de reivindicação
Nome adotado nas cartasNed Ludd

Ludismo, também grafado luddismo, foi um movimento de trabalhadores da indústria têxtil inglesa que, no início do século XIX, atacaram máquinas e instalações de fabricantes em protesto contra a redução dos salários e a perda de trabalho. Suas reivindicações também envolviam o trabalho infantil, as condições de produção e a qualidade dos tecidos. Os participantes, chamados ludistas ou luditas, trabalhavam na fiação, na tecelagem e na fabricação de malhas, e muitos dominavam as máquinas que usavam em seus ofícios.

O movimento começou em Nottinghamshire, em 1811, e se espalhou pelo Yorkshire e pelo Lancashire. Os ataques se dirigiam a fabricantes que empregavam o maquinário para reduzir pagamentos ou contornar os costumes que regulavam o aprendizado e a contratação. Nas cartas de ameaça e de reivindicação, os trabalhadores assinavam como seguidores de Ned Ludd, um personagem lendário que teria destruído teares. Proprietários reagiram a tiros, e a repressão militar e judicial levou à prisão, à execução e ao desterro penal de participantes. Os principais levantes se concentraram entre 1811 e 1816.

O nome passou a ser usado também para pessoas que rejeitam a industrialização, a mecanização, a automação ou outras tecnologias. Essa acepção, por vezes depreciativa, é mais ampla que as reivindicações do movimento inglês. O neoludismo reúne críticas posteriores à tecnologia e aos seus usos.

Nome e origem

As palavras "ludismo" e "luddismo" derivam do nome de Ned Ludd. Em português, "ludismo" também pode significar o caráter lúdico de uma atividade, com outra origem etimológica.

O nome de Ludd já era empregado nos escritos do movimento em 1811. A lenda conta que, em 1779, um aprendiz chamado Ned Ludd destruiu dois teares de meias depois de ser repreendido e receber uma ordem para mudar sua maneira de trabalhar. Nas cartas ludistas, ele se tornava "capitão", "general" ou "rei Ludd". Algumas versões situavam sua casa em Anstey, perto de Leicester, enquanto outras a colocavam na floresta de Sherwood, onde os remetentes das cartas diziam ter seu quartel-general.

História

Trabalho e produção no século XVIII

O crescimento do comércio e da navegação sustentava atividades manufatureiras nas quais o emprego era instável. Na produção doméstica do século XVIII, o subemprego era frequente, e os contratantes mantinham um contingente maior que o necessário para dispor de trabalhadores durante os períodos de maior procura.

Os comerciantes que financiavam a produção têxtil concentravam boa parte do capital em matérias-primas, o que lhes permitia ampliar as encomendas quando as vendas cresciam e reduzi-las quando o comércio enfraquecia. Para esses contratantes, manter a produção regular não tinha o mesmo peso que teria para os donos de fábricas, cujo dinheiro estava investido em edifícios e equipamentos. As oscilações sazonais dos salários se somavam às crises provocadas por guerras e colheitas ruins, criando condições para repetidos conflitos.

Protestos anteriores

Os ataques ludistas deram continuidade a formas de sabotagem já empregadas na indústria têxtil inglesa, sobretudo na fabricação de meias e de tecidos de lã. Ações organizadas de tecelões remontavam a 1675. Em Lancashire, a introdução de máquinas de fiar algodão provocou resistência violenta em 1768 e 1779. Esses equipamentos permitiam produzir mais depressa e a menor custo com trabalhadores menos qualificados e pior remunerados. O Parlamento respondeu a conflitos desse tipo com medidas como a Lei de Proteção dos Teares de 1788.

As altas no preço dos alimentos também provocavam revoltas. Em 1710, os barqueiros do Tyne se rebelaram no Porto do Tyne, e, em 1727, mineiros de estanho saquearam celeiros em Falmouth. Em 1740, houve uma rebelião em Northumberland e Durham, e, em 1756, comerciantes de cereais quakers foram atacados.

Malcolm Thomis interpretou a destruição de máquinas como um dos poucos meios de que os trabalhadores dispunham para pressionar empregadores, dificultar o uso de mão de obra mais barata e organizar a resistência coletiva. Para ele, atacar o maquinário não exigia uma hostilidade à técnica, pois as máquinas eram alvos acessíveis dentro de uma disputa trabalhista. O historiador marxista Eric Hobsbawm chamou essa prática de "negociação coletiva por meio de motins". A dispersão das oficinas dificultava greves de grande alcance, e os trabalhadores já recorriam à destruição de equipamentos desde a Restauração inglesa. Em 1830, as Revoltas de Swing, no sul e no leste da Inglaterra, levaram essa forma de protesto ao campo, com ataques a trilhadeiras.

Os levantes de 1811 a 1817

As Guerras Napoleônicas agravaram as dificuldades dos trabalhadores ingleses. O custo da guerra, o Bloqueio Continental e a escalada do conflito com os Estados Unidos, que desembocaria na Guerra Anglo-Americana de 1812, restringiram o comércio e se somaram ao desemprego e à inflação de 1810 a 1812. Na Inglaterra e no País de Gales, as condições de trabalho nas novas fábricas se deterioravam durante um período de queda da natalidade e de aumento da escolarização. A escassez de alimentos e a alta de preços atingiam famílias que antes conseguiam se manter com seus ofícios.

Em 11 de março de 1811, tropas dispersaram em Nottingham uma manifestação por trabalho e melhores salários. Naquela noite, máquinas foram destruídas na vizinha Arnold. Os ataques se repetiram e se espalharam nos dois anos seguintes. Os tecelões protestavam contra a redução dos pagamentos, a contratação de jovens sem o aprendizado habitual e o uso de teares largos para fabricar artigos mais baratos e de qualidade inferior. Essas mudanças desfaziam os acordos que tradicionalmente regulavam as relações entre artífices e mestres.

Os ludistas se reuniam à noite nas charnecas próximas às localidades industriais para realizar exercícios e manobras. A agitação cresceu em Nottinghamshire a partir de novembro de 1811 e alcançou o West Riding of Yorkshire e Lancashire em 1812. Nas Midlands, os alvos incluíam os teares largos usados para produzir artigos baratos de malharia. No Noroeste da Inglaterra, eram atacados os teares a vapor que pressionavam os salários na produção de algodão. Em Yorkshire, a resistência se dirigia às máquinas de aparar e levantar a superfície dos tecidos de lã durante o acabamento.

As incursões contra fábricas eram acompanhadas de manifestações e de cartas enviadas a industriais e autoridades. Nas cartas, os trabalhadores explicavam suas reivindicações e ameaçavam continuar os ataques caso os fabricantes mantivessem as máquinas e os métodos contestados. Nas Midlands, invocavam a legitimidade da companhia dos fabricantes de meias, uma organização de ofício que negociava abertamente com os mestres por meio de representantes. No Noroeste, onde faltavam instituições semelhantes, as cartas procuravam obter o reconhecimento dos trabalhadores como um corpo organizado. Os pedidos incluíam salários mínimos mais altos e o fim do trabalho infantil, por vezes com referências às revoluções americana e francesa. Em Yorkshire, as mensagens faziam ameaças mais violentas contra autoridades que os remetentes julgavam coniventes com os fabricantes.

Em Yorkshire, os acabadores de tecidos, chamados croppers, perderam trabalho com a introdução das máquinas de Enoch Taylor, de Marsden. Os ataques empregavam grandes martelos apelidados de "Enoch", em alusão ao fabricante. Ao quebrar as máquinas, os participantes teriam dito: "Enoch as fez, e Enoch as quebrará".

Os confrontos com tropas ocorreram na Fábrica de Burton, em Middleton, e na Fábrica de Westhoughton, ambas em Lancashire. Ludistas e apoiadores também enviaram ameaças anônimas de morte a magistrados e comerciantes de alimentos, e há relatos de agressões contra esses grupos. Em abril de 1812, os ludistas atacaram a fábrica de William Cartwright, em Rawfolds, perto de Cleckheaton, no Yorkshire. Os defensores impediram que a fábrica fosse destruída.

Em 1816, uma máquina de fabricar rendas de John Heathcoat foi destruída em Loughborough. Ele e outros industriais mandaram construir compartimentos secretos em seus edifícios para se esconder durante os ataques. No ano seguinte, Jeremiah Brandreth, fabricante de meias desempregado de Nottingham e possível ex-ludista, liderou a Revolta de Pentrich. A insurreição tinha objetivos políticos mais amplos e não se dirigia à destruição de máquinas, embora seja por vezes incluída nos últimos desdobramentos dos levantes ludistas.

Repressão e legislação

Cerca de 12.000 soldados, em sua maioria de unidades de milícia e de yeomanry, foram mobilizados contra os ludistas. Eric comparou esse contingente ao exército levado pelo duque de Wellington a Portugal em 1808, durante a Guerra Peninsular, e afirmou que a força empregada na repressão era maior.

Quatro homens liderados por George Mellor prepararam uma emboscada contra William Horsfall, dono da fábrica de Ottiwells, em Marsden, e o assassinaram em Crosland Moor, em Huddersfield. O industrial teria dito que cavalgaria mergulhado em sangue ludista até a altura da sela. George disparou o tiro fatal, que atingiu a virilha de William Horsfall. Os quatro foram presos, Benjamin Walker passou a colaborar com a acusação, e George, William Thorpe e Thomas Smith foram enforcados.

Em janeiro de 1813, uma comissão judicial em Iorque julgou 64 acusados de crimes ligados à agitação. As acusações abrangiam o ataque à fábrica de Cartwright, o assassinato de Horsfall e outras ações. Parte dos acusados foi liberada ou absolvida, e 17 foram executados. Os processos incluíram participantes dos levantes e pessoas cuja ligação com eles não foi comprovada. As condenações à morte e ao desterro reduziram a capacidade de atuação dos grupos, embora os ataques não cessassem imediatamente.

A legislação britânica já punia a destruição de equipamentos antes de 1812. O Frame-Breaking Act, aprovado naquele ano, tornou a destruição de certos teares um crime sujeito à pena de morte. A repressão incluiu prisões e execuções, mas os processos de Iorque se realizaram perante júris e parte das acusações foi abandonada por falta de provas. Os julgamentos e a severidade das penas procuravam dissuadir outros trabalhadores de continuar os ataques.

Em 27 de fevereiro de 1812, antes dos processos de Iorque, Lorde Byron discursou na Câmara dos Lordes contra o projeto de lei que ampliava a pena de morte. Ele condenou as medidas do governo e a miséria que encontrara em Nottinghamshire:

Estive em algumas das províncias mais oprimidas da Turquia, mas nunca, sob o mais despótico dos governos infiéis, contemplei uma miséria tão degradante como a que vi desde meu retorno, no próprio coração de um país cristão.

Interpretações e movimentos semelhantes

A leitura do ludismo como simples oposição ao progresso técnico foi contestada por historiadores que examinaram os salários, os costumes de ofício e o controle da produção. Os alvos dos ataques podiam ser máquinas já usadas havia muito tempo, quando os fabricantes mudavam as condições em que elas eram operadas.

Eric distinguiu a destruição de máquinas usada para negociar salários das resistências à concorrência de novos métodos de produção. Entre mineiros de carvão de Northumberland e Durham, danificar instalações e equipamentos podia servir para obter aumentos ou impedir reduções salariais. Pequenos produtores também podiam apoiar a resistência ao maquinário porque as novas instalações favoreciam concorrentes maiores. Essa interpretação aproxima parte dos conflitos das disputas entre produtores tradicionais e fabricantes que ampliavam seus investimentos, sem reduzir todos os participantes a uma mesma motivação.

Fora da Grã-Bretanha, conflitos semelhantes em torno da mecanização ocorreram na Bélgica, na Renânia e na Silésia. A expansão industrial e a formação de sindicatos abriram outros caminhos para as reivindicações, mas os levantes da década de 1810 e as formas posteriores de organização trabalhista tiveram ritmos e objetivos distintos.

Canções e acervos

A canção tradicional de Yorkshire "The Cropper Lads" aborda os ludistas e foi gravada por Lou Killen e Maddy Prior. "The Triumph of General Ludd", outra canção tradicional sobre o movimento, foi incluída pelo Chumbawamba no álbum English Rebel Songs, de 1988.

O Museu dos Fabricantes de Meias de Ruddington, em Ruddington, mantém materiais sobre os ludistas e a fabricação de malhas.

Usos posteriores do termo

"Ludita" passou a designar quem se opõe ou resiste a novas tecnologias, mesmo fora de um conflito trabalhista. O termo pode ter sentido depreciativo, e sua aplicação a críticos da industrialização, inclusive a adeptos do anarcoprimitivismo, não equivale à participação no movimento inglês do século XIX. Em 1956, durante um debate no Parlamento britânico, um representante do Partido Trabalhista afirmou que os trabalhadores organizados não estavam presos a uma "filosofia ludista".

Em abril de 1996, o Segundo Congresso Ludista, realizado em Barnesville, nos Estados Unidos, publicou um manifesto que definiu o neoludismo como um movimento sem liderança, de resistência passiva ao consumismo e às tecnologias da Era da Informação. O termo abrange correntes posteriores de oposição a diferentes tecnologias. A acepção ampla de ludismo também foi aplicada à sabotagem de sistemas por meio de vírus de computador e de outras formas de malware, em que recursos tecnológicos são empregados contra a própria tecnologia.

A expressão "falácia ludista"

No debate econômico, a expressão "falácia ludista" se refere à ideia de que a substituição de trabalhadores por máquinas produz necessariamente desemprego estrutural duradouro e prejuízo para o conjunto da economia. O argumento contrário sustenta que a redução do trabalho necessário em um setor pode baixar os custos e os preços, ampliar a produção e criar demanda por trabalho em outras atividades.

Durante o século XX e o início do XXI, predominou entre economistas a rejeição da ideia de que a mecanização levasse, por si só, a um desemprego permanente. A distribuição dos ganhos da automação também passou a receber atenção, pois aumentos na produção não asseguram que salários, rendimentos do capital e oportunidades de emprego cresçam na mesma proporção.

Ver também

Notas

  1. ↑ Em 16 de novembro de 1727, os magistrados de Falmouth comunicaram ao duque de Newcastle que os mineiros haviam arrombado e saqueado depósitos de cereais. Os magistrados duvidavam da alegação de escassez porque parte do cereal fora distribuída gratuitamente ou vendida por um quarto do preço. A referência arquivística é PRO, SP 36/4/22, também citada por Charles Wilson.
  2. ↑ Os croppers eram trabalhadores especializados que aparavam a superfície dos tecidos no acabamento.
  3. ↑ A comparação de Eric remete a Frank Ongley Darvall, Popular Disturbances and Public Order in Regency England, publicado pela Oxford University Press em 1934, p. 260.

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Bibliografia

Leitura adicional

Ligações externas

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