Malinche

Malinche (1496 – 1529 ou 1551), também conhecida como Malintzin e Doña Marina, foi uma indígena que acompanhou Hernán Cortés e teve um papel decisivo no auxílio da Conquista do México como intérprete entre a língua dos espanhóis e dos nativos da região do México. Nasceu em torno do ano 1500 nasceu possivelmente em Painala, povoado desaparecido perto de Coatzacoalcos, no atual estado de Veracruz.

Malinche foi uma das vinte jovens ofertadas a Hernan Cortés quando os indígenas de Tabasco foram derrotados, na batalha de Centla. Malinche foi considerada por Cortés como "sua língua", ou seja, sua própria voz e própria fala do general espanhol naquelas terras desconhecidas. (cit) Com ele, a indígena teve um filho, chamado Matín Cortés, o primeiro mestiço mexicano que temos registro. Posteriormente, Hernán Cortés casou Malinche com Juan Xamarillo, com quem ela teve a segunda filha, chamada María.

A expressão "la malinche!" às vezes é utilizada no sentido de "traidor!" no México e em países adjacentes. Para muitos mexicanos, Malinche foi uma traidora pois passou para o lado espanhol, mas estudos mais modernos apontam uma visão diferente desta personagem, tratando-a como vítima de um forte choque de cultura.

Vida

Origem

Lienzo de Tlaxcala: Malinche e Cortés no encontro com Montezuma

Segundo Bernal Díaz del Castillo, possivelmente Malinche nasceu nos arredores de Coatzacoalcos. Seus pais eram senhores ou caciques de um povoado chamado Painalá (ou Copainalá). Seu pai, de de acordo com o historiador Gómez de Orozco, era cacique de Oluta y Xaltipa e casado com uma "senhora de vassalos e domínios" chamada Cimatl, a qual foi descrita por Diaz del Castillo como "jovem e preciosa", ou seja, de nobre importância na sociedade .

Malinche nasceu entre o final do século XV e o início do século XVI, em uma região de fronteira entre os povos de língua náuatle e a área de influência cultural maia, na atual região de Tabasco, no México. Seu nome de nascimento é desconhecido. Algumas fontes afirmam que recebeu o nome Malinalli, em referência à divindade asteca associada à erva, e que posteriormente foi chamada Tenepal, termo que pode ser traduzido como "aquela que fala com vivacidade". Após a morte de seu pai, sua mãe casou-se novamente e teve outro filho. Segundo a tradição registrada por cronistas da época, essa nova configuração familiar levou Malintzin a ser vendida ainda criança a comerciantes de escravos provenientes de Xicalango, um importante centro comercial do sudeste do México. Mais tarde, em decorrência de conflitos entre grupos maias de Potonchán e os mexicas da região de Xicalango, ela foi entregue como tributo ao cacique maia Tabscoob, governante de Tabasco.

Por ter sido incorporada muito jovem à sociedade maia, Malintzin aprendeu a falar fluentemente o maia-ycauteca, além de conservar o náuatle, sua língua materna. Esse domínio de diferentes idiomas seria decisivo durante a conquista do Império Mexica, quando atuou como intérprete entre indígenas e espanhóis. Após a conquista, recebeu uma encomienda, uma concessão dada pela Coroa espanhola que permitia a um colonizador receber tributos e utilizar o trabalho de comunidades indígenas. Em troca, ela deveria proteger os indígenas e promover sua conversão ao cristianismo.

Malinche traduz a língua dos mexicas a Cortés. Lienzo de Tlaxcala, século XVI

Inicialmente, Hernán Cortés contava com Gerónimo de Aguilar, um espanhol que havia sobrevivido a um naufrágio no mar do Caribe e vivido por oito anos entre os maias. Encontrado por Cortés na ilha de Cozumel, Aguilar dominava a língua maia e atuava como intérprete entre o maia e o espanhol. Assim, os primeiros contatos entre espanhóis e mexicas eram realizados por meio de uma cadeia de tradução: Malintzin traduzia do náuatle para o maia, e Aguilar, do maia para o espanhol. Essa mediação tornou-se desnecessária quando Malintzin adquiriu fluência em castelhano. O cronista Francisco Cervantes de Salazar registra uma versão segundo a qual Malintzin impediu uma traição contra a expedição de Cortés, pedindo a Aguilar que transmitisse ao conquistador um alerta sobre a deslealdade de outros intérpretes indígenas. A partir desse episódio, Cortés a incorporou ao seu séquito.

Além de atuar como intérprete, Malintzin assessorou os espanhóis sobre os costumes sociais e militares dos povos indígenas e desempenhou funções de inteligência, mediação e diplomacia, exercendo papel importante na fase inicial da conquista do Império Mexica. Sua proximidade com Hernán Cortés era tão estreita que diversos códices indígenas, como o Lienzo de Tlaxcala, a representam constantemente ao lado do conquistador.

Quando os tlaxcaltecas ofereceram trezentas mulheres escravizadas como tributo a Cortés, o conquistador concedeu-lhes liberdade, providenciou seu batismo cristão e as colocou sob os cuidados de Marina. Segundo os cronistas, ao observarem o tratamento dispensado pelos espanhóis a essas mulheres, os líderes de Tlaxcala decidiram entregar cinco de suas filhas em casamento a capitães espanhóis. Entre elas estava Tecuelhuetzin, que recebeu no batismo o nome de Maria Luísa. Malintzin também esteve presente durante a chamada Noite Triste, em 1520. Na ocasião, ela, Maria Luísa e a espanhola Maria de Estrada separaram-se da coluna principal do exército espanhol durante a retirada de Tenochtitlán, sendo posteriormente resgatadas pelos irmãos da princesa tlaxcalteca.

Depois da Conquista

Depois da queda de Tenochtilán (13 de agosto de 1521) e do nascimento do filho Martín Cortés (1522), Malinche recebeu de Cortés ricas encomiendas auríferas em Jilotepec e viveu em uma casa que Cortés lhe deu em Coyoácan, próximo da capital mexica. Depois disso, dona Marina se casou com Juan Jamarillo, conquistador de grande poder e companheiro de Córtes. Com ele, a personagem teve outra filha, chamada María Jamarillo. Um tempo depois, Cortés a levou para reprimir a revolta de Cristóval de Olid em Honduras (1524–26), onde ela serviu novamente como intérprete. As informações sobre Malinche depois desta campanha são escassas, mas parece que viveu bem na Cidade do México (onde seu marido foi prefeito em 1526) até por volta de 1529, quando ela morreu provavelmente morreu, vítima de uma epidemia de varíola. Se conhece que Juan Jamarillo já era viúvo em 1530, quando se cas pela segunda vez, com Beatriz Andrade.

O historiador Hugh Thomas afirma que o ano provável de sua morte foi 1551, deduzindo por cartas encontradas na Espanha, que se referem a ela como viva em 1550. No entanto, outros autores consideram este como um erro e acreditam que as cartas se referiam a outras mulheres de mesmo nome: Marina Moctezuma (filha do falecido imperador e esposa do conquistador Juan Páez) e Marina Gutiérrez (esposa do tesoureiro Alonso de Estrada). A filha de Malinche, María Jaramillo, em 1547, ela e seu marido Luis de Quesada publicaram uma Prova de Mérito sobre Doña Marina, que também se refere à intérprete como tendo morrido vinte anos antes, um número provavelmente arredondado.

Origem do nome "Malinche"

As incertezas sobre o papel de Malintzín na conquista espanhola começam pelo seu próprio nome e pelas diferentes formas como ele aparece nas fontes históricas. Ao nascer, recebeu o nome de Malinalli ou Malinali, em homenagem à deusa da erva. Pouco tempo depois, sua família acrescentou o nome Tenepal, que significa "aquela que fala com muita vivacidade".

Antes que cerca de oitocentas mulheres indígenas fossem distribuídas entre os capitães espanhóis para servi-los durante a campanha, Hernán Cortés determinou que todas fossem batizadas. Com isso, Malinalli recebeu o nome cristão de Marina, ao qual os soldados espanhóis acrescentaram o tratamento honorífico "doña" (dona). Não se sabe ao certo se o nome "Marina" foi escolhido por sua semelhança sonora com seu nome indígena ou se era apenas um nome espanhol comum na época. Em náuatle, uma adaptação fonética de "Marina" originou a forma "Malin", à qual foi acrescentado o sufixo honorífico "-tzin", formando o nome Malintzin. Segundo algumas interpretações, esse termo pode ser traduzido como "nobre prisioneira", em referência à sua origem nobre e à sua ligação inicial com a expedição de Cortés. Diante das diferentes variantes de seu nome, alguns autores consideram que "Marina" ou "doña Marina" eram as formas pelas quais ela preferia ser chamada, por terem sido adotadas pela própria intérprete e por não carregarem as conotações negativas que o nome "Malinche" adquiriu posteriormente.

Na atualidade, o termo malinchismo é utilizado no México, geralmente de forma pejorativa, para se referir à valorização de costumes ou influências estrangeiras em detrimento da cultura local. A origem dessa expressão está relacionada às diferentes interpretações sobre a atuação de Malintzín durante a conquista. Alguns historiadores defendem que ela ajudou povos indígenas submetidos ao domínio mexica e contribuiu para a difusão do cristianismo na América, além de ter influenciado Cortés em algumas de suas decisões. Outros argumentam que sua colaboração facilitou a conquista espanhola e permitiu a rápida derrota do Império Mexica. Por essa razão, parte da historiografia e da memória popular passou a associá-la à ideia de traição aos povos indígenas.

Uma avaliação histórica

Os cronistas espanhóis destacaram repetidamente a importância de Malinche no processo de conquista do México. Em sua obra História Verdadeira da Conquista da Nova Espanha, Bernal Díaz del Castillo afirmou que, sem a ajuda de doña Marina, os conquistadores não teriam conseguido compreender os idiomas falados na região nem estabelecer alianças com os povos que se opunham ao Império Mexica. Essas alianças foram decisivas para o avanço das tropas espanholas em direção a Tenochtitlán. Além de atuar como intérprete, Malintzín também participou das negociações entre espanhóis e indígenas. Segundo Bernal Díaz del Castillo, foi ela quem alertou Cortés sobre uma emboscada planejada pelos habitantes de Cholula contra os conquistadores enquanto estes descansavam na cidade. Após receber esse aviso, Cortés ordenou uma ação militar que ficou conhecida como o Massacre de Cholula. Outro conquistador, Rodríguez de Ocaña, chegou a afirmar que, depois de Deus, Marina foi a principal responsável pelo êxito da conquista.

Lienzo de Tlaxcala: Malintzín representada com espada e escudo durante a batalha de Tepotzotlán.

As fontes indígenas também atribuem grande destaque à sua atuação. No Lienzo de Tlaxcala, manuscrito ilustrado produzido por indígenas tlaxcaltecas no século XVI, Malintzín aparece com frequência ao lado de Cortés e, em algumas cenas, é retratada sozinha ou conduzindo negociações, o que sugere que exercia um papel ativo nas relações diplomáticas entre espanhóis e povos indígenas. Essas representações indicam que sua participação foi além da tradução de idiomas, envolvendo também a mediação política e cultural durante a conquista.

A figura de Malinche no México contemporâneo

A imagem de Malintzín tornou-se um importante símbolo na cultura hispano-americana e tem sido representada em diferentes formas de expressão artística. Sua figura reúne dimensões históricas, culturais e sociais da conquista da América e, em obras modernas, costuma ser comparada a personagens como a Virgem Maria, La Llorona e às soldaderas mexicanas, mulheres que participaram da Revolução Mexicana ao lado dos combatentes.

Escultura de Malintzin no Paseo de las Heroínas, Paseo de la Reforma, Cidade do México.

Ao longo do tempo, Malintzín passou a ocupar um lugar central no imaginário mexicano. Seu legado foi marcado pela combinação entre história e lenda, dando origem a interpretações bastante distintas. Enquanto alguns a consideram uma das figuras fundadoras da nação mexicana, outros a veem como símbolo de traição aos povos indígenas por sua colaboração com os conquistadores espanhóis. A partir da década de 1960, estudiosas feministas passaram a reinterpretar sua trajetória. A escritora mexicana Rosario Castellanos teve papel importante nesse processo ao apresentar Malintzín não como uma traidora, mas como uma mulher submetida às circunstâncias de seu tempo. De modo geral, parte do feminismo mexicano passou a descrevê-la como alguém que viveu entre duas culturas e foi obrigada a tomar decisões complexas, sendo posteriormente associada à ideia de mãe simbólica da sociedade mestiça mexicana.

Em 1978, o cantor e compositor mexicano Gabino Palomares lançou a canção La maldición de Malinche, considerada uma das obras mais representativas do movimento da Nova Canção no México. Posteriormente gravada por grupos como Los Folkloristas e pela cantora Amparo Ochoa, a música critica o malinchismo e discute seus efeitos sobre a cultura hispano-americana e sobre a experiência histórica dos povos indígenas.

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