Mefe

Uma inscrição em afresco assomtavruli de Tamara na Igreja Bertubani de Davi de Gareji com os dizeres ႧႠႫႠႰ ႫႤႴႤႧ ႫႤႴႤ[a] (tamar mepet mepe), que significa "Tamara, Rei dos Reis".

Mefe (em georgiano antigo: ႫႴ; em georgiano: მეფე [ˈmepʰe]) é um título real usado para designar o monarca georgiano, quer se refira a um rei ou a uma rainha reinante. O título era originalmente um título masculino de governo.

Etimologia

A palavra é derivada da palavra georgiana meufe (მეუფე) que significa literalmente soberano e senhor. Alguns dialetos georgianos têm o termo nefe (ნეფე), todos derivados do proto-cartevélico comum mf/mefe/mafa (მფ/მეფე/მაფა). Embora mefe tenha um equivalente feminino, dedofali (დედოფალი; lit. 'rainha'), ele é aplicado apenas à consorte do rei e não tem o significado de um monarca governante.

História

Moeda de Davi IV com a inscrição assontávruli ႫႴႤ[a]ႠႴႧႵႰႬႩႾႧႱႾႧ (mpe~apt~k~rn~kkht~skht), que significa "Rei, [dos] Abecásios, Ibérios, Ranis, Caquécios, Armênios".

O termo mefe foi utilizado desde os primórdios pré-cristãos com Azão, mas o papel se tornaria mais estruturado no reinado de Farnabazo I no século III a.C.. Seus sucessores, os mefes farnabázidas,[b] seriam intitulados golias que possuiriam 𐬓𐬀𐬭𐬆𐬥𐬀𐬵 (fazna; lit. 'esplendor real'), a glória divinamente dotada que os antigos persas acreditavam[b] marcar apenas um governante legítimo, acompanhado de didebai (დიდებაჲ; lit. 'grandeza') e sue (სუე; lit. 'fortuna; destino'). O reinado do monarca georgiano era conhecido como mefobai (lit. 'realeza'). A perda de farna e sue levou à morte iminente ou à queda do mefe.

No final do século VI, o Império Sassânida aboliria a realeza georgiana do Reino da Ibéria, resultando no interregno que se estendeu de c. 580[c] a 888 como um principado rebaixado. Apesar da monarquia estar em suspenso e do governo real se desintegrar, os governantes do principado continuariam a reivindicar que fossem chamados de mefes e helmetsife (ჴელმწიფე, helmts'ipe; lit. 'soberano'). Após a restauração de 888 (ou 889) sob a dinastia do mefe Adanarses IV (r. 888–923), o novo reino emergiria como a fusão de muitas terras e territórios, o que levaria a uma unificação georgiana total em 1008.

No século XII, o mefe bagrátida[d] Davi IV, o Construtor (r. 1089–1125) se estabeleceu como a força política e militar superlativa da região. Com seu impulso ambicioso e sofisticado à promoção das imagens reais de seu reino, o estilo oficial de um rei se tornaria imperial e o rei adotaria os títulos de tuitemefacrobeli (თჳთმპყრობელი, tuitmp'q'robeli; lit. "mestre absoluto", ou seja, autocrator) e mefet[a]mefe (მეფეთ[ა]მეფე, mepet[a]mepe;[e] lit. "rei dos reis"), semelhante ao bizantino "rei de reis" (βασιλεὺς βασιλέων) e o persa xainxá (شاهنشاه). A projeção real de Davi IV de seu título grandioso foi parcialmente direcionada a um público não georgiano. O título xainxá foi mais tarde totalmente usurpado e consistentemente usado por monarcas georgianos, denotando soberania sobre vários súditos persas, como os xás de Xirvão, os xadádidas e os ildeguízidas. O culto real de um monarca atingiria seu zênite com uma governante feminina, Tamara, cuja execução de poder inauguraria a Idade de Ouro da Geórgia, sendo ela denominada Tamara, a mefe. Tamara recebeu os títulos mais longos e elaborados nas cartas reais, listando todos os povos e terras que governou como uma mefetamefe semissanta. O mefe Bagrationi, com sua legitimidade real[e] e pilar ideológico, governaria a Geórgia por um milênio, desde sua elevação medieval até a conquista russa no início do século XIX.

Notas

[a] ^ Os termos ႫႴ (mp), ႫႴႤ (mp'e) e ႫႤႴႤ (mep'e) foram usados ​​simultaneamente. Essas abreviaturas eram comuns em georgiano.
[b] ^ Os farnabázidas eram fascinados pela estrutura persa da administração real, mas cultivavam relações estreitas com os selêucidas helenísticos. Os reis georgianos pré-cristãos se modelaram num mesmo traje heroico do ciclo épico e das imagens iranianas, também incorporando várias alusões à Bíblia hebraica e às fontes siríacas clássicas. Os governantes georgianos pré-cristãos identificaram a Pérsia como a "terra dos herois e gigantes", um posição exaltada que nunca foi concedido ao Império Romano ou ao Império Bizantino.
[c] ^ Os cosroidas foram destronados após a morte do rei Bacúrio III (r. ?–580). Os filhos de Bacúrio permaneceriam na zona montanhosa da Caquécia e sua linhagem governaria a região como príncipes titulares denominados metavari.
[d] ^ Os bagrátidas restauraram a autoridade real logo após sucederem os cosroidas e tomarem o Principado da Ibéria em 813. Eles trouxeram rápida expansão e consolidação dentro das políticas georgianas. Os monarcas Bagrationi baseariam grande parte de sua cultura modelando e competindo intensamente com os imperadores bizantinos. Frequentemente reivindicavam o estatuto de santos e se ligavam ao simbolismo divino e eucarístico, tinham pretensões de linhagem davídica, sua superioridade real sempre retratava halos e coroas e cercada por santos guerreiros. O ícone do século XII preservado na coleção do Mosteiro de Santa Catarina no monte Sinai mostra Davi IV, denominado "imperador piedoso", de pé ao lado de São Jorge e recebendo a coroa de Jesus Cristo. Os reis bagrátidas expandiriam sua autoridade além dos confins da própria Geórgia, transformando o reino em uma potência imperial. A "bizantinização" imperial da Geórgia resultaria no abandono do seu uso tradicional da liturgia siro-palestina; na presença de milhares de monges georgianos em todas as terras bizantinas, incluindo Síria, Palestina, Egito, Chipre, Anatólia, Bulgária, no monte Atos; e na troca bizantino-georgiana de casamentos diplomáticos.
[e] ^ O primeiro rei georgiano a assumir o título de "mefet[a]mefe" foi Gurgenes II (r. 994–1008), mas o termo se tornaria absoluto e universal durante e depois de Davi IV. O título de Gurgenes é elaborado pelo cronista encomendado pelos bagrátidas, Simbácio, filho de Davi, explicando que Gurgenes era um mefe e pai de outro mefe. Gurgenes governou o Reino dos Iberos, enquanto seu filho, Pancrácio III, liderou o Reino da Abecásia.
[f] ^ A realeza georgiana tinha uma devoção obstinada e firme às regras do legitimismo e a sucessão dinástica como um novo mefe deveria ter uma conexão biológica e/ou matrimônio com uma família existente. Os farnabázidas, cosroidas e bagrátidas eram relacionados por descendência, casamento misto e adoção.

Referências

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Bibliografia