Miclafe

O miclafe (em árabe: مخلاف; romaniz.: mikhlāf; plural: em árabe: مخاليف; romaniz.: makhālīf) era uma divisão territorial tradicional do Iêmem histórico e de regiões vizinhas do sudoeste da península Arábica. Empregado desde a Antiguidade em contextos associados à organização territorial do Reino Himiarita, o termo adquiriu diferentes significados ao longo do período islâmico, podendo designar um distrito, uma região geográfica ou um território associado a determinada comunidade tribal. Na literatura geográfica árabe medieval, os miclafes eram frequentemente comparados às coras, embora não constituíssem necessariamente unidades administrativas uniformes, com limites e atribuições definidos.

As descrições dos miclafes foram preservadas por geógrafos e historiadores muçulmanos, entre os quais Aliacubi, Ibne Cordadebe, Alhamedani, Almocadaci e Iacute Alhamaui. Suas enumerações apresentam diferenças consideráveis quanto ao número, à localização e à natureza dos territórios identificados, refletindo tanto as transformações da organização regional quanto os diferentes critérios empregados pelos autores. Nas terras altas meridionais do antigo Iêmem do Norte, os miclafes estavam particularmente relacionados à distribuição das tribos iemenitas, sobretudo dos grupos associados às linhagens de Himiar e Calane. Em outras regiões, como a Tiama setentrional, destacaram-se unidades territoriais como o Miclafe Solimânico, formado pela reunião de territórios anteriormente distintos.

Embora a denominação tenha perdido gradualmente parte de seu emprego administrativo após a expansão do domínio aiúbida no Iêmem, os nomes de numerosos miclafes sobreviveram nas divisões territoriais posteriores. Em determinadas regiões montanhosas, essas unidades estavam relacionadas às subdivisões conhecidas como uzlas (em árabe: عزلة; romaniz.: ʿuzla), cuja organização também apresentava correspondências com as estruturas tribais locais. A persistência dessas denominações, documentada até o século XX, constitui um testemunho da continuidade e da transformação das formas tradicionais de organização territorial iemenita. Estudos modernos, especialmente os de Hiroshi Matsumoto, destacam a importância das genealogias tribais para compreender a distribuição histórica dos miclafes, ao mesmo tempo que ressaltam as dificuldades de reconstruir seus limites e suas funções administrativas.

Terminologia

O termo miclafe designava uma divisão territorial tradicional da geografia histórica do Iêmem, embora seu significado variasse conforme a época, a região e o autor que o empregava. Na literatura geográfica árabe medieval, era frequentemente equiparado à cora (em árabe: كورة; romaniz.: kūra), entendida como distrito ou província, e ao rustaque (em árabe: رستاق; romaniz.: rustāq), termo associado a uma região rural. Hiroshi Matsumoto observa que, além de identificar determinadas divisões territoriais, miclafe podia ser empregado genericamente com os sentidos de região, distrito ou área geográfica. A expressão al-makhālīf podia designar coletivamente as regiões iemenitas, enquanto ahl al-makhālīf («habitantes dos miclafes») era utilizada para se referir aos próprios iemenitas. Em determinados contextos, o conjunto dos miclafes podia representar o Iêmem como um todo. A origem da denominação foi objeto de diferentes interpretações. Segundo uma explicação atribuída a Alcadi, a palavra derivaria do verbo árabe takhallafa, relacionado à ideia de permanecer para trás. Outra hipótese associa o termo à raiz sabeia ḫlf, documentada com os significados de porta de uma cidade, região ou imediações de um centro urbano, sugerindo uma possível origem pré-islâmica da denominação.

As definições transmitidas pelos autores medievais também revelam diferenças de interpretação. No século XII, Naxuane Alhimiari explicou que miclafe era uma denominação iemenita para uma cora ou para um conjunto de coras. No século XIII, Ibne Almujauir descreveu os miclafes das terras altas iemenitas como extensas unidades territoriais que compreendiam fortalezas, aldeias e terras cultivadas em seus arredores. Por sua vez, Iacute Alhamaui relacionou a denominação tanto à identificação de uma região quanto ao nome de uma tribo. A interpretação dos miclafes como divisões administrativas formais exige cautela. Matsumoto ressalta que as fontes históricas empregavam a denominação de maneira frequentemente imprecisa: embora algumas passagens mencionem centros territoriais, governantes ou atividades de arrecadação, outras apresentam apenas nomes de localidades, sem esclarecer seus limites ou sua estrutura política. Com base nessa diversidade documental, o pesquisador questiona a possibilidade de considerar os miclafes registrados na literatura medieval como integrantes de um sistema administrativo homogêneo. Em seu estudo das terras altas meridionais do antigo Iêmem do Norte, examina-os sobretudo como divisões territoriais tradicionais relacionadas à distribuição dos grupos tribais.

Desenvolvimento histórico

A organização territorial do Reino Himiarita compreendia divisões denominadas miclafes e mafades. Segundo Hüseyin Algül, os responsáveis pelos miclafes recebiam o título de cail (qayl; plural: aqyāl), enquanto os titulares dos mafades eram designados du (dhū; plural: adhwāʾ). A estrutura política himiarita incluía ainda um conselho de oitenta cais, subordinado a um grupo de oito dignitários que auxiliavam o soberano. Durante o período islâmico, a denominação tornou-se recorrente nas descrições geográficas do Iêmem, embora as enumerações preservadas apresentem diferenças consideráveis. Aliacubi, em seu Kitāb al-Buldān, relacionou 75 localidades sob essa designação, enquanto Ibne Cordadebe, em seu Kitāb al-Masālik wa-l-Mamālik, enumerou 84. No século X, Almocadaci, em Aḥsan al-taqāsīm fī maʿrifat al-aqālīm, registrou 67 localidades iemenitas denominadas miclafes. Matsumoto ressalta, contudo, que esses três autores aplicaram a denominação indistintamente aos lugares relacionados, abrangendo grande parte do antigo Iêmem do Norte. Por essa razão, considera difícil determinar quais dessas localidades constituíam efetivamente divisões territoriais específicas e quais receberam o nome apenas por seu emprego genérico como sinônimo de região iemenita.

Outros testemunhos apresentam critérios de identificação mais específicos. No século X, Alhamedani, em Ṣifat Jazīrat al-ʿArab, identificou 28 miclafes e forneceu informações sobre as tribos que habitavam diversos desses territórios. Entre as localidades mencionadas encontrava-se Maribe, antigo centro político e econômico do sul da Arábia, identificado como um miclafe em sua descrição geográfica do Iêmem. Ao contrário das enumerações de Aliacubi, Ibne Cordadebe e Almocadaci, a obra de Alhamedani distinguia os miclafes de outras categorias territoriais, circunstância que levou Matsumoto a considerá-la particularmente importante para o estudo de sua organização histórica. No século XIII, Iacute Alhamaui, em seu Muʿjam al-Buldān, apresentou numerosas referências aos miclafes iemenitas. Bosworth registra a atribuição de 84 miclafes ao Iêmem, observando que uma enumeração transmitida por Tai contém apenas 74 nomes, alguns dos quais correspondem a designações tribais, e não propriamente geográficas. Em um levantamento das referências dispersas pela obra de Iacute, Matsumoto identificou 119 miclafes, incluindo unidades cuja localização não pôde ser determinada. O pesquisador ressalta que nem todos os territórios assim designados podem ser identificados com segurança como divisões regionais específicas, embora considere a obra de Iacute uma fonte importante para o estudo dos miclafes e de suas relações com as tribos iemenitas.

As diferenças entre essas descrições também refletiam a ausência de uma delimitação geográfica uniforme do próprio Iêmem. Enquanto determinados autores restringiam suas fronteiras às regiões meridionais da península Arábica, outros incluíam territórios mais setentrionais. Ibne Haucal, por exemplo, situava a fronteira setentrional do Iêmem nas proximidades de Assirraine, Ialamelame e Taife. Posteriormente, Adimasqui dividiu o território iemenita, em sua acepção mais ampla, em 24 distritos denominados miclafes. A partir do domínio aiúbida no Iêmem, a denominação perdeu gradualmente seu emprego como categoria administrativa formal. No século XIII, Ibne Almujauir ainda a utilizava para designar unidades territoriais das regiões montanhosas iemenitas, aparentemente maiores que as subdivisões conhecidas como uzlas, distinguindo-as das áreas costeiras da Tiama. O declínio desse emprego não significou, entretanto, o desaparecimento da denominação da geografia regional. Em sua análise do Majmūʿ Buldān al-Yamaniyyah wa-Qabāʾilihā, de Alhajari, Matsumoto identificou referências a miclafes ainda presentes na organização territorial iemenita do século XX. Nessa obra, 13 miclafes aparecem como unidades correspondentes ao nível da nāḥiya, enquanto outros 76 são registrados no nível das uzlas. A documentação examinada pelo pesquisador indica, assim, a sobrevivência da denominação em diferentes escalas territoriais, apesar das transformações ocorridas na organização regional.

Distribuição geográfica

Os miclafes estavam distribuídos por diferentes regiões do Iêmem histórico e pelas áreas vizinhas do sudoeste da península Arábica, abrangendo territórios montanhosos, vales, centros de povoamento e regiões de ocupação tribal. Suas denominações podiam estar associadas a cidades, regiões ou grupos tribais. Hiroshi Matsumoto ressalta que as fontes geográficas raramente permitem determinar os limites precisos dessas unidades. As localizações reconstruídas a partir dos testemunhos históricos devem, portanto, ser consideradas aproximadas, sem pressupor que os territórios mencionados correspondessem a áreas rigidamente delimitadas. Nas terras altas do antigo Iêmem do Norte, os miclafes concentravam-se particularmente nas regiões montanhosas situadas ao sul de Saná. Segundo a análise de Matsumoto, a distribuição apresentada por Alhamedani abrangia principalmente as áreas correspondentes ao interior da atual província de Taiz, à província de Ibe, à província de Zamar e à porção meridional da província de Saná. Dos 28 miclafes identificados em sua obra, dois situavam-se na região de Assir, um no sul do Iêmem e 25 no território correspondente ao antigo Iêmem do Norte, concentrando-se estes últimos nas terras altas meridionais. A distribuição registrada por Iacute Alhamaui era mais extensa, alcançando regiões setentrionais, ocidentais e orientais que não apareciam no levantamento de Alhamedani. Dos 119 miclafes identificados por Matsumoto na obra de Iacute, doze situavam-se em Assir, nove no sul do Iêmem e 75 no antigo Iêmem do Norte, enquanto 23 não puderam ser localizados. O pesquisador observa, contudo, que alguns dos territórios mais extensos mencionados por Iacute talvez não correspondessem a unidades territoriais da mesma natureza daquelas descritas nas terras altas meridionais.

A organização territorial dessas regiões estava estreitamente relacionada à distribuição das tribos iemenitas. No levantamento dos miclafes de Alhamedani, Matsumoto identificou 25 unidades para as quais havia informações sobre seus habitantes: onze eram associadas exclusivamente a tribos da linhagem de Himiar, duas a grupos da linhagem de Calane, e doze apresentavam grupos pertencentes a ambas as tradições genealógicas. Entre os miclafes de ocupação mista, cinco apresentavam predominância himiarita e três eram associados principalmente aos madijitas, segundo a interpretação do pesquisador. Entre os grupos mais frequentemente associados aos miclafes das terras altas meridionais destacavam-se as tribos vinculadas, nas genealogias tradicionais, a Himiar Alhumaiça e, particularmente, aos descendentes de Juxame. Ao comparar as informações genealógicas preservadas por Alhamedani e Iacute, Matsumoto identificou uma presença expressiva desses grupos entre os habitantes dos miclafes. A coincidência frequente entre os nomes de ancestrais tribais, os grupos que deles reivindicavam descendência e as denominações territoriais constitui, segundo o pesquisador, uma característica importante da organização regional iemenita.

Na porção setentrional da Tiama, a região correspondente à atual Jizã era historicamente dividida entre o Miclafe de Hacame, ao sul, e o Miclafe de Atar, ao norte. Esses territórios foram reunidos sob o governo de Solimão ibne Tarafe Alhacami, dando origem ao Miclafe Solimânico, assim denominado em homenagem ao governante. A documentação medieval também registra divergências na localização de determinados assentamentos em relação aos miclafes. Alhamedani identificou Sabiá como uma das aldeias do Miclafe de Hacame, enquanto Iacute a situou no Miclafe de Atar. A cidade posteriormente integrou o Miclafe Solimânico e chegou a exercer a função de sua capital. O Miclafe Solimânico constitui também um exemplo das limitações dos inventários geográficos medievais. Matsumoto observa que tanto essa unidade quanto o Miclafe de Jafar aparecem frequentemente nas crônicas históricas, mas não são mencionados nas obras geográficas examinadas em seu levantamento comparativo. O pesquisador reconhece essas ausências como exceções importantes à distribuição reconstruída a partir dos geógrafos, deixando seu exame específico para outra oportunidade.

Organização territorial e subdivisões

Nas terras altas meridionais do antigo Iêmem do Norte, os miclafes constituíam divisões territoriais tradicionais associadas à organização das comunidades tribais. Segundo Hiroshi Matsumoto, as fontes históricas permitem identificar uma relação entre essas unidades e as subdivisões conhecidas como uzlas (em árabe: عزلة; romaniz.: ʿuzla; plural: em árabe: عزل; romaniz.: ʿuzal), que correspondiam a unidades territoriais de menor extensão. Essa relação, entretanto, não deve ser interpretada como uma hierarquia administrativa uniforme em todas as regiões e períodos, pois a terminologia e a dimensão das divisões variavam conforme as circunstâncias locais. No antigo Iêmem do Norte, a organização administrativa rural compreendia cinco níveis principais: província (muḥāfaẓa), distrito (qaḍāʾ), nāḥiya, uzla e aldeia (qarya). Matsumoto observa que essa estrutura apresentava correspondências com a segmentação das comunidades tribais, nas quais a nāḥiya podia corresponder ao território de uma tribo, a uzla ao de uma subdivisão tribal e a aldeia ao de um grupo familiar ampliado. Essas relações, contudo, não eram universais. Além disso, as subdivisões locais nem sempre recebiam a denominação de uzla, sendo também conhecidas por nomes tradicionais, entre os quais miclafe, ou por expressões fracionárias que indicavam partes de uma unidade territorial maior.

A comparação entre os testemunhos medievais e a documentação territorial posterior indica que algumas denominações tradicionais sobreviveram às mudanças na organização administrativa. Ao examinar as divisões registradas por Alhajari, Matsumoto identificou casos em que os nomes de antigos miclafes correspondiam a unidades territoriais posteriormente classificadas como anaias, enquanto outros passaram a designar subdivisões menores. Em determinadas regiões, a fragmentação das unidades históricas contribuiu para que a denominação miclafe fosse conservada em escalas territoriais inferiores àquelas descritas pelos geógrafos medievais. Essa transformação, entretanto, não ocorreu de maneira uniforme. Matsumoto identifica divisões posteriores cuja correspondência com os miclafes medievais não pôde ser estabelecida, além de diferenças relacionadas à distribuição das comunidades tribais. O pesquisador considera que a persistência das denominações territoriais e sua associação às estruturas genealógicas ajudam a explicar a continuidade de determinadas formas de organização regional nas terras altas meridionais, mas reconhece que seu modelo apresenta exceções e não pode ser aplicado indistintamente a todo o Iêmem.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 Bosworth 1993, p. 35.
  2. ↑ Matsumoto 1998, p. 116.
  3. 1 2 Matsumoto 1998, p. 117.
  4. ↑ Matsumoto 1998, p. 117–118.
  5. ↑ Algül 1998, p. 62–63.
  6. ↑ Almocadaci 1906, p. 88–92.
  7. ↑ Matsumoto 1998, p. 119.
  8. 1 2 Matsumoto 1998, p. 119–120.
  9. ↑ Avcı 2004, p. 187–188.
  10. 1 2 Matsumoto 1998, p. 120–122.
  11. ↑ Grohmann 2002, p. 270.
  12. ↑ Matsumoto 1998, p. 121–122.
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  14. ↑ Matsumoto 1998, p. 121.
  15. ↑ Matsumoto 1998, p. 124–126.
  16. ↑ Saudipédia 2021a.
  17. ↑ Saudipédia 2021b.
  18. ↑ Matsumoto 1998, p. 126.
  19. ↑ Matsumoto 1998, p. 116–118.
  20. ↑ Matsumoto 1998, p. 121–123.
  21. ↑ Matsumoto 1998, p. 123–126.

Bibliografia