Assirraine

Assirraine (em árabe: السرين; romaniz.: al-Sirrayn) foi uma cidade portuária do Hejaz, situada na costa oriental do mar Vermelho, na atual Arábia Saudita, aproximadamente 43 a 45 quilômetros ao sul de Alite. Localizada nas proximidades da desembocadura de dois vales, constituiu um centro de comércio e comunicação entre Meca e o Iêmem, integrando as rotas terrestres e marítimas que atravessavam a região. Sua origem é tradicionalmente atribuída ao período pré-islâmico, mas sua importância econômica e urbana aumentou durante os primeiros séculos do Islã, especialmente a partir do século IX. A cidade alcançou um período de prosperidade nos séculos XI e XII, quando se destacou entre os estabelecimentos portuários do mar Vermelho.

Durante o século XIII, Assirraine esteve associada às disputas políticas e militares pelo controle de Meca entre os aiúbidas do Egito e os raçúlidas do Iêmem. Após a conquista aiúbida de Meca, em 619 ou 620 A.H. (1222–1223), o governante Almáleque Almaçude Iúçufe concedeu a administração de Assirraine e de outros territórios costeiros ao xarife Raji ibne Catada, que continuou a participar das rivalidades pelo emirado da cidade sagrada. A localidade também aparece nas narrativas das campanhas de 633 A.H. (1235–1236) e 639 A.H. (1241–1242), além de ter recebido, em 654 A.H. (1256), a visita do xarife Idris ibne Catada, que ali se encontrou com seu irmão Raji. A cidade permaneceu associada às relações entre os governantes regionais e os membros da dinastia dos catádidas.

Assirraine perdeu progressivamente sua importância comercial e foi abandonada durante o século XIV. Suas ruínas constituem atualmente um sítio arqueológico que preserva vestígios de edificações, áreas funerárias e materiais relacionados à ocupação urbana e às atividades portuárias. Entre os achados encontram-se cerâmicas islâmicas e chinesas, lápides com inscrições, objetos metálicos e outros artefatos que testemunham suas relações comerciais. Desde 2017, o sítio tem sido objeto de investigações arqueológicas conduzidas em cooperação entre a Arábia Saudita e a China, cujas escavações identificaram novas estruturas residenciais e produtivas, ampliando o conhecimento sobre a organização da antiga cidade.

Geografia

Assirraine situava-se na costa oriental do mar Vermelho, aproximadamente 43 a 45 quilômetros ao sul de Alite, na atual região administrativa de Meca. O sítio arqueológico encontra-se nas proximidades da aldeia de Aluasca, pertencente à área de Axauaque, a cerca de 245 quilômetros de Meca e 220 quilômetros de Gidá. A antiga cidade ocupava a planície aluvial de Uádi Halia, atualmente conhecido como Uádi Axaca Axamia, junto à sua desembocadura no mar Vermelho. Ao sul situava-se a foz de Uádi Alibe, atualmente denominado Uádi Axaca Aliamania. A tradição geográfica associa o nome Assirraine à fertilidade dessas duas bacias, caracterizadas pela presença de pastagens, terras agrícolas e água subterrânea. A posição de Assirraine favorecia as comunicações terrestres entre o Iêmem e o Hejaz, pois a localidade se encontrava no encontro de caminhos que percorriam a região costeira. Seu porto permitia igualmente o transporte marítimo de mercadorias entre os estabelecimentos do mar Vermelho e as regiões interiores. As crônicas medievais também utilizam Assirraine como referência geográfica para localizar Alcaricaine, lugar situado entre Meca e Assirraine, onde ocorreu uma batalha entre forças aiúbidas e raçúlidas em 633 A.H. (1235–1236).

História

A origem de Assirraine é tradicionalmente situada no período anterior ao surgimento do Islã, embora sua importância como centro portuário tenha aumentado sobretudo durante os primeiros séculos islâmicos. A localidade aparece na tradição literária árabe em versos atribuídos a Abu Quiraxe Alhudali, poeta que viveu na transição entre os períodos pré-islâmico e islâmico. A partir do século IX, Assirraine destacou-se como um centro de atividade econômica e urbana. Sua importância como porto associado a Meca tornou-se mais evidente no início do século X, e a cidade alcançou um período de especial prosperidade nos séculos XI e XII. Geógrafos muçulmanos como Almocadaci, Albacri, Dreses e Ibne Abede Almunime Alhimiari registraram sua importância entre os estabelecimentos da região. A cidade participava das redes de comércio que ligavam os portos do mar Vermelho às comunidades do interior da Península Arábica. Sua posição permitia o escoamento de produtos provenientes das regiões montanhosas e agrícolas, ao mesmo tempo que favorecia a circulação de mercadorias transportadas por embarcações. A atividade portuária contribuiu para sua prosperidade econômica e para sua integração nas rotas terrestres e marítimas entre o Iêmem e o Hejaz.

Em 619 ou 620 A.H. (1222–1223), o governante aiúbida do Iêmem, Almáleque Almaçude Iúçufe, filho do sultão Alcamil (r. 1218–1238), avançou contra Meca e expulsou seu emir, Alhaçane ibne Catada. Raji ibne Catada, irmão do governante deposto, participou da expedição, mas não recebeu o governo da cidade, cuja administração foi confiada a Nuredim Omar ibne Ali. Em compensação, Almaçude concedeu-lhe o governo de Assirraine, Hali e e metade de um miclafe, uma circunscrição territorial da Tiama cuja identificação precisa não é explicitada na passagem, territórios situados entre o Hejaz e o Iêmem. Durante as décadas seguintes, Assirraine foi mencionada nas narrativas das campanhas militares pelo controle de Meca. Em 633 A.H. (1235–1236), o sultão raçúlida Nuredim Omar (r. 1229–1249) organizou uma expedição contra a cidade, então governada pelo emir aiúbida Açadim Jugril. As forças iemenitas, comandadas por Xiabadim ibne Abedane, juntaram-se aos partidários de Raji ibne Catada. Jugril avançou contra os adversários e derrotou-os em Alcaricaine, entre Meca e Assirraine. Xiabadim foi capturado e enviado como prisioneiro ao Egito, enquanto Meca permaneceu sob domínio aiúbida.

Em 639 A.H. (1241–1242), Raji avançou até Assirraine durante uma nova campanha destinada a recuperar Meca. Informado de que as forças egípcias haviam recebido reforços, decidiu aguardar a chegada de Nuredim Omar. O sultão raçúlida partiu pessoalmente do Iêmem com um grande exército, diante do qual os egípcios abandonaram Meca. Nuredim entrou na cidade em Ramadã de 639 A.H. (março de 1242), restabelecendo a autoridade raçúlida. Assirraine continuou associada às disputas entre os membros da dinastia dos catádidas. Em 654 A.H. (1256), o xarife Idris ibne Catada, então corregente de Meca com Abu Numai I, dirigiu-se à localidade para visitar seu irmão Raji. Aproveitando sua ausência, Abu Numai assumiu sozinho o emirado. Idris regressou acompanhado por Raji, que mediou uma reconciliação entre os dois governantes, permitindo o restabelecimento do governo conjunto. Apesar de sua importância econômica e política durante a Idade Média islâmica, Assirraine perdeu progressivamente sua posição nas redes comerciais do mar Vermelho. As fontes sobre a história do porto indicam que sua atividade se estendeu até o século XIV, quando a cidade foi abandonada. Suas construções arruinadas e os materiais preservados no terreno constituem os principais testemunhos de sua antiga prosperidade.

Arqueologia

O sítio arqueológico de Assirraine conserva os vestígios da antiga cidade portuária, distribuídos por seis elevações arqueológicas e duas áreas funerárias. Entre os elementos arquitetônicos identificados encontram-se restos de edificações construídas com tijolos vermelhos, além de fragmentos de cerâmica do Período Abássida e de épocas islâmicas posteriores. As áreas funerárias constituem uma das principais fontes para o estudo da população da cidade. As lápides apresentam inscrições cuidadosamente executadas, ornamentos vegetais e molduras decorativas. Esses materiais fornecem informações sobre as práticas funerárias e a tradição epigráfica da região. As investigações também identificaram fragmentos de cerâmica chinesa e objetos metálicos de diferentes períodos islâmicos, relacionados à circulação de mercadorias e às atividades econômicas do antigo porto.

Em 2017, as autoridades sauditas anunciaram um acordo de cooperação arqueológica com a China para realizar investigações terrestres e subaquáticas em Assirraine. O projeto contemplava o estudo das estruturas portuárias e dos materiais provenientes das relações comerciais com o Extremo Oriente, incluindo fragmentos de porcelana e de cerâmica chinesa encontrados no sítio. As escavações conduzidas por uma missão conjunta saudita-chinesa prosseguiram nos anos seguintes. Os resultados da temporada de 2025, divulgados em abril de 2026, revelaram novas estruturas residenciais, unidades de serviço e armazenamento e fornos de cerâmica. Entre os materiais recuperados encontravam-se recipientes cerâmicos, incensários, instrumentos de pedra, contas de ágata, objetos de vidro, conchas e ossos de animais. Os achados contribuíram para o conhecimento da organização urbana e das atividades cotidianas dos habitantes de Assirraine durante os períodos de ocupação islâmica.

Referências

Bibliografia