Hali

Hali (em árabe: حلي; romaniz.: Ḥaly) foi uma região histórica da Tiama, situada na faixa costeira do mar Vermelho, entre o Hejaz e o Iêmem, no território da atual Arábia Saudita. Seu principal centro urbano era Hali ibne Iacube, localizada no vale do Uádi Hali, ao sul da atual Alcunfuda. A região ocupava uma posição estratégica nas rotas terrestres e marítimas que ligavam Meca aos territórios iemenitas e integrava a porção setentrional de Almiclafe Solimânico. Seus limites e sua vinculação política variaram ao longo do tempo, acompanhando as mudanças na autoridade exercida pelos governantes do Hejaz e do Iêmem sobre a Tiama setentrional.

No início do século XIII, Hali integrou as possessões concedidas pelo governante aiúbida Almáleque Almaçude Iúçufe a Raji ibne Catada, membro da dinastia dos catádidas e pretendente ao Emirado de Meca. Posteriormente, durante o domínio dos raçúlidas no Iêmem, a região esteve sob a autoridade de chefes quinanaítas, especialmente dos haramitas, que reconheciam a supremacia política dos sultões iemenitas, mas conservavam uma administração local. Seus governantes utilizavam o título de emir, cujo reconhecimento remontava ao fundador da dinastia raçúlida, Nuredim Omar ibne Ali. Essa relação de dependência distinguia Hali dos territórios submetidos diretamente à administração fiscal e política dos sultões do Iêmem.

Entre os séculos XIII e XV, Hali desempenhou um papel importante nas disputas pelo controle de Meca e das regiões fronteiriças do Hejaz. Seu território serviu de refúgio a xarifes depostos, enquanto seus governantes participaram das relações políticas entre as autoridades locais, os sultões raçúlidas e o sultanato mameluco. A região foi palco de conflitos internos e de intervenções militares, incluindo a conquista empreendida pelo emir de Meca Ajelane ibne Rumaita em 763 A.H. (1361–1362). Ainda no início do século XV, figurava nas movimentações militares relacionadas às disputas entre Haçane ibne Ajelane e Ali ibne Inane. Nesse período, o poder político atribuído aos descendentes de Iacube teria desaparecido, embora a documentação não permita estabelecer com precisão quando a antiga organização territorial deixou de existir.


Geografia

A região histórica de Hali situava-se na Tiama, extensa planície costeira do mar Vermelho, entre o Hejaz e o Iêmem, no território da atual Arábia Saudita. A geógrafa Elnure Azizova distingue tradicionalmente a Tiama do Hejaz, a de Assir e a do Iêmem, observando que essas divisões geográficas não correspondiam necessariamente às fronteiras políticas estabelecidas ao longo da história. Hali ocupava uma posição de transição entre esses espaços, integrando, em diferentes períodos, a esfera de influência dos governantes iemenitas. Seu principal núcleo urbano era Hali ibne Iacube, localizada no vale do Uádi Hali, ao sul da atual Alcunfuda. O território compreendia áreas do vale e da planície litorânea, cuja ocupação estava relacionada à disponibilidade de água e às vias de comunicação entre o interior e a costa. A região integrava o conjunto de localidades da Tiama atravessadas pelos caminhos que ligavam o Iêmem a Meca, embora as fontes geográficas medievais nem sempre distingam claramente a cidade de Hali, seu território e os pontos de acesso ao litoral.

A configuração geográfica do Uádi Hali favoreceu o estabelecimento de diferentes núcleos de povoamento ao longo de seu curso. Al-Zaylaʿī identificou referências históricas a localidades situadas no vale e em suas proximidades, observando que a distribuição desses estabelecimentos não correspondia a um único centro urbano. As descrições dos itinerários medievais registram Hali entre as etapas das viagens pela Tiama, enquanto a identificação dos antigos caminhos e pontos de passagem depende da comparação entre os relatos escritos, os topônimos preservados e a disposição dos assentamentos. A proximidade do mar Vermelho também vinculava a região às rotas marítimas, sem que isso permita identificar automaticamente a cidade de Hali ibne Iacube com seu antigo ancoradouro. A existência de um conjunto regional de povoações é igualmente documentada pela Saudipédia, que identifica a antiga aldeia de Ataia como um dos assentamentos estabelecidos nas proximidades do Uádi Hali. Situada a nordeste da atual cidade de Hali, Ataia integrava uma região histórica desenvolvida ao longo das margens do vale, juntamente com Hali ibne Iacube e outros núcleos de povoamento, entre eles Alcauze e Maquexuxe. A publicação situa Alcauze aproximadamente dezoito quilômetros ao sul de Ataia e Maquexuxe cerca de 57 quilômetros ao norte, demonstrando a distribuição dos antigos assentamentos por uma área mais ampla que a ocupada pela cidade principal.

A posição fronteiriça de Hali já era reconhecida pelos geógrafos medievais. Iacute Alhamaui, no Muʿjam al-buldān, menciona, sob o topônimo Aluma, uma localidade situada nas terras dos hudailitas, mas registra também uma tradição segundo a qual Aluma seria um vale pertencente aos haramitas, ramo dos quinanaítas, nas proximidades de Hali. O geógrafo acrescenta que Hali constituía o limite do Hejaz na direção do Iêmem. A passagem documenta a associação territorial dos haramitas à região e a importância de Hali como referência geográfica entre as duas grandes áreas da Arábia ocidental, embora a identificação de Aluma como vale dos quinanaítas seja apresentada pelo próprio autor como uma das tradições existentes sobre o lugar.

A extensão da Tiama considerada parte dos domínios iemenitas variou conforme as alterações das fronteiras políticas, que durante grande parte do período raçúlida alcançavam Hali ibne Iacube. Segundo Muḥammad Saʿīd, a cidade era considerada uma das primeiras localidades pertencentes ao domínio do governante do Iêmem. Essa posição fronteiriça conferia à região importância nas relações entre os poderes estabelecidos no Hejaz e no Iêmem, embora a autoridade efetivamente exercida pelos governantes iemenitas sobre os territórios setentrionais da Tiama variasse ao longo do tempo. Na organização territorial descrita para o período raçúlida, Hali integrava a porção setentrional de Almiclafe Solimânico, região que se estendia de Hali, ao norte, até Axarja, ao sul, nas proximidades da atual fronteira entre a Arábia Saudita e o Iêmem. Saʿīd estima a extensão desse território em aproximadamente cem quilômetros e menciona, entre suas localidades, Jizã, Sábia e Damade. Ao sul do Almiclafe Solimânico encontravam-se as regiões conhecidas nas fontes raçúlidas como terras setentrionais ou distritos setentrionais, situadas ao norte de Zabide. A delimitação setentrional do Almiclafe Solimânico também pode ser examinada a partir da história de Atar, antigo centro costeiro situado na região de Jizã. Segundo a Saudipédia, Atar constituiu originalmente um miclafe independente, posteriormente associado ao território da tribo de hacamitas, formando o Almiclafe Solimânico. A área histórica de Atar se estende desde o norte do Uádi Sábia até os limites meridionais do emirado histórico de Hali ibne Iacube.

História

Em 619 ou 620 A.H. (1222–1223), a região de Hali foi concedida a Raji ibne Catada, filho de Catada ibne Idris, fundador da dinastia dos catádidas e antigo emir de Meca. Após a morte do pai, Raji havia disputado o Emirado de Meca com seu irmão Alhaçane ibne Catada. Durante o haje de 617 A.H., procurou obter o apoio do emir do haje iraquiano Aquebaxe Anáceri, mameluco do califa Anácer (r. 1180–1225). As fontes divergem sobre se Aquebaxe efetivamente aceitou a proposta, mas Alhaçane acreditou que ambos haviam estabelecido um acordo e mobilizou suas forças contra o comandante iraquiano. Aquebaxe foi morto pelos partidários de Alhaçane nas proximidades de Meca, enquanto Raji fugiu em direção ao Iêmem. No Iêmem, Raji aproximou-se de Almáleque Almaçude Iúçufe, filho do sultão Alcamil (r. 1218–1238) e governante aiúbida do país. Quando Almaçude conquistou Meca, Raji participou da expedição contra Alhaçane, mas não recebeu o governo da cidade, confiado a Nuredim Omar ibne Ali, acompanhado por uma guarnição aiúbida. Em compensação, o governante concedeu-lhe Assirraine, Hali e e metade de um miclafe, uma circunscrição territorial da Tiama cuja identificação precisa não é explicitada na passagem, formando um conjunto de possessões situado entre o Hejaz e o Iêmem. A concessão demonstra o reconhecimento de Hali como território sujeito à autoridade de um governante, embora o relato não especifique seus limites nem a organização administrativa estabelecida sob Raji.

Com a ascensão dos raçúlidas ao poder no Iêmem, a região de Hali permaneceu vinculada à esfera política dos governantes iemenitas, mas conservou uma chefia local. Segundo o historiador Muḥammad Saʿīd, os dirigentes estabelecidos em Hali pertenciam aos quinanaítas, tribo de origem adenanita, entre cujos ramos se destacavam os haramitas. Ibne Almujauir identificou Hali como uma localidade pertencente aos quinanaítas, enquanto o sultão Almáleque Alaxerafe Omar II, em sua obra genealógica, enumerou dez subdivisões dessa tribo e atribuiu aos haramitas uma posição de liderança. A presença desse grupo entre os habitantes da cidade também foi registrada pelo viajante Ibne Batuta. Os chefes quinanaítas de Hali mantinham relações de dependência política com os sultões raçúlidas, caracterizadas pela prestação de auxílio e pela troca de presentes. O reconhecimento de sua autoridade local remontava ao governo de Nuredim Omar ibne Ali, fundador da dinastia raçúlida. Segundo o relato de Alcazeraji, Nuredim encarregou Muça ibne Ali Alquinani de combater os aiúbidas no Hejaz. Muça aceitou a missão e, em reconhecimento, recebeu do sultão o título de emir, posteriormente utilizado pelos dirigentes locais.

Essa forma de vinculação distinguia Hali das localidades da Tiama submetidas à administração direta dos raçúlidas. Saʿīd observa que diferentes cidades do Almiclafe Solimânico estavam sob a autoridade de chefes locais que geralmente reconheciam a supremacia dos sultões iemenitas, sem que a documentação as apresentasse como territórios diretamente administrados pela dinastia. Entre as exceções encontrava-se Harade, submetida à fiscalização fiscal raçúlida e registrada entre as cidades administradas pelo tesouro do sultanato. A situação de Hali deve, portanto, ser compreendida no contexto das relações de dependência entre o poder central e as autoridades tribais, sem pressupor a existência de uma administração provincial diretamente exercida pela corte. A vinculação política de Hali aos raçúlidas manifestou-se durante as disputas pelo Emirado de Meca no início do século XIV. Em 713 A.H. (1313–1314), o sultão mameluco Anácer Maomé decidiu intervir no emirado após receber numerosas queixas contra os xarifes Humaida e Rumaita ibne Abi Numai. Enviou ao Hejaz uma expedição militar destinada a instalar Abu Algaite ibne Abi Numai no governo de Meca. Ao saberem da aproximação das tropas, Humaida e Rumaita abandonaram a cidade e retiraram-se em direção ao território de Hali Bani Iacube. Depois da peregrinação, o comandante mameluco Ceifadim Taqueçuba permaneceu no Hejaz com suas forças para consolidar a posição de Abu Algaite e perseguir os irmãos depostos. Recusou-se, contudo, a penetrar no território de Hali Bani Iacube sem uma ordem expressa do sultão, por considerá-lo submetido à autoridade do governante raçúlida Almáleque Almuaiade Daúde (r. 1296–1321). A expedição terminou sem que as tropas mamelucas entrassem no território, e o contingente deixou Meca em Rabi I de 714 A.H. (maio/junho de 1314).

Na primeira metade do século XIV, a autoridade local também foi documentada pelo viajante Ibne Batuta, que conheceu Amir ibne Duaibe Alquinani, governante de Hali, durante a peregrinação de 730 A.H. (1329–1330). O viajante acompanhou o emir de Meca a Gidá e posteriormente foi recebido por ele em Hali ibne Iacube, onde permaneceu hospedado durante vários dias. Ao deixar a cidade, embarcou numa embarcação pertencente ao governante e seguiu para Axarja. O relato demonstra que o emir de Hali exercia autoridade local e dispunha de meios de transporte marítimo, embora não esclareça a extensão territorial de sua jurisdição nem os mecanismos de sua investidura. Em 738 A.H. (1337–1338), a região de Hali envolveu-se em outro conflito relacionado às disputas entre os xarifes de Meca. Mubaraque ibne Utaifa, que havia abandonado Meca e passado a atacar caravanas, dirigiu-se a Hali, onde apoiou grupos locais contrários a Amade ibne Salime, então governante da localidade. Mubaraque e seus aliados derrotaram Amade e saquearam sua residência e a cidade de Hali ibne Iacube. Posteriormente, Rumaita ibne Abi Numai interveio em favor do governante deposto e ajudou-o a recuperar o território. O episódio demonstra a participação dos xarifes de Meca nas disputas internas da região, sem permitir determinar a origem tribal de Amade ou a natureza de suas relações com os raçúlidas.

Em 763 A.H. (1361–1362), o emir de Meca Ajelane ibne Rumaita empreendeu uma campanha militar contra Hali ibne Iacube e conquistou a localidade. Os cronistas ressaltaram o caráter excepcional da conquista, afirmando que nenhum xarife de Meca havia conseguido submetê-la desde o governo de Abu Alfutu Haçane ibne Jafar. O episódio ocorreu pouco depois de Ajelane recuperar o Emirado de Meca e associar seu filho Amade ibne Ajelane ao governo. A notícia documenta uma intervenção militar sobre Hali, mas não esclarece por quanto tempo a região permaneceu sob o domínio de Ajelane nem se sua conquista alterou permanentemente a estrutura política local. A região continuou a figurar nas disputas políticas entre os xarifes de Meca nas décadas seguintes. Depois de se desentender com Amade ibne Ajelane, Inane ibne Mugamis, primo do emir, refugiou-se junto ao governante de Hali ibne Iacube. Posteriormente, seguiu para o Egito acompanhado por Haçane ibne Tacaba, onde ambos apresentaram queixas contra Amade à corte mameluca e obtiveram decretos favoráveis às suas pretensões. Regressaram ao Hejaz, mas Amade recusou-se a cumprir as determinações. A acolhida concedida a Inane demonstra que os governantes de Hali continuavam a desempenhar um papel nas relações políticas entre os xarifes de Meca e as autoridades dos territórios vizinhos.

No início do século IX A.H. (século XV), o poder político dos descendentes de Iacube em Hali teria desaparecido, segundo a Saudipédia. A publicação relaciona esse processo ao aparecimento de Alcunfuda nas fontes históricas, mas não estabelece que o declínio do governo local tenha correspondido ao abandono imediato da cidade ou à extinção de todas as formas de autoridade regional. Em 827 A.H. (1424), o sultão mameluco determinou a substituição de Haçane ibne Ajelane por Ali ibne Inane e encarregou o comandante Curcumas de assegurar a instalação do novo emir. Em 6 de Jumada I daquele ano, Ali e Curcumas entraram em Meca sem resistência, pois Haçane havia se retirado em direção à região de Hali, nas proximidades do Iêmem. Em Jumada II de 828 A.H. (1425), Curcumas partiu de Meca à frente de suas forças para perseguir Haçane até a mesma região. O xarife evitou o confronto e retirou-se em direção ao Négede, enquanto as tropas mamelucas regressaram a Meca. Ainda naquele ano, a corte mameluca reconciliou-se com Haçane, que recuperou o emirado. Os relatos dessas movimentações militares não permitem afirmar que Curcumas tenha ocupado a cidade de Hali ibne Iacube ou assumido o controle administrativo de seu território.

Referências

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  2. ↑ Al-Zaylaʿī 1986, pp. 11–20.
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Bibliografia