| Milodonte | |||||||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Ocorrência: Pleistoceno – início do Holoceno | |||||||||||||||
| Classificação científica | |||||||||||||||
| |||||||||||||||
| Nome binomial | |||||||||||||||
†Mylodon darwinii Owen, 1840 | |||||||||||||||
Milodonte ou Mylodon é um gênero extinto de preguiça-gigante terrestre da família Mylodontidae, conhecido por fósseis encontrados principalmente no sul da América do Sul. A espécie mais conhecida é Mylodon darwinii, descrita por Richard Owen em 1840 a partir de material coletado por Charles Darwin durante a segunda viagem do HMS Beagle.
O animal viveu durante o Pleistoceno e sobreviveu até o final desse período ou início do Holoceno, desaparecendo no contexto das extinções da megafauna sul-americana do fim do Quaternário. Seus restos são conhecidos de diferentes regiões da América do Sul, desde áreas da atual Bolívia até a Patagônia, incluindo importantes achados na Argentina e no Chile.
Mylodon darwinii era uma preguiça terrestre de grande porte. Estimativas recentes indicam que podia atingir cerca de três metros de comprimento e pesar entre 1.000 e 2.000 kg. Diferentemente das preguiças atuais, que são arborícolas, o Mylodon era um animal terrestre, adaptado à locomoção no solo.
Uma das características mais conhecidas do gênero é a preservação excepcional de partes da pele, da pelagem e de coprólitos em cavernas da Patagônia. Fragmentos de pele encontrados na Cueva del Milodón, no Chile, mostram uma pelagem densa e estruturas ósseas inseridas na pele, chamadas osteodermas. Esses osteodermos provavelmente contribuíam para a proteção do animal, embora não formassem uma carapaça contínua como a dos tatus.
O material-tipo de Mylodon darwinii corresponde a parte de uma mandíbula coletada por Charles Darwin em 1832 em Punta Alta, na região de Bahía Blanca, atual Argentina, durante a viagem do HMS Beagle. Richard Owen descreveu o gênero e a espécie em 1840, nomeando a espécie em homenagem a Darwin.
No fim do século XIX, novos achados na Patagônia chilena, especialmente na Cueva del Milodón, chamaram atenção pela preservação de pele, pelos e excrementos fossilizados. O aspecto aparentemente recente desses materiais levou, no início das pesquisas, a especulações sobre uma possível sobrevivência tardia do animal; datações posteriores, porém, confirmaram sua idade pleistocênica.
O Mylodon é conhecido sobretudo do sul da América do Sul, com registros na Patagônia, nos pampas argentinos e em áreas de latitude média e alta do continente. Modelagens paleobiogeográficas indicam que milodontídeos como Mylodon darwinii, Glossotherium robustum e Lestodon armatus ocuparam áreas parcialmente sobrepostas durante o Pleistoceno tardio, especialmente em regiões abertas do sul do continente.
No Brasil, registros atribuídos a Mylodon darwinii são raros e associados à planície costeira do Rio Grande do Sul, considerada o único registro brasileiro seguro da espécie em sínteses recentes sobre a fauna fóssil dos Campos Sulinos.
Durante muito tempo, o Mylodon foi interpretado como herbívoro, principalmente por comparação com as preguiças atuais, pela morfologia dentária e por evidências provenientes de coprólitos. Contudo, um estudo publicado em 2021 na revista Scientific Reports, baseado em isótopos de nitrogênio preservados em aminoácidos de pelos fósseis, concluiu que Mylodon darwinii provavelmente não era um herbívoro estrito, mas sim um onívoro oportunista.
Essa interpretação não implica que o animal fosse um predador ativo. A hipótese mais aceita a partir desses dados é que, além de matéria vegetal, o Mylodon poderia consumir ocasionalmente proteína animal, possivelmente por necrofagia ou aproveitamento de restos deixados por predadores pleistocênicos.
Mylodon pertence à família Mylodontidae, grupo de preguiças terrestres extintas que inclui formas aparentadas como Glossotherium, Paramylodon e Lestodon. Sua taxonomia é historicamente complexa, com revisões e confusões envolvendo diferentes gêneros e espécies de milodontídeos sul-americanos.
Estudos moleculares com DNA antigo e outros dados biomoleculares indicam que as preguiças-de-dois-dedos atuais, do gênero Choloepus, são mais próximas de Mylodon do que se supunha em classificações baseadas apenas em morfologia.
O Mylodon desapareceu no fim do Pleistoceno ou início do Holoceno, no mesmo período em que vários outros grandes mamíferos sul-americanos foram extintos. As causas exatas da extinção ainda são discutidas, mas estudos sobre a região de Última Esperanza, no sul do Chile, sugerem uma combinação de fatores, incluindo presença humana, mudanças climáticas e transformação da vegetação.
Na região patagônica, a redução de ambientes abertos e a expansão de florestas de Nothofagus podem ter afetado populações de grandes herbívoros e milodontes, enquanto a presença humana acrescentou novas pressões ecológicas. Assim, a extinção do Mylodon é geralmente interpretada como um processo multifatorial, e não como resultado de uma única causa isolada.