| Mohammed Yusuf | |
|---|---|
| Conhecido(a) por | Fundador do Boko Haram |
| Nascimento | 29 de janeiro de 1970 Região de Jakusko, atual estado de Yobe, Nigéria |
| Morte | 30 de julho de 2009 (39 anos) Maiduguri, Borno, Nigéria |
| Nacionalidade | nigeriano |
| Ocupação | Pregador e dirigente religioso |
| Religião | Islã sunita |
Mohammed Yusuf (29 de janeiro de 1970 – 30 de julho de 2009) foi um pregador nigeriano, fundador e dirigente do movimento islamista Boko Haram, organizado em Maiduguri, no nordeste da Nigéria, no início dos anos 2000. Também é referido como Abu Yusuf al-Barnawi.
Sua formação religiosa esteve ligada ao salafismo. Defendia a organização da sociedade segundo sua interpretação da xaria e rejeitava a democracia, as constituições seculares e a educação de inspiração ocidental.
Durante os confrontos de julho de 2009 entre o Boko Haram e as forças de segurança nigerianas, Yusuf foi capturado pelo Exército e entregue à polícia. Morreu sob custódia policial em 30 de julho. A Human Rights Watch caracterizou sua morte como uma execução extrajudicial. Após sua morte, Abubakar Shekau assumiu a liderança do movimento, que passou a desenvolver uma campanha insurgente de maior alcance.
Yusuf nasceu na região de Jakusko, no atual estado de Yobe, no nordeste da Nigéria. O jornal ThisDay identifica sua aldeia natal como Girgir.
As informações sobre sua escolaridade são divergentes. Um estudo de Raffaello Pantucci e Sasha Jesperson, publicado pelo Royal United Services Institute em 2015, observou que não estava esclarecido se Yusuf recebera educação ocidental formal ou apenas uma formação básica, abandonada em favor dos estudos religiosos. Em reportagem da BBC de 2009, o acadêmico Hussain Zakaria afirmou que ele tinha formação de padrão ocidental e era fluente em inglês. Já o pesquisador Atta Barkindo relata que Yusuf abandonou a escola e estudou o islã com seu pai e outros professores na Nigéria, no Chade e no Níger.
Na década de 1990, esteve associado ao Movimento Islâmico da Nigéria, liderado por Ibrahim Zakzaky. Posteriormente, afastou-se da orientação xiita desse movimento e aproximou-se de Ja'far Mahmud Adam, pregador vinculado ao Izala. Quando Adam organizou o grupo salafista Ahl al-Sunna, Yusuf tornou-se dirigente de sua ala juvenil.
A relação entre os dois deteriorou-se em razão de divergências sobre a educação secular e a participação dos muçulmanos nas instituições públicas. Adam aceitava a escolarização moderna e o trabalho no Estado como instrumentos de transformação social; Yusuf considerava essas atividades incompatíveis com sua interpretação religiosa.
A origem do Boko Haram é apresentada de maneira diferente nas fontes. A fundação sob a liderança de Yusuf é frequentemente situada em 2002. O cientista político Jideofor Adibe observa, porém, que existem reconstruções que remontam a 1995 e a um grupo denominado Sahaba, além da cronologia mais difundida de 2001 ou 2002.
Em Maiduguri, capital de Borno, Yusuf estabeleceu o centro Ibn Taymiyyah, inicialmente uma mesquita construída junto à sua residência. O espaço ampliou-se para abrigar seguidores, oferecer ensino religioso e acolher pequenas atividades comerciais. Seu nome homenageava o teólogo medieval Ibn Taymiyyah. A historiadora Élodie Apard identifica o centro como a principal base de atuação do pregador.
A expressão Boko Haram foi atribuída ao movimento por pessoas de fora dele. Associada à rejeição da educação ocidental, a denominação também remetia à oposição a influências culturais consideradas corruptoras pelos integrantes do grupo.
Suas pregações contra a corrupção e a ordem política atraíram tanto pessoas pobres quanto seguidores de condições econômicas mais favoráveis. Apesar da retórica contrária ao governo, sua ascensão também envolveu relações com setores da política de Borno.
A pregação e a formação de uma comunidade religiosa coexistiram com disputas sobre o recurso à violência. Em 2003 e 2004, uma facção dissidente envolveu-se em confrontos com a polícia. Antes do levante de 2009, integrantes do movimento já se preparavam para uma confrontação armada, segundo a análise de Omar S. Mahmood.
Yusuf defendia a substituição da ordem política secular por uma sociedade regida pela lei islâmica. Em sua análise dos discursos do pregador, Apard identifica a rejeição do governo, do sistema democrático e do modelo educacional ocidental como elementos centrais de sua mensagem.
Suas posições não representavam um consenso entre os salafistas nigerianos. Os debates com Ja'far Mahmud Adam expressavam divergências sobre como transformar a sociedade e sobre a legitimidade de estudar ou trabalhar em instituições estatais.
Em entrevista à BBC publicada em julho de 2009, Yusuf afirmou que a educação ocidental incluía ensinamentos contrários à sua fé. Rejeitou a teoria da evolução de Charles Darwin e explicou a chuva como criação divina, contrapondo-a ao processo de evaporação e condensação. Sobre a esfericidade da Terra, declarou que a rejeitaria caso contrariasse os ensinamentos de Alá.
Essa oposição não se estendia indistintamente às tecnologias modernas. Roman Loimeier observa que Yusuf e seus seguidores admitiam o uso de telefones celulares, televisão, motocicletas e medicina moderna, distinguindo esses recursos da educação secular que condenavam.
Yusuf tinha quatro esposas. As informações publicadas sobre o número de seus filhos não são uniformes: uma reportagem do ThisDay, de 2015, menciona doze; uma investigação de Ahmad Salkida publicada pelo HumAngle em 2026 estimou entre 24 e 26, com base em relatos familiares, e ressaltou as limitações dessa reconstrução.
Um de seus filhos, Habib Yusuf, tornou-se conhecido como Abu Musab al-Barnawi. Em agosto de 2016, foi reconhecido pelo Estado Islâmico como dirigente de sua organização na África Ocidental, em substituição a Shekau, que rejeitou a decisão.
A reportagem da BBC de 2009 também reproduziu a descrição de Hussain Zakaria sobre o estilo de vida dispendioso de Yusuf e sua afirmação de que circulavam relatos de que o pregador dirigia um Mercedes-Benz.
Ataques do Boko Haram contra a polícia em Bauchi, em 26 de julho de 2009, desencadearam confrontos que alcançaram Borno, Yobe e Kano. Os enfrentamentos e a repressão provocaram mais de 800 mortes.
A Human Rights Watch documentou execuções de detidos pelas forças governamentais e ataques do Boko Haram contra civis. A derrota militar do movimento e a morte de Yusuf não encerraram o conflito: a organização reorganizou-se posteriormente, ampliando sua campanha contra o Estado nigeriano.
Yusuf foi capturado vivo por militares em Maiduguri em 30 de julho de 2009 e transferido à custódia policial. Segundo testemunhas entrevistadas pela Human Rights Watch, foi morto a tiros nas dependências da sede da polícia na cidade.
Um relatório de Asma Jahangir, publicado pelas Nações Unidas em 2010, registrou as alegações encaminhadas ao governo nigeriano sobre o episódio. Entre elas estavam a informação de que Yusuf apresentava um ferimento no braço, já tratado, quando foi capturado, e a de que foi morto após a transferência à polícia.
As explicações oficiais foram contraditórias, atribuindo sua morte a confrontos ou a uma tentativa de fuga. Imagens de Yusuf vivo após a captura e, posteriormente, de seu corpo foram divulgadas. Uma reportagem da Australian Broadcasting Corporation, publicada no dia seguinte à morte, registrou a contestação da versão policial por jornalistas que haviam acompanhado a apresentação dessas imagens.
Na comunicação resumida no relatório de 2010, os relatores das Nações Unidas solicitaram esclarecimentos e uma investigação das mortes. O documento assinalou que não havia sido recebida resposta do governo àquela comunicação.
Uma comissão foi criada em agosto de 2009 para investigar a morte de Yusuf. Em relatório de 2021, a relatora especial Agnès Callamard observou que suas conclusões não haviam sido divulgadas. O mesmo documento registrou que cinco policiais, entre eles dois comissários assistentes, foram acusados em julho de 2011 pelo homicídio.
Em dezembro de 2015, um tribunal federal de Abuja encerrou o processo contra os cinco policiais após considerar insuficientes as provas apresentadas contra eles. Conforme a reportagem do ThisDay, o juiz concluiu que os depoimentos das seis testemunhas de acusação não vinculavam os réus à morte de Yusuf.
Após a repressão de 2009, parte dos integrantes do movimento fugiu para países vizinhos. Shekau, que havia sido vice de Yusuf, assumiu sua liderança. Em setembro de 2010, um ataque à prisão de Bauchi libertou centenas de detentos, entre eles integrantes do Boko Haram, e marcou o retorno da organização às operações de maior escala.
Nos anos seguintes, a campanha insurgente incluiu atentados, sequestros e ataques contra escolas, comunidades e instituições públicas, expandindo-se para além das fronteiras da Nigéria. A morte de Yusuf e de outros membros sob custódia foi utilizada pelo movimento como justificativa para sua campanha de violência.
O movimento também passou por divisões. O Ansaru anunciou sua existência em janeiro de 2012, em meio a críticas às mortes de civis muçulmanos provocadas por ataques do Boko Haram. Em 2016, a disputa entre Shekau e Abu Musab al-Barnawi consolidou a separação entre suas facções. As divergências incluíam a violência contra civis muçulmanos e a autoridade sobre a organização vinculada ao Estado Islâmico.