Mucadrame

Mucadrame (em árabe: مخضرم; romaniz.: mukhaḍram) é a designação dada, na tradição islâmica, à pessoa que viveu tanto durante a Jailia quanto no período inicial do islão e que, embora tenha se convertido durante a vida de Maomé ou após sua morte, não chegou a vê-lo como muçulmano. Por essa razão, os mucadrames não são considerados companheiros de Maomé. Embora alguns estudiosos os incluam entre os tabis por terem convivido com membros da primeira geração de muçulmanos, os especialistas em hádice tradicionalmente os classificam como uma geração distinta, intermediária entre os companheiros e os tabis. O termo também possui outros usos na tradição árabe. Na história da literatura, designa os poetas que viveram a transição entre a poesia pré-islâmica e a islâmica, formando uma categoria intermediária entre os autores da Jailia e os poetas propriamente islâmicos. Em sentido mais amplo, a expressão mukhadramu 'l-dawlatayn ("das duas dinastias") passou a ser empregada para designar escritores que viveram tanto durante o Califado Omíada quanto no Califado Abássida.

Etimologia

A origem do termo mucadrame é objeto de diferentes interpretações na tradição lexicográfica árabe. A explicação mais difundida deriva a palavra do verbo khadrama, empregado para designar o ato de cortar parcialmente a orelha de um camelo. Em sentido figurado, essa etimologia passou a representar alguém "separado" ou "desligado" da incredulidade, em alusão à conversão ao islão. Outra interpretação relaciona o termo a um hádice segundo o qual Maomé teria orientado os muçulmanos a marcar as orelhas de seus camelos de modo distinto do costume pré-islâmico. Com base nessa tradição, alguns lexicógrafos preferiram a forma mukhadrim, entendida como "aquele que marcou seus camelos da nova maneira", ao passo que mukhadram passou a ser explicado como aquele que conheceu ambos os costumes. Outra explicação deriva o termo do mesmo verbo no sentido de "misturar", interpretando o mucadrame como aquele que reuniu em sua experiência pessoal tanto a Jailia quanto o islão. Já o crítico literário Ibne Raxique relacionou a palavra ao substantivo khidrim, que significa "abundante" ou "copioso", especialmente em referência a um poço com grande quantidade de água. Segundo essa interpretação, o termo designaria quem vivenciou plenamente os dois períodos históricos. Alguns autores restringiram ainda mais o conceito, sustentando que apenas deveriam ser considerados mucadrames aqueles que passaram aproximadamente metade da vida na época pré-islâmica e metade no período islâmico.

Definição

Desde os primeiros séculos do islão, os estudiosos concordaram em definir os mucadrames como indivíduos que viveram tanto durante a Jailia quanto no período islâmico e que abraçaram o islão. Entretanto, divergiram quanto aos critérios exatos para sua identificação. Uma das principais controvérsias diz respeito ao momento em que se considera encerrada a época pré-islâmica. Segundo uma opinião, a Jailia terminou com o início da revelação recebida por Maomé, em 610, inaugurando imediatamente o período islâmico. Outra corrente sustenta que a transição somente se completou com a Conquista de Meca (630), quando a maior parte da Península Arábica passou ao domínio islâmico. Esta última interpretação foi a preferida pelos especialistas em hádice, que classificaram como mucadrames pessoas que ainda conviveram com tribos não islamizadas antes da conquista da cidade, mesmo que tivessem nascido após a Hégira. Outra divergência refere-se ao momento da conversão ao islão. Alguns autores sustentaram que o indivíduo deveria necessariamente ter abraçado a nova religião durante a vida de Maomé, enquanto outros admitiram também aqueles que se converteram somente após sua morte. Em contrapartida, há consenso de que quem encontrou Maomé antes da conversão, mas apenas se tornou muçulmano posteriormente, não pode ser considerado companheiro, embora seja geralmente classificado como mucadrame por ter vivido em ambos os períodos históricos. Na ciência do hádice, os mucadrames ocupam uma posição intermediária entre os companheiros de Maomé e os tabis. Embora tenham convivido com numerosos companheiros e, por essa razão, possam ser considerados tabis em sentido amplo, os tradicionalistas passaram a tratá-los como uma geração distinta em virtude de terem vivido na época de Maomé sem, contudo, encontrá-lo como crentes. A opinião de Abu Muça Almadini, segundo a qual os mucadrames deveriam ser incluídos entre os companheiros, não encontrou aceitação entre os especialistas.

Uso

Na tradição literária árabe, o termo mucadrame passou a designar os poetas que viveram na transição entre a Jailia e o islão. Segundo a classificação proposta por Ibne Raxique, as sucessivas gerações de poetas árabes dividem-se em quatro grupos: os poetas pré-islâmicos, os mucadrames, os poetas islâmicos e os autores modernos (muhdath). Essa divisão foi posteriormente adotada por diversos estudiosos da literatura árabe. Entretanto, autores mais antigos, como Ibne Salame Aljumai, distinguiam apenas três grupos e tratavam os mucadrames como uma categoria inserida entre os poetas da Jailia. A mesma tendência de reunir ambas as categorias encontra-se em outras obras clássicas, nas quais os poetas pré-islâmicos e os mucadrames são considerados conjuntamente em oposição aos autores posteriores. Durante muito tempo predominou a interpretação de que a tradição poética pré-islâmica teria permanecido praticamente inalterada até o período omíada. Estudos modernos, contudo, demonstraram que diversos poetas mucadrames introduziram mudanças importantes tanto na forma quanto no conteúdo da poesia árabe. Entre eles destacam-se Alaxa, Labide ibne Rabia, Abu Duaibe Alhudali e Alutaia, cujas obras apresentam inovações que antecipam características tradicionalmente atribuídas aos poetas omíadas. Essas transformações incluem alterações estruturais na cássida, o desenvolvimento da poesia amorosa (gazal), o emprego de unidades narrativas independentes, frequentemente introduzidas como comparações, uma nova concepção das relações amorosas e uma percepção distinta da passagem do tempo. Segundo a historiografia moderna, essas mudanças refletem as profundas transformações sociais e econômicas que acompanharam o surgimento do islão. O termo também adquiriu um sentido mais amplo na historiografia e na crítica literária por meio da expressão mukhadramu 'l-dawlatayn ("das duas dinastias"), empregada para designar poetas que viveram tanto durante o Califado Omíada quanto no Califado Abássida. A designação aparece pela primeira vez no título de uma obra hoje perdida de Iáia ibne Ali Almunajim, conservada parcialmente no Kitab al-Aghani. Embora ocasionalmente aplicada a autores como Baxar ibne Burde e Ibn Maiada, essa classificação nunca alcançou ampla aceitação, sendo mais comum que esses poetas fossem reunidos entre os chamados autores modernos (muhdath).

Na ciência do hádice

Os mucadrames desempenham papel relevante na tradição de transmissão do hádice. Os tradicionalistas costumam incluí-los entre os mais antigos narradores da geração posterior aos companheiros, e diversos deles figuram entre os mais respeitados transmissores da literatura islâmica primitiva. Ao enumerar os mais destacados tabis, Amade ibne Hambal incluiu nomes como Alcama ibne Caice, Masruque ibne Alajedá, Abu Otomão Anadi e Caice ibne Abi Hazime, todos classificados como mucadrames. A categoria recebeu tratamento específico nas principais obras de metodologia do hádice. Autores como Aláqueme de Nixapur, Ibne Assala, Anauaui, Zainadim Aliraqui, Ibne Hajar, Açuiuti e Açacaui dedicaram capítulos próprios aos mucadrames, consolidando sua posição como uma geração distinta na literatura especializada. Também foram compostas obras exclusivamente dedicadas ao tema. Entre elas destaca-se o Kitab al-Mukhadramin, atribuído a Muslim ibne Alhajaje, provavelmente o primeiro livro dedicado ao assunto, embora não se saiba se chegou aos nossos dias. Posteriormente, Sibte ibne Alajami reuniu informações biográficas sobre 155 mucadrames em Tadhkirat al-Talib al-Mu'allam bi-man Yuqal Innahu Mukhadram, considerada a mais abrangente obra preservada sobre o tema. O levantamento biográfico mais extenso encontra-se, contudo, em Al-Iṣāba fī Tamyīz al-Ṣaḥāba, de Ibne Hajar. Embora destinada à identificação dos companheiros de Maomé, a terceira parte da obra reúne as biografias de cerca de 1 400 homens e mulheres classificados como mucadrames.

Referências

  1. 1 2 Jacobi 1993, p. 516.
  2. ↑ Efendioğlu 2020, p. 393.
  3. ↑ Efendioğlu 2020, pp. 393–394.
  4. ↑ Efendioğlu 2020, p. 394.

Bibliografia