Os muraditas (em árabe: مراد; romaniz.: Murād) foram uma tribo árabe do Iêmem, pertencente aos madijitas, uma grande confederação tribal catanita da Arábia meridional. Segundo a tradição genealógica, seu ancestral epônimo era Murade, nome interpretado por algumas fontes como um epíteto relacionado ao verbo árabe para "rebelar-se", embora essa etimologia seja considerada pouco convincente. As genealogias divergem quanto à posição exata de Murade entre os ancestrais madijitas. O território histórico da tribo situava-se principalmente no Jaufe, a leste de Najrã e Maribe, numa região árida onde os muraditas conservaram um modo de vida predominantemente beduíno. Compartilhavam com os vizinhos hamedanitas o culto ao deus pré-islâmico Iagute.
Atestados em inscrições sabeias desde pelo menos o início do século VI, os muraditas participaram dos conflitos políticos e tribais do Iêmem pré-islâmico e mantiveram relações tanto com o Reino de Himiar quanto com os lácmidas de Hira. Pouco antes da consolidação do Islã na região, sofreram uma grave derrota diante dos hamedanitas, associada pelas tradições ao Dia de Arrasme. A aproximação posterior com Maomé foi marcada por rivalidades internas, sobretudo entre os chefes Farua ibne Muçaique e Caice ibne Maquexu. Farua estabeleceu relações com Maomé e foi reconhecido como autoridade entre os grupos da região, enquanto as tradições divergem sobre a posição assumida por Caice e pelos muraditas durante a revolta de Alaçuade Alanci.
Após as Guerras da Apostasia, os muraditas participaram das primeiras conquistas muçulmanas, combatendo na Síria, no Iraque e no Egito. Um contingente particularmente numeroso estabeleceu-se em Cufa, onde a tribo passou a integrar a vida política e militar da cidade e esteve associada a episódios dos primeiros conflitos internos do califado. Entre os muraditas ou personagens de ascendência muradita mais conhecidos figuram Hani ibne Urua, executado por apoiar Muslim ibne Aquil, e Uais Alcarani, posteriormente celebrado na tradição ascética islâmica. Remanescentes da tribo ainda são registrados no Iêmem no início do século X.
Os muraditas eram uma tribo árabe do Iêmem, pertencente aos madijitas, uma grande confederação catanita da Arábia meridional. A tradição genealógica preservada por Ibne Alcalbi e seguida por Ibne Duraide considera Murade um epíteto, explicando-o pela alegação de que a tribo teria sido a primeira a se rebelar (tamarrada) no Iêmem, etimologia considerada pouco convincente. Segundo essa tradição, o ancestral epônimo dos muraditas chamava-se Iuabir ibne Madije e era irmão dos ancestrais dos ancitas e dos descendentes de Sade Alaxira. Ibne Hasme, contudo, apresenta uma genealogia diferente, na qual Murade ibne Maleque ibne Udade e Iuabir eram irmãos. Em uma genealogia mais ampla dos madijitas, estes remontavam a Maleque ibne Udade ibne Zair ibne Iasjube ibne Aribe ibne Zaíde ibne Calane ibne Saba ibne Iasjube ibne Iarube ibne Catane. Embora vizinhos dos centros da civilização da Arábia Meridional, os muraditas conservaram um modo de vida caracteristicamente beduíno. Seu território era geralmente conhecido como Jaufe e situava-se a leste de Najrã e Maribe, numa região descrita pelas fontes como árida e pouco fértil. As fontes geográficas mencionam também as "montanhas dos muraditas", enquanto tradições literárias lhes atribuem reputação de praticar ataques e pilhagens. O território ocupado pelos muraditas e pelos vizinhos hamedanitas teria pertencido anteriormente aos taiítas, que o abandonaram ao migrarem para o norte da Península Arábica. É possível que muraditas e hamedanitas tenham herdado desses antigos habitantes o culto ao deus Iagute, posteriormente associado a ambas as tribos.
Os muraditas são atestados em inscrições sabeias, nas quais aparecem como Mrdm. Um testemunho datado de 522 registra-os como aliados do rei Dunaas em suas operações contra Najrã, inserindo a tribo nos conflitos políticos e religiosos que marcaram os últimos anos do Reino de Himiar. Os muraditas também figuram, juntamente com outros grupos madijitas, entre as populações da Arábia meridional que entraram em conflito com tribos do centro da península. No período imediatamente anterior ao surgimento do Islã, participaram ao lado de outros grupos sul-arábicos de guerras contra os amiritas. Uma tradição relaciona os muraditas aos últimos anos da dinastia lácmida de Hira. Depois de ser excluído de uma participação no reino pelo rei Anre III ibne Almondir, seu meio-irmão Anre ibne Uçama teria procurado refúgio entre os muraditas, que o reconheceram como chefe. Seu governo teria se tornado tirânico e os próprios muraditas acabaram por matá-lo, proporcionando a Anre ibne Hinde um pretexto para invadir o território tribal e executar o responsável pela morte. As fontes divergem sobre a identidade do assassino: uma tradição o chama Ibne Aljuaide, enquanto Iacute Alhamaui o identifica como Hubaira ibne Abede Iagute, cognominado Almaquexu. Seu filho, Caice ibne Maquexu, embora fosse de origem bajilaíta, estava ligado aos muraditas por um pacto de aliança (hilfe) e, por essa razão, era conhecido também pela nisba Almuradi. Caice tornou-se uma importante liderança associada à tribo na época do surgimento do Islã.
Pouco antes da expansão do Islã no Iêmem, os muraditas sofreram uma grave derrota diante dos hamedanitas. O conflito teria surgido de uma disputa pelo controle do culto de Iagute e culminado no chamado Dia de Arrasme, que algumas tradições situam no mesmo ano da Batalha de Badre, em 624. Outras fontes registram sucessivas vitórias hamedanitas sobre os muraditas em Mulaha, no Jaufe, e posteriormente em Alca. A derrota enfraqueceu consideravelmente a tribo e parece ter contribuído para que uma de suas facções procurasse estabelecer uma aliança com Maomé. A aproximação com Maomé revelou divisões internas entre as lideranças muraditas. Caice ibne Maquexu recusou-se inicialmente a aderir à nova aliança, enquanto seu rival Farua ibne Muçaique dirigiu-se a Medina em 10 A.H. (631–632) e concluiu um acordo com Maomé. As tradições atribuem a Farua autoridade sobre os muraditas e outros grupos da região, bem como a função de recolher o zacate, embora a extensão efetiva de seus poderes seja incerta. Outras fontes situam em 631 a conversão dos muraditas e registram que Maomé reconheceu Farua como chefe de sua delegação e o nomeou governador da região habitada por essas tribos, enquanto Calide ibne Saíde foi designado coletor do zacate. As tradições sobre a posição dos muraditas durante a revolta de Alaçuade Alanci são divergentes. Segundo o relato utilizado por Giorgio Levi Della Vida, os muraditas, sob a liderança de Caice ibne Maquexu, opuseram-se ao movimento de Alaçuade contra a hegemonia persa no Iêmem. Outras reconstruções, porém, apresentam o próprio Caice como um dos principais colaboradores de Alaçuade e relacionam sua adesão sobretudo à rivalidade com Farua ibne Muçaique, cuja posição entre os muraditas havia sido fortalecida pelo reconhecimento de Maomé. Nessa interpretação, Caice e Anre ibne Madicaribe apoiaram Alaçuade principalmente por interesses políticos e rivalidades tribais, e não por adesão à sua reivindicação profética. Após a morte de Maomé em 632, chefes iemenitas anteriormente relacionados ao governo de Medina recusaram-se a obedecer ao califa Abu Becre (r. 632–634), e Caice voltou a ocupar posição proeminente nos conflitos das Guerras da Apostasia. Capturado pelos muçulmanos, foi poupado por Abu Becre. A partir de então, Caice e outros muraditas passaram a participar ativamente das primeiras conquistas muçulmanas.
Contingentes muraditas combateram nas conquistas da Síria e do Iraque, e Caice ibne Maquexu destacou-se em diversas campanhas, perdendo um olho na Batalha de Jarmuque, em 636. Relatos que atribuem sua morte posterior à Batalha de Sifim, durante a guerra entre Ali e Moáuia I, resultam aparentemente de confusão com um homônimo pertencente aos bajilaítas. Os muraditas também participaram da conquista muçulmana do Egito e estão registrados entre as forças presentes ali em 21 A.H. (641–642). A maior concentração de muraditas fora do Iêmem estabeleceu-se, contudo, em Cufa, onde a tribo possuía uma jabbāna, espaço de reunião associado à organização tribal da cidade. A comunidade muradita de Cufa esteve envolvida em alguns dos principais conflitos políticos do primeiro século islâmico. Abederramão ibne Muljame, o carijita que assassinou Ali em 661, possuía ascendência muradita pelo lado materno, embora sua genealogia paterna fosse himiarita e mantivesse também vínculos com os quindaítas. Em 60 A.H. (679–680), outro membro proeminente da tribo, Hani ibne Urua, foi executado por ordem do governador Ubaide Alá ibne Ziade depois de ter abrigado Muslim ibne Aquil e participado da conspiração em apoio a Huceine ibne Ali. Hani descendia do poeta Anre ibne Quiace, um dos poucos poetas muraditas conhecidos. Entre outros muraditas de destaque encontra-se Uais Alcarani, pertencente aos Banu Carane ibne Rademane ibne Najia, ramo dos muraditas, que se tornou uma das figuras paradigmáticas do ascetismo islâmico. Apesar desses exemplos, as fontes registram relativamente poucos personagens ou poetas proeminentes da tribo tanto durante a Jailia quanto nos primeiros séculos do Islã. No início do século IV A.H. (século X), Alhamedani ainda registrava remanescentes dos muraditas estabelecidos no Saru Madije, no Iêmem.