Os Mutantes

 Nota: Para a novela, veja Os Mutantes: Caminhos do Coração.
Os Mutantes
A primeira formação da banda em 1969.
Da esquerda para a direita: Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias.
Informações gerais
OrigemSão Paulo, SP
PaísBrasil
Gêneros
Período em atividade
  • 1966–1978
  • 2006–presente
Gravadoras
Afiliações
IntegrantesSérgio Dias
Esméria Bulgari
Vinícius Junqueira
Claudio Tchernev
Henrique Peters
Camilo Macedo
Ex-integrantesver Lista de formações de Os Mutantes
Página oficialmutantes.com

Os Mutantes são uma banda brasileira de rock psicodélico, formada em São Paulo, no ano de 1966. A banda é considerada um dos principais grupos do rock brasileiro, tendo participado ativamente do movimento tropicalista. Foi fundada por Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias. Posteriormente, Liminha e Dinho Leme foram incluídos à banda.

Assim como grande parte dos grupos da época, Os Mutantes foram fortemente influenciados por The Beatles, Jefferson Airplane, The Mamas & the Papas, The Rolling Stones e Jimi Hendrix. No entanto, os músicos brasileiros também referenciavam sua cultura local, com influências brasileiras. O grupo também é reconhecido por exercer sua criatividade na utilização de efeitos de estúdio, como feedback e distorção, como era feito pelos Beatles e pelo grupo The Beach Boys. Foram pioneiros na mescla do rock and roll com elementos musicais e temáticos brasileiros. Além disso, eram conhecidos pelo estilo irreverente, com bastante experimentalismo em suas músicas e performances.

O grupo se tornou um dos principais expoentes do rock brasileiro, em uma época onde o uso da guitarra elétrica ainda não era tão aceito no país. Continuaram em atividade até o ano de 1978. Ao longo dos anos, foram gravados nove álbuns, sendo que dois deles - O A e o Z e Tecnicolor - só foram lançados na década de 1990, quando o grupo passou a ser reconhecido como um dos mais criativos e inventivos da história do rock mundial.

Em 2006, a banda se reuniu novamente, com a participação de Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Dinho Leme como membros de sua formação clássica, também contando com Zélia Duncan nos vocais. No ano seguinte, Arnaldo e Zélia se desligaram da banda. A banda, nos anos seguintes, foi recomposta com outros músicos e continua a fazer shows sob a liderança de Sérgio Dias, único membro restante da formação original.

Atualmente, a banda conta com Sérgio Dias (guitarra e vocais), Esméria Bulgari (vocais), Vinícius Junqueira (baixo), Claudio Tchernev (bateria), Henrique Peters (teclados) e Camilo Macedo (guitarra).

História

1962–1966: Formação

Os irmãos Dias Baptistas e suas bandas

No início da década de 1960, os irmãos Dias Baptista (Cláudio César, Arnaldo e Sérgio), moradores da rua Venâncio Aires, no bairro da Pompeia, em São Paulo, começaram a se interessar em fazer música, no começo da popularização do rock no país. O interesse partiu primeiro do amigo de Cláudio César, Raphael Vilardi. Em 1962, Raphael, inspirado nos grupos que tocavam rock na televisão, juntou dinheiro para comprar sua primeira guitarra, uma Giannini. Cláudio não se entusiasmou muito com a ideia. No entanto, seu irmão mais novo, Arnaldo, se animou com a ideia de tocar como as bandas de twist que eram populares na época e vendeu uma moeda de ouro de 10 dólares, e com o dinheiro obtido comprou um baixo elétrico, um Del Vecchio sem trastes.

Arnaldo e Raphael acabaram convencendo Cláudio César, que decidiu comprar um saxofone, inspirado no grupo de twist Jet Blacks. Porém, o saxofone precisava ser importado, o que demoraria alguns meses. Enquanto o saxofone não chegava, decidiu começar a tocar guitarra e logo ganhou uma Fender Jaguar azul de seu pai, César Dias Baptista. O pai dos irmãos Dias Baptista era poeta, jornalista e cantor amador de ópera e na época, secretário pessoal do então governador do estado de São Paulo, Ademar de Barros. A mãe era Clarisse Leite, pianista e professora de música. Desde cedo, ensinou os filhos a tocarem e entender música e teoria musical, também os encorajando a tocarem instrumentos.

Poucos meses depois, formaram o grupo The Thunders, com Raphael Vilardi (guitarra solo), Cláudio César (guitarra base), Arnaldo (baixo) e "Gaguinho" (bateria), apelido de José Roberto Rocco. Logo, começaram a tocar em festas de colégios e igrejas da Pompeia. Com a saída de Gaguinho, entrou Luiz Pastura, baterista.

Notando a falta de qualidade sonora das guitarras da banda, Cláudio César decidiu começar a fazer instrumentos e passou a ser aprendiz de Vitório Quintílio, ex-funcionário da Del Vecchio e que fazia captadores para a Giannini. Depois disso, passou a fazer suas próprias guitarras: durante alguns meses, Cláudio apenas copiou modelos de grandes marcas internacionais de guitarras, o que ajudou a desenvolver habilidade manual. Logo, criou sua marca, Regvlvs, e passou a vender seus próprios modelos de guitarra, assim como pedais de efeitos e amplificadores pequenos.

O baterista Luiz Pastura decidiu convidar Arnaldo e Raphael para um show da banda The Wooden Faces no Teatro João Caetano, grupo formado por quatro jovens que tocavam nos bailes da região da Vila Mariana. Raphael e Arnaldo gostaram muito do som deles e decidiram passar a assistir os ensaios da banda. Nessa época, havia tensões entre os membros do The Thunders, com uma disputa entre Cláudio e Raphael para poder fazer solos. Logo, Raphael foi convidado a tocar no The Wooden Faces, e conseguiu convencer os outros membros a chamar Arnaldo para entrar na banda. Já em 1964, o The Wooden Faces era formado por Arnaldo (baixo), Raphael (guitarra), Tobé (guitarra), Roberto (bateria) e Sérgio Orlando (piano). Durante essa época, o irmão mais novo de Arnaldo, Sérgio, começou a ser reconhecido pelo seu talento musical, por conseguir repetir tudo que os irmãos e Raphael faziam nas guitarras, às vezes até com mais velocidade. Porém, por ser mais novo que os outros, nem sempre era incluído para participar dos ensaios e shows.

Rita Lee e as The Teenage Singers

Em 1963, Rita Lee, aos quinze anos de idade na época, descobriu que aconteceria um concurso para novos conjuntos, patrocinado pelo programa de Miguel Vaccaro Netto, na Rádio Record. Se juntou com sua amiga, Suely Chagas, e convenceu mais duas amigas, Jean e Beatrice, para criarem um conjunto para o programa, onde iriam apresentar "Will You Love Me Tomorrow?", do grupo The Shirelles. O quarteto adotou o nome The Teenage Singers. Se apresentaram algumas vezes em festas domésticas e bailes de formatura, em colégios da Zona Sul de São Paulo. Como as The Teenage Singers eram um grupo vocal, passaram a se apresentar junto com outros conjuntos. No entanto, o grupo se desfez devido à pressão da família de Jean e Beatrice para não participarem. Com a Beatlemania, as Teenage Singers passaram a querer tocar os próprios instrumentos, adicionando mais duas conhecidas à banda, que agora era formada por Rita Lee (baixo), Eliane (bateria), Suely (violão) e Rosa (piano). O grupo realizou algumas apresentações, até que Rosa e Eliane passaram a tocar em outro conjunto.

No início de 1964, depois de uma apresentação do The Wooden Faces no Teatro João Caetano, Rita e Suely conheceram Raphael, Arnaldo, Tobé e Roberto. Os dois grupos criaram uma amizade e logo, Rita e Arnaldo começaram a se encontrar, com Arnaldo ensinando ela a tocar contrabaixo em troca de dicas vocais. Os dois começaram a namorar. Além de frequentarem as apresentações um do outro, os The Wooden Faces foram acompanhados algumas vezes pelas Teenage Singers.

Em 1964, o clima entre no The Wooden Faces piorou, porque antes da entrada de Raphael e Arnaldo, o grupo tocava um som mais eclético. Ao serem pedidos para tocar uma seleção de jazz e bossa nova, Arnaldo e Raphael se negaram a tocar com a banda. Isso se tornou um hábito e logo, Tobé, Roberto e Sérgio Orlando decidiram sair do The Wooden Faces e formar um trio chamado Samba Novo Trio, que passou a ser mais requisitado para os bailes, também por conta do declínio do twist.

The Six Sided Rockers e O'Seis

Com o fim dos The Wooden Faces e notando os fracos vocais do grupo, Raphael decide convidar Rita e Suely para tocar junto com ele e Arnaldo, convidando Luiz Pastura, com quem tinham tocado no The Thunders, para a bateria. Logo, também convidaram Sérgio, irmão mais novo de Arnaldo, para participar como guitarrista solo. Sérgio queria bastante entrar no conjunto e decidiu se comportar para poder entrar no conjunto, aos 13 anos de idade. Com seis membros, decidiram utilizar o nome Six Sided Rockers.

No entanto, Suely decidiu sair da banda, após ganhar uma bolsa de estudos para estudar nos Estados Unidos. Em seu lugar, foi escolhida "Moggy" (apelido de Maria Olga Malheiros), colega de Rita no colégio Liceu Pasteur. Ao tentar se consolidar como um grupo autoral, decidiram compor as próprias músicas e parar de tocar suas versões cover. Em 1966, eles gravaram um compacto simples pela gravadora Continental com as composições "Suicida" (de Raphael e Roberto) e "Apocalipse" (de Raphael e Rita), que vendeu menos de duzentas cópias, vendidas sem o consentimento do conjunto e sob o nome O'Seis, que a gravadora afirmava que seria mais comercial.

O grupo chegou a participar dos programas Show em Simonal e Corte Rayol Show, na TV Record. Começaram também a praticar um estilo chamado "clássico beat", criando arranjos modernos de peças eruditas, por exemplo, tocando música clássica com guitarras elétricas. Na época, o grupo era empresariado por Antonio Peticov. Descontente com o trabalho do empresário, Arnaldo argumentou em trocar por Asdrúbal Galvão, que já empresariava outros grupos. Ele chegou a criar um contrato, mas Moggy, Raphael e Pastura acharam algumas partes inaceitáveis. Arnaldo, Rita e Sérgio decidiram assinar o contrato e continuaram a tocar sem os outros membros, marcando o fim do O'Seis. Posteriormente, Raphael passou a tocar na banda de Erasmo Carlos, os Tremendões. Em 1968, com a volta de Suely Chagas dos Estados Unidos, Raphael formou com ela a banda Suely e os Kantikus.

1966–1969: Tropicália e os primeiros álbuns

Primeiras apresentações

Os Mutantes iniciaram suas atividades no dia 15 de outubro de 1966, como um trio, quando se apresentaram no programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von, da TV Record. Na véspera da estreia do programa, o trio tinha o nome de "Os Bruxos", mas nem Rita Lee nem os irmãos Baptista (Arnaldo e Sérgio) estavam satisfeitos com esse nome e queriam mudá-lo. De acordo com Carlos Calado, a ideia do nome "Os Mutantes" veio de uma brincadeira irônica de Alberto Helena Júnior, produtor do programa, com Ronnie Von, que, na época, andava lendo O Império dos Mutantes, de Stefan Wul, e não falava de outro assunto. Alberto teria proposto: "Vocês ainda estão procurando um nome para o conjunto dos meninos? Por que não Os Mutantes?". Ronnie Von gostou da ideia e levou-a ao grupo, que a aprovou imediatamente. O grupo fez sucesso e foi convidado a fazer parte do elenco fixo do programa. Também participaram das gravações do álbum Ronnie Von - nº 3. No mesmo ano, demitiram o empresário Asdrúbal Galvão, que ameaçou registrar o nome do conjunto como sua propriedade.

No início de 1967, as mudanças na direção artística do programa de Ronnie Von começaram a reduzir as apresentações dos Mutantes e a liberdade dos artistas. Por discordar das novas diretrizes, eles deixaram a Record, passando a se apresentar também em outras emissoras. À convite do maestro Chiquinho de Moraes, da Rede Bandeirantes, Os Mutantes tocaram no programa Quadrado e Redondo, apresentado por Sérgio Galvão. Nessa época, conheceram também o maestro Rogério Duprat. Apadrinhados por Duprat, Os Mutantes começaram a participar dos grandes Festivais de Música Popular, que viviam sua fase áurea na época.

Aproximação com o movimento tropicalista e lançamento de Os Mutantes

O maestro sugeriu a Gilberto Gil que convocasse o grupo como banda de apoio para gravar "Bom Dia", que seria cantada por Nana Caymmi e inscrita no Festival de Música Popular Brasileira de 1967, da TV Record. Outra gravação de Gil classificada para o Festival era "Domingo no Parque". Os Mutantes se saíram bem nos ensaios e acabaram participando da gravação de ambas as músicas. "Domingo no Parque" foi classificada em segundo lugar, aproximando também a relação dos Mutantes com o movimento tropicalista. No início da interação entre Mutantes e Gilberto Gil, havia resistência de Arnaldo e Sérgio, que não queriam fazer música popular brasileira, e sim rock. No entanto, com a animação de Rita, os irmãos aceitaram participar.

Nas gravações de "Bom Dia" e "Domingo no Parque", o produtor Manoel Barenbein se impressionou com o grupo e os indicou para assinar com a Philips, onde trabalhava. No começo de 1968, o grupo assinou um contrato com o selo Polydor, com a cláusula de um álbum lançado por ano. Na mesma época, o diretor Walter Hugo Khouri, após ver uma apresentação do grupo, decidiu convidar a banda para participar do seu longa-metragem As Amorosas, em que participaram de duas cenas, tocando na boate Ponto de Encontro.

Assim, começaram as gravações do primeiro álbum, Os Mutantes, com bastante experimentalismo, incluindo o uso de objetos para fazer música, como o uso de uma bomba de inseticida na faixa "Le Premier Bonheur du Jour". O álbum também conta com a participação de Jorge Ben Jor, na faixa "A Minha Menina". Também conta com arranjos feitos por Rogério Duprat. A banda usa de diversos recursos de estúdio, como um trecho de vocal de ópera cantado por César Dias Baptista, pai de Arnaldo e Sérgio, reproduzido ao contrário na faixa "Ave Gengis Khan". Já em "Panis et Circensis", há um trecho onde o som da gravação é distorcido até sumir por alguns segundos. O álbum foi lançado em junho de 1968 e vendeu cerca de dez mil cópias. Nesse mesmo ano, o grupo gravou músicas de Duprat, que foram lançadas no álbum A Banda Tropicalista do Duprat, lançado em agosto de 1968.

Percebendo a inventividade musical do grupo, Gil e Caetano Veloso decidiram convidar a banda para integrar o movimento que estavam criando, a Tropicália. Com a intenção de divulgar o movimento, começaram a planejar o lançamento de um disco-manifesto. Em maio de 1968, começaram as gravações do álbum Tropicália ou Panis et Circensis, produzido por Manoel Barenbein e contando com a participação de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé e Nara Leão.

Agora empresariados por Guilherme Araújo, a banda decidiu apresentar a canção "Mágica", no Festival Nacional de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, em junho. Em setembro, ainda participaram do III Festival Internacional da Canção (FIC), da TV Globo, defendendo "Caminhante Noturno" (de Arnaldo, Sérgio e Rita), que acabou classificada em sétimo lugar. O grupo também aceitou acompanhar Caetano Veloso no FIC, com a apresentação da música "É Proibido Proibir". Na apresentação, canção foi recebida com muitas vaias e a plateia começou a atirar ovos, tomates e pedaços de madeira contra o palco. Sem parar de tocar, a banda decidiu se virar de costas para a plateia, com o intuito de se proteger. Revoltado com a recepção, Caetano fez um longo discurso e a canção acabou sendo desclassificada.

O fim do movimento tropicalista

Com o relativo sucesso que o movimento tropicalista fazia, foi criado o programa Tropicália ou Panis et Circensis, exibido na TV Globo em setembro de 1968, que contava com a participação de grandes artistas, como Chacrinha, Grande Otelo e Jô Soares. Entre setembro e dezembro de 1968, também participaram da criação do programa Divino Maravilhoso, exibido pela TV Tupi, comandado pelos membros do movimento tropicalista, dirigido por Fernando Faro e produzido por Antônio Abujamra. O programa foi cancelado duas semanas após a prisão de Gil e Caetano, sendo então apresentado por Tom Zé. Com medo da perseguição dos militares, o programa teve suas fitas apagadas.

Em dezembro de 1968, na boate carioca Sucata, em um show de Caetano e Gil com participação dos Mutantes, houve, supostamente, um desrespeito aos símbolos nacionais por parte dos artistas, com uma reprodução do Hino Nacional, tocado por Sérgio Dias em sua guitarra. Os militares alegaram que Caetano teria cantado o Hino Nacional com versos ofensivos às Forças Armadas. Durante o espetáculo, também teria sido pendurada uma bandeira feita por Hélio Oiticica, com a inscrição "seja marginal, seja herói". Após a apresentação, um juíz que assistiu ao espetáculo denunciou o ocorrido, que chegou a ser noticiado no programa de Randal Juliano, na TV Record. O acontecido serviu como pretexto para os militares, que prenderam Gil e Veloso em 27 de dexembro de 1968. Posteriormente, foram soltos e exilados ao Reino Unido. Dessa forma, o movimento tropicalista chegou ao fim.

No final do ano, Os Mutantes também participaram do Festival de Música Popular Brasileira de 1968 da TV Record, com apresentações de "Dom Quixote" e "Dois Mil e Um". A canção "Dom Quixote" teve sua letra alterada pela censura da ditadura militar, e incluía a participação de Rogério Duprat como arranjador, que inscreveu sua orquestra no festival com o nome de "Anteontem 53 ½", como sátira ao grupo Momento 4. A faixa incluía 20 segundos de silêncio, o que incomodou o júri e o diretor do festival, que desclassificaram a canção. A canção "Dois Mil e Um", parceria de Rita e Tom Zé, contava com a participação da dupla caipira "Gil e Jiló", composta por Gilberto Gil (acordeão) e Liminha (viola caipira) e Dinho Leme (bateria). A canção se classificou em quarto lugar.

Ainda nesse ano, o grupo foi premiado pelo Troféu Imprensa, com o prêmio de Melhor Conjunto Musical de 1968. Dessa forma, a banda foi convidada pela Philips para se apresentar no MIDEM (Mercado Internacional de Discos e Editores Musicais), uma feira que exibia lançamentos de todo o mundo, realizada na cidade de Cannes, na França.

Apresentações internacionais e Planeta dos Mutantes

Com o tempo corrido para a gravação do segundo álbum da banda e apenas quatro canções prontas ("Mágica", "Dois Mil e Um", "Caminhante Noturno" e "Dom Quixote"), o grupo decidiu focar na gravação de Mutantes, que foi feita durante dez dias em janeiro de 1969, o mais rápido possível antes da viagem à França. O álbum também conta com a experimentação da banda, contando com o uso de instrumentos peculiares, como o teremin em "Dois Mil e Um" e "Banho de Lua", e com a distorção, como na faixa "Dia 36". O grupo também incluiu o jingle "Algo Mais", criado em uma campanha publicitária para a distribuidora de combustíveis Shell, que também gravou comerciais com a música para a televisão. O álbum também é o primeiro com a participação de Dinho Leme, que foi creditado como "Sir Ronaldo I du Rancharia". Foi lançado em fevereiro de 1969 e vendeu cerca de quinze mil cópias.

A banda embarcou em viagem para a França em 14 de janeiro de 1969, acompanhados de Rogério Duprat, o empresário Guilherme Araújo e Antonio Peticov, com quem reataram a amizade, após o clima estremecido depois da demissão como empresário do O'Seis. Na França, se apresentaram no MIDEM em Cannes e foram bem recebidos pelo público e crítica. Segundo o jornal francês Nice-Matin: "É preciso ouvi-los para acreditar que os Beatles não estão sozinhos na vanguarda da moderna música popular.”

A banda também visitou Paris e Londres, antes de ir para Portugal, onde se apresentaram em boates e teatros de Lisboa e Estoril. Lá, a banda também participou do programa Discorama, da RTP, e se apresentou com Edu Lobo no Teatro Villaret. Arnaldo e Sérgio se ofereceram para cuidar do aparelho de som do show de Edu. Na véspera da apresentação, Edu deu uma entrevista onde falava mal do uso de equipamentos eletrônicos na música e do rock. Ao ficarem sabendo, Arnaldo e Sérgio se sentiram traídos. Como vingança, decidiram tirar o sinal do microfone de Edu durante a apresentação, deixando apenas a reverberação criada pelos amplificadores, arruinando a apresentação.

Antes de voltar ao Brasil, o grupo decidiu viajar aos Estados Unidos. O trio passou algumas semanas em Nova Iorque, frequentando shows de Janis Joplin e Frank Zappa, entre outros. Depois, Sérgio seguiu em viagem de avião até Los Angeles, enquanto Rita e Arnaldo foram de carro. Lá, o grupo visitou Los Angeles e San Francisco, onde tiveram contato com a cena da contracultura americana e o movimento hippie, além de comprarem equipamentos e instrumentos eletrônicos, como o órgão Vox, que Arnaldo passou a tocar mais frequentemente, saindo da posição de baixista da banda.

Depois de voltarem ao Brasil, a banda foi convidada a participar do Moda Mutante, desfile promovido pela Rhodia para apresentar as coleções masculinas e femininas de Inverno de 1969. O grupo participou como atração principal do desfile por três semanas, que também contava com a banda Brazilian Octopus.

Em julho de 1969, a banda estreou o espetáculo Planeta dos Mutantes, com o roteiro feito pela banda em parceria com o produtor artístico José Agrippino de Paula, sob direção da coreógrafa Maria Esther Stockler, exibido no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. O espetáculo era montado em nove quadros independentes, misturando música, dança, projeções e improviso, e usava de recursos inspirados nos happenings e no teatro de participação. Toda a trilha sonora era executada ao vivo pela banda. A peça foi inspirada em Hair, musical que tinham assistido em Londres e Nova Iorque. O espetáculo ficou em cartaz de julho a setembro de 1969.

Ainda no final do ano, o grupo defendeu a canção "Ando Meio Desligado" no IV Festival Internacional da Canção, da TV Globo. Sobre a composição da música, Carlos Calado afirma: "Tinham acabado de fumar um baseado, no quarto de Sérgio, quando ele mostrou a primeira parte de uma melodia, que logo ganhou uma linha de baixo inspirada em Time of the Season, hit do conjunto inglês The Zombies. Também com uma mãozinha de Arnaldo, Rita escreveu a maior parte da letra. A sensação de desligamento provocada pela maconha serviu de ponto de partida para um dos maiores sucessos dos Mutantes." A apresentação contava com a participação de Raphael Vilardi, convocado como baixista. A canção foi bem recebida e se classificou em décimo lugar.

1969–1973: Consolidação da banda e fim da formação clássica

Lançamento de A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado

No final de 1969, o grupo conheceu Élcio Decário, que Rita Lee teria conhecido ao pegar um táxi conduzido por ele, que era motorista na época, apesar de ser músico amador. O trio ficou impressionado com suas composições e passaram a ser parceiros de composição. Logo, com as gravações do novo álbum, foram usadas duas composições de Decário, "Hey Boy" e "Ave, Lúcifer", cuja letra foi alterada por Arnaldo e Rita.

O álbum A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado foi um marco na carreira do grupo, se aproximando mais do rock e de suas influências americanas e britânicas. O maestro Rogério Duprat, que sempre fez os arranjos dos álbuns da banda, também teve sua participação reduzida. Além disso, o álbum também conta com a troca de Arnaldo do baixo pelos teclados, como em "Oh! Mulher Infiel", "Quem Tem Medo de Brincar de Amor?" e "Meu Refrigerador Não Funciona". Um destaque do álbum foi para a canção "Chão de Estrelas", uma versão satírica da música de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, criticada pelos fãs de Caldas. O álbum foi gravado no estúdio Scatena em outubro de 1969, lançado em março de 1970.

Hiato, Build Up e a gravação de Tecnicolor

Durante o final do ano de 1969, as discussões e brigas entre os membros da banda durante os ensaios e gravações começaram a aumentar. Mesmo com a igualdade entre os três, Arnaldo passou a agir como líder da banda em entrevistas e no contato com a imprensa, o que trazia conflitos entre ele, Rita e Sérgio. Na época, tudo era decidido por votação, geralmente com a discussão sendo feita entre Arnaldo e Rita. No entanto, o casal entrou em crise e se separou pela primeira vez, depois de cinco anos de namoro. A Philips, gravadora da banda, decidiu apresentar a possibilidade de cada um deles lançar um álbum solo no ano seguinte, mas a ideia não chegou a sequer ser discutida.

Em dezembro de 1969, Arnaldo decidiu fazer uma viagem de motocicleta com amigos e os irmãos Sérgio e Cláudio César, inspirado no filme Easy Rider. Rita pediu para acompanhá-lo, mas foi deixada de lado, com Arnaldo argumentando que seria um programa exclusivo para homens. Dessa forma, o casal se separou. Antes que Arnaldo terminasse os preparativos para sua viagem, Rita decidiu viajar, indo para a Inglaterra no dia 30 de dezembro de 1969. Em Londres, Rita conheceu um americano chamado Michael, com quem teve um curto relacionamento e viajou de carona por grande parte da Europa ocidental até voltar ao Brasil, na metade de fevereiro.

Arnaldo, ainda nos preparativos da viagem, partiu somente acompanhado do amigo Eduardo Lemos, com a desistência dos irmãos. Por conta da fama dos Mutantes, Arnaldo foi muito recebido nas cidades do Brasil que visitaram durante a viagem. Começaram, então, um caminho que incluía ir até Buenos Aires e em seguida, virar em direção ao norte e seguir até o Panamá, onde iriam pegar uma barca até os Estados Unidos. Enquanto estavam no Panamá, Arnaldo tentou entrar em contato com Rita e desistiu da viagem, decidindo voltar ao Brasil. Desembarcou em São Paulo em abril de 1970, logo fazendo as pazes com Rita.

Durante o hiato da banda (de dezembro de 1969 a abril de 1970), Rita foi chamada para participar do desfile Nhô Look, da Rhodia. Além de cantar, interpretava o papel de uma garota caipira, chamada "Ritinha Malazarte". Com a breve separação da banda, o diretor da Philips, André Midani, convidou Rita novamente para a gravação de um álbum solo. Sérgio se recusou a participar das gravações, afirmando que não haveria motivo para a gravação de álbuns solos de nenhum membro da banda. Arnaldo decidiu participar, trabalhando no álbum como diretor musical. Nesse álbum, também Em julho, foi gravado o álbum Build Up, lançado em agosto do mesmo ano, junto ao desfile Build Up Electronic Fashion Show da Rhodia, que contava com Rita como garota-propaganda. O álbum de Rita teve uma turnê de dois meses, nos quais a banda deixou de se apresentar. No entanto, o álbum não fez grande sucesso comercial.

Nesse período, o grupo decidiu comprar terrenos em um morro na Serra da Cantareira, em São Paulo, para a criação de uma comunidade alternativa onde cada um dos membros da banda teriam uma casa, incluindo Arnaldo, Rita, Sérgio e Dinho Leme - que passou a ser integrante da banda em tempo integral, não sendo mais apenas um músico acompanhante. O terreno, no entanto, precisaria de aterros para a construção de casas, o que levou cerca de um ano. Dinho comprou seu lote em sociedade com o irmão, Reginaldo Leme. No mesmo período, Liminha foi chamado para integrar a banda como baixista, já que Arnaldo passou a tocar apenas os teclados.

Ainda em 1970, o grupo foi convidado para fazer uma temporada de shows no Olympia, em Paris, com o cancelamento por parte de Elis Regina, por ter ficado doente. Assim, de última hora, a banda foi chamada para realizar o show, menos de dois dias antes da estreia do espetáculo. Os Mutantes seriam a segunda atração do show, encabeçado por Gilbert Bécaud. Lá, foram impedidos de tocar rock, que não era bem visto pelos frequentadores do local, e tiveram de tocar as músicas "mais brasileiras" do repertório da banda, apelando para algumas músicas do movimento tropicalista e do álbum de Rita, Build Up. Durante esse período em Paris, reencontraram Antonio Peticov, que introduziu a banda ao LSD.

Com a presença dos Mutantes na Europa, a Polydor britânica decidiu produzir um álbum com a banda, gravado em Paris com a produção de Carlos Olms. O álbum foi gravado nos Studios Des Dames, com menor liberdade do que experimentavam nas gravações no Brasil. Na Europa, o grupo era solicitado a soar "mais brasileiro". Além disso, Dinho e Liminha não foram convidados para a sessão fotográfica, sob o argumento de que seria mais fácil vender a imagem de um trio do que um quinteto. Mesmo com a banda aceitando essas condições, o álbum, que se chamaria Technicolor, não foi lançado, por conta do desagrado do produtor e do desinteresse da Philips brasileira no lançamento. Somente no ano de 2000, Tecnicolor foi lançado.

Som Livre Exportação e lançamento de Jardim Elétrico

Em dezembro de 1970, a banda foi contratada pela TV Globo para ser uma das atrações fixas do programa Som Livre Exportação. O programa fez, inicialmente, um grande sucesso de audiência. Porém, os programas passaram a ser gravados não mais no estúdio da Globo, mas em ginásios em diversas cidades do país. Com o baixo volume do som, a banda passou a montar seus próprios equipamentos, que passaram a ser feitos por Cláudio César Dias Baptista, irmão de Arnaldo e Sérgio, imitando os sistemas de som encontrados em apresentações de bandas do exterior. Em junho de 1971, a banda deixou o programa.

Rita Lee em apresentação com Os Mutantes, 1971. Arquivo Nacional.

Nessa época, a banda ficou conhecida por sua irreverência e humor, incluindo as participações nos programas de televisão. No Programa Flávio Cavalcanti, da TV Tupi Rio, a banda estava terminando quando o apresentador convocou as palmas de despedida: prontamente, a banda transformou o último acorde da música e passou a improvisar por mais três minutos. Ao tentar chamar os comerciais novamente, o grupo fez a mesma coisa e se apresentou por mais três minutos, totalizando quase nove minutos de música.

Em março de 1971, foi lançado o álbum Jardim Elétrico, gravado no começo do ano, aproveitando músicas que seriam lançadas no álbum Technicolor e novas composições da banda. O álbum contava com uma capa desenhada por Alain Voss, que seria uma estilização de um grande pé de maconha. Na contracapa, os cinco membros da banda posavam juntos na oficina de Cláudio César, marcando o primeiro álbum gravado pela "formação clássica" da banda.

Mesmo com uma relação desgastada entre os dois, Arnaldo e Rita decidiram se casar, em 30 de dezembro de 1971, com uma cerimônia sendo feita na casa dos pais de Rita. Passaram a lua de mel em uma fazenda no pantanal matogrossense. Na volta da viagem, a banda participou do programa de Hebe Camargo, onde apresentaram a certidão de casamento. Hebe, ainda parabenizando o casal, foi surpreendida com o casal rasgando a certidão ao vivo durante o programa. O casal afirmou querer "dividir a alegria do casamento", entregando uma metade da certidão para Hebe e a outra metade para a plateia do programa.

Lançamento de Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets e Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida

No começo do ano de 1972, o grupo criou uma forma de unir a vontade de realizar shows ao ar livre (inspirados nos festivais realizados nos Estados Unidos e na Europa, como o Festival de Woodstock e o Festival da Ilha de Wight) e a vontade de viajar por vários cantos do país, montando um ônibus para tocar. O ônibus contava com um palco no teto e um gerador de energia, possibilitando turnês por qualquer lugar ao ar livre. O projeto foi articulado pelo produtor Cláudio Prado, que, posteriormente, foi um dos produtores do Festival de Águas Claras. A banda realizou um show em Guararema, no interior de São Paulo, como teste do projeto. Apesar do sucesso da apresentação, o projeto foi descontinuado por conta do desinteresse de patrocinadores.

Em maio de 1972, com dois meses de atraso, foi lançado o álbum Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets. O nome do álbum é uma homenagem a Tim Maia, amigo da banda, que chamava de "baurets" os cigarros de maconha que costumava fumar. A capa do álbum foi feita por Alain Voss, o mesmo artista que criou a capa do álbum anterior. O álbum também contou com a intervenção da censura, com a mudança de nome da faixa "Cabeludo Patriota" para "A Hora e a Vez do Cabelo Nascer", com a inclusão de ruídos por cima dos trechos vetados pela censura. A canção "Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde que Eu Tenha o Rock and Roll", composta por Liminha, Arnaldo e Rita, era uma paródia de "Blue Suede Shoes" (de Carl Perkins), famosa pela interpretação de Elvis Presley. A canção "Beijo Exagerado" se chamava originalmente "Casa da Mônica", em referência a um famoso prostíbulo da cidade de Porto Alegre, e foi alterada após ter sido vetada pela censura. A canção "Balada do Louco" foi a de maior sucesso do álbum e incluia trechos de Sérgio tocando sitar, que aprendeu a tocar com Ravi Shankar, durante as apresentações do músico no país em agosto de 1971. O álbum também marcou o início da transição da banda em direção ao rock progressivo, principalmente sob as influências das bandas Yes e Emerson, Lake and Palmer.

A banda passou a morar na Serra da Cantareira, onde Rita, Arnaldo e Sérgio formaram a própria comunidade, com Arnaldo e Sérgio construindo casas no local. Rita, apesar de ser proprietária de um dos lotes, não construiu uma casa e morava com Arnaldo. Cláudio César, irmão de Arnaldo e Sérgio, também foi convidado para se estabelecer no local por criar os equipamentos eletrônicos de som da banda, e se mudou para o local com a esposa e suas filhas. Pena Schmidt, produtor contratado pela banda para operar o sistema de som, também se mudou para o local. Dinho e Liminha, apesar de não morarem lá, participavam dos ensaios da banda todos os dias na Cantareira.

Nessa época, conheceram o físico Michael Killingbeck, sócio da revista Rolling Stone Brasil. Michael era funcionário de uma estação nuclear na Inglaterra, tendo sido transferido para a usina nuclear de Angra dos Reis. Em sociedade com editores interessados, Killingbeck conseguiu os direitos de republicação da revista Rolling Stone estadunidense e a partir de fevereiro de 1972, passaram a lançar a versão brasileira da revista. Impressionados com o conhecimento filosófico de Killingbeck, Arnaldo e Sérgio passaram a convidá-lo para participar dos ensaios e ocasionais festas na comunidade na Serra da Cantareira, assim como seu amigo Norman Hilary Baines. Apesar do fracasso comercial da revista, "Mick" Killingbeck também foi convidado para se tornar empresário da banda, com Norman Baines como road manager do grupo.

Ainda neste ano, o grupo decidiu gravar mais um álbum, aproveitando a inauguração recente do Estúdio Eldorado, em São Paulo, o primeiro estúdio com uma mesa de dezesseis canais no Brasil. Com diversas brigas entre Arnaldo e Rita por conta dos casos de infidelidade entre os dois, Rita decidiu viajar para a Inglaterra, em julho de 1972, na companhia de sua amiga Lucinha Turnbull, Liminha e sua então-namorada, Leila Lisboa. Na Inglaterra, Rita e Liminha conheceram Ritchie e o convenceram a vir ao Brasil. Ao voltar ao Brasil, Rita trouxe consigo um grande colar feito com pequenas doses de LSD em forma cristalizada.

Em setembro, foi lançado o álbum Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, gravado meses antes, creditado como um álbum solo de Rita Lee, conforme os planos de André Midani, diretor da Philips, de lançar mais álbuns de Rita e tentar lançar sua carreira musical como uma artista independente. No entanto, a autoria do álbum costuma ser atribuída à banda, com todos os membros da banda participando das composições e da gravação do álbum. A capa é um desenho feito por Rita Lee, que alegou ter desenhado sob efeito de LSD. A produção foi feita por Arnaldo Baptista e a masterização foi feita por Cláudio César, que participou das sessões de gravação. A canção "Beija-me, Amor" também marca a última parceria com Élcio Decário, que se afastou do grupo e do ambiente musical, frustrado com as mudanças impostas na música pela censura e incomodado com o uso de LSD pelo grupo.

Os Mutantes, 1972. Arquivo Nacional.

A banda decidiu participar do Festival Internacional da Canção de 1972, da TV Globo, com a canção "Mande Um Abraço Pra Velha". A banda chegou a cantar trechos que não faziam parte da letra liberada pela censura e que não foram previamente lidos, satirizando o próprio festival. Mesmo com o deboche da banda, a música foi classificada para a final nacional do festival. Rita se desagradou com sua pequena participação na canção, apenas fazendo vocais de apoio e pequenas frases da introdução da música em um teclado Minimoog. Além disso, começou a ser deixada de lado em alguns ensaios da banda, comandados por Arnaldo, que constantemente diminuia o papel de Rita dentro do grupo. Nessa época, Arnaldo passou a namorar uma jovem chamada Tereza, assim rompendo sua relação com Rita, que passou a namorar Michael Killingbeck, empresário da banda.

Expulsão de Rita Lee

Em outubro de 1972, Arnaldo expulsou Rita da banda durante um ensaio em sua casa na Serra da Cantareira, afirmando: "A gente resolveu que a partir de agora você está fora dos Mutantes porque nós resolvemos seguir na linha progressiva-virtuose, e você não tem calibre como instrumentista". Apesar disso, outros membros da banda afirmaram não terem sido consultados sobre a decisão de Arnaldo. Rita, conforme afirmou posteriormente, se retirou, fez suas malas e voltou a morar com seus pais.

No dia seguinte, Sérgio e Liminha foram até a casa dos pais de Rita tentar convencê-la a voltar, mas sem sucesso. Mesmo reconhecendo o papel de Rita dentro da banda, Dinho, Sérgio e Liminha se submeteram à autoridade de Arnaldo, que continuou a tomar mais decisões sem consultar o resto da banda. Além disso, as tentativas de André Midani de lançar a carreira individual de Rita foram um ponto de conflito entre ela e a banda, que favoreceu o lado de Arnaldo.

Rita continuou com o apoio de Killingbeck, que se mudou com ela para uma casa perto da represa de Guarapiranga, ironicamente, o extremo oposto da cidade em relação à Serra da Cantareira, onde os Mutantes continuaram morando. Apesar de eventuais discussões, a relação de Rita com a banda continuou cordial, além de ter assistido algumas apresentações da banda após sua saída.

Arnaldo comentou sobre o caso posteriormente, em uma entrevista em 1996, afirmando: "Outro fator importantíssimo pra eu mandar ela embora é que eu achava que o som Mutantes não era forte. Eu não queria pertencer àquele conjunto, sem massa e com a Rita comandando. Mandei ela embora com a esperança de que fosse modificar para bem, mas nem assim consegui". Em 2007, Arnaldo afirmou novamente em entrevista: "Mandei a Rita embora dos Mutantes".

A turnê "2000 Watts de Rock" e gravações de OAEOZ

Killingbeck continuou sendo empresário da banda, apesar de namorar com Rita Lee. A banda seguiu ensaiando músicas que tendiam ao rock progressivo, com um visual mais sério. Em janeiro de 1973, o grupo estreou a turnê "Mutantes com 2000 Watts de Rock" no Teatro Aquarius, em São Paulo, usando como publicidade a potência do novo equipamento usado pela banda. O novo sistema de som público do grupo, idealizado por Cláudio César, passou a utilizar o som direto de uma mesa de controle, ligado a 10 amplificadores de 200 Watts de potência, além de 3 amplificadores iguais para o retorno, usando 600 Watts de potência. Na época, o sistema possuia uma potência sonora muito superior ao padrão da época no país. Segundo o produtor Pena Schmidt em entrevista na época, "Para se ter uma ideia do que isso representa, basta dizer que os Beatles nunca tiveram um equipamento maior que este. Nosso equipamento é equivalente ao do Pink Floyd". A banda foi a primeira a montar uma equipe técnica de som no país, contando com Cláudio César Baptista, Pena Schmidt, Alan Kraus e Léo Schoff.

Na mesma época, o grupo gravou um álbum, contendo músicas de rock progressivo, inspirado em bandas como Emerson, Lake and Palmer, Yes e Mahavishnu Orchestra. O álbum se chamaria "OAEOZ", com a faixa-título com um conceito que incluia uma espécie de "visão messiânica", inspirada pela morte do ego provocada pelo uso de LSD. Supostamente, todas as músicas do álbum foram compostas e gravadas sob o efeito da droga. O resto das composições do álbum seguia a mesma linha, com músicas como "Você Sabe" e "Uma Pessoa Só", que afirma que todos os seres humanos sejam "uma pessoa só". A canção "Rolling Stone" desagradou a diretoria da gravadora, que acreditava que a canção fosse publicidade da revista de propriedade do empresário da banda, a Rolling Stone Brasil.

Ainda sob contrato com a Philips, a banda gravou o álbum no Estúdio Eldorado, em São Paulo, com as gravações sendo financiadas pela gravadora. O álbum já tinha uma capa pronta, com uma ilustração de uma cachoeira feita por Antonio Peticov. No entanto, André Midani, que tinha uma relação conflituosa com Killingbeck, empresário da banda, alegou que o álbum não seria comercial e não poderia ser lançado, exceto se a banda arcasse com os custos das horas de estúdio. A solução encontrada por Killingbeck foi vender a revista Rolling Stone Brasil, para pagar a gravadora e lançar o álbum. Por conta da prisão de Norman Baines, road manager da banda, o valor foi utilizado para pagamento de fiança e o álbum não foi lançado. As gravações permaneceram em posse dos membros da banda, até ser lançada pela Philips, em 1992, como O A e o Z, com uma nova capa. Além de não lançar o álbum, a gravadora demitiu a banda, afirmando que o som produzido pelo conjunto "não era vendável".

Em fevereiro, a banda decidiu retomar o projeto de tocar em um ônibus, comprando um caminhão Chevrolet, batizado de Tenório, para carregar os equipamentos do sistema de som da turnê. Entre fevereiro e abril, a banda percorreu grande parte do país, tocando em capitais como Salvador, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Florianópolis e Belo Horizonte. Segundo o biógrafo Carlos Calado, os panfletos de divulgação da turnê eram feitos de papel de seda colorido, supostamente para que o público também pudesse utilizá-los para enrolar cigarros.

Em maio de 1973, a banda se apresentou na abertura do festival Phono 73, evento produzido pela Phonogram na inauguração do Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo. No mesmo festival, ocorreu a primeira apresentação da dupla Cilibrinas do Éden, protagonizada por Rita Lee e Lucinha Turnbull.

Arnaldo, debilitado pelo uso contínuo de drogas, passou a se distanciar da realidade cada vez mais, tendo visões sombrias (bad trips) e com uma fala desconexa. Depressivo e frustrado com a demissão da banda pela gravadora, Arnaldo passou a usar outras drogas além do LSD, como cocaína e mescalina. Na mesma época, passou a guardar sacos de lixo e desenvolveu um projeto de criar uma nave espacial. Por conta de uma discussão sobre tocar de graça na cidade de São Lourenço, em Minas Gerais, Arnaldo ameaçou deixar a banda caso nenhum dos outros membros aceitasse realizar a apresentação. Sem apoio, Arnaldo decidiu deixar o grupo. Killingbeck deixou de empresariar o grupo, voltando à Inglaterra alguns anos mais tarde.

1973–1978: Fase progressiva e fim da banda

Mudança para o Rio de Janeiro e Tudo Foi Feito Pelo Sol

Após a saída de Arnaldo, a solução de Sérgio, Dinho e Liminha foi convidar Manito, ex-membro do grupo Os Incríveis. Manito se apresentou algumas vezes com a banda, mas pela incompatibilidade de seu trabalho com a banda, deixou o grupo para continuar se apresentando com o Som Nosso de Cada Dia. Após a saída de Manito, Sérgio convidou em seu lugar um pianista que conheceu no Rio de Janeiro, Túlio Mourão. Com um problema físico na mão direita, que não respondia a seus comandos, Dinho entrou em crise pessoal e profissional. Desanimado após as mudanças de formação da banda, decidiu deixar o grupo. Por sugestão de Túlio, foi convidado o baterista Rui Motta. Após alguns testes junto com outros bateristas, Rui foi contratado para a banda.

Com a nova formação, em maio de 1974, a banda conheceu Samuel Wainer Filho, que foi contratado como empresário do grupo. Com um contrato assinado com a gravadora Som Livre, a banda se transferiu para a cidade de Itaipava, no Rio de Janeiro, para morar no sítio de Samuel. Com as datas de gravação do próximo álbum já marcadas, Sérgio e Liminha tiveram uma discussão e o baixista deixou a banda, descontente com as letras das músicas e com o clima nos ensaios. Com a saída de Liminha, foi convidado Antônio Pedro de Medeiros em seu lugar, amigo de Túlio e Rui Motta.

Logotipo usado pela banda no álbum Tudo Foi Feito Pelo Sol

O quarteto gravou Tudo Foi Feito pelo Sol no estúdio RCA, no Rio de Janeiro, com composições de Sérgio e Liminha e contribuições dos novos membros do grupo. Todas as canções foram gravadas em uma única sessão, sem pausas ou retrabalhos, além de terem sido executadas sob efeito de LSD. O álbum, que seguiu a linha do rock progressivo, foi o de maior sucesso comercial da história da banda. A turnê de divulgação do álbum também foi a mais longa da história da banda até aquele ponto.

Depois de um ano e meio instalados no sítio de Itaipava, os Mutantes trocaram de empresários algumas vezes, depois de não receberem o cachê das apresentações de turnês inteiras. Por conta de discussões, Túlio Mourão e Antônio Pedro foram demitidos por Sérgio. No lugar de Túlio, foi escolhido o tecladista Luciano Alves. No lugar de Antônio, o substituto foi Paul de Castro, que já frequentava o sítio da banda, o que foi decisivo para a escolha.

Mutantes Ao Vivo e fim do grupo

Em agosto de 1976, a banda foi convidada para uma sequência de shows no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Como alternativa sugerida pelo produtor Pena Schmidt para reduzir os custos de gravação de um álbum, um novo álbum da banda foi gravado ao vivo, utilizando trechos gravados nos shows. Com diversas músicas inéditas, longas e com diversos improvisos, Schmidt teve de reduzir um show com quase duas horas de duração para cerca de quarenta minutos, duração máxima de um disco de vinil. Assim, foi lançado Mutantes Ao Vivo. O trabalho de edição dos produtores foi criticado pela banda, além de ter sido considerado como um fracasso comercial pela gravadora.

Apesar da frustração provocada pelo álbum, a banda passou a ser empresariada por Mano Buonfliglio, que passou a agendar diversos shows e turnês mais organizadas que as anteriores. Em março de 1977, Os Mutantes, junto com a banda O Terço, inauguraram o show Como Nos Velhos Tempos, tocando canções dos Beatles e antigas músicas de sucesso dos dois conjuntos, no Theatro Municipal de São Paulo.

Em junho de 1977, a banda foi convidada por Antonio Peticov para uma temporada em sua casa, se apresentando no apartamento de Peticov e conhecendo o ambiente musical europeu. Para que o grupo não tivesse de pagar o imposto federal de turismo, Peticov organizou uma apresentação em um evento promovido pelos comunistas italianos, promovido pela prefeitura de Milão. Em Milão, a banda foi recebida com simpatia, mas com estranheza diante do som do grupo, que não era considerado "brasileiro". Peticov, que convidou a banda para tocar, se decepcionou com Sérgio, após sua recusa de convites para tocar com Eric Burdon e com a banda italiana Area. Depois de discussões, a banda voltou ao Brasil, em outubro de 1977.

Depois do retorno ao Brasil, Paul de Castro decidiu deixar o grupo, sendo substituído por Fernando Gama. Sérgio decidiu convidar Arnaldo para retornar a banda, mas Arnaldo ainda continuava com uma saúde mental desestabilizada e formando seu próprio grupo, a banda Patrulha do Espaço. Cláudio César foi convidado para operar a mesa de som da banda, após ter deixado a equipe técnica do grupo em 1973. Os Mutantes retornaram aos palcos no Palácio de Convenções do Anhembi, em maio de 1978, contando com Betina Gama nos vocais, esposa do baixista Fernando Gama. Em junho de 1978, com apresentações cada vez mais desconexas e com um público pequeno, Sérgio decide terminar com o grupo, após uma última apresentação em Ribeirão Preto, no dia 6 de junho.

Depois do fim

Lançamento de O A e o Z

Os Mutantes voltariam a ser notícia em 1992, quando jornais brasileiros divulgaram que o grupo poderia retornar a ativa. Durante gravações com Almir Chediak, Rita Lee teria sugerido uma regravação de "Bat Macumba" com os membros originais dos Mutantes. No mesmo ano, em entrevista, Rita afirmou: "Convidei o Sérgio e o Arnaldo, mas sem a intenção de fazer os Mutantes voltarem. A intenção é de voltar como amigo, de fazer aquelas brincadeiras todas que a gente fazia".

No mesmo ano, o álbum O A e o Z foi lançado, quase vinte anos após sua gravação.

Em 1996, é lançado um álbum-tributo à banda, com o nome de O Triângulo Sem Bermudas - Uma Homenagem À Trois, com releituras de canções do grupo interpretadas por artistas brasileiros, como Arnaldo Antunes, Kid Abelha, Lulu Santos, Pato Fu e Planet Hemp.

Lançamento de Tecnicolor

Em 1999, a gravadora Universal Music, dona do catálogo da Polydor, decidiu lançar o álbum Tecnicolor, gravado pela banda durante sua passagem pela França na turnê no teatro Olympia, em 1970. A arte da capa do álbum foi feita por Sean Lennon. Na época, o álbum teria sido gravado com o intuito de promover a banda na Europa, mas foi descartado após decisão da gravadora.

Em fevereiro de 2005, a revista britânica Mojo incluiu o álbum Os Mutantes em sua lista de "50 Most Out There Albums of All Time" ("50 Discos Mais Experimentais de Todos os Tempos"). Eles obtiveram a 12ª posição na lista, à frente de nomes como Beatles, Pink Floyd e Frank Zappa. Ainda em 2005, a também britânica Q Magazine igualmente colocou o álbum em 12º lugar, em sua lista dos "40 greatest psychedelic albums of all time" ("Os 40 maiores discos psicodélicos de todos os tempos). Em 2012, a americana Rolling Stone incluiu também o disco de estreia na 9ª posição em sua lista dos "10 maiores discos de rock latino de todos os tempos".

2006–presente: Reunião da banda e novos álbuns

Os Mutantes em 2010.

Retorno no centro cultural Barbican e turnê mundial

Em 2006, os Mutantes foram homenageados na mostra Tropicália - A Revolution in Brazilian Culture, no centro cultural Barbican, em Londres. A imprensa divulgou o ocorrido como um convite para uma apresentação dos Mutantes, conforme afirmado por Sérgio Dias. Sérgio decidiu entrar em contato com os outros integrantes da formação clássica da banda, para perguntar sobre a possibilidade de uma reunião da banda. Rita Lee não aceitou o convite, alegando estar aproveitando a sua idade e sem interesse de voltar a fazer uma longa série de shows. Liminha recusou, alegando outras ocupações e desacordo com Sérgio sobre o número de músicas a serem tocadas. Arnaldo e Dinho, que não tocava em palcos há trinta anos, aceitaram. Ao grupo original, foi convidada a cantora Zélia Duncan. Para os instrumentos de apoio, foram convidados os músicos da banda de Sérgio Dias. A primeira apresentação em Londres, realizada em 22 de maio de 2006, foi um sucesso, e contou com a banda Nação Zumbi como grupo de abertura, além do músico americano-venezuelano Devendra Banhart. A apresentação foi gravada e lançada em dezembro de 2006, pela gravadora Sony BMG.

Depois do concerto em Londres, os Mutantes seguiram para temporada nos Estados Unidos. Se apresentaram no Webster Hall, em Nova York, no Hollywood Bowl, em Los Angeles, no The Fillmore, em San Francisco, no Moore Theatre, em Seattle e Cervantes Masterpiece Ballroom, em Denver - além de participarem do Pitchfork Music Festival, em Chicago. Ainda naquele ano, a gravadora Universal remasterizou todos os disco da banda dos anos de 1968 a 1972, fazendo uso das fitas originais, relançando os álbuns em versões em CD.

Em 25 de janeiro de 2007, o grupo fez sua primeira apresentação no Brasil em quase trinta anos, com uma apresentação na comemoração do 453º aniversário da cidade de São Paulo, com uma audiência de cinquenta mil pessoas no Museu do Ipiranga. Em seguida, o grupo realizou uma turnê pelo Brasil. Em setembro daquele ano, Zélia Duncan e Arnaldo Baptista anunciaram a saída dos Mutantes. Zélia alegou que queria se dedicar mais a sua carreira solo. Arnaldo queria se dedicar aos seus projetos pessoais, incluindo a publicação de uma autobiografia, um livro de ficção (Rebelde Entre os Rebeldes) e dois álbuns da Patrulha do Espaço, além de promover uma exposição com suas pinturas e esculturas.

Lançamento de Haih or Amortecedor, Fool Metal Jack e Zzyzx

Sérgio Dias e Dinho Leme continuaram as turnês sob o nome Os Mutantes, mas integrando os músicos de apoio como integrantes da banda e substituindo Zélia Duncan por Bia Mendes. Em abril de 2008, a banda lançou a música "Mutantes Depois", que foi utilizada na trilha sonora da novela Os Mutantes: Caminhos do Coração. A banda continuou em turnê, tocando músicas de sua fase "clássica".

Em 2009, foi lançado o álbum Haih or Amortecedor, internacionalmente pela gravadora Anti- e pela Coqueiro Verde Records no Brasil, contando com composições de Sérgio Dias e parcerias com Tom Zé, que escreveu algumas letras para o álbum. O álbum foi o primeiro com músicas inéditas da banda desde o álbum Mutantes Ao Vivo, de 1976. Apesar da banda realizar longas turnês no exterior, a maior parte do álbum é cantada em português.

No dia 30 de dezembro de 2012, é realizado o show Tudo Foi Feito pelo Sol, contando com todos os membros da formação da gravação do álbum (Sérgio Dias, Túlio Mourão, Rui Motta e Antônio Pedro de Medeiros), no festival Psicodália, realizado em Santa Catarina. A mesma formação realizou outras apresentações em diversas cidades do país de 2013 a 2016, em apresentações organizadas pelo SESC.

Em 2013, foi lançado o álbum Fool Metal Jack, pela gravadora Kryan Music. O título do álbum é uma referência ao filme de Stanley Kubrick, Full Metal Jacket. O álbum contém apenas composições de Sérgio Dias, com exceção da canção "Eu Descobri", de Gilberto Gil. A banda, agora com o público norte-americano e europeu como público-alvo, passou a cantar a maioria de suas canções em inglês, incluindo todas as composições de Sérgio.

Após o lançamento do álbum, o baterista Dinho deixou novamente a banda, por problemas de saúde, sendo substituído por Claudio Tchernev. A vocalista Bia Mendes também deixou a banda, sendo substituída por Esméria Bulgari. Em 2017, é lançado o single "Black and Grey", em que a banda se posiciona contra o primeiro mandato como presidente de Donald Trump nos Estados Unidos.

Em 2020, foi lançado o álbum Zzyzx, pela gravadora Jardim Elétrico. Contando com canções em inglês e diversos estilos diferentes, como doo-wop, country e folk rock, o álbum não foi bem recebido pela crítica. No mesmo ano, Camilo Macedo passou a integrar a banda, acompanhando Sérgio como guitarrista. Em 2026, a banda iniciou a turnê "Mutantes 60 Anos", contando com shows pelo Brasil com a apresentação das canções clássicas do grupo.

Inovações

Sérgio Dias com a "Guitarra de Ouro".

A banda utilizou diversas inovações técnicas e sonoras que, até então, eram desconhecidas ou pouco usadas na indústria fonográfica no Brasil. Além de incorporar tentativas de replicar edições nas fitas de maneira analógica e usar instrumentos incomuns, como o teremim, o grupo ficou conhecido por utilizar instrumentos, pedais de efeitos e amplificadores feitos por Cláudio César Dias Baptista, irmão mais velho de Arnaldo e Sérgio.

Uma das inovações de Cláudio César Dias Baptista foram os instrumentos utilizados pela banda, como a Regvlvs Raphael, também conhecida como "Guitarra de Ouro", modelo de guitarra utilizado por Sérgio em grande parte dos álbuns da banda. Além disso, Cláudio fez a réplica de um Fender Jazz Bass usado por Arnaldo, presente na capa de Mutantes. Depois, também construiu uma "guitarra-baixo" Regvlvs Raphael, instrumento semelhante ao Fender Bass VI, com seis cordas afinadas na posição de uma guitarra, mas com um tom de baixo. O instrumento foi usado por Arnaldo e posteriormente por Liminha.

Cláudio César foi responsável direto por diversas outras inovações sonoras da banda, como os pedais de efeitos usados por Sérgio Dias. Na faixa "Bat Macumba", de Os Mutantes, é possível ouvir o efeito chamado de "Inferno Verde", que consistia em um potenciômetro de volume sendo girado por um motor de máquina de costura, que respondia ao comando de um pedal, o que imitava a ideia de um efeito tremolo com o uso de um pedal de expressão. Em outras faixas, como "Dia 36" e "Ave, Lúcifer", é possível ouvir o efeito "wooh-wooh", criado por Cláudio na tentativa de mudar a sonoridade de um pedal de efeito wah-wah: com a alteração dos valores de capacitores do circuito original, o efeito "wooh-wooh" cria um envelopamento das frequências graves, no lugar das frequências agudas no wah-wah.

Outros equipamentos, como amplificadores, caixas e mesas de som, bem como pedais de efeito também foram projetados e construídos por Cláudio para uso da banda. Após o fim da banda e com sua carreira criando equipamentos de som sob a marca CCDB, Cláudio escreveu um livro sobre gravações em estúdio com o que aprendeu pelos anos que era engenheiro de som da banda. Cláudio permaneceu vendendo seus equipamentos até sua aposentadoria, em 1994.

Integrantes

Formação atual

Formação clássica

Ex-integrantes

Ex-integrantes de apoio

Linha do Tempo

Discografia

Álbuns de estúdio

Álbuns ao vivo

Álbum coletivo

Compilações

EP

Compactos

Notas

  1. ↑ As fontes divergem, algumas dizem que a sugestão foi de Ronnie Von, outras que teria sido os próprios irmãos Baptista ou o jornalista e produtor Alberto Helena Júnior
  2. ↑ O álbum foi gravado em 1973.
  3. ↑ O álbum foi gravado em 1970.

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Bibliografia

Ligações externas