O nasserismo é uma corrente política nacionalista árabe e socialista árabe associada ao pensamento, às políticas e ao legado de Gamal Abdel Nasser, dirigente da revolução egípcia de 1952 e segundo presidente do Egito. Reúne a defesa da unidade árabe, da independência política e econômica, da justiça social e do desenvolvimento conduzido pelo Estado, além do anti-imperialismo e do não alinhamento internacional.
A corrente alcançou ampla influência no mundo árabe nas décadas de 1950 e 1960, sobretudo após a Crise de Suez de 1956. Sua expressão institucional mais conhecida foi a República Árabe Unida, que reuniu o Egito e a Síria entre 1958 e 1961. A derrota árabe na Guerra dos Seis Dias, em 1967, enfraqueceu o prestígio de Nasser e os projetos de unificação associados a sua liderança.
Após a morte de Nasser, em 1970, seu sucessor, Anwar Sadat, afastou-se de componentes centrais de sua política econômica e externa. O nasserismo, entretanto, continuou a existir como referência política e como corrente organizada em partidos e movimentos, tanto no Egito quanto em outros países árabes.

O nasserismo desenvolveu-se a partir da experiência dos Oficiais Livres, que derrubaram a monarquia egípcia em julho de 1952. Seu programa inicial combinava o combate à influência estrangeira, aos grandes proprietários de terras e à concentração do poder econômico com a defesa da justiça social, de um exército nacional forte e de uma vida política apresentada como democrática. A definição de seus objetivos e instrumentos sofreu mudanças ao longo do governo de Nasser, em resposta a conflitos internos, às relações com as potências estrangeiras e às disputas pela liderança do mundo árabe.
A nacionalização da Companhia do Canal de Suez, em julho de 1956, e a retirada das forças de Israel, da França e do Reino Unido após a intervenção militar daquele ano aumentaram o prestígio de Nasser. Apesar da derrota militar egípcia, o desfecho político da crise foi interpretado por seus apoiadores como uma vitória contra as antigas potências coloniais.
O socialismo árabe adquiriu maior definição na passagem para a década de 1960, com a ampliação das nacionalizações e das políticas de planejamento econômico. A Carta Nacional, apresentada por Nasser em 1962, sistematizou o programa de transformação social e econômica do regime. No mesmo período, a União Socialista Árabe tornou-se a organização política central do Estado egípcio.
O programa dos Oficiais Livres foi apresentado por meio de seis objetivos:
Esses princípios reuniam reivindicações de soberania e de reforma social. Seu sentido político foi modificado pela consolidação do poder de Nasser: o combate às elites da monarquia acompanhou a reorganização das instituições, mas o compromisso declarado com a democracia não se traduziu na restauração do pluralismo partidário. A disputa com Muhammad Naguib, em 1954, terminou com a vitória de Nasser e o afastamento das forças que defendiam o retorno a uma ordem parlamentar.
O nasserismo concebia os árabes como uma comunidade nacional cuja fragmentação política dificultava a independência e o desenvolvimento. A unidade árabe deveria fortalecer a capacidade de atuação dos países da região perante as potências estrangeiras e no conflito árabe-israelense. A liderança de Nasser e a capacidade de mobilização do Egito ocuparam posição central nesse projeto.
A República Árabe Unida representou a principal tentativa de traduzir esse ideal em uma união estatal. A concentração de decisões no Cairo e os conflitos entre as elites políticas, militares e econômicas dos dois países contribuíram para a secessão da Síria em setembro de 1961. Novas negociações entre Egito, Síria e Iraque, em 1963, também não produziram uma união duradoura.
A passagem do nacionalismo predominantemente egípcio para uma política pan-árabe ganhou força durante a década de 1950. A oposição ao Pacto de Bagdá, a nacionalização de Suez e a união com a Síria apresentavam a independência do Egito como parte de uma luta regional contra o colonialismo. A defesa da unidade também alimentou conflitos com governos árabes que consideravam a influência de Nasser uma ameaça à própria autoridade, especialmente as monarquias da Arábia Saudita e da Jordânia.
A rádio Voz dos Árabes, transmitida do Cairo, foi um dos principais instrumentos de difusão dessas ideias. Discursos, notícias e programas dirigidos ao público de outros países permitiram que Nasser se comunicasse com populações árabes para além das relações entre governos. A atuação regional também incluiu o envio de professores e outros profissionais egípcios, apoio a organizações nacionalistas e ajuda financeira a grupos nasseristas. Essa ligação levou alguns desses grupos a serem percebidos como agentes da política externa egípcia.
O socialismo nasserista defendia um papel amplo do Estado no desenvolvimento e na redistribuição de recursos. Suas políticas incluíram a reforma agrária, a nacionalização de setores estratégicos, o planejamento econômico, a industrialização e a expansão de serviços de educação, saúde e proteção social. A barragem de Assuã tornou-se um dos principais símbolos desse programa de modernização.
Esse socialismo preservava espaços para a propriedade privada e procurava justificar a transformação econômica por meio da solidariedade nacional. Sua relação com o marxismo e os movimentos comunistas foi marcada tanto por divergências quanto por aproximações. O governo de Nasser reprimiu organizações comunistas, ao mesmo tempo que recebeu apoio de comunistas que reconheciam o caráter anticolonial e reformista de suas políticas.
A reforma agrária limitou a extensão das grandes propriedades e buscou melhorar as condições dos agricultores arrendatários. A ampliação do setor público, particularmente a partir de 1961, colocou bancos, empresas industriais e outros setores sob controle estatal. O programa associava a industrialização à independência econômica: reduzir a dependência do capital estrangeiro e ampliar a capacidade produtiva eram apresentados como condições para a soberania política.
As medidas sociais incluíram salário mínimo, participação dos trabalhadores nos lucros, redução da jornada de trabalho e expansão da educação e da assistência médica gratuitas. A Carta Nacional de 1962 também defendia habitação acessível, formação profissional, direitos das mulheres e planejamento familiar. A redistribuição de recursos e a expansão de serviços públicos ajudaram a constituir a base social do regime entre trabalhadores, camponeses e setores da classe média.
As políticas econômicas não eliminaram a propriedade privada nem estabeleceram uma economia inteiramente estatizada. A orientação variou ao longo do tempo, e Nasser voltou a introduzir incentivos ao setor privado e às exportações na segunda metade da década de 1960. Os gastos militares, a intervenção no Iêmen e os efeitos da derrota de 1967 também limitaram os recursos disponíveis para o desenvolvimento. Ajami destacou que os resultados da experiência nasserista não haviam resolvido os problemas persistentes de pobreza e escassez do Egito.
O programa nasserista associava a transformação social à mobilização de trabalhadores, camponeses e setores da classe média. Seus princípios declarados incluíam a construção de uma vida democrática, mas o regime restringiu o pluralismo partidário, a liberdade de imprensa e a atuação independente da oposição. A representação política foi organizada por instituições vinculadas ao Estado e por sucessivas organizações de partido único.
A centralidade da liderança pessoal de Nasser, o uso de discursos e dos meios de comunicação e a identificação do dirigente com a nação são aspectos recorrentes nas interpretações acadêmicas da corrente. Essas características também sustentaram análises do nasserismo como forma de populismo.
O Agrupamento da Libertação, a União Nacional e, posteriormente, a União Socialista Árabe foram formas sucessivas de organizar o apoio político ao governo. Os plebiscitos presidenciais apresentavam Nasser como único candidato, enquanto as organizações de trabalhadores e camponeses eram incorporadas a uma estrutura supervisionada pelo Estado. A mobilização popular coexistia, portanto, com a concentração das decisões e a repressão a adversários políticos.
Nas análises de seu funcionamento político, o apelo à dignidade nacional e à justiça social ajuda a explicar a ligação pessoal entre Nasser e seus seguidores. A linguagem dos discursos, as transmissões de rádio e a imagem do dirigente como representante dos cidadãos comuns favoreceram essa identificação. Críticos do regime, entretanto, relacionaram o enfraquecimento das instituições independentes à dificuldade de participação efetiva e de controle sobre as decisões do presidente.
O nasserismo costuma ser classificado como uma corrente secular do nacionalismo árabe. Isso não implicava a rejeição da religião: Nasser mobilizou referências islâmicas para legitimar a justiça social e as reformas econômicas. Segundo David Westerlund, o islão foi apresentado como fonte de inspiração para o socialismo nasserista e como instrumento de mobilização social.
O governo procurou subordinar instituições religiosas à autoridade estatal e entrou em conflito com a Irmandade Muçulmana. As reformas de al-Azhar incluíram a ampliação do ensino de disciplinas não religiosas e a integração da instituição ao projeto de modernização. A relação entre religião e Estado no nasserismo combinou, assim, tendências secularizadoras com o uso político de tradições e instituições islâmicas.
A distinção entre secularismo e hostilidade à religião é relevante para a corrente. O governo defendia a modernização educacional, reconheceu o direito de voto das mulheres na Constituição de 1956 e ampliou o controle público sobre instituições religiosas. Ao mesmo tempo, Nasser apresentava o islão como compatível com a justiça social e a solidariedade econômica. A expressão «socialismo islâmico» foi empregada para descrever essa apropriação de princípios religiosos na legitimação das reformas, sem que o regime adotasse o programa político da Irmandade Muçulmana.
O socialismo nasserista diferenciava-se do comunismo por sua ênfase na unidade nacional, pela manutenção de formas de propriedade privada e pela recusa do ateísmo associado ao marxismo. Nasseristas criticavam a adoção de doutrinas consideradas estrangeiras à história e às tradições religiosas árabes. Essas divergências não impediram a colaboração com a União Soviética nem o apoio de comunistas a medidas econômicas e anticoloniais do governo.
A relação com os comunistas egípcios foi marcada por repressão, divergências e aproximações. Organizações comunistas reconheceram na nacionalização de Suez, na reforma agrária e na política externa de Nasser medidas progressistas; ao mesmo tempo, seus integrantes foram presos e tiveram limitada a atuação independente. O apoio ao governo podia fundamentar-se na defesa da soberania nacional e da transformação econômica, mesmo quando não significava concordância com o sistema político de partido único.
As tensões também apareceram nas relações regionais. Na República Árabe Unida, Nasser reprimiu comunistas sírios e resistiu às pressões soviéticas para permitir sua atuação legal. A divergência com o governo iraquiano de Abdul Karim Kassem, apoiado por comunistas, agravou os conflitos entre nacionalistas árabes e organizações comunistas no final da década de 1950. O alinhamento diplomático com Moscou não eliminava, assim, as disputas pela organização política de cada país.
Após a morte de Nasser, setores nasseristas participaram de iniciativas de cooperação com socialistas e marxistas. No Egito, essa aproximação esteve presente na formação do Tagammu, que reuniu diferentes correntes de esquerda na década de 1970. A relação com o comunismo, portanto, variou conforme o período e os interesses das organizações envolvidas.
A oposição à dominação colonial e à interferência estrangeira constituiu um dos eixos do nasserismo. O Egito apoiou movimentos de libertação, especialmente a independência da Argélia, e procurou fortalecer a cooperação entre países africanos e asiáticos. A participação de Nasser na Conferência de Bandung, em 1955, e na formação do Movimento Não Alinhado, em 1961, integrou essa orientação.
O não alinhamento buscava preservar a autonomia em relação aos blocos liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética. Na prática, as tensões com as potências ocidentais favoreceram a cooperação econômica e militar entre o Egito e a União Soviética. Essa aproximação coexistiu com divergências ideológicas e com a repressão a comunistas dentro do Egito.
A cooperação com a União Soviética tornou-se decisiva para o fornecimento de armas e para projetos como a barragem de Assuã, após a retirada do financiamento inicialmente oferecido pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. O Egito buscava combinar esse apoio com a preservação de autonomia diplomática. Nasser, Jawaharlal Nehru e Josip Broz Tito estiveram entre os principais articuladores do não alinhamento, cuja primeira conferência de chefes de Estado e de governo ocorreu em Belgrado, em 1961; o Cairo recebeu a segunda conferência, em 1964.
A oposição ao sionismo e a defesa da causa palestina ocuparam lugar importante no discurso e na política externa nasseristas. Nasser procurava apresentar o Egito como defensor dos interesses árabes perante Israel, mas a retórica de confronto coexistiu com avaliações de que uma guerra exigia preparação militar e coordenação entre os países árabes. A questão palestina também era objeto de disputas pela liderança regional.
Nasser apoiou a criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), em 1964, e exerceu influência sobre sua direção inicial, chefiada por Ahmad Shukeiri. A organização permitia coordenar a representação palestina e também limitar a autonomia de grupos guerrilheiros. Em paralelo, movimentos como o Fatah, apoiado pela Síria, conduziam ataques contra Israel, ampliando as tensões regionais e os desafios à orientação do governo egípcio.
Na primavera de 1967, os confrontos entre Israel e a Síria se intensificaram. Em 7 de abril, um combate aéreo terminou com a derrubada de seis aeronaves sírias por Israel. Nas semanas seguintes, autoridades israelenses advertiram sobre possíveis represálias mais amplas em resposta aos ataques de guerrilheiros. A escalada colocava em questão o compromisso de defesa entre o Egito e a Síria e aumentava a pressão sobre Nasser para demonstrar solidariedade ao aliado.
Em maio, alertas soviéticos sobre supostos preparativos israelenses para atacar a Síria contribuíram para o envio de tropas egípcias ao Sinai. Nasser exigiu a retirada da força de emergência das Nações Unidas e fechou o Estreito de Tiran à navegação israelense. Israel considerava o fechamento um motivo para a guerra. A sucessão de mobilizações, ameaças e compromissos entre governos reduziu o espaço para uma solução diplomática da crise.
Em 5 de junho, Israel atacou os aeródromos egípcios e destruiu grande parte da força aérea do país. A guerra terminou com a ocupação israelense do Sinai e da Faixa de Gaza, então sob controle egípcio; da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, então sob controle jordaniano; e das Colinas de Golã, pertencentes à Síria. A derrota atingiu o prestígio de Nasser e expôs limitações da coordenação militar e política árabe. As manifestações que rejeitaram sua renúncia mostraram, contudo, que o fracasso militar não havia eliminado sua base de apoio popular.

Em Filosofia da Revolução, Nasser apresentou o Egito como participante de três círculos: o mundo árabe, a África e o mundo islâmico. Essa formulação atribuía ao país um papel de liderança internacional em espaços de pertencimento e atuação que se sobrepunham.
A obra surgiu de textos publicados entre 1953 e 1954 e recebeu diferentes edições e traduções. Sua exposição dos círculos tornou-se uma referência para a compreensão da visão de Nasser sobre o lugar do Egito nas relações internacionais.
O nasserismo e o baathismo compartilhavam a defesa da unidade árabe, do socialismo árabe e da independência perante as potências estrangeiras. Possuíam, contudo, origens e organizações distintas. O Partido Baath foi fundado na Síria em 1947, antes da ascensão de Nasser ao poder no Egito, e desenvolveu uma organização com ramificações em diversos países árabes.
As relações entre baathistas e nasseristas alternaram cooperação e rivalidade. Integrantes do Baath participaram do projeto da República Árabe Unida, mas entraram em conflito com a concentração de poder no Cairo. Em 1963, a tentativa de uma nova união entre Egito, Síria e Iraque fracassou em meio às disputas entre essas correntes.
Albert Hourani relacionou a doutrina baathista à ideia de que os árabes deveriam viver em um único Estado unido. A convergência desse objetivo com o pan-arabismo de Nasser favoreceu alianças, mas não fez do Baath uma criação do nasserismo. A existência de organizações próprias e as disputas pela condução da unidade árabe explicam a alternância entre aproximação e conflito.
A secessão síria de 1961 e a derrota militar de 1967 demonstraram os limites dos projetos de unificação e da capacidade de liderança regional do Egito. A Guerra dos Seis Dias enfraqueceu o prestígio do nasserismo, embora não eliminasse a popularidade pessoal de Nasser nem a influência da corrente.
Após 1970, Sadat afastou-se de políticas nasseristas por meio da chamada Revolução Corretiva e da abertura econômica conhecida como Infitah. Nos anos seguintes, o nasserismo permaneceu como referência de oposição e de memória política, associado por seus partidários à independência nacional e à justiça social.
No Egito, o Partido Nasserista Democrático Árabe e o Al-Karama, ligado a Hamdeen Sabahi, reivindicaram esse legado. Sabahi ficou em terceiro lugar na eleição presidencial de 2012. Naquele mesmo ano, organizações nasseristas anunciaram a formação de um partido unificado.
A influência regional do nasserismo também alcançou a Argélia, a Líbia, o Iêmen, o Iraque e o Líbano. Sua recepção variou conforme os contextos locais, dando origem a movimentos próprios e a aproximações com outras correntes nacionalistas. No continente africano, a atuação internacional de Nasser incluiu apoio a dirigentes e movimentos anticoloniais e participação nas discussões que levaram à criação da Organização da Unidade Africana, em 1963.
O nasserismo não se limitou a partidos que reproduziam as instituições egípcias. Também forneceu símbolos, discursos e referências para movimentos que atuavam em situações políticas diferentes. Ahmed Ben Bella, na Argélia, foi um admirador de Nasser, enquanto Abdullah as-Sallal promoveu a república no Iêmen do Norte com apoio egípcio. No Iraque, a defesa da unidade árabe e a influência de Nasser marcaram correntes que rivalizavam com Kassem e com os baathistas.
Na Líbia, Muammar Gaddafi, que derrubou a monarquia em 1969, considerava Nasser uma referência e buscou assumir uma posição de liderança pan-árabe. No Sudão, Gaafar Nimeiry esteve entre os dirigentes influenciados por suas ideias. O Movimento Nacionalista Árabe também contribuiu para a difusão do pan-arabismo entre palestinos, sírios, libaneses e movimentos de outras partes do mundo árabe. A adoção desses princípios não produziu, porém, um modelo político uniforme.
No Líbano, a influência de Nasser esteve ligada às disputas entre nacionalistas árabes e seus adversários, especialmente durante a crise de 1958. O apoio egípcio a simpatizantes locais envolveu recursos financeiros, armas e treinamento, mas coexistiu com a decisão de não incorporar o país à República Árabe Unida. Depois da morte de Nasser, movimentos nasseristas continuaram a participar da política libanesa, adaptando o legado pan-árabe às alianças e aos conflitos do país.
A permanência do nasserismo envolveu tanto organizações políticas quanto a memória do período de Nasser. Durante o governo de Hosni Mubarak, o legado da justiça social e da independência nacional foi retomado por intelectuais e partidos de oposição. As reformas econômicas e a aproximação com os Estados Unidos e Israel nos governos posteriores contrastavam com componentes importantes da política nasserista, alimentando críticas e manifestações de nostalgia.
Essa continuidade não significava a manutenção de toda a estrutura ideológica e organizacional das décadas de 1950 e 1960. O fortalecimento de correntes islamistas, especialmente a Irmandade Muçulmana, alterou a competição política; organizações nasseristas passaram a atuar como parte de uma oposição mais diversificada. A referência a Nasser podia expressar a defesa de soberania e proteção social sem envolver adesão integral às instituições de seu governo.

A atuação do Egito na descolonização e no Movimento Não Alinhado aproximou o nasserismo de outras correntes de libertação nacional. Nasser apoiou movimentos africanos por meio de assistência política, recursos e transmissões de rádio a partir do Cairo. Sua participação nas discussões que levaram à criação da Organização da Unidade Africana vinculava a política egípcia a uma agenda continental, além do projeto de unidade árabe.
Os contatos do movimento sul-africano com o Egito aparecem no depoimento de Nelson Mandela no processo de Rivonia, em 1964. Mandela relatou ter conversado com autoridades egípcias durante sua viagem pela África e esclareceu que não conseguira esperar por uma audiência com Nasser. Ao explicar sua orientação política, mencionou Nasser entre os dirigentes de países independentes que defendiam alguma forma de socialismo para enfrentar a pobreza. O relato documenta a presença do Egito nessas redes de contato e a circulação de referências comuns de desenvolvimento e libertação nacional.
Na América Latina, o presidente venezuelano Hugo Chávez declarou sua identificação com Nasser em uma entrevista à Al Jazeera, em agosto de 2006. Segundo a transcrição publicada pelo MEMRI, afirmou ser nasserista desde a juventude militar e manifestou otimismo sobre a permanência das ideias de Nasser. A declaração constitui um exemplo de apropriação do legado nasserista fora de seu contexto árabe original.
O termo «nasserismo» é empregado para designar tanto ideias e políticas do governo egípcio quanto a liderança de Nasser e seus efeitos posteriores. A literatura apresenta diferentes interpretações: liderança carismática, movimento de modernização, programa de libertação nacional e forma de populismo. Elie Podeh e Onn Winckler discutem essas interpretações e propõem examinar a corrente por sua dimensão populista.
Peter Mansfield enfatiza a relação entre a trajetória de Nasser e a formação do nasserismo. Fouad Ajami, por sua vez, destaca sua dimensão simbólica e o papel que desempenhou nas aspirações de afirmação política dos árabes. Essas leituras distinguem a influência do nasserismo de sua capacidade de constituir uma doutrina sistemática e permanente.
Uma interpretação centrada na liderança pessoal foi desenvolvida por P. J. Vatikiotis, que associou o nasserismo ao estilo de governo, à retórica e à autoridade de Nasser. Nessa perspectiva, a ligação direta entre o presidente e as massas era mais importante do que a existência de uma doutrina coerente ou de organizações com autonomia em relação ao dirigente.
Walid Khalidi apresentou uma interpretação psicológica e política: o nasserismo seria uma atitude compartilhada por uma geração árabe, caracterizada por elementos ecléticos, empíricos, radicais e conservadores. Sua força estaria na transferência, ainda que parcial, das decisões sobre o futuro do mundo árabe para os próprios árabes, favorecendo um sentimento de confiança e autonomia.
Outra leitura, frequente entre cientistas sociais nas décadas de 1950 e 1960, examinava o nasserismo como movimento de modernização. Nessa abordagem, a reforma agrária, a industrialização e a ampliação de serviços públicos eram instrumentos para transformar a economia e a sociedade de um país em processo de descolonização. Podeh e Winckler distinguem essa interpretação das análises centradas no carisma e propõem uma abordagem comparativa que aproxima o nasserismo de experiências populistas de outras regiões.
Comparações com o fascismo também foram discutidas. Em 1964, o cientista político John H. Kautsky rejeitou a aplicação indiscriminada dessa classificação ao nasserismo e ao peronismo. Sua distinção considerava as bases sociais e os objetivos dos movimentos: enquanto o fascismo europeu se apoiara em setores contrários ao movimento operário e em elites tradicionais, as experiências de Nasser e Juan Perón procuravam promover a industrialização, mobilizar trabalhadores e camponeses e enfrentar aristocracias e setores do capital.
Essas interpretações atribuem pesos diferentes à doutrina, à liderança, à modernização e à memória política. A análise de Ajami destaca a persistência do nasserismo como símbolo de afirmação árabe mesmo diante dos limites de suas realizações econômicas e políticas; a de Mansfield relaciona sua trajetória aos êxitos e fracassos do governo de Nasser. O uso do termo abrange, assim, tanto a experiência histórica de um regime quanto correntes que reinterpretaram seu legado após 1970.
|isbn= (ajuda)