| Nelson Freire | |
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Martha Argerich e Nelson Freire no Festival Internacional de Piano de La Roque-d'Anthéron | |
| Informações gerais | |
| Nome completo | Nelson José Pinto Freire |
| Nascimento | 18 de outubro de 1944 Boa Esperança, Minas Gerais, |
| Morte | 1 de novembro de 2021 (77 anos) Rio de Janeiro, Brasil |
| Gênero | Música clássica |
| Ocupação | Pianista |
| Instrumento | Piano |
| Período em atividade | 1959-2021 |
| Gravadoras | CBS/Columbia, Sony Classical, Teldec, Philips, Decca, Deutsche Grammophon, Berlin Classics |
Nelson José Pinto Freire, 18 de outubro de 1944 - 1 de novembro de 2021) foi um pianista clássico brasileiro.
Menino prodígio nascido em Minas Gerais, Freire estudou no Rio de Janeiro e em Viena antes de vencer o Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta em 1964. Seu repertório ia de Bach e Beethoven a Chopin, Schumann, Brahms, Debussy, Liszt e compositores brasileiros. A música romântica ocupou boa parte de seus concertos e gravações.
Apresentou-se com orquestras da Europa, das Américas e da Ásia, trabalhando com regentes como Pierre Boulez, Riccardo Chailly, Charles Dutoit, Valery Gergiev, Eugen Jochum, Lorin Maazel, Kurt Masur, Seiji Ozawa e André Previn. Martha Argerich foi uma de suas amigas mais próximas e sua parceira mais frequente em duos de piano.
Freire gravou para a CBS/Columbia, Sony, Teldec, Philips, Decca, Deutsche Grammophon e Berlin Classics. Suas gravações receberam o Edison Award, o Gramophone Award, o Diapason d'or, o ECHO Klassik e um Grammy Latino. Foi indicado três vezes ao Grammy.

Freire nasceu em Boa Esperança, em Minas Gerais, em 18 de outubro de 1944. Havia um piano na casa da família e, ainda pequeno, começou a tocar de ouvido, imitando as músicas executadas pela irmã mais velha, Nelma. Biografias de concertos costumam situar o início de seus estudos de piano aos três anos, embora o próprio Freire tenha recordado mais tarde que começou a tocar aos quatro. Sua primeira apresentação pública ocorreu ainda na infância, quando tocou a Sonata para piano em lá maior, K. 331, de Mozart.
Antes de a família se mudar para o Rio de Janeiro, Freire viajava uma vez por semana para estudar com um professor que morava a algumas horas de Boa Esperança. Pouco depois, o professor disse aos pais que o menino precisava de uma formação mais avançada no Rio, então capital do Brasil. A família mudou-se para a cidade quando ele tinha cerca de seis anos. Seu pai deixou a farmácia que mantinha em Boa Esperança e passou a trabalhar em um banco para que Freire pudesse continuar os estudos no Rio.
No Rio de Janeiro, Freire estudou com Lúcia Branco e Nise Obino. Branco havia sido aluna de Arthur De Greef, que por sua vez estudara com Franz Liszt. Obino tinha sido aluna e assistente de Branco. Freire creditou mais tarde a Obino a reconstrução de sua técnica desde o princípio, inclusive a posição das mãos no teclado. Ele se lembrava dela como a professora que mais transformou sua maneira de tocar na infância. Seus pais também o mantiveram no ensino regular. Freire recordava que praticava apenas algumas horas por dia, sem passar a infância inteira ao piano.
Em 1957, aos doze anos, Freire tocou o Concerto para piano n.º 5, o "Imperador", de Beethoven, no Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro. Competindo com pianistas mais velhos, chegou à fase final. A apresentação lhe valeu uma bolsa do governo brasileiro para estudar no exterior. Escolheu Viena para estudar com Bruno Seidlhofer, que também teve entre seus alunos Friedrich Gulda.
Freire partiu para Viena aos catorze anos. Viajou com Seidlhofer e, pela primeira vez, viveu fora do Brasil sem os pais. Em Viena conheceu Martha Argerich, que se tornaria sua amiga por toda a vida e parceira musical.

Freire começou a se apresentar internacionalmente em 1959, ainda adolescente. Seus primeiros compromissos o levaram pela Europa, Estados Unidos, América Central e América do Sul, além de Japão e Israel. Em 1964, dividiu com Vladimir Krainev o primeiro lugar no Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta, em Lisboa. Também recebeu em Londres as medalhas Dinu Lipatti e Harriet Cohen.
A vitória em Lisboa abriu uma sequência regular de compromissos no exterior. Freire substituiu Alexander Brailowsky no México e fez seus primeiros concertos na Espanha em 1965, passando por Valência, Elche, Madri e Las Palmas de Gran Canaria. Estreou em Londres aos 23 anos e, no ano seguinte, apresentou-se em Nova York com a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque. Transmissões de concertos e relançamentos de apresentações daqueles anos incluem obras de Beethoven, Schumann, Chopin, Grieg, Liszt, Tchaikovsky, Rachmaninoff e Prokofiev.
Nas décadas seguintes, Freire alternou recitais solo, concertos com orquestra e música de câmara. Na Europa, tocou com a Orquestra Filarmônica de Berlim, Orquestra do Gewandhaus de Leipzig, Orquestra Filarmônica de Munique, Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara, Deutsches Symphonie-Orchester Berlin, Orquestra Real do Concertgebouw, Orquestra Filarmônica de Roterdã, Orquestra Sinfônica Nacional Dinamarquesa, Orquestra Filarmônica de São Petersburgo, Orquestra Tonhalle de Zurique, Orquestra Sinfônica de Viena, Orquestra Filarmônica Real, Orquestra Sinfônica de Londres, BBC Scottish Symphony Orchestra, BBC Symphony Orchestra, Orquestra Filarmônica Tcheca, Orquestra Nacional da França, Orquestra de Paris, Orchestre National du Capitole de Toulouse, Orchestre Philharmonique de Radio France e Orchestre de la Suisse Romande.
Nas Américas, apresentou-se com a Orquestra Sinfônica de Baltimore, Orquestra Sinfônica de Boston, Orquestra Sinfônica de Chicago, Orquestra de Cleveland, Orquestra Filarmônica de Los Angeles, Orquestra Sinfônica de Montreal, Orquestra Filarmônica de Nova Iorque e Orquestra de Filadélfia. Também tocou com a Orquestra Filarmônica de Israel, a Orquestra Filarmônica de Seul e a Orquestra Sinfônica NHK, de Tóquio.
Entre os regentes com quem trabalhou estavam Pierre Boulez, Riccardo Chailly, Myung-whun Chung, Colin Davis, Charles Dutoit, Valery Gergiev, Eugen Jochum, Rafael Kubelík, Rudolf Kempe, Fabio Luisi, Lorin Maazel, Kurt Masur, Ingo Metzmacher, Václav Neumann, Seiji Ozawa, André Previn, Yuri Temirkanov e David Zinman. Freire percorreu os Estados Unidos e a Alemanha com Kempe e a Orquestra Filarmônica Real. Em entrevistas posteriores, falou com apreço sobre seu trabalho com Chailly, Gergiev e Temirkanov.
Seus programas de recital transitavam entre obras clássicas e românticas, compositores franceses e russos e música brasileira. Um recital em Miami, em 1984, reuniu Mozart, Chopin e Debussy com Villa-Lobos, Albéniz, Godowsky e Rachmaninoff. Em um recital no Concertgebouw pelos seus 75 anos, tocou Scarlatti, Godowsky, Handel, Brahms, Liszt e Grieg. Peças curtas apareciam com frequência ao lado de grandes sonatas e outras obras mais extensas, além de serem usadas como bis.
Freire tocou pela primeira vez no BBC Proms em 2005, interpretando o Concerto para piano n.º 2 de Chopin com Ilan Volkov e a BBC Scottish Symphony Orchestra. Voltou ao festival em 2012 com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e Marin Alsop, tocando Momoprécoce, de Villa-Lobos. No ano seguinte, acompanhou a orquestra em uma turnê europeia por 13 cidades de seis países, com apresentações na Salle Pleyel, em Paris, no Royal Festival Hall, em Londres, e na Berliner Philharmonie.
No Brasil, Freire participou das comemorações pelo bicentenário do nascimento de Chopin. Em 13 de março de 2010, tocou na Sala São Paulo com a Filarmônica Brasileira sob a regência de Cláudio Cruz, no concerto de abertura do Ano Chopin no Brasil. Naquele ano, também integrou o júri da 16.ª edição do Concurso Internacional de Piano Chopin, em Varsóvia, vencida por Yulianna Avdeeva.
Freire já havia atuado como jurado em outros concursos. Em 2001, presidiu o júri do Concours international Marguerite Long-Jacques Thibaud, em Paris. Estava previsto que integrasse o júri da 18.ª edição do Concurso Internacional de Piano Chopin, em 2021, mas uma doença o levou a desistir. Arthur Moreira Lima ocupou seu lugar.
Em 2011, Freire cancelou uma apresentação prevista com a Orquestra Sinfônica Brasileira e Roberto Minczuk em solidariedade aos músicos que haviam sido dispensados pela orquestra.

Freire conheceu Martha Argerich em Viena quando os dois ainda eram jovens pianistas. A amizade durou pelo resto de sua vida e deu origem à sua mais longa parceria em duo de piano. Tocaram juntos em Londres em 1968, e as apresentações em duo se tornaram mais frequentes a partir da década de 1980.
Um programa filmado em 1982 combinou obras solo com peças para dois pianos de Ravel e Rachmaninoff. Em 2000, Freire juntou-se a Argerich no Carnegie Hall, onde tocou Ravel com ela em um programa que também trouxe Argerich ao lado do Juilliard String Quartet.
Os dois fizeram turnês pelo Japão em 2003, Brasil e Argentina em 2004 e América do Norte em 2005. O repertório para dois pianos incluía a Suíte n.º 2, de Rachmaninoff, as Variações sobre um tema de Haydn, de Brahms, La valse, de Ravel, e as Variações sobre um tema de Paganini, de Lutosławski. A Deutsche Grammophon lançou uma gravação ao vivo dos dois no Festival de Salzburgo. Nicholas Kenyon, em crítica publicada no The Observer, elogiou o equilíbrio e a capacidade de resposta entre os pianistas.
Quando Freire deixou o júri do Concurso Chopin de 2021 por motivo de doença, Argerich também desistiu. Ela viajou ao Brasil durante a enfermidade final do amigo.

Freire seguiu tocando e gravando depois dos setenta anos. A Decca lançou novos álbuns ao longo das décadas de 2000 e 2010, levando ao estúdio boa parte do repertório que ele tocava havia décadas. Em 2016, a Universidade Federal de Minas Gerais concedeu-lhe o título de doutor honoris causa durante as comemorações dos noventa anos da instituição. Em 2019, recebeu o prêmio pelo conjunto da carreira do International Classical Music Awards e o Prêmio Konex Mercosur.
Em 2018, Freire voltou ao Carnegie Hall com a Grand Rapids Symphony, sob a regência de Marcelo Lehninger, tocando Momoprécoce, de Villa-Lobos, e Noites nos jardins da Espanha, de Manuel de Falla. Uma queda no Rio de Janeiro, em 2019, fraturou seu úmero direito e o obrigou a cancelar apresentações. Planejava voltar aos palcos em 2020, mas a pandemia de COVID-19 adiou os planos.

Freire gravou com menos frequência do que muitos pianistas com carreiras comparáveis no circuito de concertos e dizia preferir o contato direto de tocar diante de uma plateia. Sua discografia comercial, ainda assim, passou pela CBS/Columbia, Sony Classical, Teldec, Philips, Decca, Deutsche Grammophon, Berlin Classics, IPAM e London. Chopin, Schumann, Brahms, Beethoven, Debussy e Liszt ocupam grande parte dessas gravações, ao lado da música brasileira, de Bach e de coletâneas de peças curtas.
As primeiras gravações de Freire para a CBS/Columbia reuniam concertos e obras solo que voltariam a circular décadas depois em relançamentos digitais. A Sony Classical reuniu boa parte desse material em Nelson Freire: The Complete Columbia Album Collection, lançado em 2014. A coleção contém concertos de Tchaikovsky, Grieg e Schumann e Totentanz, de Liszt, gravados com a Orquestra Filarmônica de Munique sob a regência de Rudolf Kempe, além de obras solo de Schumann, Schubert, Brahms, Chopin e Liszt. Sua gravação dos 24 Prelúdios de Chopin pela CBS recebeu o Prix Edison.
Freire também gravou Chopin para a Teldec e a Telefunken. A Warner Classics reuniu depois essas primeiras interpretações em Nelson Freire Plays Chopin, com noturnos, scherzos e outras peças. O álbum Chopin: Nocturnes & Fantasie, da Teldec, juntava dez noturnos à Fantasia em fá menor, Op. 49. Outros relançamentos da Warner e da Apex trouxeram os quatro scherzos, a Polonaise Heroica, a Terceira Balada e a Berceuse.
Em 1999, a Philips incluiu Freire na coleção Great Pianists of the 20th Century. Gravações desse período também circularam pelos selos IPAM e London, ao lado de material anterior de estúdio e de arquivo.
Freire assinou contrato de exclusividade com a Decca em outubro de 2001. Seus primeiros lançamentos pelo selo iniciaram um retorno regular ao estúdio. Um álbum de Chopin lançado em 2002 reuniu a Sonata para piano n.º 3, os doze estudos do Op. 25 e os Trois nouvelles études. O disco recebeu o Diapason d'or, o Grand Prix de l'Académie Charles Cros e um Choc da revista Le Monde de la musique. Seu álbum seguinte de Chopin para a Decca, lançado em 2005, trouxe os doze estudos do Op. 10, a Barcarolle e a Sonata para piano n.º 2. O álbum recebeu uma indicação ao Grammy.
Seu recital de Schumann de 2003 incluía Carnaval, Papillons, Kinderszenen e Arabeske. Outros lançamentos da Decca trouxeram sonatas de Beethoven, entre elas a "Ao Luar", "Waldstein", "Les Adieux" e Op. 110, seguidas por um álbum de Debussy com o primeiro livro dos prelúdios, Children's Corner, Clair de lune e La plus que lente.
Freire gravou os dois concertos para piano de Brahms com a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig e Riccardo Chailly em um álbum lançado pela Decca em 2006. A gravação venceu em 2007 o prêmio de Gravação do Ano do Classic FM Gramophone e a categoria de concerto, além de receber uma indicação ao Grammy. Freire voltou a Brahms em 2017 com um álbum solo que continha a Sonata para piano n.º 3 e peças para piano dos Opp. 39, 76 e 116-119.
No bicentenário de Chopin, em 2010, a Decca lançou a gravação de Freire dos noturnos completos. Chopin: The Nocturnes recebeu o Diapason d'Or e outra indicação ao Grammy. Um álbum posterior juntou o Concerto para piano n.º 2 à Quarta Balada, Berceuse, Polonaise Heroica e três mazurcas. Freire tocou o concerto com a Gürzenich-Orchester Köln sob a regência de Lionel Bringuier.
Em 2011, ano do bicentenário do nascimento de Liszt, Freire lançou Harmonies du soir. O álbum contém a segunda e a oitava Rapsódias Húngaras, o estudo que dá nome ao disco, pertencente aos Estudos Transcendentais, Waldesrauschen e as seis Consolações. Freire também havia gravado os concertos para piano de Liszt e Totentanz com a Dresden Philharmonic e Michel Plasson para a Berlin Classics. Parte desse material foi depois relançada ao lado de gravações de Artur Pizarro.
As gravações de Freire com Martha Argerich saíram por mais de um selo. Um álbum da Decca reuniu os dois na Suíte n.º 2, de Rachmaninoff, La valse, de Ravel, e nas Variações sobre um tema de Paganini, de Lutosławski. A Deutsche Grammophon lançou a apresentação dos dois no Festival de Salzburgo, com obras de Brahms, Rachmaninoff, Ravel e Schubert. Freire também gravou com Argerich, Peter Sadlo e Edgar Guggeis a Sonata para dois pianos e percussão, de Bartók, e arranjos de Ravel para a Deutsche Grammophon.
A música brasileira também teve espaço próprio na discografia de Freire. Brasileiro: Villa-Lobos and Friends, lançado pela Decca em 2012, reúne peças para piano de Heitor Villa-Lobos e obras de outros compositores brasileiros. O álbum venceu em 2013 o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Clássica. Andrew Clements escreveu no The Guardian que as trinta peças curtas incluíam dezesseis de Villa-Lobos e que algumas faziam parte do repertório conhecido por Freire desde seus anos de estudante no Brasil.
Um álbum de Beethoven lançado em 2014 reuniu o Concerto "Imperador" e a Sonata para piano n.º 32, novamente com Chailly e a Orquestra do Gewandhaus. Em 2016, Freire lançou seu primeiro álbum dedicado a Bach, tocando a Partita n.º 4 em ré maior, BWV 828, a Suíte Inglesa n.º 3 em sol menor, BWV 808, a Fantasia cromática e fuga e transcrições de Busoni, Siloti e Myra Hess. Encores, lançado no dia de seu aniversário de 75 anos, em 2019, reuniu peças curtas de Sgambati, Purcell, Scarlatti, Paderewski, Godowsky, Grieg, Rubinstein, Rachmaninoff, Scriabin, Shostakovich e Granados.
Gravações de transmissões preencheram lacunas deixadas pelo catálogo de estúdio. A coleção Radio Days: The Concerto Broadcasts, 1968-1979, lançada pela Decca em 2014, reuniu concertos de Tchaikovsky, Rachmaninoff, Prokofiev, Chopin, Liszt e Schumann. Depois da morte de Freire, a Decca lançou Memories, em 2022, com gravações inéditas e transmissões de obras de Gluck, Bach, Beethoven, Richard Strauss, Debussy, Villa-Lobos, Bartók e Brahms. O material inclui apresentações com a Frankfurt Radio Symphony e a Radio-Sinfonieorchester Stuttgart sob a regência de Michael Gielen, Horst Stein e Uri Segal.
João Moreira Salles dirigiu o documentário Nelson Freire, lançado em 2003. Filmado em salas de concerto, bastidores, viagens e na casa do pianista, acompanha Freire desde as lembranças de seus primeiros contatos com o piano até encontros com admiradores depois das apresentações. Concertos e ensaios ocupam boa parte do filme, enquanto Martha Argerich oferece seu principal depoimento pessoal.
Salles e sua equipe filmaram Freire no Rio de Janeiro, em São Paulo, na França, Bélgica e Rússia entre maio de 2000 e agosto de 2001. João Moreira Salles, Felipe Lacerda e Flávio Pinheiro escreveram o roteiro. Toca Seabra foi o diretor de fotografia, e Lacerda e Salles fizeram a montagem. O documentário foi exibido no International Documentary Film Festival Amsterdam e no San Francisco International Film Festival em 2005. Em 2003, venceu a categoria de melhor documentário no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, em Havana. No ano seguinte, ganhou os prêmios de melhor documentário e melhor som no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.
Freire também deixou apresentações filmadas com Argerich. Um concerto de 1982 preservado pela medici.tv mostra os dois pianistas tocando Debussy, Chopin, Ravel e Rachmaninoff. Freire interpreta Estampes, de Debussy, os Trois nouvelles études e o Scherzo em si bemol menor, de Chopin, antes de se juntar a Argerich na versão para dois pianos de La valse, de Ravel, e na Suíte n.º 2, de Rachmaninoff. Durante o Concurso Internacional de Piano Chopin de 2010, Freire falou sobre Argerich, a primeira apresentação pública dos dois em Londres, em 1968, e o repertório que tocavam juntos.
Freire raramente concedia entrevistas longas, mas algumas preservaram recordações detalhadas de sua infância e carreira. Em uma entrevista com Stany Kol, publicada pela primeira vez no The UNESCO Courier em setembro de 1995, recordou Boa Esperança, a mudança para o Rio de Janeiro, seus estudos com Nise Obino, o concurso do Rio de 1957, Viena e os primeiros anos no exterior. Em 2019, pouco antes de receber o prêmio pelo conjunto da carreira do International Classical Music Awards, falou extensamente sobre sua formação, repertório, gravações, amizade com Argerich e a maneira como via o reconhecimento recebido na fase final da carreira.
O escritor e jornalista musical francês Olivier Bellamy publicou Nelson Freire: le secret du piano em 2022. Julia da Rosa Simões traduziu a obra para o português, e a DBA publicou-a no Brasil como Nelson Freire: O segredo do piano em 2024, ano em que Freire completaria oitenta anos. Bellamy recorreu a entrevistas, arquivos pessoais e conversas com pessoas próximas a Freire para escrever sobre sua carreira, amizades, repertório e temperamento reservado.

Freire mantinha boa parte de sua vida privada longe da publicidade e dava poucas entrevistas. Foi casado com o médico Miguel Rosário.
Em outubro de 2019, Freire caiu enquanto caminhava pela orla da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e fraturou o úmero direito. Passou por uma cirurgia e cancelou recitais e apresentações com orquestra no Brasil e no exterior, entre elas concertos planejados para seus 75 anos e para os sessenta anos de carreira. Planejava voltar aos palcos em 2020, mas a pandemia de COVID-19 adiou seu retorno.
Freire morreu em sua casa, no Rio de Janeiro, em 1 de novembro de 2021, aos 77 anos. Seu corpo foi velado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 2 de novembro. No dia seguinte, foi enterrado no cemitério municipal de Boa Esperança, onde seus pais também estavam sepultados.
Após a morte de Freire, orquestras, salas de concerto, músicos e instituições culturais do Brasil e do exterior prestaram-lhe homenagens. No Brasil, estiveram entre elas a Fundação Osesp, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, a Sala Cecília Meireles, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Theatro Municipal de São Paulo e a Orquestra Sinfônica Brasileira. Obituários chamaram atenção para o contraste entre a atenção recebida por sua maneira de tocar e sua postura reservada longe do piano.
Boa Esperança começou a homenagear Freire ainda durante sua infância. A Rua Nelson Freire, no centro da cidade, recebeu seu nome enquanto ele ainda era vivo, e uma placa assinala o local da antiga farmácia da família, onde nasceu. A cidade também deu seu nome ao Deck Mirante Nelson Freire.
A Decca lançou o álbum póstumo Memories em 2022, com gravações inéditas e transmissões. No mesmo ano, o Festival International de Piano de La Roque d'Anthéron apresentou Amigos de Nelson Freire, com os pianistas brasileiros Cristian Budu, Eduardo Monteiro, Pablo Rossi, Fabio Martino, Clélia Iruzun e Juliana Steinbach. O festival também promoveu uma conversa sobre Freire com Alain Lompech e Olivier Bellamy. Em 2024, quando Freire completaria oitenta anos, Juliana Steinbach fez um concerto em sua homenagem em Paris.
A biografia de Bellamy, Nelson Freire: le secret du piano, foi publicada na França em 2022. Sua tradução para o português, Nelson Freire: O segredo do piano, saiu no Brasil pela DBA em 2024.