Perda da China

No discurso político estadunidense, a "perda da China" (em inglês: Loss of China) refere-se à vitória inesperada do Partido Comunista Chinês sobre o governo nacionalista chinês Kuomintang, apoiado pelos Estados Unidos, no final da Guerra Civil Chinesa. A derrota do governo de Chiang Kai-shek foi um choque imenso para o público estadunidense, que posteriormente considerou a "perda" como resultado da "fraqueza em relação ao comunismo" da presidência de Harry S. Truman, que contribuiu muito para a paranoia anticomunista que alimentou a Segunda Ameaça Vermelha.

Contexto

Durante a Segunda Guerra Mundial, Franklin D. Roosevelt presumiu que a China, sob a liderança de Chiang Kai-shek, se tornaria uma grande potência após a guerra, juntamente com os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Soviética. John Paton Davies Jr. estava entre os "China Hands" que foram responsabilizados pela perda da China. Embora previssem uma vitória comunista, não a defendiam. Davies escreveu mais tarde que ele e os oficiais do Foreign Service na China relataram a Washington que o apoio material a Chiang Kai-shek durante a guerra contra o Japão não transformaria o governo nacionalista, acrescentando que a má escolha de emissários pessoais de Roosevelt para a China contribuiu para o fracasso de sua política. O historiador Arthur Waldron argumenta que o presidente erroneamente pensava na China como uma grande potência firmemente controlada por Chiang Kai-shek, cujo poder era, na verdade, tênue. Davies previu que, após a guerra, a China se tornaria um vazio de poder, uma tentação para Moscou, com a qual os nacionalistas não conseguiriam lidar. Nesse sentido, diz Waldron, "o colapso da China para o comunismo foi facilitado pela incompetência da política de Roosevelt."

Perda

Em 1949, a queda do governo do Kuomintang foi amplamente vista nos Estados Unidos como uma catástrofe. O autor William Manchester relembrou a reação pública em 1949 em seu livro de 1973, The Glory and the Dream:

A China que conheciam — os camponeses de Pearl Buck, regozijando-se com a boa terra — havia sido confiável, democrática, calorosa e, acima de tudo, pró-americana. Ao longo da Grande Guerra, os Quatro Grandes das Nações Unidas foram Churchill, Roosevelt, Stalin e Chiang. A traição posterior de Stalin foi deplorável, mas não surpreendente. Mas Chiang Kai-shek! A estratégia de Acheson para conter a agressão vermelha pareceu ruir completamente. [...] Tudo o que os diplomatas americanos haviam conquistado na Europa — a Doutrina Truman, o Plano Marshall, a OTAN — pareceu momentaneamente anulado por esse desastre na Ásia.

Em agosto de 1949, o Secretário de Estado Dean Acheson publicou o China White Paper, uma compilação de documentos oficiais para defender o histórico do governo e argumentar que os Estados Unidos pouco poderiam ter feito para impedir a vitória comunista na guerra civil. Na época, o China White Paper de Acheson, com seu catálogo de US$ 2 bilhões em ajuda estadunidense fornecida à China desde 1946, foi amplamente ridicularizado como uma escusa para permitir o que era amplamente visto como um desastre geopolítico que possibilitou a formação de um bloco sino-soviético com potencial para dominar a Eurásia.

O White Paper indignou Mao Zedong, que escreveu vários artigos em resposta.(p90)  Mao perguntou por que Truman daria tanto apoio às forças nacionalistas se acreditava que elas estavam tão "desmoralizadas e impopulares".(p80)  Mao afirmou que, como a posição de Truman de apoiar um governo nacionalista desmoralizado e impopular era irracional, Truman devia estar agindo por ambições imperialistas "para massacrar o povo chinês" ao prolongar desnecessariamente a guerra.(p80)

Consequências

A "perda da China" foi retratada pelos críticos do governo Truman como uma "catástrofe evitável". Isso levou a um "debate rancoroso e divisivo" e a questão foi explorada pelos republicanos nas urnas em 1952. Também desempenhou um papel importante na ascensão de Joseph McCarthy, que, com seus aliados, procurou bodes expiatórios para essa "perda", visando notavelmente Owen Lattimore, um influente estudioso da Ásia Central.

Em seu discurso de 7 de fevereiro de 1950 em Wheeling, Virgínia Ocidental, perante o Clube Republicano Feminino do Condado de Ohio, McCarthy culpou Acheson, a quem chamou de "este diplomata pomposo de calças listradas", pela "perda da China", fazendo a afirmação sensacionalista: "Embora eu não possa me dar ao trabalho de nomear todos os homens do Departamento de Estado que foram apontados como membros do Partido Comunista e de uma rede de espionagem, tenho aqui em minhas mãos uma lista de 205... uma lista de nomes que eram conhecidos pelo Secretário de Estado e que, no entanto, ainda estão trabalhando e moldando a política do Departamento de Estado". O discurso, que McCarthy repetiu pouco depois em Salt Lake City, transformou-o numa figura nacional. No início da década de 1950, o governo Truman foi atacado pela "perda" da China, com o senador McCarthy acusando, em um discurso de 1950, que "comunistas e queers" no Departamento de Estado, que o presidente Harry S. Truman supostamente tolerava, eram responsáveis ​​pela "perda" da China. Em um discurso que dizia muito sobre os temores de que a masculinidade estadunidense estivesse se tornando "fraca", comuns na década de 1950, McCarthy acusou que "lacaios saltitantes da linha do partido de Moscou" estavam no comando da política em relação à China no Departamento de Estado, enquanto o secretário de Estado Dean Acheson era um "diplomata diletante que se acovardava diante do colosso soviético".

O relatório do Subcomitê de Segurança Interna do Senado, de 1951, escrito pelo senador Pat McCarran, concluiu que a China estava efetivamente "perdida" devido à política seguida pelo Departamento de Estado, declarando: "Owen Lattimore e John Carter Vincent foram influentes na promoção de uma mudança na política dos Estados Unidos [...] favorável aos comunistas chineses." Embora McCarran tenha tido o cuidado de não chamar Lattimore de espião soviético em seu relatório, o que lhe permitiria processá-lo por difamação, ele chegou muito perto com a afirmação: "Owen Lattimore foi, desde algum momento a partir da década de 1930, um instrumento consciente e articulado da conspiração soviética."

Em resposta ao relatório McCarran, um editorial do The Washington Post atacou a tese de que "a China era uma espécie de dependência política dos Estados Unidos, a ser mantida ou entregue a Moscou por uma única decisão administrativa tomada em Washington":

Recepção e análise

Noam Chomsky, um dos principais críticos da política externa dos Estados Unidos, comentou que a terminologia "perda da China" revela as atitudes estadunidenses em relação à política externa:

Em uma resenha de livro de 2010, o historiador sino-americano Miles Yu criticou a "luta interminável sobre quem está certo sobre a China, qualquer que seja a realidade chinesa. Ou seja, no peculiar debate sobre a China comunista, as perguntas feitas e as questões debatidas muitas vezes refletiam a política partidária americana e as manipulações políticas em vez da realidade chinesa."

Um dos livros mais imaginativos e populares sobre a "perda da China" foi o livro de 1952, The Shanghai Conspiracy, do General Charles A. Willoughby, que afirmava que a rede de espionagem soviética liderada por Richard Sorge (preso em 1941 e executado em 1944) ainda existia. Willoughby afirmava ainda que a rede de espionagem de Sorge havia causado a "perda da China" em 1949 e estava em processo de assumir o controle do governo estadunidense. O japonólogo americano Michael Schaller escreveu que Willoughby estava correto em alguns pontos, como o de que Sorge era um espião da União Soviética e o mesmo provavelmente se aplicava a certos jornalistas norte-americanos de esquerda que trabalharam com Sorge em Xangai no início da década de 1930, mas grande parte do livro de Willoughby refletia a mente paranoica de um dos oficiais de inteligência militar mais incompetentes da história estadunidense.

Nota

Referências

  1. 1 2 Chomsky, Noam (14 de fevereiro de 2012). «"Losing" the World: American Decline in Perspective, Part 1». Guardian Comment Network
  2. 1 2 3 4 Waldron, Arthur (28 de janeiro de 2013). «How China Was 'Lost' –». The Weekly Standard. 18 (19). Cópia arquivada em 5 de dezembro de 2018
  3. 1 2 Oshinsky, David (2005). A Conspiracy So Immense: The World of Joe McCarthy. [S.l.]: Oxford University Press. p. 101
  4. ↑ Manchester, William (1973). The Glory and the Dream: A Narrative History of American: 1932–1972. [S.l.]: Little, Brown and Company. ISBN 9780795335570
  5. ↑ Newman, Robert P. (Outono de 1982). «The Self-Inflicted Wound: The China White Paper of 1949». Prologue (Journal of the National Archives) (14): 141–156
  6. ↑ Crean, Jeffrey (2024). The Fear of Chinese Power: an International History. Col: New Approaches to International History series. London, UK: Bloomsbury Academic. ISBN 978-1-350-23394-2
  7. 1 2 Crean, Jeffrey (2024). The Fear of Chinese Power: an International History. Col: New Approaches to International History series. London, UK: Bloomsbury Academic. ISBN 978-1-350-23394-2
  8. ↑ Hirshberg, Matthew S. (1993). Perpetuating Patriotic Perceptions: The Cognitive Function of the Cold War. [S.l.]: Greenwood Publishing Group. pp. 55–56. ISBN 9780275941659
  9. ↑ Herring, George C. (1991). «America and Vietnam: The Unending War». Council on Foreign Relations. Foreign Affairs. America and the Pacific, 1941-1991 (Winter, 1991). 70 (5): 104–119. JSTOR 20045006. doi:10.2307/20045006
  10. ↑ VanDeMark, Brian (1995). Into the Quagmire: Lyndon Johnson and the Escalation of the Vietnam War. [S.l.]: Oxford University Press. p. 25. ISBN 9780195096507. As [President Lyndon Johnson] later recalled "I knew Harry Truman and Dean Acheson had lost their effectiveness from the day that the Communists took over in China. I believed that the loss of China had played a large role in the rise of Joe McCarthy. And I knew that all these problems, taken together, were chickenshit compared with what might happen if we lost Vietnam."
  11. ↑ Schrecker, Ellen (Outono de 1982). «The New McCarthyism in Academe». Thought & Action. Campus Watch
  12. ↑ Oshinsky 2005, p. 109.
  13. ↑ Oshinsky 2005, pp. 110-111.
  14. 1 2 Wood, Gregory (2012). Retiring Men: Manhood, Labor, and Growing Old in America, 1900-1960. Lanham: University Press of America. p. 145
  15. 1 2 3 Oshinsky 2005, p. 209.
  16. ↑ Yu, Miles Maochun (Agosto de 2010). «Review of The Honorable Survivor: Mao's China, McCarthy's America, and the Persecution of John S. Service by Lynne Joiner». The Journal of Asian Studies. 69 (3): 880–881. doi:10.1017/S0021911810001658
  17. 1 2 3 Schaller, Michael (1989). MacArthur the Far Eastern General. Oxford: Oxford University Press. p. 156

Leitura complementar