
Os Puris são um povo indígena do Brasil, historicamente associado ao Sudeste brasileiro, sobretudo às bacias do rio Paraíba do Sul, do rio Doce e de rios adjacentes em áreas hoje pertencentes a Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Na literatura histórica e etno-histórica, os Puris costumam aparecer em relação próxima com Coroados e Coropós, e são geralmente associados ao tronco Macro-jê.
Ao longo dos séculos XIX e XX, parte da documentação oficial e da historiografia tratou os Puris como extintos ou assimilados. Pesquisas mais recentes, porém, têm descrito processos de re-existência, ressurgência, reorganização sociopolítica e retomada linguística do povo Puri em diferentes territórios do Sudeste brasileiro. No Censo Demográfico de 2022, 1.290 pessoas se autodeclararam Puri no Brasil, ante 675 no Censo de 2010.
Segundo a bibliografia, o termo Puri teria origem na língua dos Coroados, com o sentido de ousado, designação retomada por estudos históricos posteriores sobre os grupos Puri-Coroado-Coropó.
Os registros mais antigos sobre os Puris remontam ao fim do século XVI, no Vale do Paraíba, quando cronistas e documentos coloniais mencionaram a presença de grupos indígenas na região que mais tarde seriam identificados como Puri. Nos séculos seguintes, viajantes, militares, missionários e autoridades coloniais passaram a registrar sua presença em áreas do atual Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

A partir do fim do século XVIII e, sobretudo, no início do século XIX, o avanço das frentes coloniais e agrícolas sobre os sertões do leste do rio Paraíba do Sul intensificou os conflitos entre os Puris e a sociedade colonial. Nesse contexto, políticas de aldeamento, recrutamento compulsório de mão de obra e violência sobre os territórios indígenas acompanharam a expansão de fazendas, caminhos e obras públicas. Relatos do século XIX também registram fugas frequentes dos aldeamentos e descrevem a dificuldade de submeter os Puris ao padrão sedentário pretendido pelas autoridades coloniais.
Ao longo do século XIX, a documentação oficial passou com frequência a reclassificar indígenas e seus descendentes como caboclos, pardos ou mestiços, contribuindo para a invisibilização da identidade indígena e para a negação de direitos territoriais. Estudos sobre livros paroquiais e memória regional em áreas da Zona da Mata Mineira mostram a persistência de registros e memórias Puri mesmo após a consolidação do chamado paradigma da extinção.
Pesquisas recentes descrevem a presença contemporânea dos Puris em termos de ressurgência, re-existência, reorganização coletiva e reterritorialização, em contraste com narrativas anteriores de desaparecimento definitivo.
Os dados censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística registraram 675 pessoas Puri em 2010 e 1.290 em 2022. O etnônimo Puri também aparece em bases administrativas oficiais, como a tabela de povos da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a tabela auxiliar de etnias do Cadastro Único e o dicionário de dados do e-SUS APS. Segundo a Funai, o reconhecimento étnico deve ser realizado pelas próprias comunidades indígenas, e não pelo Estado.
Textos autorais indígenas contemporâneos também sistematizam e comentam a documentação pública sobre presença Puri atual, autodeclaração, retomada linguística e crítica ao paradigma da inexistência.
Em Araponga, na Serra do Brigadeiro, a bibliografia recente relaciona a presença Puri a experiências locais de agroecologia, educação do campo, cultura popular e afirmação étnica. Trabalhos acadêmicos de Willer Araujo Barbosa e pesquisadoras da Universidade Federal de Viçosa associam a memória Puri local a formas de organização comunitária e defesa do território em articulação com a agricultura familiar e com projetos educativos voltados para a valorização da cultura regional e indígena.
A EFA Puris, em Araponga, aparece na bibliografia como experiência de educação do campo e também como espaço de circulação de referências culturais Puri. A pesquisa de Aline Luciana de Freitas registra apresentações da Dança de Caboclos na escola e sua articulação com ações do CEPEC e com projetos culturais da região.
A chamada Dança de Caboclos ou Folguedo dos Arrepiados é uma das manifestações contemporâneas mais frequentemente associadas à memória Puri de Araponga. Estudos de geografia cultural e artes cênicas a descrevem como manifestação local executada por moradores que se reconhecem como descendentes dos Puris, articulando elementos indígenas, africanos e europeus e inserindo referências Puri em seus cantos, símbolos e coreografias. Segundo essa bibliografia, a manifestação é composta por três partes principais — dança com porrete, dança com arco e flecha e dança da trança de cordas — e foi reorganizada nas últimas décadas sob liderança de Jurandir Puri.
Pesquisas recentes também relacionam a Dança de Caboclos à retomada linguística Puri. A dissertação de Mery Nancy de Lima Leite registra que, nesse contexto, Jurandir Puri produziu versões em língua Puri de cantos preservados na oralidade local, aproximando a dança dos processos contemporâneos do Kwaytikindo. A mesma pesquisa descreve Araponga como um dos principais pontos de referência da reorganização Puri na Zona da Mata mineira.
A região da Serra do Brigadeiro é descrita em estudos geográficos como área de grande potencial hídrico, com águas que abastecem as bacias dos rios Doce e Paraíba do Sul. Em pesquisas recentes de autoria Puri, a serra e sua mata aparecem também como território de memória e de continuidade histórica.
Na Zona da Mata Mineira, parte importante da mobilização contemporânea Puri se organiza em torno do movimento Uxo Txori. O protocolo comunitário biocultural do grupo afirma que o movimento surgiu do esforço de matriarcas em reaproximar comunidades Puri da região e identifica Helenice Maria Gomes, também chamada Txori Xapuko Puri, como liderança fundadora. O mesmo documento informa que o movimento se consolidou a partir de 2021, articulando lutas por saúde indígena, fortalecimento cultural, juventudes e retomada linguística.
Em Viçosa, trabalhos ligados à Universidade Federal de Viçosa registraram a construção de seminários, acervos e materiais interculturais em diálogo com a retomada Puri, especialmente com o grupo Uxo Txori. A UFV noticiou, em 2025, o lançamento do Protocolo Comunitário Biocultural do Povo Puri Grupo Uxo Txori da Zona da Mata Mineira como parte de pesquisa colaborativa financiada por CNPq e Fapemig.
A imprensa regional registrou em 2025 a terceira edição do Kanduna Puri, em Viçosa, com apresentação do protocolo biocultural, exibição de documentário da juventude Puri Uxo Txori e partilha de alimentos e sementes. Em trabalhos acadêmicos recentes, o evento aparece como espaço de visibilidade pública, afirmação identitária e circulação de saberes do grupo.
Em Barbacena, o distrito de Padre Brito tornou-se uma das principais referências da presença Puri contemporânea no Campo das Vertentes. Documentos municipais registram a comunidade remanescente de índios Puris de Padre Brito e apontam, no plano municipal de saúde 2018–2021, uma população de 560 pessoas ligada a esse resgate comunitário.
A Associação Regional da Comunidade Remanescente de Índios Puris de Padre Brito foi fundada em 2016. Estudos e registros institucionais indicam que a comunidade foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do município por ato referendado pelo Decreto Municipal nº 7.937/2016, e que o Festival da Cultura Indígena Puri foi posteriormente incluído no calendário oficial de Barbacena. Documentos recentes da prefeitura também registram convênios e termos de colaboração com a associação.
Padre Brito aparece em pesquisas recentes como um ponto de articulação entre memória familiar, demanda por reconhecimento étnico, medicina tradicional e reivindicações por saúde, trabalho, educação e território. A bibliografia destaca o papel da família de Dona Geni Trindade e da associação local na visibilidade dessa retomada.
A imprensa local registrou a continuidade do festival em diferentes anos. Em 2018, a segunda edição foi noticiada como encontro que reuniu a comunidade em torno de costumes, comida e danças. Em 2025, a quarta edição foi descrita como Festival Gastronômico e Cultural Puri, com roda de conversa, visita guiada, almoço coletivo, comidas típicas e articulação de entidades da cultura popular regional. A mesma cobertura noticiou a criação do Fórum Permanente de Cultura Popular e Saberes Tradicionais do Campo das Vertentes e o reconhecimento de Dona Geni como Mestra dos Saberes e Fazeres da comunidade remanescente Puri de Padre Brito.
No vale do Rio Doce, documentos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, do Ministério Público Federal e da Assembleia Legislativa de Minas Gerais registram a presença e as demandas do povo Puri em municípios como Aimorés, Resplendor e Itueta.
Em setembro de 2024, a Deliberação CIF nº 829 reconheceu o povo Puri da região de Aimorés e Resplendor como impactado pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, determinando a execução de programas e ações em benefício dos atingidos. Em novembro de 2024, a ALMG registrou visita da Comissão de Participação Popular à ocupação Puri na área da Usina Hidrelétrica de Aimorés, mencionando cerca de 50 famílias e a pauta da retomada territorial.
No caso de Itueta, o MPF instaurou em 2025 inquérito civil para apurar e acompanhar demandas da aldeia ou ocupação Krim Orutu Puri, relativas, entre outros temas, a moradia, saúde, educação, assistência social, energia elétrica e acesso à água. A literatura recente também aproxima a experiência Krim Orutu Puri das lutas territoriais e dos impactos do desastre do rio Doce sobre comunidades Puri do leste mineiro.
Pesquisa recente sobre historiografia linguística e cosmopolítica Puri registra que a formação de coletividades urbanas Puri no Rio de Janeiro e em São Paulo se articulou, em parte, a partir da Aldeia Maraká'nà, no Rio de Janeiro. A mesma dissertação afirma que movimentos como Movimento de Ressurgência Puri e Teyxokawa Puri desenvolveram-se a partir de mobilizações Puri originadas nesse território.
Segundo essa bibliografia, foi também na Aldeia Maraká'nà que Dauá Puri iniciou práticas coletivas de cantos em língua Puri, mais tarde centrais para a retomada linguística contemporânea. Em 2023, Dauá Puri fundou o Museu da Cultura Puri, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. O museu é apresentado por seus responsáveis como espaço de preservação, difusão e exposição da memória e dos saberes do povo Puri.
A língua puri é historicamente documentada por vocabulários, relatos de viajantes e estudos linguísticos. No século XXI, processos de retomada e vitalização linguística passaram a ser descritos pelos próprios Puri sob o nome Kwaytikindo. O artigo Kwaytikindo: retomada linguística Puri, assinado por Txâma Xambé Puri, Tutushamum Puri e Xindêda Puri, descreve a retomada da língua a partir de registros históricos, oralidade remanescente e criação de novos usos rituais, poéticos e cotidianos.
Em 2023, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional destacou o projeto Teyxokawa como iniciativa voltada ao resgate da fluência, à documentação da língua puri e à inserção contemporânea dessa tradição linguística. O Iphan registrou ainda que a iniciativa, conduzida por membros da etnia Puri, promove, registra e preserva tradições culturais dos ancestrais enquanto insere a cultura Puri na contemporaneidade.
Pesquisas posteriores de outras universidades passaram a utilizar o Kwaytikindo como estudo de caso sobre retomada linguística e resistência cultural.
A produção intelectual e artística Puri contemporânea inclui teses, dissertações, artigos, livros, museus, filmes e projetos pedagógicos. Na universidade, destacam-se trabalhos como Re-existência e ressurgência indígena: diáspora e transformações do povo Puri, de Melissa Ferreira Ramos; Kwaytikindo: cosmopolítica e historiografia linguística Puri, de Mery Nancy de Lima Leite; e Cosmopoéticas do reencantamento: arte Puri contemporânea como continuação da guerra, de Way Sanà-Marya Pury.
No campo editorial e autoral indígena, instituições e veículos culturais registraram o lançamento de livros como Morukah Puky e Boacé Uchô: a história está na terra – narrativas e memórias do povo Puri da Serra da Mantiqueira, de Aline Rochedo Pachamama. Essas obras integram um conjunto mais amplo de iniciativas de documentação da memória, da espiritualidade, da oralidade e da autoapresentação do povo Puri em primeira pessoa.