
Em álgebra, o radical de Bring ou ultrarradical de um número real a é a única raiz real do polinômio O radical de Bring define como uma função algébrica de . É a função algébrica mais simples que não pode ser expressa em termos de radicais.
O radical de Bring de um número complexo a é qualquer uma das cinco raízes do polinômio acima (sendo, portanto, uma função multivalorada), ou uma raiz específica, a qual é geralmente escolhida de modo que o radical de Bring assuma valores reais para um a real e seja uma função analítica numa vizinhança da reta real. Devido à existência de quatro pontos de ramificação, o radical de Bring não pode ser definido como uma função contínua em todo o plano complexo, e o seu domínio de continuidade deve excluir quatro cortes de ramificação.
George Jerrard demonstrou que algumas equações quínticas podem ser resolvidas em forma fechada utilizando radicais e radicais de Bring, que haviam sido introduzidos por Erland Bring.
Neste artigo, o radical de Bring de a é denotado como Para um argumento real, ele é ímpar, monotonicamente decrescente e ilimitado, com o comportamento assintótico para valores grandes de .
A equação quíntica é bastante difícil de se resolver diretamente, possuindo cinco coeficientes independentes em sua forma mais geral:
Os variados métodos desenvolvidos para solucionar a quíntica geralmente buscam simplificá-la usando transformações de Tschirnhaus para diminuir o número de coeficientes independentes.
A quíntica geral pode ser reduzida àquilo que é conhecido como forma quíntica principal, com os termos quártico e cúbico removidos:
Se as raízes de uma quíntica geral e de uma quíntica principal estiverem relacionadas por uma transformação de Tschirnhaus quadrática os coeficientes e podem ser determinados usando o resultante, ou por meio da soma das potências das raízes e as identidades de Newton. Isso nos conduz a um sistema de equações em e consistindo em uma equação quadrática e uma equação linear, e qualquer um dos dois conjuntos de soluções pode ser usado para obter os correspondentes três coeficientes da forma quíntica principal.
Esta forma é usada pela solução de Felix Klein para a quíntica.
É possível simplificar a quíntica ainda mais e eliminar o termo quadrático, produzindo a forma normal de Bring-Jerrard: Usar novamente as fórmulas de soma de potências com uma transformação cúbica, como tentou Tschirnhaus, não funciona, uma vez que o sistema de equações resultante leva a uma equação do sexto grau. Porém, em 1796, Bring encontrou uma maneira de contornar esse problema usando uma transformação de Tschirnhaus quártica para relacionar as raízes de uma quíntica principal com as de uma quíntica de Bring-Jerrard:
O parâmetro extra fornecido por esta transformação de quarta ordem permitiu que Bring diminuísse os graus dos outros parâmetros. Isto leva a um sistema de cinco equações com seis incógnitas, o qual exige então a solução de uma equação cúbica e de uma equação quadrática. Este método também foi descoberto por Jerrard em 1852, mas é provável que ele desconhecesse o trabalho prévio de Bring nesta área.: A transformação completa pode ser prontamente realizada usando um pacote de álgebra computacional, como o Mathematica ou o Maple. Como seria de esperar da complexidade de tais transformações, as expressões resultantes podem ser imensas, de modo especial quando comparadas com as soluções em radicais para equações de grau inferior, ocupando muitos megabytes de armazenamento para uma quíntica geral com coeficientes simbólicos.
Consideradas como uma função algébrica, as soluções para envolvem duas variáveis, d1 e d0; todavia, a redução é na verdade para uma função algébrica de uma única variável, muito análoga a uma solução em radicais, visto que podemos reduzir ainda mais a forma de Bring-Jerrard. Se nós, por exemplo, definirmos então reduzimos a equação para a forma que envolve z como uma função algébrica de uma única variável , onde . Esta forma é requerida pelo método de Hermite-Kronecker-Brioschi, pelo método de Glasser e pelo método dos resolventes diferenciais de Cockle-Harley descritos abaixo.
Uma forma alternativa é obtida definindo de modo que onde . Esta forma é usada para definir o radical de Bring abaixo.
Existe outra forma normal de um parâmetro para a equação quíntica, conhecida como forma normal de Brioschi a qual pode ser derivada utilizando a transformação racional de Tschirnhaus para relacionar as raízes de uma quíntica geral a uma quíntica de Brioschi. Os valores dos parâmetros e podem ser derivados usando funções poliédricas sobre a esfera de Riemann, e estão relacionados à partição de um objeto de simetria icosaédrica em cinco objetos de simetria tetraédrica.
Esta transformação de Tschirnhaus é um tanto mais simples do que a transformação complexa usada para transformar uma quíntica principal na forma de Bring-Jerrard. Esta forma normal é usada pelo método de iteração de Doyle-McMullen e pelo método de Kiepert.
Uma série de Taylor para radicais de Bring, bem como uma representação em termos de funções hipergeométricas, podem ser derivadas como se segue. A equação pode ser reescrita como Ao definir a solução desejada é já que é ímpar.
A série para pode então ser obtida por reversão da série de Taylor para (que é simplesmente ), resultando em onde os valores absolutos dos coeficientes formam a sequência A002294 na OEIS. O raio de convergência da série é
Na forma hipergeométrica, o radical de Bring pode ser escrito como
Pode ser interessante compará-lo com as funções hipergeométricas que surgem abaixo na derivação de Glasser e no método de resolventes diferenciais.
As raízes do polinômio podem ser expressas em termos do radical de Bring como e os seus quatro conjugados. O problema agora se encontra reduzido à forma de Bring-Jerrard em termos de equações polinomiais solúveis e usando transformações envolvendo expressões polinomiais nas raízes apenas até o quarto grau, o que significa que inverter a transformação pode ser feito encontrando-se as raízes de um polinômio solúvel em radicais. Este procedimento fornece soluções estranhas (falsas), mas quando as corretas forem encontradas por meios numéricos, as raízes da quíntica podem ser escritas em termos de raízes quadradas, raízes cúbicas e do radical de Bring, o que, portanto, constitui uma solução algébrica em termos de funções algébricas (definidas de forma ampla para incluir os radicais de Bring) de uma única variável — uma solução algébrica da quíntica geral.
Muitas outras caracterizações do radical de Bring foram desenvolvidas, a primeira das quais foi em termos de "transcendentes elípticas" (relacionadas às funções elípticas e modulares) por Charles Hermite em 1858, e métodos adicionais foram desenvolvidos posteriormente por outros matemáticos.
Em 1858, Charles Hermite publicou a primeira solução conhecida para a equação quíntica geral em termos de "transcendentes elípticas", e quase na mesma época Francesco Brioschi e Leopold Kronecker chegaram a soluções equivalentes. Hermite chegou a esta solução através da generalização da conhecida solução para a equação cúbica em termos de funções trigonométricas e encontrou a solução para uma quíntica na forma de Bring-Jerrard:
à qual qualquer equação quíntica pode ser reduzida por meio de transformações de Tschirnhaus. Ele observou que as funções elípticas desempenhavam um papel análogo na resolução da quíntica de Bring-Jerrard ao que as funções trigonométricas desempenhavam para a cúbica. Para e escreva-as como as integrais elípticas completas do primeiro tipo: onde Defina as duas "transcendentes elípticas": Elas podem ser definidas equivalentemente por séries infinitas:
Se n for um número primo, podemos definir dois valores e da seguinte maneira: e
Quando n for um primo ímpar, os parâmetros e estão vinculados por uma equação de grau n + 1 em , , conhecida como a equação modular, cujas raízes em são dadas por: e onde é 1 ou −1 dependendo de 2 ser ou não um resíduo quadrático módulo n, respectivamente, e . Para n = 5, temos a equação modular: com seis raízes em como exposto acima.
A equação modular com pode ser relacionada à quíntica de Bring-Jerrard pela seguinte função das seis raízes da equação modular (no artigo de Hermite Sur la théorie des équations modulaires et la résolution de l'équation du cinquième degré, o primeiro fator é indicado de forma incorreta como ):
Alternativamente, a fórmula é útil para a avaliação numérica de . Segundo Hermite, o coeficiente de na expansão é zero para todo .
As cinco grandezas , , , , são as raízes de uma equação quíntica com coeficientes racionais em : que pode ser prontamente convertida para a forma de Bring-Jerrard através da substituição: levando à quíntica de Bring-Jerrard: onde
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(*) |
O método de Hermite-Kronecker-Brioschi resume-se então a achar um valor para que corresponda ao valor de , e depois usar este valor de para obter as raízes da equação modular correspondente. Nós podemos utilizar algoritmos de busca de raízes para encontrar a partir da equação (*) (ou seja, calcular uma inversa parcial de ). Elevar (*) ao quadrado produz uma quártica baseada unicamente em (usando ). Toda solução (em ) de (*) é uma solução da quártica, porém nem toda solução da quártica é uma solução de (*).
As raízes da quíntica de Bring-Jerrard são então dadas por: para .
Uma abordagem "integral" alternativa é a seguinte:
Considere onde Então é uma solução de onde
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(**) |
As raízes da equação (**) são: onde (note que algumas referências importantes apresentam isso erroneamente como ). Qualquer uma destas raízes pode ser usada como o módulo elíptico .
As raízes da quíntica de Bring-Jerrard são então dadas por: para .
Pode-se observar que este processo utiliza uma generalização da raiz n-ésima, a qual pode ser expressa como: ou, de forma mais exata, como O método de Hermite-Kronecker-Brioschi essencialmente substitui a exponencial por uma "transcendente elíptica", e a integral (ou a inversa de na reta real) por uma integral elíptica (ou por uma inversa parcial de uma "transcendente elíptica"). Kronecker pensou que essa generalização era um caso especial de um teorema ainda mais amplo, que seria aplicável a equações de grau arbitrariamente alto. Este teorema, conhecido como a Fórmula de Thomae, foi plenamente expresso por Hiroshi Umemura em 1984, o qual utilizou formas modulares de Siegel no lugar de transcendentes exponenciais/elípticas, e substituiu a integral por uma integral hiperelíptica.
Esta derivação devida a M. Lawrence Glasser generaliza o método em série apresentado anteriormente neste artigo para encontrar uma solução para qualquer equação trinomial da forma:
Em particular, a equação quíntica pode ser reduzida a esta forma pelo uso das transformações de Tschirnhaus conforme demonstrado acima. Fazendo com que , a forma geral torna-se: onde
Uma fórmula devida a Lagrange afirma que para qualquer função analítica , na vizinhança de uma raiz da equação geral transformada em termos de , a expressão acima pode ser expressa como uma série infinita:
Se fizermos nesta fórmula, podemos chegar à seguinte raiz:
Pelo uso do teorema de multiplicação de Gauss, a série infinita acima pode ser desmembrada em uma série finita de funções hipergeométricas:
e o trinômio da forma tem as raízes
Uma raiz da equação pode, portanto, ser expressa como a soma de no máximo funções hipergeométricas. Aplicando este método à quíntica reduzida de Bring-Jerrard, defina as seguintes funções: que são as funções hipergeométricas que aparecem na fórmula da série acima. As raízes da quíntica são, assim:
Este é essencialmente o mesmo resultado daquele obtido pelo seguinte método.
James Cockle e Robert Harley desenvolveram, em 1860, um método para resolver a quíntica por meio de equações diferenciais. Eles consideram as raízes como sendo funções dos coeficientes, e calculam um resolvente diferencial com base nestas equações. A quíntica de Bring-Jerrard é expressa como uma função: e uma função deve ser determinada de tal modo que:
A função também deve satisfazer as seguintes quatro equações diferenciais:
Ao expandir estas equações e combiná-las, obtém-se o resolvente diferencial:
A solução do resolvente diferencial, sendo uma equação diferencial ordinária de quarta ordem, depende de quatro constantes de integração, que devem ser escolhidas de modo a satisfazer a quíntica original. Esta é uma equação diferencial ordinária Fuchsiana do tipo hipergeométrico, cuja solução se revela ser idêntica à série de funções hipergeométricas que surgiu na derivação de Glasser acima.
Este método pode também ser generalizado para equações de grau arbitrariamente alto, com resolventes diferenciais que são equações diferenciais parciais, cujas soluções envolvem funções hipergeométricas de diversas variáveis. Uma fórmula geral para resolventes diferenciais de polinômios univariados arbitrários é dada pela Fórmula da soma de potências de Nahay.
Em 1989, Peter Doyle e Curt McMullen derivaram um método de iteração que resolve uma quíntica na forma normal de Brioschi: O algoritmo de iteração prossegue da seguinte forma:
As duas funções polinomiais e são as seguintes:
Este método de iteração produz duas raízes da quíntica. As três raízes restantes podem ser obtidas utilizando a divisão sintética para fatorar e remover as duas raízes, produzindo assim uma equação cúbica. Devido à forma como a iteração é formulada, este método parece sempre encontrar duas raízes complexo-conjugadas da quíntica, mesmo quando todos os coeficientes da quíntica são reais e o palpite inicial é real. Este método de iteração é derivado das simetrias do icosaedro e está intimamente relacionado ao método que Felix Klein descreve em seu livro.