Rangaku

Os três sábios do Japão, da China e do Ocidente (和漢洋三賢人図), pintura de Shiba Kōkan.

Rangaku (rangaku (蘭学; lit. "estudos holandeses"; grafia antiga: 蘭學)) é o nome dado ao conjunto de conhecimentos científicos, técnicos e culturais do Ocidente que chegaram ao Japão durante o período Edo por intermédio dos holandeses e da língua neerlandesa, bem como ao estudo que os japoneses fizeram desses conhecimentos. Enquanto vigorou a política de isolamento do Xogunato Tokugawa (sakoku), os holandeses foram os únicos ocidentais autorizados a comerciar com o país, e a feitoria que a Companhia Holandesa das Índias Orientais mantinha na ilha artificial de Dejima, em Nagasaki, tornou-se a principal via de acesso à ciência europeia.

O estudo começou com os intérpretes hereditários de Nagasaki e ganhou impulso quando o xogum Tokugawa Yoshimune atenuou, em 1720, a proibição de livros estrangeiros. O marco que costuma assinalar o seu nascimento como disciplina é a publicação, em 1774, do Kaitai Shinsho, tradução de um tratado europeu de anatomia. A partir da medicina, os estudiosos estenderam o trabalho à astronomia, à física, à química, à botânica, à geografia e, no século XIX, à ciência militar. Depois da abertura do país, em 1853–1854, o inglês, o francês e o alemão passaram a dar acesso direto ao saber ocidental, e o nome rangaku cedeu lugar a yōgaku ("estudos ocidentais").

Denominação

Ran (蘭) abrevia 阿蘭陀 ou 和蘭, grafias antigas de Oranda, nome japonês da Holanda; gaku (学) significa "estudo". O nome reflete o facto de as ciências europeias terem chegado ao Japão através do neerlandês. Antes dele, o saber ocidental chamava-se bangaku ("estudos bárbaros"), termo nascido na época em que portugueses e espanhóis o haviam trazido juntamente com o cristianismo e que continuou a ser aplicado à ciência transmitida pelos holandeses. Segundo o historiador Satō Shōsuke, foram os tradutores do Kaitai Shinsho que adotaram o nome rangaku para designar o que consideravam uma nova disciplina, fundada na observação e oposta às especulações da teoria do yin-yang e dos cinco elementos, em que assentava a ciência tradicional. O registo mais antigo da palavra que o Nihon Kokugo Daijiten aponta está no prefácio do Rangaku kaitei, manual de Ōtsuki Gentaku, que a define simplesmente como "o estudo da Holanda".

Yōgaku (洋学, "estudos ocidentais") foi a princípio sinónimo de rangaku e só se generalizou depois da abertura dos portos, quando o estudo de obras inglesas, francesas e alemãs tornou estreito o nome antigo. Na historiografia japonesa, yōgaku designa também o conjunto dos estudos ocidentais do período, que abrange o bangaku da era cristã, o rangaku e os estudos do fim do xogunato.

História

Dejima e os intérpretes de Nagasaki

Em Dejima, Philipp Franz von Siebold e a sua família japonesa observam a chegada de um navio holandês; pintura de Kawahara Keiga.

O xogunato restringiu progressivamente a presença ocidental no Japão. Os portugueses, confinados em Dejima desde 1636, foram expulsos em 1639. Os holandeses, protestantes, obtiveram licença para continuar a comerciar sob a promessa de não fazer proselitismo, mas em 1641 tiveram de trocar a feitoria de Hirado por Dejima. A ilha media pouco mais de 15 000 m², ligava-se à cidade por uma única ponte e abrigava de dez a quinze holandeses, proibidos de circular livremente; a entrada de japoneses também era vigiada.

Esse regime abriu, ainda assim, três canais de informação. O primeiro eram os intérpretes de Nagasaki (tsūji), mais de trinta famílias que transmitiam o ofício de pai para filho; encarregados das negociações comerciais, alguns deles estudaram medicina e física e passaram a ler e traduzir livros holandeses. O segundo eram os relatórios sobre os acontecimentos mundiais (Oranda fūsetsugaki) que o xogunato exigia a cada navio. O terceiro era a viagem do chefe da feitoria a Edo para prestar homenagem ao xogum, anual a princípio e quadrienal a partir de 1790, realizada 166 vezes no total; nessas ocasiões, estudiosos e senhores feudais interessados no Ocidente iam à hospedaria dos holandeses para os interrogar.

No século XVII, porém, o saber transmitido limitou-se quase só à cirurgia que os japoneses aprendiam com os médicos da feitoria, conhecida como "cirurgia dos ruivos" (kōmōryū). Satō Shōsuke observa que ela se resumia a operações simples e ao uso de emplastros e que não houve então estudo sistemático da ciência ocidental. O herbário de Rembert Dodoens e a história natural dos animais de Jan Jonston, oferecidos ao xogunato em 1659 e 1663, ficaram na biblioteca oficial sem que ninguém conseguisse lê-los.

Tokugawa Yoshimune e a abertura de 1720

O oitavo xogum, Tokugawa Yoshimune, interessou-se pela ciência ocidental como instrumento da sua política de fomento da produção. Em 1720 atenuou a proibição de livros estrangeiros e permitiu a importação dos que não tratassem do cristianismo. Segundo Satō, a medida facilitou sobretudo a entrada de obras de ciência ocidental escritas em chinês. Yoshimune mandou ainda traduzir os livros de Dodoens e Jonston e, por volta de 1740, encarregou o erudito Aoki Kon'yō e o médico Noro Genjō de aprender o neerlandês.

O Kaitai Shinsho e a consolidação

O Kaitai Shinsho (1774), primeira tradução japonesa de um tratado ocidental de anatomia.

Em 1771, os médicos Sugita Genpaku, Maeno Ryōtaku e Nakagawa Jun'an assistiram à dissecação do cadáver de uma condenada em Kozukappara, em Edo. Impressionados com a exatidão das gravuras de um livro holandês de anatomia que traziam consigo, decidiram traduzi-lo. Era a versão neerlandesa, feita por Gerardus Dicten, das Anatomische Tabellen do alemão Johann Adam Kulmus. Depois de cerca de quatro anos de trabalho e de onze revisões do manuscrito, o Kaitai Shinsho saiu em 1774, redigido em chinês clássico. Maeno, o mais versado em neerlandês do grupo e o principal tradutor, recusou-se a figurar como autor. Sugita narrou essa história nas suas memórias, concluídas em 1815 e publicadas por Fukuzawa Yukichi em 1869 com o título de Rangaku kotohajime ("Os começos do rangaku").

A publicação deu ao estudo um impulso que se manteve nas décadas seguintes, favorecido pela política de fomento comercial do conselheiro Tanuma Okitsugu e pelo interesse de senhores feudais apaixonados pelas coisas holandesas (rampeki). Discípulo de Maeno e de Sugita, Ōtsuki Gentaku abriu em Edo a primeira escola de rangaku, o Shirandō, e escreveu o Rangaku kaitei, primeiro manual de introdução à disciplina, impresso em 1788. Um dos seus alunos, Inamura Sanpaku, publicou em 1796 o primeiro dicionário neerlandês-japonês, o Haruma wage, baseado no dicionário neerlandês-francês de François Halma. Como as demais disciplinas da época, o rangaku passava de geração em geração dentro de famílias, entre as quais se destacaram os Sugita, os Katsuragawa, os Udagawa e os Ōtsuki. Com exceção de Katsuragawa Hoshū, quase todos estes estudiosos eram particulares ou médicos ao serviço dos senhores feudais, e não do próprio xogunato, traço que o historiador da medicina Ōtori Ranzaburō considera característico do movimento.

Oficialização e repressão

Frontispício do Rangaku kotohajime na edição de 1869.

No fim do século XVIII, os navios russos e britânicos que surgiam nas costas japonesas despertaram o interesse oficial pela geografia mundial e pela situação europeia. Em 1811, por proposta do astrónomo Takahashi Kageyasu, o xogunato criou no Departamento de Astronomia (Tenmonkata) um gabinete de tradução de livros estrangeiros (Bansho wage goyō), no qual Baba Sajūrō e Ōtsuki Gentaku começaram a verter a enciclopédia doméstica de Noël Chomel; o trabalho, conhecido como Kōsei shinpen, prosseguiu até 1846. Para Satō, este gabinete marca a passagem do rangaku de saber privado a saber oficial, passagem que os próprios estudiosos procuraram para se proteger do controlo que o xogunato exercia sobre eles desde as reformas da era Kansei. Por sua vez, o incidente do navio britânico Phaeton, que em 1808 entrou em Nagasaki sob bandeira holandesa, levou o xogunato a ordenar aos intérpretes que estudassem também o inglês.

O médico alemão Philipp Franz von Siebold, que chegou a Dejima em 1823 ao serviço dos holandeses, formou numerosos discípulos japoneses e contribuiu para elevar o nível dos estudos. Em 1828, porém, descobriu-se que levava entre os seus pertences objetos cuja exportação era proibida; Takahashi Kageyasu, implicado no caso, morreu na prisão. Em 1839, o xogunato perseguiu o grupo reunido em torno do samurai Watanabe Kazan, no episódio conhecido como Bansha no goku. O médico Takano Chōei, num texto que circulou manuscrito, e Kazan, num ensaio inacabado, haviam criticado a política de repelir a tiro os navios estrangeiros, aplicada em 1837 ao Morrison, navio norte-americano que trazia de volta náufragos japoneses. Kazan foi condenado a confinamento no seu domínio e Takano à prisão perpétua; Koseki San'ei suicidou-se antes de ser preso. Satō liga estes episódios ao espírito crítico que o estudo da ciência ocidental alimentava: reconhecer a superioridade técnica do Ocidente obrigava a rever a imagem dos europeus como bárbaros e levava alguns estudiosos a indagar as causas da riqueza e do poderio das potências ocidentais.

Do rangaku ao yōgaku

A Primeira Guerra do Ópio (1839–1842) abalou os dirigentes japoneses e deslocou o centro dos estudos da medicina para a ciência militar. Em 1844, o rei Guilherme II dos Países Baixos enviou uma carta a aconselhar o xogunato a abrir o país, conselho que foi recusado. As escolas particulares de rangaku prosperaram neste período, sobretudo o Shōsendō de Itō Genboku, em Edo, e o Tekijuku, aberto em 1838 por Ogata Kōan em Osaka. Ao Tekijuku acorreram mais de seiscentos alunos de quase todo o país, muitos deles samurais que aprendiam o neerlandês para estudar artilharia e tática; entre eles estavam Fukuzawa Yukichi, Ōmura Masujirō, Hashimoto Sanai, Nagayo Sensai e Sano Tsunetami.

A chegada da esquadra de Perry, em 1853, e os tratados que se seguiram encerraram o isolamento, mas não de imediato o papel dos holandeses. Em 1855, os Países Baixos ofereceram ao xogunato um navio a vapor, rebatizado Kankō Maru, e oficiais da marinha holandesa passaram a ensinar ciências navais num centro de instrução aberto em Nagasaki; em 1857, o médico naval Pompe van Meerdervoort começou aí o ensino regular da medicina ocidental. Em 1856, o xogunato fundara o Bansho shirabesho, instituto oficial de estudo e tradução de obras ocidentais, que na fase de planeamento se chamara Yōgakusho; rebatizado Yōsho shirabesho em 1862 e Kaiseijo em 1863, ele seria uma das origens da Universidade de Tóquio. Em 1862, um grupo de estudantes do qual faziam parte Enomoto Takeaki, Nishi Amane e Tsuda Mamichi partiu para estudar nos Países Baixos.

A necessidade de tratar diretamente com britânicos, franceses e norte-americanos difundiu rapidamente o inglês e as demais línguas europeias, e o rangaku converteu-se em yōgaku, que passou a abranger também o direito, a economia, a história e a filosofia. Ainda assim, muitos estudiosos continuavam a ler neerlandês, e holandeses como os médicos Pompe e Bauduin e o químico Gratama continuaram a ser contratados. Em 1858, Fukuzawa fundou em Edo a escola de rangaku que deu origem à Universidade Keio. Depois da Restauração Meiji, o inglês, o francês e o alemão substituíram o neerlandês como línguas de estudo, embora a influência do neerlandês tenha persistido em algumas regiões até ao fim do século XIX.

Áreas de estudo

Medicina

A medicina foi o ponto de partida e o centro do rangaku. Segundo Satō, os estudiosos apresentaram sucessivamente as especialidades clínicas, como a cirurgia, a medicina interna, a oftalmologia e a obstetrícia, e, em paralelo, as ciências médicas básicas, pela ordem anatomia, fisiologia e patologia. Udagawa Genzui publicou entre 1793 e 1810 o Seisetsu naika sen'yō, primeira tradução japonesa de um tratado ocidental de medicina interna. O cirurgião Hanaoka Seishū, que estudara a medicina chinesa e a cirurgia de tradição holandesa, desenvolveu um anestésico à base de estramónio (tsūsensan) e, em 1804, extirpou com ele um cancro da mama sob anestesia geral, cerca de quarenta anos antes da anestesia com éter de William Morton.

Astronomia e física

A necessidade de reformar o calendário levou os astrónomos oficiais a estudar a astronomia ocidental, a princípio em livros chineses e depois em obras holandesas. Motoki Ryōei, intérprete de Nagasaki, traduziu em 1774 o manual de globos de Willem Blaeu, um dos primeiros textos a apresentar o heliocentrismo no Japão. Outro antigo intérprete, Shizuki Tadao, compôs entre 1798 e 1802 o Rekishō shinsho, versão comentada da tradução neerlandesa da Introductio ad veram physicam de John Keill, que expunha a mecânica de Isaac Newton. Num apêndice, Shizuki propôs uma explicação para a formação do sistema solar que os historiadores comparam à hipótese nebular de Kant e Laplace. Satō observa, contudo, que Shizuki interpretou a física newtoniana à luz da teoria do yin-yang, em vez de a opor à ciência tradicional.

Eletricidade

Réplica da erekiteru de Hiraga Gennai no Museu Nacional de Natureza e Ciência, em Tóquio.

A máquina eletrostática de fricção, chamada erekiteru (do neerlandês elektriciteit), foi descrita pela primeira vez no Japão em 1765. Em 1770, Hiraga Gennai obteve em Nagasaki um exemplar avariado, que reparou e reproduziu em 1776. O aparelho servia de espetáculo e de instrumento médico, pois atribuía-se ao choque elétrico efeito curativo. Em 1811, Hashimoto Sōkichi descreveu experiências com eletricidade estática.

Química e botânica

Udagawa Yōan apresentou a química ocidental no Seimi kaisō, publicado entre 1837 e 1847. O livro partia dos Elements of Experimental Chemistry, de William Henry, através de uma versão alemã ampliada por Trommsdorff e de uma neerlandesa ampliada por Ypey, e incorporava ainda ideias de Lavoisier. No Shokugaku keigen, cuja primeira edição é de 1834, Udagawa expôs a botânica ocidental segundo a classificação de Lineu.

Geografia e conhecimento do mundo

Os estudiosos de rangaku traduziram também obras de geografia e de história europeias, cuja procura cresceu à medida que se agravavam as tensões com a Rússia. Satō menciona traduções sobre a Rússia feitas por Maeno Ryōtaku, Katsuragawa Hoshū e Yamamura Saisuke entre 1789 e 1806. A geografia universal do alemão Johann Hübner, em tradução neerlandesa, tornou-se uma referência tão comum que os estudiosos a chamavam simplesmente Zeogarahī, do neerlandês geographie. Segundo um dicionário de história japonesa, o espírito crítico do rangaku alimentou ainda as objeções do pintor Shiba Kōkan e do erudito Yamagata Bantō à hierarquia social e ao isolamento.

Avaliação

Satō Shōsuke reconhece que o estudo das ciências básicas pelos especialistas em rangaku se fazia apenas nos livros, mas considera significativo o esforço que lhe dedicaram, pois mostra que compreendiam a importância dessas ciências para a prática técnica. Segundo ele, foi também no fim do xogunato, com a construção de fornos de reverbero e altos-fornos, a instrução naval de Nagasaki e o arsenal de Yokosuka, que se lançaram as bases da ciência e da técnica modernas no Japão. Ōtori Ranzaburō julga considerável o papel do rangaku na assimilação da cultura ocidental até ao início da era Meiji, e a Encyclopædia Britannica observa que essa tradição moldou as respostas japonesas ao Ocidente no fim do século XIX e no século XX.

Ver também

Referências

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Leitura adicional

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