Retornados

 Nota: Para os afro-brasileiros retornados a Gana, veja tabom. Para os que retornaram ao Benim, Togo e Nigéria, veja agudás.
Antigas províncias ultramarinas portuguesas.

Retornados é a designação dada aos cidadãos portugueses que, entre a revolução do 25 de Abril de 1974 incentivada pelo MFA e 1976, após a Descolonização portuguesa de África e a respectiva independência das colónias dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e, em especial, Angola e Moçambique) com o fim do Império Português tiveram de voltar para Portugal. Apesar de a designação retornados evocar regresso, muitos retornados portugueses nasceram nas antigas colónias e alguns teriam mesmo a família lá há várias gerações.

O regresso deste número elevado de pessoas transformou a sociedade portuguesa de uma forma profunda. Desta forma, contribuiu para a modernização de aldeias e cidades de todo o país, o fornecimento de peritos nas áreas da Saúde e Educação, o lançamento de novos negócios, transformação da rádio e televisão e a liberalização de costumes.

Conceito

No período colonial os habitantes não-indígenas eram designados por colonos, brancos, comunidade branca ou população de origem europeia. Após a Revolução passaram a ser descritos por desalojados ou deslocados e, posteriormente, de repatriados e ‘retornados’. Esta última categorização perdurou até hoje, apesar de ser mal recebida por conter uma conotação pejorativa e estigmatizante. Em alternativa ao termo que se tornaria um estereótipo negativo, muitos reclamaram a condição de apátridas, deslocados ou desalojados de guerra.

Não se pode neglicenciar a especificidade da dimensão colonial.

História

Deslocação

Entre maio de 1974 e novembro de 1975 terão saído de Angola para Portugal mais de 300 mil pessoas e 160 mil de Moçambique para Portugal. Muitos portugueses migraram para outros destinos, como a África do Sul, Rodésia, Índia, Brasil, Paquistão, Venezuela, etc. Cerca de 100 500 militares regressaram, em cerca de um ano, a Portugal.

As pontes aéreas permitiram o regresso de um número elevado de pessoas, quase 174 000 ultramarinos, nomeadamente entre Lisboa e Luanda e Luanda e Porto.

Estação Fluvial Sul e Sueste em 1975, durante a crise dos retornados.

Muitos portugueses regressaram de barco, trazendo milhares de caixotes que ficavam espalhados pela cidade de Lisboa, no Porto de Alcântara.

O apoio do Estado Português

Os governos agiram. O Decreto-Lei n.º 169/75 cria o Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN) A 31 de março de 1975, para prestar apoio social, alojamento e integração aos cidadãos que regressavam das antigas colónias após o 25 de Abril. Desenvolvimentos subsequentes foram a criação da Secretaria de Estado dos Retornados em outubro de 1975 (decreto-lei 584-B/75) e o Comissariado para os Desalojados, em setembro de 1976 (decreto-lei 683-B/76). O Estado iria alocar uma verba significativa para estas questões.

Edifícios estatais (INATEL, instalações militares, parques de campismo municipais), pensões e hotéis a expensas do Estado, incluindo os de 4 e 5 estrelas, especialmente em Lisboa e no Porto. Isso incluiu o Inatel da Costa da Caparica ou na cadeia do Forte de Peniche.. Outros dirigiram-se às zonas de origem familiar, beneficiando do amparo familiar e comunitário.

Críticas

A descolonização tardia de Portugal gerou uma maioria de apoio ao processo quer a nível interno, quer a nível da comunidade internacional, incluindo a ONU.

Apesar disso, houve críticas ao processo. Instalados em Portugal, muitos retornados viveram situações dramáticas, ao nível da falta de assistência médica, emprego, habitação e muita burocracia para obtenção de documentos de identificação, cartas de condução, etc. Por exemplo, os retornados de Angola tiveram problemas associados às dificuldades de conversão da moeda angolana para portuguesa, chegando mesmo a ocupar o Banco de Angola. Existiu ainda dificuldade no pagamento de pensões de aposentação dos funcionários das colónias.

De realçar, o contexto de crise inflacionária internacional ou até queixas dos residentes que se sentiram ultrapassados pelos que "retornavam".

Entidades estrangeiras procuraram prestar auxílio aos retornados, nomeadamente a Cruz Vermelha Internacional, a ONU, embaixada dos EUA em Lisboa (Frank Carlucci), governo do Canadá, etc.

Influência na cultura

Cinema

Os retornados das colónias portuguesas africanas foram objeto de um tratamento nos seguintes filmes:

e nos documentários:

Televisão

Literatura

Apesar de prevalecer a ideia do vazio editorial sobre a questão dos retornados, existem diversos livros relevantes:

Ver também

Referências

  1. ↑ «Quem eram os "retornados"?». Ensina RTP. Rádio e Televisão de Portugal. Consultado em 4 de outubro de 2016. Cópia arquivada em 12 de abril de 2026
  2. ↑ Matos, Helena (20 de agosto de 2014). «Os retornados começaram a chegar há 40 anos». Observador. Cópia arquivada em 9 de março de 2026
  3. ↑ Revista Sábado (31 de Janeiro de 2019). O impacto que os retornados tiveram no País.
  4. ↑ Caetano, Maria João (4 de novembro de 2015). «Retornar, ou seja, tornar vivas as memórias que temos de África». Diário de Notícias. Cópia arquivada em 5 de outubro de 2016. A antropóloga Elsa Peralta, comissária da exposição, explica que "a palavra retornado foi usada como alcunha, como ofensa, era um termo pejorativo.
  5. ↑ Lourenço, Isabel (2018). Retornados – Representações Sociais na Integração (1974-79), Faculdade de Letras da Universidade do Porto
  6. ↑ Meneses, Maria Paula, Gomes, Catarina (2013). Regressos? Os retornados na (des)colonização portuguesa, Universidade de Coimbra.
  7. ↑ Lourenço, Isabel (2018). Retornados – Representações Sociais na Integração (1974-79), Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
  8. ↑ «Regressados das antigas colónias | Memórias da Revolução | RTP». Memórias da Revolução. Consultado em 18 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 20 de abril de 2024
  9. ↑ «Retornados · Connecting Portuguese History». connectingportuguesehistory.org. Consultado em 18 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 9 de junho de 2026
  10. 1 2 «Retornados · Connecting Portuguese History». connectingportuguesehistory.org. Consultado em 18 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 9 de junho de 2026
  11. ↑ Delaunay, M. (2024). Les retornados: accueil et intégration des rapatriés de la décolonisation portugaise. Presses universitaires de Rennes.
  12. ↑ «"As histórias de crimes do colonialismo neste século estão largamente por contar", entrevista a Fernando Rosas | BUALA». www.buala.org. Consultado em 29 de maio de 2018. Cópia arquivada em 29 de dezembro de 2025
  13. ↑ www.publico.pt https://www.publico.pt/2024/07/27/politica/noticia/27-julho-1974-derrota-spinola-2098652. Consultado em 18 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 3 de fevereiro de 2026 Em falta ou vazio |título= (ajuda)
  14. ↑ Lourenço, Isabel (2018). Retornados – Representações Sociais na Integração (1974-79), Faculdade de Letras da Universidade do Porto .

Ligações externas

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