Risoleta Neves

Risoleta Neves
Risoleta em 1985.
Primeira-dama do Brasil
PeríodoNão assumiu função
PresidenteTancredo Neves
Primeira-dama de Minas Gerais
Período15 de março de 1983
a 14 de agosto de 1984
GovernadorTancredo Neves
Antecessor(a)Latife Pereira
Sucessor(a)Maria Lúcia Cardoso
Dados pessoais
Nome completoRisoleta Tolentino Neves
Nascimento20 de julho de 1917
Cláudio, Minas Gerais
Morte21 de setembro de 2003 (86 anos)
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
Nacionalidadebrasileira
CônjugeTancredo Neves (1938–1985)
Filhos(as)3

Risoleta Tolentino Neves (Cláudio, 20 de julho de 1917 — Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2003) foi a esposa de Tancredo Neves, presidente eleito do Brasil. Foi primeira-dama de Minas Gerais entre março de 1983 e agosto de 1984 e, no mesmo período, presidiu o Serviço Voluntário de Assistência Social de Minas Gerais (SERVAS), no qual desenvolveu programas nas áreas de saúde, educação e assistência social.

Ao longo da carreira política de Tancredo, Risoleta manteve, em geral, uma atuação pública discreta, embora participasse de compromissos sociais e políticos e exercesse influência no âmbito familiar. Um relatório biográfico produzido em 1985 e preservado na Ronald Reagan Presidential Library registrou sua participação na campanha de Tancredo ao governo mineiro e identificou a presidência do SERVAS como sua principal atividade social. Segundo o documento, durante sua gestão a entidade prestou assistência médica a mais de 10,4 mil crianças por meio de mais de duzentas unidades e organizações locais em Minas Gerais. Exerceu ainda a coordenação estadual do Programa Nacional do Voluntariado da Legião Brasileira de Assistência (PRONAV-LBA).

Com a eleição indireta de Tancredo para a Presidência da República, em 15 de janeiro de 1985, Risoleta se preparava para desempenhar as atribuições tradicionalmente associadas à primeira-dama do Brasil. Não chegou, contudo, a exercer a função, pois o presidente eleito foi hospitalizado na véspera da posse e morreu em 21 de abril, sem ter sido empossado. Durante a enfermidade e as cerimônias fúnebres de Tancredo, sua postura recebeu ampla atenção pública. No próprio dia da morte do marido, o presidente José Sarney determinou a inscrição de seu nome no Livro do Mérito, em reconhecimento oficial à sua atuação naquele período.

Após tornar-se viúva, Risoleta presidiu a Fundação Tancredo Neves, voltada à preservação da memória do marido, e participou da consolidação do Memorial Tancredo Neves, em São João del-Rei. Morreu aos 86 anos, no Rio de Janeiro, após complicações de uma diverticulite.

Primeiros anos e família

Risoleta Guimarães Tolentino nasceu em 20 de julho de 1917, no município mineiro de Cláudio. Era filha de Quinto Alves Tolentino, ligado à atividade agropecuária, e Maria Inês Guimarães Tolentino. A documentação legislativa mineira registra o nome materno com a grafia "Maria Ignez Guimarães Tolentino".

Ainda jovem, mudou-se para São João del-Rei, onde estudou no Colégio Nossa Senhora das Dores e concluiu a formação para o magistério. Foi durante o período escolar que conheceu Tancredo Neves, à época promotor de Justiça da comarca. O casal contraiu matrimônio em 25 de maio de 1938.

Risoleta e Tancredo Neves durante a lua de mel, em 1938.

Do casamento nasceram três filhos: Inês Maria Tolentino Neves, Maria do Carmo Tolentino Neves e Tancredo Augusto Tolentino Neves. Por intermédio de Inês Maria, Risoleta tornou-se avó de Aécio Neves, que posteriormente foi deputado federal, governador de Minas Gerais e senador.

A união com Tancredo durou quase 47 anos, até a morte dele em abril de 1985. Durante grande parte desse período, a vida familiar foi mantida afastada da exposição pública. Um perfil biográfico produzido nos Estados Unidos em fevereiro de 1985 registrou que o casal estabelecera, desde os primeiros anos do casamento, uma divisão na qual Tancredo se dedicaria diretamente à política enquanto Risoleta procuraria manter discrição diante do público.

Vida pública ao lado de Tancredo

A discrição de Risoleta não significou ausência dos ambientes políticos frequentados pelo marido. O relatório preservado na Ronald Reagan Presidential Library a descreveu como anfitriã de reuniões políticas realizadas pela família e acompanhante habitual de Tancredo em compromissos sociais. A imprensa brasileira também atribuiu a ela participação na discussão de pronunciamentos importantes do marido. Em reportagem publicada em 1985, durante a internação de Tancredo, foi relatado que Risoleta ouvia previamente alguns de seus discursos e sugeria alterações antes da versão definitiva.

Entre setembro de 1961 e julho de 1962, período em que Tancredo exerceu a chefia do governo parlamentarista como presidente do Conselho de Ministros, Risoleta participou de compromissos sociais associados à função exercida pelo marido. Sua presença ao lado de Tancredo em eventos e viagens daquele período encontra-se documentada em fotografias do Arquivo Nacional.

Risoleta em 1961.

Uma das exceções mais significativas à postura de menor exposição política ocorreu durante a campanha de Tancredo ao governo de Minas Gerais, em 1982. Segundo o relatório norte-americano de 1985, Risoleta participou da mobilização eleitoral buscando apoio especialmente entre as eleitoras mineiras. Tancredo venceu o pleito e tomou posse como governador em 15 de março de 1983.

Primeira-dama de Minas Gerais e atuação social

Com a posse de Tancredo, Risoleta tornou-se primeira-dama de Minas Gerais. Permaneceu nessa condição até 14 de agosto de 1984, quando o marido deixou o governo estadual para dedicar-se à campanha presidencial.

No mesmo período, assumiu a presidência do Serviço Voluntário de Assistência Social (SERVAS). A cronologia oficial da instituição situa sua gestão, a décima desde a fundação da entidade, entre março de 1983 e agosto de 1984. Durante sua administração foram desenvolvidas iniciativas nas áreas de saúde, educação e assistência social, com ampliação do atendimento a crianças em situação de vulnerabilidade.

Um relatório biográfico elaborado em fevereiro de 1985 atribuía à sua administração no SERVAS o atendimento médico de mais de 10 414 crianças carentes em Minas Gerais, realizado por intermédio de uma rede de mais de duzentas organizações e unidades locais. A assistência social constituiu sua principal atividade institucional naquele momento, em contraste com a menor exposição que mantinha em questões partidárias e eleitorais.

Risoleta também exerceu a função de coordenadora estadual do Programa Nacional do Voluntariado da Legião Brasileira de Assistência (PRONAV-LBA). Sua atuação se inscrevia no modelo de participação de primeiras-damas em entidades assistenciais que marcou parte da política social brasileira durante o século XX, objeto posteriormente de estudos sobre o chamado primeiro-damismo.

Eleição presidencial de 1985

Campanha e eleição

Após participar da campanha pelas Diretas Já, Tancredo tornou-se o candidato da Aliança Democrática à Presidência da República, em oposição a Paulo Maluf. Em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral o elegeu presidente por 480 votos contra 180 dados a Maluf.

Tancredo e Risoleta após a eleição presidencial de 15 de janeiro de 1985.

Risoleta acompanhou o marido em Brasília após a vitória e esteve presente no Congresso Nacional durante seu primeiro pronunciamento como presidente eleito. A cobertura jornalística daquele período começou a dedicar atenção crescente àquela que seria a futura primeira-dama. Uma reportagem do Jornal do Brasil, analisada posteriormente em pesquisa acadêmica sobre o primeiro-damismo, caracterizou-a pela combinação de cordialidade, elegância, disciplina pessoal e firmeza.

Depois da eleição, Risoleta acompanhou Tancredo em parte de sua agenda pública e internacional. Em fevereiro de 1985, já como esposa do presidente eleito, continuava a ser apresentada por documentos estrangeiros como uma figura de perfil discreto, mas vinculada à assistência social e presente na vida política do marido.

A eleição de Tancredo, contudo, não fez de Risoleta efetivamente primeira-dama do Brasil. Conforme observa a historiadora Dayanny Deyse Leite Rodrigues em estudo sobre o primeiro-damismo, ela apenas se preparava para assumir a posição quando a doença e posterior morte do presidente eleito impediram sua posse. A função passou a ser desempenhada por Marly Sarney, esposa de José Sarney, que assumiu a Presidência.

Doença de Tancredo e projeção pública

Na noite de 14 de março de 1985, véspera da posse presidencial, Tancredo foi hospitalizado em Brasília. Diante de sua impossibilidade de comparecer à cerimônia, José Sarney tomou posse na manhã de 15 de março. Nas semanas seguintes, Tancredo passou por sucessivos procedimentos médicos em Brasília e em São Paulo, permanecendo internado até sua morte em 21 de abril.

Nesse intervalo, Risoleta adquiriu uma exposição pública incomum em relação às décadas anteriores. Reportagens contemporâneas destacaram sua presença constante durante a internação e sua participação na comunicação com familiares, autoridades e população. Em uma aparição pública durante a internação, pediu que a população mantivesse a fé e a esperança na recuperação do marido, episódio que recebeu ampla repercussão na imprensa.

A cobertura da época também recuperou sua participação anterior na trajetória política de Tancredo. O Jornal do Brasil afirmou que ela opinava sobre questões políticas e colaborava, por meio de sugestões, na revisão de discursos do marido, embora permanecesse distante da atividade partidária propriamente dita. Essas descrições contrastavam com a imagem exclusivamente doméstica que predominara durante boa parte da carreira de Tancredo.

Tancredo morreu em 21 de abril de 1985. No mesmo dia, José Sarney, já presidente da República, assinou decreto determinando a inscrição de Risoleta no Livro do Mérito, instituído em 1939 para registrar pessoas consideradas merecedoras de reconhecimento público por contribuição ao patrimônio material ou espiritual do país. O decreto fundamentou a homenagem na conduta demonstrada por Risoleta durante o período de sofrimento e na repercussão nacional de sua atuação.

Funeral de Tancredo

As cerimônias fúnebres realizadas após a morte de Tancredo reuniram grandes multidões em Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e São João del-Rei. Em Belo Horizonte, a concentração de pessoas em torno do Palácio da Liberdade provocou momentos de desorganização e pressão sobre as entradas do edifício.

Diante da movimentação da multidão, Risoleta dirigiu-se publicamente aos presentes e pediu calma para que as homenagens prosseguissem de forma ordenada. O episódio, amplamente noticiado pela imprensa, consolidou sua imagem pública de firmeza durante o período de luto.

No dia seguinte ao sepultamento de Tancredo, o jornal norte-americano The Washington Post também registrou a participação de Risoleta nas cerimônias realizadas em São João del-Rei, onde se dirigiu aos presentes durante as últimas homenagens ao marido.

Viuvez e preservação da memória de Tancredo

A morte de Tancredo deixou Risoleta numa posição de projeção política que não procurara ao longo das décadas anteriores. Seu nome chegou a ser considerado para funções públicas e para uma eventual atuação política mais direta, mas ela não seguiu esse caminho. Pesquisa acadêmica baseada na imprensa da época registra que José e Marly Sarney a convidaram para assumir a presidência da Legião Brasileira de Assistência, convite que ela recusou.

Nos anos seguintes, concentrou parte de suas atividades na preservação da memória de Tancredo e em iniciativas sociais. Presidiu a Fundação Tancredo Neves, instituição responsável pela conservação de seu acervo e vinculada ao Memorial Tancredo Neves, em São João del-Rei.

O memorial foi aberto em 8 de dezembro de 1990. Instalado no centro histórico de São João del-Rei, passou a reunir e disponibilizar ao público documentos e objetos relacionados à trajetória pessoal e política de Tancredo. O Cadastro Nacional de Museus o caracteriza como instituição privada de caráter fundacional dedicada à história.

A atuação social de Risoleta também prosseguiu em São João del-Rei. Após a morte do marido, foram criados sob sua iniciativa o Centro Infantil Risoleta Neves, no bairro Senhor dos Montes, e o Centro Infantil Celina Viegas, no bairro Tijuco, destinados ao atendimento de crianças.

Embora continuasse ligada à família de forte presença na política mineira, Risoleta não disputou mandatos eletivos. Nas décadas seguintes, integrantes de sua descendência ingressaram na vida pública, sobretudo seu neto Aécio Neves. Estudos posteriores sobre sua trajetória apontaram que, após 1985, ela passou a desempenhar papel de referência interna na família, sem transformar a projeção adquirida durante a doença e morte de Tancredo numa carreira política própria.

Morte e funeral

Risoleta foi internada no Hospital Copa D'Or, no Rio de Janeiro, em 2003, em razão de uma diverticulite. Durante o tratamento, passou por duas intervenções cirúrgicas e posteriormente foi encaminhada ao centro de tratamento intensivo. Morreu por volta das 8h20 de 21 de setembro de 2003, aos 86 anos, em decorrência de falência múltipla dos órgãos associada às complicações do quadro intestinal.

Após a morte, o governo de Minas Gerais decretou três dias de luto oficial. O corpo foi transportado no mesmo dia para São João del-Rei, onde o velório ocorreu no Solar dos Neves, residência histórica da família.

Na manhã de 22 de setembro, o cortejo deixou o Solar em direção à Igreja de São Francisco de Assis, onde foi celebrada missa fúnebre. Durante a passagem pelo Memorial Tancredo Neves, realizou-se um minuto de silêncio.

Risoleta foi sepultada às 11 horas no cemitério anexo à igreja, no mesmo túmulo de Tancredo. A cerimônia reuniu familiares, autoridades políticas, religiosas e empresariais. O então vice-presidente da República, José Alencar, representou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto José Sarney, presidente do Senado, também compareceu ao funeral.

Legado e homenagens

A atuação de Risoleta no campo da assistência social tornou-se um dos principais elementos de sua memória institucional em Minas Gerais. O histórico oficial do SERVAS registra sua gestão entre março de 1983 e agosto de 1984 e atribui a ela a implantação de programas nas áreas de saúde, educação e assistência social, além da ampliação do número de crianças atendidas.

Em 21 de abril de 1985, ainda no dia da morte de Tancredo, seu nome foi inscrito no Livro do Mérito por determinação presidencial. O ato, assinado por José Sarney e pelo ministro da Cultura Fernando Lyra, constituiu uma das principais homenagens oficiais concedidas a Risoleta em vida.

Em 2003, o próprio SERVAS registrou que sua sede em Belo Horizonte passou a levar o nome de Risoleta em homenagem à ex-presidente da instituição. Naquele mesmo ano, chegou a ser apresentado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais um projeto para oficializar por lei a denominação de "Edifício D. Risoleta Neves" ao imóvel, mas a proposição foi posteriormente retirada de tramitação a pedido do próprio autor.

Seu nome também foi atribuído ao Hospital Risoleta Tolentino Neves, localizado na região de Venda Nova, em Belo Horizonte. Em 2006, por ocasião da transferência da administração da unidade para uma parceria envolvendo a Universidade Federal de Minas Gerais e a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa, o então Hospital de Pronto-Socorro de Venda Nova passou oficialmente a adotar sua denominação.

A preservação da memória de Tancredo constituiu outra dimensão de seu legado. A Fundação Tancredo Neves, presidida por Risoleta, manteve o Memorial Tancredo Neves, aberto em 1990 e dedicado à conservação e exposição pública do acervo do presidente eleito.

Representações na cultura

A crise política e médica de 1985 e a participação de Risoleta nesse período foram representadas no cinema no filme O Paciente - O Caso Tancredo Neves, dirigido por Sérgio Rezende e lançado em 2018. Risoleta foi interpretada pela atriz Esther Góes, enquanto Othon Bastos interpretou Tancredo Neves.

O filme acompanha os acontecimentos que cercaram a hospitalização do presidente eleito e sua morte, dando destaque às relações familiares e à presença de Risoleta durante a crise. Ao comentar sua preparação para o papel, Góes afirmou ter procurado construir a personagem de maneira fiel, sem transformá-la apenas numa figura laudatória.

Ver também

Referências

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Bibliografia

Ligações externas

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