O rotacismo (do grego ῥῶ, nome da letra Ρ [rho]) é uma modificação fonética que consiste na transformação de uma consoante de classe rótica. Geralmente se trata da mutação de uma consoante alveolar sonora (/z/, /d/, /l/ ou /n/) em r ([r]): o caso mais frequente é de [z] a [r].
De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, foi a mudança do [s] que ocorreu no latim na posição intervocálica: flos 'flor' [nominativo] e flosem > florem [acusativo]. Essa mudança morfológica refere a substituição do [s] pelo [r] na posição inter vocálica que ocorreu no latim arcaico para o latim clássico, manifestada no latim clássico no (nominativo singular), honos/honoris, coexistindo com honor/honoris.
| Caso | Pré-rotacismo
(em latim antigo) |
Rotacismo | Latim clássico | Tradução |
|---|---|---|---|---|
| Nominativo | amos | amos | amor | amor |
| Genitivo | amosis | amoris | amoris | |
| Nominativo | honos | honos | honos/-r | honra |
| Genitivo | honosis | honoris | honoris | |
| Nominativo | tempos | tempos | tempus | tempo |
| Genitivo | temposis | temporis | temporis | |
| Nominativo | flos | flos | flos | flor |
| Genitivo | flosis | floris | floris |
O rotacismo também ocorreu entre as características fonológicas do latim antigo em que estão as terminações casuais -os e -om (no latim posterior -us e -um), assim como a existência de ditongos como oi e ei (no latim posterior ū ou oe, e ī).
| Rotacismo | |||
|---|---|---|---|
| Caso | Latim clássco | Tradução | |
| Nominativo | campos | campus | campo |
| Genitivo plural | camposom | camporum | |
| Nominativo | caussa | caussa, causa | causa |
| Genitivo plural | caussasom | caussarum, causarum | |
Quando se fala em rotacismo como mudança fonética, trata-se de mudanças que ocorreram no latim clássico, ou na passagem do latim para o português. No caso abaixo, será exemplificado a mudança de l para r nas palavras latinas transladadas para o português, como nos grupos consonantais [pl], [fl] e [kl], [gl] e [bl] cujo [l], substituído o [l] por [r].
| Rotacismo | |
|---|---|
| Latim | Português padrão |
| placere | prazer |
| fluxu | frouxo |
| clavu | cravo |
| glute | grude |
| blandu | brando |
Há outros casos de rotacismo no campo fonético, considerados um traço da linguagem popular e regional, sendo este fenômeno parte do conjunto de mudanças fonéticas conhecidas como metaplasmos ou Variações Sociolinguísticas (ex.: Cláudia > Cráudia", chiclete > "chicrete", planta > pranta, etc).
Variações Sociolinguísticas podem sofrer preconceito e descriminação, muitas vezes por estarem associadas a falantes com baixa escolaridade, que vão contra a norma-padrão da língua. No português, o Rotacismo também é uma variação típica de regiões interioranas do Brasil, que sofrem por comentários metalinguísticos (ao julgarem seu modo de falar) e pela formação de estereótipos sociais baseados na região do falante.
Muitas comunidades linguísticas marcadas pela presença de Rotacismo, por estarem percentualmente presentes longe de centros urbanos, são frequentemente alvos de julgamento, estranhamento e preconceito linguístico exatamente por caracterizarem distinções da norma-padrão.
Moradores do campo são percentualmente retratados como moradores de regiões isoladas e com menor escolaridade. Assim o preconceito surge de forma automática, por meio de rótulos que são rapidamente atribuídos a moradores de regiões rurais do interior do Brasil, de forma preconceituosa relacionando a baixa escolaridade dos falantes com a região onde moram ou vice-versa. Essa relação pode surgir automaticamente ao ouvir os traços regionais da fonética típica do campo, e entre esses traços está o Rotacismo.
Representações sociais como esta aparecem frequentemente em forma de estereótipos, como do personagem Chico Bento da Turma do Chico Bento e seu dialeto rural característico no Rotacismo pela substituição do [l] por [r].