Ruth Bryden, nome artístico de Joaquim Centúrio de Almeida (Penamacor, 1952 — Lisboa, 1999), foi uma drag queen portuguesa e figura emblemática da cena noturna lisboeta, especialmente associada ao histórico Finalmente Club. Reconhecida pelo seu talento e carisma, Ruth foi uma das pioneiras da arte do transformismo em Portugal, sendo ainda hoje um ícone da cultura queer nacional.
Joaquim Centúrio de Almeida nasceu em Penamacor, distrito de Castelo Branco, em 1952, mudando-se posteriormente com a sua família para Rio Maior. Demonstrando, desde jovem, interesse pelo espetáculo, moda, música e pelo universo feminino, após sofrer vários episódios de preconceito e violência na localidade, foge de casa dos seus pais com apenas 16 anos de idade, fixando-se inicialmente na Nazaré. Mais tarde, em 1973, já a residir em Lisboa e tentando ter uma vida dita tradicional, casa-se com Maria da Conceição na Igreja de Santa Engrácia, no Bairro da Graça, com a qual gera um filho, Rui Miguel de Almeida. Pouco depois, o casamento termina, sendo confrontado com a chamada para o serviço militar em Coimbra e os encargos de pai solteiro, após a sua ex-mulher fugir de Lisboa e abandonar o filho.
Em 1975, como empregado de bar no Scarlatty, o primeiro clube que introduziu ao público em geral a arte transformista em Portugal, encontra um espaço de expressão e liberdade. Adopta inicialmente o nome de Ruth Batton, contudo um ano depois, já Ruth Bryden, nome inspirado em atrizes e vedetas internacionais, a convite de Armando Teixeira, passa a atuar no Finalmente Club, espaço que viria a tornar-se num dos mais antigos cabarets de transformismo da Europa e berço de algumas das figuras mais marcantes da arte drag portuguesa. Destacando-se pelo perfeccionismo da sua caracterização, repertório e performance dramática, torna-se capa no suplemento jornalístico O Século Ilustrado. Como uma das principais artistas residentes do clube, era reconhecida pelas interpretações de grandes divas da canção francesa e espanhola, bem como pelo glamour das suas produções. Os espectáculos que fez com Lydia Barloff, marcaram o período mais alto da sua carreira, chegando também a atuar na televisão, nomeadamente nos programas E.T. - Entretenimento Total, apresentado por Júlio Isidro, ou Big Show SIC, ao lado de Isa Raniery, Suelly Cadillac, Patricia Dummond, Kina Karvel e Cindy Scrash.
Na sua vida pessoal, a artista viveu grande parte da sua vida como mulher, sendo tratada no género feminino tanto nos palcos como fora deles. Apesar disso, nunca declarou publicamente a sua identidade de género ou se assumiu como mulher trans, preferindo referir-se em entrevistas como «assumidamente homossexual», apesar de ter confessado que «gostava de ser mulher», num tempo e numa sociedade em que os conceitos de transgeneridade e transformismo se confundiam. A sua vida foi marcada por relações amorosas intensas e, segundo amigos próximos, por momentos de solidão e luta interior, tendo ainda enfrentado vários problemas de saúde, derivados do uso de silicone industrial, uma prática comum e perigosa entre artistas trans e drag da época, à margem da medicina oficial. Fruto dessas complicações, realizou diversos tratamentos para retirar os implantes, sendo após uma operação surpreendida com o diagnóstico que tinha HIV.
Em 1998, realizou o seu último espectáculo, intitulado Finalmente Formidable. Pouco depois, devido a uma pneumonia, foi internada no Hospital Curry Cabral, tornando-se desde então dependente de uma máscara de oxigênio. Durante o seu internamento hospitalar, o socialite e cronista Carlos Castro organizou uma cerimónia para homenagear Ruth Bryden na discoteca Trumps, com apresentação de Cristina Caras Lindas e João Baião, contudo a 27 de maio de 1999, Ruth Bryden foi encontrada sem vida em casa, num episódio que abalou profundamente a comunidade LGBT de Lisboa. A causa da morte nunca foi oficialmente divulgada, sendo no entanto noticiado que o seu companheiro de longa data, Paulo Oliveira, tinha cometido suicídio na praia da Fonte da Telha dois dias antes. O casal foi sepultado lado a lado, tendo sido respeitado o desejo de Ruth de ser enterrada com roupas de homem.
Ruth Bryden é lembrada como uma das grandes pioneiras do transformismo em Portugal. O seu nome continua associado à história do Finalmente Club e ao processo de visibilidade das pessoas queer no país. Foi homenageada postumamente por diversas associações LGBTQI+ e mantém-se uma referência para artistas e performers contemporâneos. O seu legado subsiste não apenas na memória dos palcos que pisou, mas também como símbolo de resistência, coragem e autenticidade num tempo de adversidade.
A sua vida e carreira foram a inspiração para várias obras literárias e cinematográficas, tais como: