Míssil balístico lançado de submarino

Mísseis balísticos lançados de submarino (em inglês: Submarine-launched ballistic missile, SLBM), são mísseis balísticos capazes de lançar armas nucleares por meio de submarinos. Variantes modernas geralmente lançam vários MIRVs, cada um dos quais transporta uma ogiva e permite que um único míssil lançado possa atacar diversos alvos. Os SLBMs não devem ser confundidos com os mísseis de cruzeiro lançados de submarino, que operam de uma maneira diferente. Eram azes de alcançar os 5 000km.

História

Origens

O primeiro projeto prático de uma plataforma de lançamento baseada em submarino foi desenvolvido pelos alemães no final da Segunda Guerra Mundial, envolvendo um tubo estanque de lançamento que continha uma variante do míssil balístico V-2 e era rebocado submerso por um submarino convencional, sob o codinome Prüfstand XII. A guerra terminou antes que o sistema pudesse ser testado operacionalmente, mas os engenheiros que trabalharam no projeto foram incorporados aos programas de armamentos dos Estados Unidos (Operação Paperclip) e da União Soviética para impulsionar seus respectivos programas de SLBM. Esses e outros sistemas pioneiros de mísseis balísticos lançados por submarinos (SLBM) exigiam que as embarcações navegassem na superfície para efetuar os disparos; contudo, os mecanismos de lançamento foram aperfeiçoados nas décadas de 1950 e 1960 para permitir o disparo a partir de posições submersas. Um submarino convertido do Projeto 611 (classe Zulu-IV) realizou o primeiro lançamento de um SLBM da história, um míssil R-11FM (designação da OTAN: SS-N-1 Scud-A, variante naval do míssil balístico tático SS-1 Scud), em 16 de setembro de 1955. Cinco submarinos adicionais dos Projetos V611 e AV611 (classe Zulu-V) tornaram-se os primeiros submarinos convencionais lançadores de mísseis balísticos (SSB) operacionais do mundo, armados com dois mísseis R-11FM cada, entrando em serviço entre 1956 e 1957.

A Marinha dos Estados Unidos trabalhou inicialmente em uma versão naval do míssil balístico de alcance intermediário Jupiter, desenvolvido pelo Exército dos Estados Unidos, projetando o emprego de quatro desses volumosos mísseis de propelente líquido em cada submarino. O contra-almirante W. F. "Red" Raborn assumiu a chefia do Gabinete de Projetos Especiais para desenvolver o míssil Jupiter para a Marinha no final de 1955. Contudo, durante a conferência sobre guerra submarina do Projeto Nobska em 1956, o físico Edward Teller afirmou que uma ogiva nuclear compacta de um megaton de rendimento poderia ser produzida especificamente para armar o míssil Polaris, consideravelmente menor e acionado por combustível sólido, o que motivou a Marinha a cancelar a sua participação no programa Jupiter em dezembro daquele mesmo ano. Pouco depois, o Chefe de Operações Navais, almirante Arleigh Burke, concentrou todas as pesquisas estratégicas da força naval no míssil Polaris, mantido sob a liderança do Gabinete de Projetos Especiais do almirante Raborn. Todos os SLBMs desenvolvidos pelos Estados Unidos utilizaram motores a combustível sólido, enquanto a totalidade dos SLBMs soviéticos e russos foi impulsionada por combustível líquido, com exceção do moderno míssil russo RSM-56 Bulava, que entrou em serviço operacional em 2014.

Míssil Polaris A-1 na plataforma de lançamento LC-25A em Cabo Canaveral

O primeiro submarino nuclear lançador de mísseis balísticos (SSBN) operacional do mundo foi o USS George Washington, equipado com 16 mísseis Polaris A-1, o qual entrou em serviço em dezembro de 1959 e realizou a primeira patrulha de dissuasão nuclear estratégica da história entre novembro de 1960 e janeiro de 1961. O George Washington também realizou o primeiro disparo com sucesso de um SLBM a partir de uma posição submersa com um míssil Polaris A-1 em 20 de julho de 1960. Cinquenta e dois dias depois, em 10 de setembro de 1960, a União Soviética efetuou o seu primeiro lançamento subaquático bem-sucedido de um míssil balístico no Mar Branco, a partir do mesmo submarino adaptado do Projeto 611 (classe Zulu-IV) que havia disparado o R-11FM. A União Soviética acompanhou o pioneirismo norte-americano cerca de um ano depois com seu primeiro SSBN, o acidentado K-19 do Projeto 658 (classe Hotel), comissionado em novembro de 1960. Contudo, os submarinos da classe Hotel carregavam apenas três mísseis R-13 (designação da OTAN: SS-N-4) cada e precisavam emergir e erguer mecanicamente o míssil para fora da vela para efetuar o disparo. O disparo em imersão só se tornou uma capacidade operacional na frota soviética a partir de 1963, com a introdução do míssil R-21 (SS-N-5), instalado retroativamente nas classes Hotel (Projeto 658) e Golf (Projeto 629). A União Soviética superou os Estados Unidos ao realizar o primeiro teste de lançamento de um SLBM munido de uma ogiva nuclear real ativa: um míssil R-13 detonou no campo de testes de Nova Zembla, no Oceano Ártico, em 20 de outubro de 1961, exatamente dez dias antes da detonação da colossal Tsar Bomba de 50 Mt na mesma região. Os Estados Unidos conduziram um teste com ogiva real equivalente no Oceano Pacífico em 6 de maio de 1962, lançando um míssil Polaris A-2 a partir do USS Ethan Allen durante a série de testes da Operação Dominic. O primeiro SSBN soviético concebido com capacidade para 16 mísseis balísticos foi o da classe Yankee (Projeto 667A), que entrou em operação em 1967, com 32 embarcações concluídas até 1974. Quando o primeiro submarino Yankee foi comissionado, os Estados Unidos já haviam concluído a construção de 41 SSBNs, agrupamento que ficou conhecido historicamente como os "41 for Freedom".

Corte transversal esquemático de submarinos franceses exibindo a integração dos mísseis SLBM M45 e M51

Desdobramento e desenvolvimento posterior

O curto alcance dos primeiros SLBMs determinava a escolha das bases navais e os padrões geográficos de patrulha. No final da década de 1960, o míssil Polaris A-3 já se encontrava instalado em todos os SSBNs norte-americanos com um alcance de 4 600 quilômetros (2 500 nmi), representando uma evolução substancial sobre o alcance de 1 900-quilômetro (1 000 nmi) do Polaris A-1 inicial. O Polaris A-3 transportava três ogivas convencionalmente dispersas em leque sobre um alvo único coordenado. A classe soviética Yankee, por sua vez, foi inicialmente armada com o míssil R-27 Zyb (SS-N-6), dotado de alcance de 2 400 quilômetros (1 300 nmi). Os Estados Unidos dispunham de posições geográficas de apoio muito mais favoráveis que a União Soviética: graças à aliança da OTAN e à posse de Guam, os SSBNs norte-americanos contavam com destacamentos avançados em bases de manutenção em Holy Loch, na Escócia; na Base Naval de Rota, na Espanha; e em Guam a partir de meados dos anos 1960, permitindo tempos reduzidos de trânsito até as áreas de patrulha no entorno do território soviético. As instalações nessas bases avançadas eram funcionais e austeras, compostas primordialmente por um navio-oficina de apoio a submarinos (submarine tender) e uma doca seca flutuante. Cargueiros auxiliares adaptados do Comando de Transporte Marítimo Militar (Military Sealift Command, designados T-AK) transportavam mísseis e peças de reposição até essas bases. Operando com duas tripulações completas que se alternavam por submarino (denominadas Blue e Gold), cerca de um terço de toda a força estratégica de submarinos dos Estados Unidos podia permanecer em patrulha ativa ininterruptamente em alto-mar.

Por outro lado, as bases navais soviéticas — concentradas em Severomorsk (perto de Murmansk) para o teatro Ártico-Atlântico e em Petropavlovsk-Kamtchatski para o teatro do Pacífico — obrigavam seus submarinos estratégicos a longos e arriscados deslocamentos oceânicos (atravessando áreas permanentemente monitoradas pelas forças da OTAN no Atlântico Norte) até alcançar posições de lançamento contra o território continental dos Estados Unidos (CONUS). Consequentemente, apenas uma pequena fração da força soviética conseguia manter-se simultaneamente em área de patrulha, o que motivou os projetistas soviéticos a desenvolverem SLBMs de alcance intercontinental que permitissem aos submarinos disparar a partir de zonas seguras adjacentes às suas próprias bases, denominadas estrategicamente "bastiões profundos" (deep bastions). Esses mísseis compuseram a família R-29 Vysota (SS-N-8, SS-N-18, SS-N-23), que equipou os submarinos da classe Delta nas variantes Projeto 667B, 667BD, 667BDR e 667BDRM (Delta I a Delta IV). O míssil SS-N-8, com alcance de 7 700 quilômetros (4 200 nmi), entrou em operação no primeiro submarino Delta I em 1972, antes mesmo do término da construção da classe Yankee precedente. Ao todo, 43 embarcações da classe Delta foram entregues entre 1972 e 1990, destacando-se o SS-N-18 na classe Delta III e o R-29RM Shtil (SS-N-23) na classe Delta IV. Esses mísseis proporcionaram maior alcance e introduziram veículos de reentrada múltiplos independentemente direcionáveis (MIRV), permitindo que um único vetor atingisse alvos distintos e geograficamente dispersos.

Poseidon e Trident I

Embora os Estados Unidos não tenham comissionado nenhum submarino nuclear estratégico novo entre 1967 e 1981, a força naval desenvolveu dois novos mísseis balísticos durante esse intervalo. Trinta e um dos quarenta e um SSBNs originais haviam sido fabricados com tubos verticais de diâmetro ampliado, antecipando futuras evoluções no porte dos mísseis. No início da década de 1970, o míssil Poseidon (C-3) entrou em operação, e as 31 embarcações aptas foram modernizadas com o novo sistema. O Poseidon agregava grande capacidade ofensiva por meio de ogivas MIRV, transportando até 14 ogivas nucleares por míssil. A exemplo das necessidades soviéticas, a Marinha dos EUA também buscava mísseis de alcance superior que dispensassem o uso de bases avançadas ultramarinas, permitindo que as patrulhas partissem diretamente de portos situados na costa do território continental norte-americano. No final dos anos 1970, o míssil Trident I (C-4), com alcance de 7 400 quilômetros (4 000 nmi) e oito ogivas MIRV, foi adaptado retroativamente em doze dos submarinos que operavam o míssil Poseidon. As instalações de apoio na base naval de Rota foram progressivamente desativadas, e a Base Naval de Submarinos de Kings Bay, no estado da Geórgia, foi erguida especificamente para abrigar a força armada com os mísseis Trident I.

Submarinos Trident e Typhoon

Um míssil Trident II fotografado instantes após emergir da água

Em 1981, os Estados Unidos e a União Soviética incorporaram submarinos de propulsão nuclear de tonelagem consideravelmente ampliada, dimensionados para mísseis de última geração. O modelo norte-americano foi a classe Ohio, referida comumente como os "submarinos Trident", com capacidade sem precedentes para 24 mísseis por embarcação — armada inicialmente com o Trident I, mas construída desde a quilha com silos aptos a comportar o maior e mais pesado míssil Trident II (D-5), que iniciou operação em 1990. Toda a classe foi adaptada para operar o Trident II no início dos anos 2000. O Trident II oferece um alcance superior a 8 000 quilômetros (4 300 nmi), carregando oito ogivas MIRV de maior rendimento destrutivo que as do modelo C-4 anterior. Quando o USS Ohio iniciou seus testes de mar em 1980, dois dos dez primeiros SSBNs norte-americanos tiveram seus mísseis retirados para cumprir os tetos impostos pelo Tratado SALT, e as oito unidades remanescentes foram convertidas em submarinos de ataque (SSN) até o término de 1982. Todas essas embarcações operavam no Pacífico, o que levou à desativação da base de apoio a submarinos de Guam; os primeiros navios da classe Ohio passaram a atuar a partir das novas instalações da Base Naval de Submarinos de Bangor, no estado de Washington. Dezoito unidades da classe Ohio foram comissionadas até 1997, quatro das quais foram reconvertidas na década de 2000 em submarinos lançadores de mísseis de cruzeiro (SSGN) para cumprir as metas de controle de armas estratégicas do tratado START I.

O correspondente soviético de grandes dimensões foi o Projeto 941 Akula, denominado na terminologia ocidental como classe Typhoon (não devendo ser confundido com os submarinos de ataque do Projeto 971 Shchuka-B, aos quais a OTAN atribuiu a designação "Akula"). Os Typhoons constituem os maiores submarinos já construídos na história militar, deslocando 48.000 toneladas em imersão. Eram guarnecidos com 20 mísseis R-39 Rif (designação da OTAN: SS-N-20 Sturgeon), com alcance de 8 300 quilômetros (4 500 nmi) e dez ogivas MIRV por vetor. Seis unidades da classe Typhoon entraram em serviço entre 1981 e 1989.

Pós-Guerra Fria

Vídeo do lançamento de testes do míssil balístico naval K-4 em março de 2014

A construção seriada de novos SSBNs foi suspensa por mais de uma década na Rússia e desacelerada nos Estados Unidos com a dissolução da União Soviética e o término da Guerra Fria em 1991. Os Estados Unidos procederam ao descomissionamento acelerado de seus 31 submarinos estratégicos mais antigos — com algumas unidades adaptadas para funções secundárias de transporte de forças especiais — e desativaram a base avançada escocesa de Holy Loch. A maior parte da frota estratégica soviética remanescente foi progressivamente desmanchada e desnuclearizada com suporte de verbas do acordo internacional Nunn–Lugar até 2012. Naquele momento, a força russa de SSBNs apoiava-se operacionalmente em seis submarinos da classe Delta IV, três da classe Delta III e em um único exemplar da classe Typhoon preservado exclusivamente como bancada de provas para novos armamentos (os mísseis R-39 originais foram definitivamente retirados de serviço em 2012). Mísseis modernizados, a exemplo do R-29RMU Sineva (SS-N-23 Sineva), foram introduzidos para prolongar a vida útil das unidades Delta. Em 2013, a Marinha Russa comissionou a primeira embarcação da classe Borei, também referida como classe Dolgorukiy em referência ao navio-líder. Até 2015, outras duas embarcações haviam sido integradas à ativa. A classe foi projetada para substituir os antigos submarinos da família Delta, transportando 16 mísseis balísticos a combustível sólido RSM-56 Bulava, com alcance estimado em 10 000 quilômetros (5 400 nmi) e seis ogivas MIRV. Em 2020, a Marinha dos EUA procedeu ao batimento de quilha do primeiro submarino da classe Columbia, o USS District of Columbia, nas instalações da General Dynamics Electric Boat. A classe tem estimativa de operação estendida até a década de 2080.

Os submarinos nucleares lançadores de mísseis balísticos assumiram papel de central relevância estratégica na doutrina de dissuasão dos Estados Unidos, da Rússia e das demais potências nucleares desde sua introdução durante a Guerra Fria, em razão de sua capacidade de permanecerem ocultos da vigilância de satélites espiões e dispararem suas armas nucleares a partir de áreas marítimas protegidas. Essa invisibilidade tática preserva-os contra um primeiro ataque nuclear preventivo adversário, garantindo a cada nação a capacidade incondicional de desferir um contra-ataque retaliatório devastador (capacidade de segundo ataque), mesmo na eventualidade de que todos os seus silos terrestres fixos venham a ser neutralizados. Isso desobriga as potências da necessidade de adotar doutrinas arriscadas de "lançamento sob alerta" (launch on warning), que trazem o perigo permanente de deflagração acidental de uma guerra atômica. Adicionalmente, o desdobramento de mísseis de alta precisão a bordo de submarinos silenciosos possibilita uma aproximação furtiva do litoral inimigo com lançamento em trajetórias deprimidas — uma trajetória balística não parabólica que reduz a capacidade de carga útil em favor de um voo mais baixo e rápido, abreviando drasticamente o tempo decorrido entre a detecção do disparo e o impacto terminal —, viabilizando ataques rápidos de decapitação de centros de comando militar.

O programa de mísseis balísticos lançados por submarino da Índia iniciou-se operacionalmente com o comissionamento do primeiro navio da classe Arihant, armado com os mísseis K-15 Sagarika, dotados de alcance de 750 km. Uma família de SLBMs vem sendo desenvolvida no âmbito da série K com o objetivo de consolidar a tríade nuclear indiana e prover capacidade crível de dissuasão estratégica. Posteriormente, as embarcações receberam o míssil K-4, com alcance de 3.500 km. Mísseis adicionais de maior alcance, designados K-5 e K-6, encontram-se em desenvolvimento para equipar a futura classe S5 de submarinos nucleares da Marinha Indiana.

Tipos de SLBM

Tipos específicos de SLBMs (atualmente em uso, descomissionados e em desenvolvimento) incluídos:

Ver também

Referências

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