Assassino em série

O Nêmesis da Negligência; Jack, o Estripador retratado como um fantasma assombrando Whitechapel e personificando a negligência social, num cartoon da revista Punch de 1888

Um assassino em série (também conhecido pelo nome em inglês, serial killer) é um indivíduo que mata três ou mais pessoas, sendo que os assassinatos ocorrem ao longo de um período superior a um mês, em três ou mais eventos distintos, e são motivados por razões psicológicas perversas. O Federal Bureau of Investigation (FBI) afirma que as motivações dos assassinos em série podem incluir delírios psicóticos, a busca por emoções fortes e o desejo de chamar a atenção. As vítimas costumam apresentar características em comum, como perfil demográfico, aparência, gênero ou raça. Como grupo, os assassinos em série apresentam diversos transtornos de personalidade. Frequentemente, não são considerados legalmente insanos. As principais motivações para os assassinatos em série envolvem algum tipo de gratificação psicológica, geralmente — embora nem sempre — de natureza sexual.

O termo teria sido usado pela primeira vez em meados de 1970 por Robert Ressler, agente aposentado do FBI.

Definições

Segundo a Enciclopédia Britânica, um assassino em série é aquele que comete ao menos dois (02) assassinatos. Segundo esta enciclopédia também, o FBI inicialmente considerava que um criminoso poderia ser denominado assassino em série quando matasse pelo menos quatro pessoas, mas que o órgão mudou esta definição nos anos 1990, quando passou a considerar que poderia ser definido um assassino serial quem matasse três vítimas ou mais.

A criminóloga brasileira Ilana Casoy escreve em seu livro "Serial Killer: louco ou cruel?", na página 18, que:

O primeiro obstáculo na definição de um assassino em série é que algumas pessoas precisam ser mortas para que ele possa ser definido assim. Alguns estudiosos acreditam que cometer dois assassinatos já faz daquele assassino, um assassino em série. Outros afirmam que o criminoso deve ter assassinado pelo menos quatro pessoas.

Uma definição de assassino em série foi publicada pelo Instituto Nacional de Justiça em 1988:

Uma série de dois ou mais assassinatos cometidos como eventos separados, normalmente, mas nem sempre, por um infrator atuando isolado. Os crimes podem ocorrer durante um período de tempo que varia desde horas até anos. Quase sempre o motivo é psicológico, e o comportamento do infrator e a evidência física observada nas cenas dos crimes refletiram nuanças sádicas e sexuais.

Perfil

Perfil psicológico

Samuel Little, o mais prolífico assassino em série dos Estados Unidos, tendo matado entre 60 e 90 pessoas.

Ney Fayet Jr., professor de Criminologia do programa de pós-graduação em Ciências Criminais da PUC do Rio Grande do Sul, explicou para a BBC em novembro de 2017, que este tipo de criminoso age com "excesso de brutalidade, impulsividade, frieza e sadismo".

Assassinos em série frequentemente exibem traços associados a doenças mentais ou psicopatia, incluindo falta de remorso, impulsividade e necessidade de controle, muitas vezes mascarados por um comportamento charmoso, e podem se envolver em parafilias específicas, como fetichismo ou necrofilia. Muitos apresentam indícios na infância de comportamento violento futuro, como fascínio por atear fogo, tortura de animais e enurese noturna persistente, e embora possam ter dificuldades para encontrar emprego e se envolver em pequenos crimes, muitas vezes conseguem aparentar normalidade e manter relacionamentos. Apesar de serem comumente percebidos como altamente inteligentes, estudos sugerem que assassinos em série geralmente possuem QI médio ou abaixo da média.

Características gerais e definição

Pesquisas empíricas indicam que o homicídio em série é um fenômeno raro, caracterizado pelo assassinato de duas ou mais vítimas em eventos separados, geralmente intercalados por um período de "resfriamento". Embora não exista um perfil psicológico único aplicável a todos os casos, estudos frequentemente identificam taxas elevadas de traços de personalidade antissocial, características associadas à psicopatia (como insensibilidade e ausência de empatia), impulsividade combinada com capacidade de planejamento e histórico de abuso ou negligência na infância entre os ofensores. Ao contrário das representações populares, a maioria dos serial killers não é psicótica e é considerada legalmente sã no momento dos crimes. A maioria é do sexo masculino — estimativas geralmente variam entre 85% e 90% — padrão consistente com tendências mais amplas da criminalidade violenta. As explicações para essa disparidade de gênero combinam fatores biológicos (incluindo maiores níveis médios de agressividade física e busca por sensações em homens), motivações evolutivas e sexuais (sendo o homicídio em série de motivação sexual predominantemente masculino) e influências socioculturais relacionadas à socialização de gênero e às estruturas de oportunidade.

No que diz respeito à raça, os dados disponíveis (especialmente nos Estados Unidos) sugerem que a distribuição racial dos ofensores identificados tende a refletir, em termos gerais, os padrões da criminalidade homicida como um todo, embora a percepção pública tenha sido fortemente moldada por vieses midiáticos e diferenças na atenção investigativa. Historicamente, serial killers brancos receberam cobertura desproporcional da mídia, enquanto casos envolvendo vítimas marginalizadas foram frequentemente subnotificados ou menos investigados. Criminologistas enfatizam que não há evidência científica credível que sustente predisposições biológicas raciais para assassinos em série; eventuais disparidades observadas são mais plausivelmente explicadas por fatores socioeconômicos, práticas de policiamento, visibilidade das vítimas e desigualdades estruturais. A literatura contemporânea, portanto, compreende o homicídio em série como resultado de interações complexas entre traços de personalidade, experiências desenvolvimentais e condições ambientais, e não como um fenômeno redutível a determinantes demográficos simples.

Psicopatia e psicose

Natural de Hong Kong, Charles Ng, um fuzileiro naval expulso desonrosamente do serviço, participou do sequestro, tortura sádica, estupro e assassinato de inúmeras vítimas.

Segundo o artigo O perfil psicológico dos assassinos em série e a investigação criminal, publicado pela Escola Superior de Polícia Civil, em geral os assassinos em série sofrem de psicopatia ou psicose. O autor do texto explica:

A maioria das pessoas tende a imaginar o assassino em série como uma pessoa louca ou doente mental, o que se verifica não ser verdade na maioria dos casos. Há, no entanto, consenso de que os assassinos seriais possuem ligações íntimas com a psicopatia e a psicose, que são desvios mentais distintos. A psicose é uma doença mental que provoca uma alteração na noção da realidade, onde um mundo próprio se forma na mente do psicótico, ou seja, ele vive num delírio e sofre alucinações, ouvindo vozes e tendo visões bizarras. As formas mais conhecidas de psicose são a esquizofrenia e a paranoia. Apenas uma reduzida parcela dos assassinos em série se enquadra no lado dos psicóticos, o que derruba a crença popular de que todo assassino em série é louco. Por outro lado, a psicopatia afeta a mente do assassino de forma diversa. Não cria nenhum tipo de ilusão na mente, ou seja, o indivíduo vê claramente a realidade e sabe que é proibido matar, porém suas perturbações mentais os fazem ser frios e sem empatia. Basicamente, o assassino em série psicopata vive uma vida dupla, mantendo uma aparência voltada para a sociedade, muitas vezes sendo uma pessoa gentil, racional e que interage com o meio social, porém, sua verdadeira identidade é mostrada somente para suas vítimas: um ser dissimulado e incapaz de sentir pena e de obter satisfação com tortura, estupro e assassinato.

O artigo "Transtornos de personalidade, psicopatia e assassinato em série" publicado pela Scielo, corrobora a ideia, citando um estudo que concluiu que 86,5% dos assassinos em séries tinham psicopatia:

Em relação a características de personalidade, em um estudo conduzido por Stone, 86,5% dos assassinos em série preenchiam os critérios de Hare para psicopatia, sendo que um adicional de 9% exibiu apenas alguns traços psicopáticos, mas não o suficiente para alcançar o nível de psicopatia. Um achado marcante nesse estudo foi o fato de aproximadamente metade dos assassinos em série exibirem personalidade esquizoide, como definido pelo DSM-IV. Alguns traços esquizoides estavam presentes ainda em um adicional de 4% dos sujeitos de pesquisa. Transtorno de personalidade sádica, como descrito no apêndice do DSM-III-R, estava presente em 87,5% dos homens e traços discretos foram encontrados em 1,5% deles. Por fim, esse estudo mostrou grande sobreposição entre psicopatia e transtorno sádico de personalidade: dos assassinos com psicopatia, 93% também apresentaram transtorno sádico. Metade dos psicopatas era esquizoide. Quase a metade apresentou critérios para os três tipos de transtorno: psicopático, esquizóide e sádico.

Motivação e satisfação sexual

Gary Ridgway em 1982. Considerados um dos assassinos em série mais notórios dos Estados Unidos, ele matava mulheres em condição de vulnerabilidade, como prostitutas.

Segundo o site especializado em psiquiatria, Psiqweb, há assassinos em série que sofreram traumas ainda jovens, motivo pelo qual podem vingar-se da sociedade. Não raro este tipo de criminoso repete os crimes dos quais foi vítima - estupra meninos jovens quando ele mesmo foi estuprado na mesma idade - ou mata pessoas do perfil que lhe causaram algum trauma - matar prostitutas porque a mãe, por exemplo, era uma prostituta. Muitos deles também relataram em seus depoimentos terem sofrido bullying na escola ou mesmo em casa.

Alguns têm sofrido uma infância traumática, devida a maus-tratos físicos ou psíquicos, motivo pelo qual têm tendência a isolar-se da sociedade e/ou vingar-se dela. Estas frustrações, ainda segundo análises de estereótipos, introduzem os Assassinos em Série num mundo imaginário, melhor que seu real, onde ele revive os abusos sofridos identificando-se, desta vez com o agressor. Por esta razão, sua forma de matar pode ser de contacto direto com a vítima: utiliza armas brancas, estrangula ou golpeia, quase nunca usa arma de fogo. Seus crimes obedecem a uma espécie de ritual onde se misturam fantasias pessoais com a morte.

A Tríade de Macdonald

Muitos dos assassinos em série que foram capturados aparentavam ser cidadãos respeitáveis — atraentes, bem-sucedidos, membros ativos da comunidade — até que seus crimes foram descobertos. Geralmente demonstram três comportamentos durante a infância, conhecidos como a Tríade MacDonald:

Diagnóstico

Segundo laudos psiquiátricos, o finlandês Michael Maria Penttilä, o chamado "estrangulador em série", supostamente admirava a masculinidade primitiva e violenta de sua adolescência.

Segundo o site especializado em Psiquiatria, Psiqweb, o diagnóstico leva em conta as características dos crimes, que seguem um padrão geralmente definido, o que diferencia o assassino em série de outros assassinos:

Os Assassinos em Série são uma (...) dificuldade para a psiquiatria, uma vez que não se encaixam em nenhuma linha do pensamento específica. (...) Uma diferença entre o assassino em massa, que mata várias pessoas de uma só vez e sem se preocupar pela identidade destas, e o assassino em série é que este elege cuidadosamente as suas vítimas selecionando a maioria das vezes pessoas do mesmo tipo e características. Aliás, o ponto mais importante para o diagnóstico de um assassino em série é um padrão geralmente bem definido no modo como ele lida com seu crime. Com frequência eles matam seguindo um determinado padrão, seja através de uma determinada seleção da vítima ou de um grupo social com características definidas, como p. ex. as prostitutas, homossexuais, policiais, etc.

Tipos

O assassino em série colombiano Luis Garavito, também conhecido como La Bestia ("A Besta"), é considerado o maior serial killer de todos os tempos, tendo assassinado em torno de 200 pessoas, a maioria crianças. Seu pai o submeteu a severos abusos físicos e emocionais.

Existem basicamente dois tipos de assassinos em série:

Outra classificação é a proposta por Blackburn (1998) que desenvolveu uma tipologia para os subtipos de psicopatas, inclusive considerando o aspecto antissocial como se tratasse de um dos sintomas possíveis de estar presente em certos casos. Inicialmente ele fez uma distinção entre dois tipos de psicopatas e ambos compartilhando um alto grau de impulsividade: um Tipo Primário, caracterizado por uma adequada socialização e uma total falta de perturbações emocionais, e um Tipo Secundário, caracterizado pelo isolamento social e traços neuróticos.

Apesar de serem referências de um modelo patológico de agressão, a personalidade sociopata necrófila e/ou sádica, tal como diagnosticado por Fromm correspondem às características do ditador Adolf Hitler (1889–1945), detalhadamente analisado em seu livro (o.c.) e de outros personagens sabidamente cruéis, feito o cangaceiro brasileiro, vulgo Lampião (1898–1938) e outros personagens históricos como os imperadores romanos Nero (54—68) e Calígula (37—41). Observe-se, porém que a compreensão de cada personalidade deve ser devidamente contextualizada política e socioculturalmente antes de tentativa de enquadramento num diagnóstico psiquiátrico de psicopatia ou perversão. Essa contextualização é o que permite diferenciar o matador contumaz e lúcido, que na época e local ou grupo social, onde viveram são considerados normais ou líderes, do assassino em série isolado socialmente não diferenciados por quantidades de mortes que produzem (não considerando o efeito multiplicador da sua condição de líder) ou natureza de sua agressividade sádica.

Características gerais dos crimes

Ilustração de 1829 do assassino em série irlandês William Burke assassinando Margery Campbell.

Em geral, os assassinos em série cometem crimes com certas características, que são, justo as que os diferenciam de outros assassinos e são uma espécie de assinatura. Ilana Casoy diz que "suas vítimas têm o mesmo perfil, a mesma faixa etária, são escolhidas ao acaso e mortas sem razão aparente".

No entanto, Casoy enfatiza que a área de atuação e o modus operandi são mais característicos dos assassinos do tipo "organizados". Ela usa o termo, por exemplo, "geograficamente estáveis ou não" e escreve também que os desorganizados "agem por impulso, perto de onde moram, usando armas encontradas no local de ação".

Incidência e histórico de casos

Diante das dificuldades de identificação dos potenciais agressores, bem como do espectro variado de suas manifestações, uma estratégia de estimar sua incidência ou prevalência, que nesse caso são equivalentes pela cronicidade do quadro, é calcular a incidência global do transtorno de personalidade (TP) na população geral que, segundo revisão de Morana et al, varia entre 10% e 15%, sendo que cada tipo de transtorno contribui com 0,5% a 3%. Entre os americanos adultos, 38 milhões apresentam pelo menos um tipo de TP, o que corresponde a 14,79% da população. Esse tipo de transtorno específico de personalidade é marcado por uma insensibilidade aos sentimentos alheios. Quando o grau dessa insensibilidade se apresenta elevado, levando o indivíduo a uma acentuada indiferença afetiva, ele pode adotar um comportamento criminal recorrente e o quadro clínico de TP assume a forma de psicopatia.

Ottis Toole, assassino em série ativo entre 1961 e 1983, afirmou ter matado centenas de pessoas (embora isso seja improvável, foi condenado por seis homicídios).

Não há como enumerar a incontável lista de assassinos em série, num passado tão tumultuado e violento como o da humanidade e o método clínico baseia-se na análise de histórias de vida. A título de exemplo observe-se os casos mais conhecidos, cruéis e bizarros que são:

Alguns assassinos em série em países lusófonos

No Brasil

Pedrinho Matador foi responsável por mais de cem homicídios, considerado o maior assassino em série brasileiro.

Em Portugal

Outros assassinos em série no mundo

Aileen Wuornos, uma assassina em série que atuou na Flórida entre 1989 e 1990. Estima-se que menos de 10% de todos os assassinos em série que atuaram nos Estados Unidos entre 1800 e 2004 eram mulheres.

Atiradores a esmo

Eric Harris e Dylan Klebold, responsáveis pelo Massacre de Columbine, em 1999.

A tipificação dos crimes e delitos é um exercício comum às ciências jurídicas, sociais e à psicologia. Uma possível classificação de perversões ou psicopatologias que tem como consequência uma multiplicidade de vítimas é a identificação de uma categoria para o criminoso, tal como criada a categoria dos assassinos em série. Um exemplo típico é o criminoso que atira a esmo (shoothing away), aparentemente sem a escolha típica de um perfil identificador ou biotipo onde focaliza sua atenção e/ou o seu ódio. Esse padrão criminoso distingue-se do genocídio e atos terroristas e outras formas do assassínio em massa por ser uma escolha individual (algumas vezes de duplas ou pequenos grupos) mas são crimes igualmente premeditados e planejados, confundem-se, também, com a categoria mórbida do suicídio ampliado, ou seja crimes passionais seguidos de autodestruição e/ou o ataque-suicida. Nina Rodrigues (1862-1906), um dos primeiros pensadores brasileiros sobre os massacres coletivos, considerava o crime a dois, tipo o de Columbine, 1999, a forma embrionária dos crimes em massa, já sendo possível identificar-se a condição de líder e liderado bem como a presença de "ideologia" ou crença motivadora. O cerco à escola de Beslan, por outro lado é um outro exemplo onde não se distingue nitidamente a ação individual da coletiva.

Observe-se que toda categorização é imperfeita, mas deve ser realizada para que melhor se possa tentar prevenir ou controlar tais fenômenos. A relação abaixo apresentada, por exemplo, pode ser compreendida ou modificada pela idade e tipo de motivação do agressor ou mesmo pelo local da escolha das vítimas (escolas, shoppings, cinemas, estradas, etc.):

Não atiradores com padrão de "escolha" aleatório

Ver também

Referências

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