| USA-193 | |
|---|---|
Delta II durante o lançamento do USA-193 na Base Aérea de Vandenberg, em dezembro de 2006 | |
| Descrição | |
| Nomes alternativos | NROL-21 NRO Launch 21 L-21 |
| Missão | Reconhecimento por imagens de radar |
| Operador(es) | Escritório Nacional de Reconhecimento, NRO |
| Identificação NSSDC | 2006-057A |
| Identificação SATCAT | 29651 |
| Duração da missão | A comunicação com o satélite foi perdida após o lançamento |
| Propriedades | |
| Fabricante | Inicialmente, Boeing. Depois, Lockheed Martin |
| Massa de lançamento | Cerca de 2.300 kg |
| Missão | |
| Contratante(s) | United Launch Alliance |
| Data de lançamento | 14 de dezembro de 2006, às 21h00min00s UTC |
| Veículo de lançamento | Delta II 7920-10 |
| Local de lançamento | Vandenberg, SLC-2W |
| Fim da missão | Destruído em 21 de fevereiro de 2008 por um interceptador de defesa antimíssil amplamente modificado, lançado do USS Lake Erie, CG-70 |
| Especificações orbitais | |
| Referência orbital | Órbita geocêntrica |
| Regime orbital | Órbita terrestre baixa |
| Periastro | 349 km |
| Apoastro | 365 km |
| Inclinação orbital | 58,48° |
| Período orbital | 92,0 minutos |
USA-193, também chamado NRO Launch 21, NROL-21 ou simplesmente L-21, foi um satélite de reconhecimento militar dos Estados Unidos, destinado à obtenção de imagens por radar e lançado em 14 de dezembro de 2006. Foi o primeiro lançamento realizado pela United Launch Alliance, ULA. O satélite pertencia ao Escritório Nacional de Reconhecimento, NRO, e sua função e finalidade exatas eram sigilosas. Em 21 de fevereiro de 2008, foi destruído na Operação Burnt Frost.
O USA-193 fazia parte do programa Future Imagery Architecture, FIA, iniciado pelo NRO em 1997 para criar uma frota de satélites de reconhecimento de baixo custo. O jornalista Philip Taubman avaliou o programa como o fracasso mais retumbante da agência. O desenvolvimento do USA-193 começou com a Boeing, que venceu a Lockheed Martin na disputa pelo contrato em 1999, com propostas de inovações em eletro-óptica e radar. Após aumentos de custos, atrasos e falhas em componentes, o NRO transferiu o contrato para a Lockheed, que construiu o USA-193 a partir do projeto de radar da Boeing. As duas empresas participaram do lançamento, o primeiro realizado pela parceria United Launch Alliance. O USA-193 tinha cerca de 2.300 kg. Estimava-se que seu corpo tivesse 4,6 m de comprimento e 2,4 m de largura, com base na capacidade máxima de carga do Delta II. Com a antena de radar aberta, o satélite tinha aproximadamente o tamanho de uma quadra de basquete, cerca de 30 m × 15 m.

O satélite entrou em órbita, mas perdeu contato com as estações em terra poucas horas depois. No fim de janeiro de 2008, autoridades norte-americanas que não tiveram seus nomes divulgados informaram que um satélite espião do país estava em uma órbita em decaimento e deveria cair na Terra em poucas semanas. Depois, confirmou-se que se tratava do USA-193. A notícia não surpreendeu os observadores amadores de satélites, que já previam sua reentrada havia algum tempo.
O USA-193 apresentou falhas pouco depois de ser colocado em órbita e foi destruído deliberadamente 14 meses mais tarde, em 21 de fevereiro de 2008, por um míssil SM-3 modificado. O míssil foi disparado pelo USS Lake Erie, CG-70, navio da classe Ticonderoga da Marinha dos Estados Unidos, posicionado a oeste do Havaí. Brian Wingfield, da revista Forbes, situou o episódio em meio à crescente desconfiança entre os Estados Unidos e a China e às discussões sobre uma "corrida armamentista" espacial que também envolveria a Rússia. O lançamento do USA-193 havia sido o primeiro da United Launch Alliance desde sua criação, em dezembro de 2006, e o primeiro de um Delta II após a aquisição do foguete pela ULA.
O satélite transportava materiais perigosos, como hidrazina e berílio. Houve especulações de que sua fonte de energia fosse "nuclear", isto é, um gerador termoelétrico de radioisótopos, RTG. O relatório da Agência Federal de Gestão de Emergências, FEMA, descartava essa possibilidade. Em 29 de janeiro de 2008, o general Gene Renuart, da Força Aérea dos Estados Unidos, afirmou à Associated Press que estavam sendo preparados planos de contingência, pois partes intactas do satélite "poderiam reentrar sobre a América do Norte". Em cumprimento à Convenção sobre Responsabilidade Internacional por Danos Causados por Objetos Espaciais, os Estados Unidos se comprometeram a indenizar quaisquer danos ou destruição causados pelo satélite defeituoso.

O planejamento da destruição do USA-193 por um míssil começou em 4 de janeiro de 2008. O presidente George W. Bush aprovou o plano em 12 de fevereiro, com um custo previsto de US$ 40 milhões a US$ 60 milhões. A força-tarefa tinha como objetivo romper o tanque de combustível antes da entrada na atmosfera e dispersar os cerca de 453 kg de hidrazina, um combustível perigoso que poderia pôr em risco pessoas na Terra.

Em 14 de fevereiro de 2008, autoridades norte-americanas anunciaram o plano de destruir o USA-193 antes da reentrada atmosférica, com a intenção declarada de "salvar vidas ou reduzir os danos às pessoas". Afirmaram que, se o tanque de hidrazina caísse na Terra, "poderia espalhar uma nuvem tóxica de aproximadamente dois campos de futebol americano". O general James Cartwright confirmou que a Marinha dos Estados Unidos preparava o lançamento de um míssil SM-3 para destruir o satélite a cerca de 240 km de altitude, pouco antes de sua entrada na atmosfera.
Em 21 de fevereiro de 2008, às 03h26min UTC, um míssil SM-3 foi disparado do cruzador lança-mísseis USS Lake Erie, da classe Ticonderoga, e interceptou o USA-193 a cerca de 247 km de altitude sobre o Oceano Pacífico. O satélite se deslocava a 28.000 km/h, ou 7,8 km/s. A velocidade de impacto foi de aproximadamente 35.000 km/h. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos manifestou um "alto grau de confiança" de que o tanque de combustível havia sido atingido e destruído. Esperava-se que os destroços se desintegrassem na atmosfera nos 40 dias seguintes, com a maior parte da massa do satélite reentrando nas primeiras 48 horas após o ataque.
Autoridades norte-americanas negaram que a ação tivesse como objetivo impedir que tecnologia sigilosa caísse em mãos estrangeiras ou responder ao teste chinês de um míssil antissatélite em 2007. Os Estados Unidos já haviam destruído um de seus próprios satélites em 1985, em um teste da Força Aérea. Embora o país tivesse protestado contra o teste chinês de uma arma antissatélite, ASAT, suas autoridades afirmaram que não havia "paralelo" entre as duas ações. O teste chinês destruiu um alvo em uma órbita alta e estável, deixando uma grande quantidade de detritos espaciais em órbita. Já a destruição do USA-193, em uma órbita muito mais baixa, deveria produzir fragmentos que reentrariam na atmosfera em poucas semanas.

O governo russo afirmou que a operação era um teste do programa norte-americano de defesa antimíssil. O Ministério da Defesa da Rússia acusou os Estados Unidos de usar a hidrazina como pretexto para testar uma arma antissatélite. O ministério também afirmou que nunca haviam sido necessárias medidas extraordinárias para lidar com as muitas espaçonaves que já tinham caído na Terra. Gordon Johndroe, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, havia informado ao The New York Times que 328 objetos tinham reentrado na atmosfera nos cinco anos anteriores, em descidas controladas ou não.
As autoridades norte-americanas sustentavam que a grande quantidade de hidrazina a bordo tornava o USA-193 um caso à parte. O general Kevin Chilton afirmou que, quando George Bush foi informado da situação, discutiu-se o risco de a destruição do satélite ser interpretada como um teste de arma antissatélite. Bush teria tomado a decisão com base nos perigos de uma reentrada descontrolada.
Em entrevistas à revista Wired, especialistas em segurança espacial contestaram o perigo da hidrazina e argumentaram que a nuvem, diluída em uma área extensa, provavelmente teria efeitos leves. Um observador de satélites militares que não teve seu nome divulgado afirmou: "O tanque de hidrazina é uma esfera de 1 m que contém cerca de 400 litros de hidrazina. A área de risco anunciada é de aproximadamente 2 hectares, algo como 1/10.000.000.000 da área sob a órbita. A possibilidade de danos reais é incrivelmente pequena". Outras análises, como as citadas por Yousaf Butt, previam que o tanque de hidrazina se desintegraria nas camadas superiores da atmosfera.
Duas reentradas atmosféricas descontroladas que causaram danos ou quase os causaram foram as do satélite soviético Kosmos 954, em 1978, e da estação Skylab, em 1979. O Kosmos 954 caiu no Canadá e espalhou quantidades perigosas de combustível nuclear de seu reator por extensas áreas. A reentrada da Skylab fez janelas tremerem e espalhou pequenos destroços sobre edifícios de Esperance, na Austrália Ocidental. Não houve grandes prejuízos financeiros, mas os Estados Unidos receberam uma multa simbólica de US$ 400 por jogar lixo. Em 1978, não havia arma capaz de abater o Kosmos 954. Uma arma antissatélite soviética do programa Istrebitel Sputnikov, a primeira de seu tipo, foi declarada operacional apenas dez dias antes da reentrada da Skylab, mas não era capaz de direcionar a descida da estação espacial.
Antes da destruição do USA-193, autoridades do Pentágono negaram repetidamente que a operação tivesse como objetivo fortalecer o programa norte-americano de defesa antimíssil. Seis dias após a destruição, o secretário de Defesa Robert M. Gates afirmou que "o sucesso da missão mostra que os planos dos Estados Unidos para um sistema de defesa antimíssil são realistas". Na mesma declaração, afirmou-se que as armas e os sistemas usados na missão perderiam a capacidade antissatélite e seriam reconfigurados para seu uso original como mísseis táticos.
A destruição do USA-193 produziu 174 fragmentos em órbita que foram catalogados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos. A maior parte reentrou na atmosfera terrestre em poucos meses. Alguns permaneceram por mais tempo porque foram lançados a órbitas mais altas. O último fragmento, de designação COSPAR 2006-057GH e número SATCAT 35425, reentrou em 28 de outubro de 2009.
O lançamento de pelo menos outro satélite foi adiado para evitar os detritos do USA-193. Uma gravação do serviço telefônico de informações sobre lançamentos do Atlas V informou que, "por precaução", o lançamento do USA-200, ou NROL-28, outro satélite do NRO, seria adiado.