Uncle Tom

Representação de Tio Tom numa publicação de 1901.

Uncle Tom (em português, Tio Tom) é o personagem-título do romance antiescravista Uncle Tom's Cabin, de Harriet Beecher Stowe, publicado em 1852. Posteriormente, o nome do personagem tornou-se, nos Estados Unidos, um termo pejorativo aplicado a uma pessoa negra considerada excessivamente subserviente a pessoas brancas ou disposta a buscar sua aprovação em detrimento da solidariedade com outras pessoas negras.

O significado pejorativo atual não corresponde integralmente ao personagem concebido por Stowe. No romance, Tom é um homem escravizado, profundamente religioso, que se recusa a cumprir determinadas ordens de seu último proprietário, Simon Legree, e acaba morto após se negar a revelar informações sobre duas mulheres escravizadas que haviam fugido.

Durante os séculos XIX e XX, entretanto, numerosas adaptações teatrais e cinematográficas transformaram Tom em uma caricatura mais passiva, infantilizada e servil. Essa imagem popular contribuiu para que seu nome se tornasse sinónimo de submissão à autoridade branca.

Personagem literário

Harriet Beecher Stowe publicou inicialmente Uncle Tom's Cabin; or, Life Among the Lowly em episódios no periódico antiescravista The National Era, entre 1851 e 1852. A primeira edição em livro foi lançada em março de 1852.

O romance foi escrito no contexto dos debates norte-americanos sobre a escravidão e após a aprovação da Lei do Escravo Fugitivo de 1850, que impunha obrigações relacionadas à captura e devolução de pessoas escravizadas que haviam fugido para estados livres. Stowe pretendia despertar oposição pública à instituição escravista e às separações familiares por ela produzidas.

Tom é inicialmente propriedade da família Shelby, no Kentucky. Quando seu proprietário enfrenta dificuldades financeiras, ele é vendido e separado da esposa e dos filhos. Posteriormente passa a pertencer a Augustine St. Clare, que manifesta intenção de libertá-lo, mas morre antes de concretizar a alforria. Tom é então vendido a Simon Legree, proprietário de uma plantação no sul dos Estados Unidos.

Embora Tom seja apresentado como paciente, religioso e disposto a perdoar seus opressores, ele também oferece resistência moral. Quando Legree ordena que açoite uma mulher escravizada, Tom recusa-se a fazê-lo mesmo diante de violência física.

Mais tarde, duas mulheres escravizadas escapam da plantação. Tom sabe informações que poderiam ajudar a localizá-las, mas recusa-se a revelá-las a Legree. Como consequência, é brutalmente espancado e acaba morrendo. Stowe estrutura sua morte como a de um mártir cristão e utiliza o personagem para contrapor os princípios do cristianismo à instituição da escravidão.

Dessa forma, embora aspectos da caracterização de Tom tenham sido posteriormente criticados, o personagem original não é simplesmente o servo disposto a fazer tudo o que seus proprietários exigem que se tornaria dominante nas representações posteriores.

Adaptações teatrais e transformação do personagem

O extraordinário sucesso de Uncle Tom's Cabin deu origem rapidamente a adaptações para o teatro. Stowe não controlava essas produções, e diferentes companhias realizaram versões muito distintas do romance.

Essas peças ficaram conhecidas como Tom shows. Algumas das primeiras adaptações preservavam parte importante da mensagem antiescravista da obra, mas versões posteriores passaram progressivamente a incorporar elementos dos minstrel shows e outras formas de entretenimento baseadas em estereótipos racistas.

Os Tom shows tornaram-se extremamente populares. Segundo o historiador David S. Reynolds, citado por Annette Gordon-Reed, cerca de cinquenta companhias apresentavam adaptações do romance nos Estados Unidos durante a década de 1880; na década seguinte, o número chegou a centenas de companhias.

Nessas versões, a violência da escravidão podia ser minimizada ou desaparecer completamente, enquanto pessoas escravizadas eram retratadas através da imagem racista do servo feliz e leal. O próprio Tom passou a ser representado como um homem velho, fisicamente fraco, infantilizado e incondicionalmente devotado aos brancos.

Essa caracterização contrastava com vários elementos do romance. O Tom de Stowe é descrito como fisicamente forte, possui esposa e filhos e, apesar de sua lealdade e religiosidade, desafia diretamente Legree quando considera suas ordens moralmente inaceitáveis.

O desenvolvimento dos Tom shows, portanto, contribuiu para separar culturalmente a figura popular do "Tio Tom" do personagem originalmente escrito por Stowe.

Cinema e caricatura racial

A caricatura também passou para o cinema. Uma adaptação cinematográfica de Uncle Tom's Cabin realizada por Edwin S. Porter em 1903 apresentou Tom interpretado por um ator branco utilizando blackface.

Outras versões realizadas durante as primeiras décadas do século XX continuaram a utilizar elementos desenvolvidos no teatro, apresentando Tom e outros personagens negros como infantis, satisfeitos com sua condição ou extraordinariamente devotados a personagens brancos.

Em 1914, o ator afro-americano Sam Lucas interpretou Tom numa adaptação cinematográfica. Em 1927, outra versão produzida pela Universal Pictures apresentou James B. Lowe no papel. Mesmo com atores negros assumindo o personagem, características como idade avançada, docilidade e submissão continuaram presentes em várias dessas representações.

Com isso, "Tom" tornou-se também uma categoria recorrente na análise de estereótipos de homens negros no cinema e na cultura popular norte-americana.

Uso como termo pejorativo

O nome Uncle Tom, e por vezes simplesmente Tom, passou a ser empregado como insulto contra pessoas negras consideradas demasiadamente obedientes, submissas ou preocupadas em obter a aprovação de pessoas brancas.

O estereótipo associa essa subserviência a uma suposta disposição de aceitar estruturas raciais desfavoráveis ou de colocar interesses pessoais e a aprovação de grupos dominantes acima da solidariedade com outras pessoas negras.

O termo possui, portanto, uma dimensão relacionada à ideia de lealdade racial. Brando Simeo Starkey, em estudo sobre sua história política, analisa o uso de "Uncle Tom" como forma de censurar pessoas negras percebidas como traidoras dos interesses coletivos da comunidade negra.

Essa função torna seu uso controverso. A acusação pode ser dirigida não apenas a comportamentos de subserviência, mas também a pessoas negras que adotam posições políticas ou sociais divergentes das predominantes em determinados setores da comunidade. Starkey observa, por exemplo, a utilização recorrente do termo contra negros de orientação conservadora.

Por seu caráter depreciativo e por envolver julgamentos sobre autenticidade e lealdade racial, "Uncle Tom" é considerado um insulto racial.

Recepção e reavaliação

O significado cultural de Tio Tom sofreu mudanças substanciais desde a publicação do romance. Enquanto Stowe o concebeu como protagonista de uma denúncia cristã da escravidão, sua imagem tornou-se progressivamente associada à passividade e à submissão.

A própria caracterização feita por Stowe, contudo, também recebeu críticas. Em seu ensaio "Everybody's Protest Novel", publicado em 1949, o escritor James Baldwin criticou Uncle Tom's Cabin e sua utilização do sofrimento e do martírio cristão como forma de representação da experiência negra.

Estudos posteriores passaram a distinguir mais claramente o personagem literário das caricaturas surgidas nas adaptações. O Jim Crow Museum, por exemplo, observa que o Tom reconstruído pela cultura popular é muito mais passivo, dependente e servil que o personagem de Stowe, que resiste a Legree e prefere morrer a colaborar na captura de outras pessoas escravizadas.

O cientista político Jack Turner, ao analisar o estudo de Starkey sobre o termo, também destaca a diferença entre a imagem popular de um velho escravizado feliz e obediente e o personagem do romance, cuja trajetória é consideravelmente mais complexa.

Assim, o uso contemporâneo de "Uncle Tom" como sinónimo de submissão deriva menos de uma correspondência exata com o protagonista de Stowe do que da longa história de adaptações, caricaturas raciais e disputas políticas associadas ao personagem.

Ver também

Referências

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  6. 1 2 3 4 Starkey, Brando Simeo (2015). In Defense of Uncle Tom: Why Blacks Must Police Racial Loyalty (em inglês). Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 9781107668348
  7. ↑ Turner, Jack (2016). «In Defense of Uncle Tom: Why Blacks Must Police Racial Loyalty, by Brando Simeo Starkey». Perspectives on Politics (em inglês). 14 (2): 559–561. doi:10.1017/S1537592716000670

Ligações externas