Unra

Peregrinos circulando ("Tawaf") a Caaba, em Meca (Arábia Saudita) durante o Umra de 2007

A unra (em árabe: عمرة; romaniz.: ʿumra), também chamada pequena peregrinação (al-ḥajj al-aṣghar), é uma peregrinação islâmica a Meca centrada na Caaba e nos lugares sagrados adjacentes. Seus principais ritos compreendem a entrada em irame, a deambulação em torno da Caaba, o percurso ritual entre Safá e Marua e a raspagem ou redução dos cabelos. Ao contrário do haje, que deve ser realizado numa época determinada do calendário islâmico e inclui cerimônias em Arafate, Musdalifa e Mina, a unra pode, em princípio, ser realizada ao longo do ano e possui um conjunto mais limitado de ritos.

A unra tem antecedentes na Arábia pré-islâmica, onde constituía uma peregrinação distinta do haje e estava particularmente associada ao mês de Rajabe. Com o surgimento do Islã, Maomé preservou seus principais elementos, integrando-os ao novo sistema religioso e aproximando progressivamente a unra do haje. A tradição islâmica atribui a Maomé quatro unras, entre elas a Unra da Compensação, realizada em 7 A.H. (629) em cumprimento ao Tratado de Hudaibia, e a que realizou conjuntamente com a Peregrinação de Despedida em 10 A.H. (632).

A unra pode ser realizada como peregrinação independente ou combinada com o haje, particularmente nas modalidades conhecidas como tamatu e quirane. As escolas jurídicas islâmicas divergem quanto ao seu estatuto: enquanto a maioria dos hanafitas e os maliquitas a consideram uma suna confirmada a ser realizada uma vez na vida, a posição predominante entre xafeítas e hambalitas considera sua realização obrigatória para aqueles que satisfazem as condições necessárias. Apesar de sua estreita associação ritual e jurídica com o haje, a unra conservou sua condição de peregrinação independente.

Terminologia e características

O termo unra (em árabe: عمرة) possui os sentidos lexicais de “visita”, “visita à Caaba” e “cultivo” ou “povoamento”, enquanto na terminologia jurídica islâmica designa a peregrinação realizada mediante a entrada em irame, a deambulação em torno da Caaba e o percurso ritual entre Safá e Marua. O ato de realizar a unra é denominado iʿtimār, e aquele que a realiza, muʿtamir. Paret e Chaumont observam que os estudiosos muçulmanos propuseram diferentes explicações para o significado original da palavra. Uma delas relaciona o termo à raiz associada a “habitar” ou “cultivar”, entendendo a peregrinação como uma forma de “vivificar” ou “frequentar” o lugar visitado, enquanto outra interpretação, considerada pelos autores linguisticamente mais plausível, associa-o diretamente ao sentido de “visita”.

A unra compartilha com o haje diversos lugares, ritos e normas, mas possui extensão menor. Enquanto o haje deve ser realizado em períodos determinados do calendário islâmico e compreende, além de atos presentes na unra, a permanência ritual em Arafate e Musdalifa, a estadia em Mina e o apedrejamento dos pilares, a unra concentra-se essencialmente nos ritos realizados em Meca. Por essa razão, o haje é por vezes denominado “grande peregrinação” (al-ḥajj al-akbar) e a unra, “pequena peregrinação” (al-ḥajj al-aṣghar). No Alcorão, a palavra ʿumra ocorre duas vezes no versículo 196 da sura Albacara, enquanto o verbo correspondente aparece no versículo 158 da mesma sura. Desde os primeiros séculos islâmicos, tradições e normas relativas à unra foram tratadas em capítulos próprios das coleções de hádice e das obras de jurisprudência ou incorporadas às seções dedicadas ao haje.

História

Período pré-islâmico

A unra antecede o Islã e fazia parte das práticas religiosas da Arábia pré-islâmica. Segundo Paret e Chaumont, os ritos islâmicos que constituem a unra foram, em sua maior parte, herdados desse período, embora Maomé os tenha integrado à nova religião e lhes atribuído um significado islâmico. Os autores ressaltam que a reconstrução da forma exata da cerimônia pré-islâmica é difícil, pois as fontes disponíveis descrevem sobretudo a prática já islamizada e nem sempre permitem distinguir com segurança os elementos anteriores ao Islã daqueles desenvolvidos posteriormente. Paret e Chaumont consideram provável que a unra pré-islâmica consistisse em ritos realizados em estado de irame dentro de Meca, incluindo a deambulação em torno da Caaba. O percurso entre Safá e Marua também parece ter feito parte da cerimônia, embora sua relação primitiva com a unra seja menos segura. Os autores observam que essa associação distinguia a unra do haje, cuja ligação principal era com Arafate e Musdalifa, e sugerem que as duas peregrinações constituíam originalmente instituições distintas, ainda que a natureza precisa de sua diferenciação seja difícil de determinar. A unra pré-islâmica era particularmente associada ao mês de Rajabe, no qual aparentemente era celebrada todos os anos. A época possivelmente coincidia com a primavera, circunstância que levou à sugestão de que o sacrifício de animais então realizado pudesse ter relação com uma festividade sazonal; Paret e Chaumont, contudo, consideram que o significado original da cerimônia já estava em grande parte esquecido quando surgiram as fontes islâmicas. Em contrapartida, a realização da unra durante os meses do haje era considerada uma prática particularmente censurável durante a Jailia, concepção posteriormente abolida pelo Islã.

Período islâmico

Maomé preservou os principais elementos da unra, mas os incorporou ao sistema ritual islâmico. Paret e Chaumont destacam que a continuidade entre as cerimônias pré-islâmica e islâmica não significa que a prática tenha permanecido inalterada: os ritos foram reinterpretados no contexto do monoteísmo islâmico e progressivamente relacionados ao haje. Segundo os autores, essa aproximação já pode ser observada nos últimos anos da vida de Maomé. Em 10 A.H. (632), durante a Peregrinação de Despedida, alguns ritos originalmente associados à unra foram realizados conjuntamente com os do haje, contribuindo para a posterior integração ritual entre ambas as peregrinações. A tradição islâmica atribui a Maomé quatro unras. Em Dulcada de 6 A.H. (628), ele partiu de Medina com a intenção de realizá-la, mas foi impedido de entrar em Meca pelos coraixitas, episódio que resultou no Tratado de Hudaibia. No ano seguinte realizou a Unra da Compensação, conforme estipulado pelo acordo. Uma terceira ocorreu em Dulcada de 8 A.H. (630), depois da Batalha de Hunaine, e a última foi realizada conjuntamente com a Peregrinação de Despedida. Essas práticas também contribuíram para eliminar a concepção pré-islâmica de que a realização da unra durante os meses do haje era imprópria. Embora tenha sido parcialmente incorporada ao haje, a unra conservou seu caráter de peregrinação independente. Paret e Chaumont observam que, no período islâmico, ela adquiriu progressivamente uma relação mais estreita com o haje, a ponto de alguns de seus ritos serem absorvidos pelos correspondentes da grande peregrinação quando ambas são realizadas conjuntamente. Ao mesmo tempo, permaneceu possível realizar uma unra separadamente, sem que fosse seguida pelo haje.

Relação com o haje e modalidades

A unra pode ser realizada de forma independente ou em combinação com o haje. Quando efetuada isoladamente, o peregrino entra em irame exclusivamente com a intenção de realizar a unra. Isso pode ocorrer fora dos meses do haje, depois da conclusão deste ou mesmo durante seus meses quando a unra não é seguida pelo haje. Quando ambas as peregrinações são combinadas, as principais modalidades são o tamatu e o quirane. No tamatu, o peregrino entra inicialmente em irame para a unra, realiza seus ritos e abandona o estado de consagração; posteriormente assume um novo irame para realizar o haje. No quirane, por sua vez, unra e haje são realizados dentro de um único estado de irame, sem que o peregrino abandone a consagração entre as duas peregrinações. Segundo a maioria dos juristas, nesse último caso os ritos das duas peregrinações se sobrepõem, sendo suficientes uma única deambulação e um único percurso entre Safá e Marua. Os hanafitas, contudo, exigem uma deambulação e um percurso separados para cada peregrinação. Paret e Chaumont assinalam que essa associação resultou de um processo histórico. Segundo sua reconstrução, Maomé inicialmente teria procurado manter alguma separação entre haje e unra, mas posteriormente aprovou sua combinação. Na terminologia jurídica posterior, a modalidade em que unra e haje são realizados sob um único irame tornou-se conhecida como quirane, enquanto a realização sucessiva com abandono do irame entre ambas recebeu o nome de tamatu. Apesar dessa aproximação, a unra jamais perdeu completamente sua independência como peregrinação distinta.

Época de realização

Diferentemente do haje, a unra não está em princípio vinculada a um período anual determinado. A maioria dos juristas admite sua realização em qualquer época do ano por quem não esteja ocupado com os ritos do haje. Os hanafitas, contudo, consideram reprovável realizá-la no Dia de Arafate e durante os quatro dias da Festa do Sacrifício, em razão da prioridade dos ritos do haje nesse período. Uma pessoa que já se encontre em irame para o haje não pode assumir simultaneamente um novo irame destinado à unra. A realização da unra durante o Ramadã é considerada particularmente meritória na tradição islâmica, com base em hádices que equiparam sua recompensa nesse mês à do haje. Rajabe, por sua vez, conservou uma associação histórica com a peregrinação devido à prática pré-islâmica. Paret e Chaumont observam que, durante muito tempo, os habitantes de Meca realizaram nesse mês uma peregrinação aos lugares santos da cidade e que, quando a unra passou a ser realizada conjuntamente com o haje, Rajabe perdeu progressivamente sua antiga importância como época própria da cerimônia. Embora existam tradições que atribuam a Maomé uma unra em Rajabe ou recomendem especificamente a peregrinação nesse mês, Boynukalın assinala que tais relatos foram considerados errôneos, fracos ou fabricados; alguns estudiosos, entretanto, continuaram a considerar meritória a prática de atos religiosos nesse mês por sua condição de mês sagrado.

Ritos

Irame

A unra começa pela entrada em irame. Quem se dirige a Meca vindo de fora dos limites dos micates deve assumir o estado de consagração num dos locais determinados ou ao passar por sua linha correspondente. Os residentes da região situada entre os micates e o harame entram em irame segundo regras próprias das diferentes escolas jurídicas, enquanto quem se encontra em Meca ou dentro do harame deve sair para a área exterior inviolável, o hil, e assumir ali o irame antes de regressar para realizar a unra. Paret e Chaumont igualmente salientam que, diferentemente do haje, no qual o peregrino vindo de fora assume o irame no micate, o habitante de Meca que pretende realizar uma unra independente deve sair do harame e assumir a consagração fora de seus limites; entre os locais tradicionalmente empregados para esse fim encontram-se Aljirana, Hudaibia e, sobretudo, Atanim. Antes da entrada em irame recomenda-se a purificação corporal, a aplicação de perfume antes da consagração e a realização de duas unidades de oração. O peregrino formula então a intenção de realizar a unra e começa a recitar a talbia. A partir desse momento passam a vigorar as proibições do irame. Entre elas estão, com diferenças de aplicação entre homens e mulheres, o uso de determinadas roupas e coberturas, a aplicação de perfume, o corte de cabelos e unhas, a caça e as relações sexuais.

Deambulação

Ao chegar a Meca, o peregrino dirige-se à Mesquita Sagrada e inicia a deambulação em torno da Caaba junto à Pedra Negra. A deambulação compreende sete voltas ao edifício, realizadas no sentido anti-horário, mantendo-se a Caaba à esquerda. A Pedra Negra marca o início e o fim de cada volta e é saudada pelo peregrino, que pode beijá-la quando possível ou fazer um gesto em sua direção. Entre os homens, constitui prática tradicional caminhar mais rapidamente nas três primeiras voltas e em ritmo normal nas quatro restantes, além de manter o ombro direito descoberto durante a deambulação. Ao concluir as sete voltas, o peregrino realiza duas unidades de oração, tradicionalmente junto à Estação de Abraão, e pode beber da água do Zenzem.

Safá e Marua

Depois da deambulação, realiza-se o sai, percurso ritual entre Safá e Marua. O peregrino inicia em Safá, volta-se em direção à Caaba para realizar orações e invocações e segue até Marua; daí retorna a Safá, continuando os trajetos alternados até completar sete percursos, terminando em Marua. Em uma faixa determinada do caminho, os homens aceleram o passo. Concluído o percurso, o peregrino raspa ou encurta os cabelos e abandona o estado de irame, encerrando a unra. Quando a unra é realizada independentemente do haje, esse ato põe fim às restrições decorrentes da consagração. Quando ambas são combinadas segundo o quirane, o peregrino permanece em irame até a conclusão dos ritos correspondentes do haje.

Estatuto jurídico

As escolas jurídicas islâmicas divergem quanto ao caráter obrigatório da unra. Para a maioria dos hanafitas e para os maliquitas, realizá-la uma vez na vida constitui uma suna confirmada. Alguns hanafitas a classificam como obrigatória, enquanto a posição predominante entre xafeítas e hambalitas considera obrigatória a realização de uma unra ao menos uma vez na vida para quem satisfaz as condições necessárias. Paret e Chaumont igualmente observam que os juristas não chegaram a uma posição uniforme: enquanto alguns entenderam a injunção corânica de completar o haje e a unra como fundamento de uma obrigação, outros a interpretaram como referente à necessidade de concluir corretamente uma peregrinação já iniciada, sem que isso tornasse obrigatória a realização da unra em si. As condições pessoais exigidas para que a unra seja obrigatória ou recomendada correspondem, em linhas gerais, às estabelecidas para o haje, excetuada a exigência de uma época específica. Incluem capacidade mental, condição de muçulmano, maioridade, liberdade, recursos materiais, saúde e segurança do caminho, com diferenças entre as escolas quanto a determinadas condições adicionais. As escolas também divergem quanto à repetição da peregrinação: a maioria dos maliquitas considera reprovável realizar mais de uma unra no mesmo ano, embora a segunda permaneça válida, enquanto hanafitas, xafeítas e hambalitas em geral admitem e recomendam sua repetição.

Há igualmente diferenças na classificação jurídica dos componentes da cerimônia. Para os hanafitas, a deambulação constitui o elemento essencial da unra e o irame uma condição para sua validade; para maliquitas, xafeítas e hambalitas, irame, deambulação e percurso entre Safá e Marua constituem elementos essenciais. Os xafeítas acrescentam a raspagem ou redução dos cabelos e a observância da ordem dos atos, enquanto os hanafitas e uma corrente hambalita classificam o percurso entre Safá e Marua como obrigatório, mas não como elemento constitutivo essencial. A violação das proibições do irame pode acarretar compensações distintas conforme o ato e a escola jurídica. Relações sexuais antes da conclusão dos elementos essenciais podem invalidar a unra, caso em que o peregrino deve concluir a cerimônia, realizá-la novamente e oferecer a compensação prescrita. A omissão deliberada de um elemento essencial não permite simplesmente abandonar o irame: o peregrino permanece submetido às suas restrições até completar o rito omitido. Quando um impedimento incontornável impossibilita a conclusão da peregrinação, aplicam-se as normas relativas ao issar, que regulam a saída do estado de irame em situação de impedimento. A omissão de um ato classificado como obrigatório, mas não essencial, não invalida a unra, embora possa exigir um sacrifício compensatório. A realização da unra em nome de outra pessoa também é admitida, embora com diferenças entre as escolas. Os hanafitas a consideram lícita; entre os maliquitas é válida, porém reprovável. Xafeítas e hambalitas permitem que seja realizada em nome de uma pessoa falecida ou fisicamente incapaz e admitem, em determinadas circunstâncias, que os custos sejam retirados do patrimônio daquele que morreu sem cumprir uma unra que lhe era obrigatória.

Referências

  1. 1 2 3 4 Boynukalın 2012, p. 150.
  2. 1 2 3 4 Paret & Chaumont 2000, p. 864.
  3. 1 2 3 Paret & Chaumont 2000, p. 865.
  4. 1 2 3 Paret & Chaumont 2000, p. 866.
  5. 1 2 3 4 Boynukalın 2012, p. 151.
  6. 1 2 3 4 Boynukalın 2012, pp. 151–152.
  7. ↑ Paret & Chaumont 2000, pp. 865–866.
  8. 1 2 3 4 Boynukalın 2012, p. 152.
  9. ↑ Boynukalın 2012, p. 153.

Bibliografia