Veios Veii | |
|---|---|
| Ruínas do templo de Veios | |
| Localização atual | |
| Coordenadas | 42° 01′ 24″ N, 12° 23′ 23″ L |
| País | Itália |
| Província | Lácio |
| Dados históricos | |
| Civilização | Etruscos |
| Notas | |
| Site | https://www.beniculturali.it/luogo/area-archeologica-di-veio-santuario-etrusco-dell-apollo |
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Veios (em etrusco: Vei; em latim: Veii) foi uma importante cidade etrusca da Antiguidade, localizada na atual Isola Farnese, a 16 quilômetros a noroeste de Roma, na Itália. Situada na extremidade meridional da Etrúria, era a cidade mais austral da Liga Etrusca e foi considerada a mais rica das doze cidades da liga. A cidade controlava as salinas na foz do Tibre e as principais rotas comerciais entre a Etrúria e o Lácio, acumulando riqueza expressiva e exercendo hegemonia cultural sobre a região durante os séculos VII e VI a.C.
Veios foi rival de Roma por mais de três séculos. As Guerras romano-veias culminaram na conquista da cidade pelo ditador Marco Fúrio Camilo em 396 a.C., após um cerco de dez anos narrado por Tito Lívio e Plutarco como o equivalente latino da Guerra de Troia. Sua queda dobrou o território romano e marcou o início da expansão de Roma sobre toda a Etrúria. A cidade foi ainda o maior centro de produção de escultura em terracota da Etrúria, sendo celebrada na Antiguidade pelo escultor Vulca, o único artista etrusco cujo nome chegou ao registro escrito.
Veios assentava-se sobre um planalto de tufa vulcânica de cerca de 190 hectares, circundado por penhascos abruptos e dois córregos — o Cremera e a Fossa della Mola — cujos leitos funcionavam como fosso natural. Essa posição elevada e defensável era característica das cidades etruscas; a cidadela (arx) situava-se num promontório rochoso no ponto de confluência dos dois cursos d'água, cujo local é hoje marcado pela área arqueológica denominada Piazza d'Armi.
A proximidade com o Tibre era determinante tanto para a prosperidade quanto para a conflitualidade de Veios. A cidade controlava as salinas na foz do rio — recurso estratégico mencionado por Dionísio de Halicarnasso como fonte de riqueza essencial — e o acesso às rotas comerciais que mais tarde se tornariam a Via Flamínia. Essa mesma vantagem colocava Veios em permanente tensão com Roma, situada apenas 16 quilômetros ao sudeste, na margem oposta do Tibre.
As evidências mais antigas de ocupação humana em Veios remontam ao século X a.C., no final da Idade do Bronze, sob a forma de pequenos assentamentos dispersos pelo plateau, cada um com seu próprio cemitério. Esse padrão corresponde à Cultura Vilanoviana (c. 1000–750 a.C.), precursora direta da civilização etrusca, cujos vestígios arqueológicos mostram que as práticas funerárias combinavam inumação e cremação em proporções semelhantes — cerca de 50% cada, no século IX a.C.
A partir do século VIII a.C., o contato comercial com os gregos introduziu em Veios o torno oleiro e a escrita, acelerando o desenvolvimento urbano. Os assentamentos dispersos foram se fundindo num processo de conurbação e, por volta do século VII a.C., Veios já exibia traçado urbano com quarteirões dispostos em grade ao redor de uma praça central com cisterna — assumindo a forma clássica que manteria até a conquista romana. O fornecimento de água era regulado por uma rede de canais e túneis subterrâneos denominados cuniculi, dos quais foram identificados mais de 22 quilômetros em Veios e seus arredores.
No auge de seu poder, Veios era comparável a Atenas em extensão e constituía o maior centro urbano da Itália não-grega ao sul do Tibre. Dois templos se destacavam: o de Vei/Ceres e o de Juno Regina, divindade protetora da cidade. Uma larga avenida central dominava um plano urbano regular de ruas secundárias. A cidade mantinha relações comerciais com gregos e fenícios, evidenciadas por milhares de fragmentos de cerâmica grega encontrados no sítio, os mais antigos provenientes do cemitério de Fontalini e datados do século VIII a.C., época do primeiro contato com os eubeus.
As oficinas locais eram renomadas por suas esculturas em terracota, bronze (arreios de cavalos, braseiros, armas, espelhos e leques retangulares) e cerâmica bucchero, de superfície negra brilhante, amplamente exportada pelo Mediterrâneo. O nome de um único artista etrusco chegou ao registro escrito: Vulca de Veios, convocado a Roma pelo rei Tarquínio Soberbo para executar as estátuas de terracota do Templo de Júpiter Máximo no Capitólio, incluindo a célebre quadriga de Júpiter. Segundo Plínio, o Velho, Vulca era o maior escultor de sua época.
As Guerras romano-veias foram motivadas essencialmente pelo controle das rotas comerciais e das salinas do Tibre, e as fontes antigas registram não menos de quatorze guerras entre as duas cidades. Durante o período monárquico romano, os conflitos alternavam com períodos de trégua. Com a fundação da República Romana em 509 a.C., a rivalidade se intensificou. Veios apoiou militarmente Tarquínio Soberbo em sua tentativa de retomar o trono, e seus exércitos combateram os romanos na Batalha de Silva Arsia — mas recuaram, segundo Tito Lívio, por já estarem acostumados à derrota diante de Roma.
O episódio mais dramático do período foi a Batalha do Crêmera (477 a.C.), em que guerreiros de Veios destruíram um destacamento avançado romano formado principalmente por membros da família dos Fábios, que haviam se estabelecido numa posição próxima à cidade. Toda a família — cerca de trezentos homens — foi aniquilada, com exceção de um único sobrevivente.
O rei mais famoso de Veios foi Lars Tolúmnio, que em 438 a.C. ordenou o assassinato de quatro embaixadores romanos, desencadeando nova guerra. Era digno de nota que Veios ainda fosse governada por um rei quando a maioria das outras cidades etruscas já havia adotado governo aristocrático — circunstância que levou os membros mais poderosos da Liga Etrusca a recusarem auxílio militar à cidade sitiada, isolando-a diplomaticamente diante de Roma. Tolúmnio foi morto em combate singular pelo tribuno militar Aulo Cornélio Cosso em 437 a.C., em episódio que rendeu a Cosso a honra dos Spolia opima.
Em 406 a.C., Roma declarou guerra definitiva e iniciou o cerco de Veios. O confronto durou dez anos — fato que Tito Lívio, escrevendo sete séculos depois, reconhecia ser comparável ao lendário cerco de Troia, mas considerava historicamente plausível dadas as forças relativas dos dois adversários: o território de Veios era de cerca de 562 km², enquanto Roma controlava aproximadamente 800 km², tornando a guerra muito mais equilibrada do que os conflitos anteriores. Roma teve de inovar militarmente: pela primeira vez, soldados passaram o inverno em campo sem retornar para casa, e cavaleiros ricos se ofereceram para combater por conta própria.
Em 396 a.C., o Senado romano nomeou Marco Fúrio Camilo ditador para conduzir o ataque final. Na narrativa de Tito Lívio — que o próprio autor admite ser mais adequada ao teatro do que à história — soldados romanos penetraram por um túnel subterrâneo escavado sob as muralhas, emergindo dentro do Templo de Juno e abrindo as portas da cidade ao exército sitiante. A existência desses túneis é confirmada arqueologicamente pela tufa macia do plateau, material facilmente escavável, e integra-se à vasta rede de cuniculi que permeava o subsolo da cidade.
Com a queda de Veios, uma parcela da população foi reduzida à escravidão e seu território distribuído entre cidadãos romanos. Quatro novas tribos foram criadas — Stellatina, Tromentina, Sabatina e Aniense — o que praticamente dobrou o território romano e estabeleceu a hegemonia de Roma sobre toda a Etrúria meridional. A estátua de Juno Regina, divindade protetora da cidade, foi transferida em procissão solene para Roma, onde Camilo lhe ergueu um templo no Aventino.
A cidade não foi completamente abandonada. Em 390 a.C., quando Roma foi devastada pelos gauleses na Batalha do Rio Ália, o exército romano sobrevivente recuou para Veios, que funcionou como base de resistência. Sob o imperador Augusto, em 2 a.C., Veios recebeu o estatuto de município com o título de Municipium Augustum Veiens. Termas e fórum foram construídos durante o período imperial e a cidade continuou como residência de cidadãos romanos e como centro religioso até pelo menos o século III d.C.
Um dos aspectos mais notáveis de Veios era sua sofisticada infraestrutura hídrica subterrânea, composta pelos cuniculi — túneis e canais escavados na tufa vulcânica para fins de drenagem, irrigação, coleta e abastecimento de água. Mais de 22 quilômetros desse sistema foram identificados em Veios e seus arredores imediatos, incluindo a região de Formello ao norte — cujo próprio nome deriva das obras de drenagem originalmente executadas pelos veios. Os romanos empregaram esses mesmos túneis como recurso militar durante o cerco de 406–396 a.C., conforme narrado por Tito Lívio.
Em 2025, uma equipe formada pelo Museu Nacional Etrusco de Villa Giulia, pela Universidade La Sapienza de Roma e pela Direção-Geral de Museus da Itália concluiu o primeiro mapeamento integral dos cuniculi sob o Santuário de Portonaccio. O levantamento utilizou o rover autônomo Magellano, equipado com sistema de suspensão derivado das sondas exploradoras da NASA, capaz de navegar nas passagens estreitas e instáveis do subsolo e transmitir dados em tempo real para a superfície. O mapeamento revelou uma rede que conecta o plateau de Campetti, a terraça do santuário e o vale de Cannetaccio, integrando galerias, canais, cisternas, poços e bacias rituais — entre elas uma piscina sagrada de 20 metros de diâmetro adjacente ao Templo de Apolo, possivelmente usada para rituais de purificação e posteriormente reutilizada no período romano. O resultado foi o primeiro modelo digital completo de um sistema subterrâneo etrusco de grande porte, revelando que o planejamento urbano de Veios operava simultaneamente acima e abaixo do solo.

O maior conjunto religioso de Veios era o Santuário de Portonaccio, situado fora dos limites da cidade, junto a uma importante rota comercial. Construído por volta de 510 a.C. e possivelmente dedicado a Menerva (equivalente etrusca de Minerva), o complexo incluía um templo principal sobre base de blocos de tufa, edifícios auxiliares, um altar e a piscina sagrada mencionada acima. O santuário é um dos mais antigos e venerados da Etrúria e destaca-se pela suntuosa decoração em terracota policroma — boa parte preservada no Museu Nacional Etrusco de Villa Giulia, em Roma.
O templo se destacava pelas estátuas em tamanho real no telhado, representando a disputa entre Apolo e Hércules pelo cervo dourado — grupo escultórico atribuído a Vulca e descoberto em 1916 nas escavações do arqueólogo Gilberto Giglioli. A peça central do grupo, o Apolo de Veios, é considerada uma das obras-primas da arte etrusca e hoje ocupa posição de honra no Museu Nacional Etrusco de Villa Giulia.
Veios foi reconhecida na Antiguidade como o principal polo de produção de escultura em terracota da Etrúria. Além das obras monumentais do Santuário de Portonaccio, as oficinas locais produziam antefixas decorativas, vasos figurativos, sarcófagos e urnas cinerárias. A cerâmica bucchero, de superfície negra brilhante, era especialidade exportada amplamente pelo Mediterrâneo. Representações da vida cotidiana etrusca — cenas agrícolas, trabalho de ferreiros, batalhas — eram motivos recorrentes na cerâmica funerária, frequentemente decorada com imagens relacionadas à vida do falecido e aos deuses que lhe eram caros.
Ao redor do plateau foram identificados numerosos túmulos tumulares e câmaras funerárias escavadas na tufa. O mais famoso é a Grotta Campana, descoberta em 1843, que contém os afrescos etruscos mais antigos conhecidos, datados de fins do século VII a.C. O Túmulo dos Patos (Tomba delle Anatre), datado de cerca de 680–660 a.C., é considerado o sepulcro pintado mais antigo de toda a Etrúria; suas paredes são decoradas com cinco patos pintados e a câmara foi concebida para imitar o interior de uma tenda, conforme a prática funerária mais antiga daquela cultura.
As práticas funerárias variaram ao longo dos séculos: em períodos de prosperidade, predominavam câmaras elaboradas com sarcófagos de terracota decorados; em tempos de crise econômica ou militar, a cremação com urnas em túmulos menores era mais frequente, embora os veios mantivessem em ambos os casos a tradição de depositar objetos junto ao morto para uso na vida após a morte.
Embora descrita com pormenores por Dionísio de Halicarnasso e Tito Lívio, a localização precisa de Veios permaneceu incerta por séculos. O interesse científico moderno pelo sítio renasceu em 1843, com a abertura da Grotta Campana. No início do século XX, o arqueólogo Gilberto Giglioli conduziu escavações sistemáticas no Santuário de Portonaccio, descobrindo em 1916 o conjunto escultórico do telhado, incluindo o Apolo de Veios. Entre as décadas de 1950 e 1970, o arqueólogo britânico John Bryan Ward-Perkins liderou extensas campanhas no sítio para a British School at Rome, documentando o sistema de cuniculi e a estrutura urbana da cidade com profundidade sem precedente.
Em 1997, a autoridade regional do Lácio criou o Parco di Veio para gerir e proteger a vasta área, que engloba não apenas o plateau principal mas também numerosos sítios satélites na região de Formello. Em 2024, a gestão do Santuário de Portonaccio foi transferida ao Museu Nacional Etrusco de Villa Giulia, que lançou um programa de pesquisa intensificada em colaboração com a Universidade La Sapienza. Além das escavações convencionais, o programa incluiu o mapeamento por rover dos cuniculi concluído em 2025, classificado pelo Diretor-Geral de Museus da Itália, Massimo Osanna, como capaz de expandir decisivamente o conhecimento sobre um dos sítios mais significativos da Etrúria.